A Netflix é pró-aborto

A Netflix, através de seu chefe de conteúdo, Ted Sarando, afirmou que poderá retirar os investimentos da gigante do entretenimento por streaming do estado da Geórgia caso a lei contra o aborto ― assinada recentemente pelo governador Brian Kemp ― siga o seu rumo e se efetive. Segundo a lei assinada pelo governador pró-vida no último dia 07, o aborto será a partir do momento que o feto tiver batimentos cardíacos.

Disse o representante da Netflix:

“Temos muitas mulheres trabalhando em produções na Geórgia, cujos direitos, juntamente com milhões de outros, serão duramente cerceados por esta lei”.

E completa:

“Se entrar em vigor, repensaremos o nosso investimento na Geórgia”.

Esta postura da empresa se trata de um aberto lobby pró-aborto; uma empresa privada que, através do mercado, tenta pressionar as vias públicas para que determinado pensamento ideológico ganhe a guerra cultural no estado da Georgia. Isto mesmo, uma empresa privada tenta influenciar o debate público e a administração pública através de um boicote, uma chantagem econômica. Que indivíduos donos de empresa deem seus pitacos políticos, temos aqui o careca da Havan para exemplificar a questão; mas quando uma empresa resolve usar o seu poder corporativo para tal… Isto é tão inédito que nem sei dizer ao certo qual o seu nível de legalidade; mas ainda que seja legal juridicamente, me pergunto até que ponto tal chantagem seja democrática e ética.

Afinal, um governo conservador reflete (normalmente) os anseios de um povo conservador, povo esse que o elegeu e o autoriza a passar leis que se coadunem com a vontade geral. A isso chamamos ― mormente ― de “processo democrático”; um alinhamento básico entre eleitores e representantes. A Netflix, todavia, se coloca entre a vontade popular que elegeu o governador com tais ensejos morais e políticos, e a administração pública de um estado da nação. Uma consternação filosófica e uma busca pelos meandros da legalidade dessa ação deve ser debate nos EUA nas próximas semanas. Aliás, para aqueles que denominam de “conspiração” o conluio de empresas (ou indivíduos) bilionários + imposições ideológicas em lobbys abertos pela causa do aborto, o que falta mais nessa equação para que ela deixe de ser estória e passe a ser realidade?

A pauta pró-aborto é uma das que mais recebem apoios financeiros ao redor do mundo, desde ONG’s até grupos como: “Católicas pelo direito de decidir”, recebem enxurradas de dinheiro para forçar a entrada da mentalidade e das leis abortistas nos países que se mostram resistente à ideia de legalizar o assassinato de bebês.

No Brasil, apesar de reiteradas negações populares à pauta, e das veementemente rechaçadas ideias de flexibilização do aborto pela sociedade civil, sempre há pressões ideológicas dos partidos de esquerda, de grupos organizados e de lobbys especializados e poderosos, tentando flexibilizar por toda as vias possíveis a entrada do aborto na legislação brasileira. Hoje, em terras tupiniquins, o principal aliado dessa causa é o STF ― a casa da raparigagem ideológica e dos legisladores de toga.

Todavia, tais pressões econômicas em questões de valores éticos e morais, nos EUA, não costumam surtir efeito real a curto prazo; e por isso mesmo não creio que o governador Brian Kemp irá recuar. Apesar do lobby político andar agarrado a empresas que financiam deputados e senadores para agilizarem os trâmites de interesse de tais colossos econômicos ― algo normal e legal naquele país ―, as questões de cunho moral acabam não sendo tão fortemente atingidos como as demais. As pressões midiáticas e religiosas, nesses casos em questão, acabam surtindo efeito mais imediato e duradouro.

Na terra do livre-mercado, na qual concorrentes aguardam que seus adversários de mercado deslizem em questões econômicas, ou comprem brigas tolas contra grupos fortes e acabem por sucumbir sozinhas, a Disney, Amazon e FOX estão sedentas pelos clientes da NETFLIX. É o que diz, por exemplo, a jornalista e produtora americana Elisha Krauss:

“Tudo bem, eu pagarei pelo App da Disney e cancelar a Netflix. Meus filhos não precisam da programação deles e eu posso ficar sem Ozark (série de suspense produzido pela Netflix)”. (Tradução livre).

 

 

Brian Wesbury, economista Kaynesiano e comentarista político americano, disse:

“Eu tenho pago a Netflix todo mês desde a era dos DVDs. Pelo menos 12 anos. Se eles saírem da Geórgia para fazer ativismo político, eu deixarei a Netflix”. (Tradução livre).

 

 

“Quem lacra não lucra”. Enquanto grupos pró-vida já começam a boicotar a empresa americana ― lembrando que o movimento pró-vida americano é extremamente eficiente, já barrou medidas extremas do Obama e agora encontra em Trump um aliado fiel ―, a turma da lacração chafurda na lama do lobby progressista e do ativismo empresarial como se a terra do capitalismo não cobrasse os espólios da militância acéfala.

A Netflix está indo para o gargalo da luta política-ideológica enquanto vende a placa de empresa de “entretenimento”; o assinante não quer relaxar vendo lacração e nem militância ideológica ― seja para qual espectro político for. Simples assim. A partir do momento em que um grupo passa a lutar contra os parâmetros éticos de milhões de famílias; quando os valores de nossos avós começam a ser escorraçados por uma empresa que deveria ser de entretenimento; nesse momento será a Netflix a preterida da equação. O que é mais fácil: um indivíduo com valores morais bem definidos abdicar de suas crenças, ou que assinantes da Netflix cancelem as suas assinaturas?

Além disso, brasileiros também já articulam boicotes gerais. Bom, se eu conheço um pouco sobre política e conservadorismo, sobre Brasil e os valores cristãos que o sustenta, aborto não é um tema agradável para se mexer quando o que se quer é lucrar com o número de assinantes. Não mexa com os valores do povo conservador, não brinque com os princípios de indivíduos que até sem querer traçam o sinal da cruz na testa todas as manhãs.
Aliás, querem saber de uma coisa, estou cancelando a minha assinatura agora mesmo. Amazon Prime, te quero…

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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