Não há motivos para ser o Eduardo

Não se trata de nenhuma loucura elementar indicar um político para uma embaixada ― apesar da tradição brasileira ser tendente às indicações técnicas de carreira. Nos Estados Unidos, por sua vez, isso é extremamente comum apesar de não ser regra; se não se trata diretamente da indicação de um político para o cargo, a motivação político-monetária com certeza engendra apoiadores e amigos políticos aos cargos de embaixadores pelos EUA. Para nós pode até soar como nepotismo ou troca de favores escusos; no entanto, para a tradição política americana, se trata apenas do jogo político e dos acordos normais desse meio.

O cargo de embaixador não deixa de ser uma posição de confiança ― é verdade ―, dado que o embaixador será a voz direta do executivo no exterior, demandando firmeza, conhecimento de causa e patriotismo público. Mas confiança não necessariamente significa capacidade, assim como alinhamento político não significa sucesso nas articulações; e aqui está o ponto de inflexão do tema.

O cargo de embaixador não é exatamente um cargo político, mas sim um cargo técnico, que demanda competência e destreza em várias áreas humanas; inclusive ― mas não unicamente ― a política. Para tal, deve existir no candidato inúmeras capacidades que justifiquem a sua indicação ao cargo, não raro sendo uma das ocupações que mais exigem tempo, tempero e magnitude de seus aspirantes. Conhecimentos de economia, política, geopolítica (principalmente do país estrangeiro e da localidade geográfica que ele engloba), história (do próprio país e do país onde será o porta-voz do executivo), sociologia, línguas e retórica (afinal, será o negociador oficial das coisas nacionais no estrangeiro).

Não se trata de um mero cargo ilustrativo ou de pose, se trata de um cargo sério e que, não raro, determina as diretrizes políticas, econômicas e militares internacionais de um país. Para o Brasil, a embaixada em Washington se trata da mais cara e mais promissora das embaixadas, onde a escolha do embaixador deve ser feita estritamente pela competência e preparo de seu ocupante. Ainda que o presidente americano tenha simpatia por um determinado candidato à vaga, que no caso específico se trata do filho do presidente brasileiro: Eduardo Bolsonaro, a escolha de um embaixador deve ser vista a longo prazo, assim como o seu trabalho. Não estamos falando de um cargo eletivo, mas de um cargo de mérito e serviço. Além do mais, deixar que a pura simpatia de um presidente estrangeiro tensione a escolha do nosso presidente, é se vender por muito pouco. A soberania nacional passa pelo crivo de nossa liberdade em determinar quem serão os embaixadores brasileiros em territórios estrangeiros.

A escolha deve seguir ― caso observemos os próprios princípios determinados por Bolsonaro em sua longa campanha eleitoral ― o crivo técnico, meritocrático e de alinhamento político do postulante. Sobrepor quaisquer dessas características ao composto necessário ao cargo, é o mesmo que arriscar a melhor jogada com uma peça incompleta ou não pertencente ao mesmo jogo.

Novamente frisamos: a nomeação de Eduardo Bolsonaro se mostra exclusivamente política, o que contraria o próprio discurso do presidente de elevar a cargos importantes somente aqueles que são os mais habilitados. E, desde Aristóteles, contradição é sinônimo basal de erro. Indiscutivelmente há pessoas melhores habilitadas para o cargo de embaixador; técnica e politicamente dizendo. Sem contar que se trata de ser o filho do presidente, o que dá aquele gostinho de nepotismo ― ainda que judicialmente possa não ser. Sua nomeação até pode ser juridicamente justificada e ter o endosso da constituição, mas não o é perante a moral política mais rasteira. A silhueta de nepotismo tende a ser, após investigada, verdadeiramente nepotismo.

Uma semana após o caso da possível nomeação de Eduardo Bolsonaro à embaixada em Washington, não se escutou ― até o momento ― um só argumento convincente contra todos os que são contrários; escuta-se somente o mugir dos fanáticos, aqueles que sequer concebem a possibilidade mínima de que Bolsonaro possa estar errado.

Não sou tolo, entendo que a simpatia de Trump com Eduardo pode ser o elo que falta entre os dois países para os acordos econômicos sonhados pelo Brasil; mas o Brasil deve compreender também que: 1- Trump pode não ser reeleito e, caso isso se concretize, um diplomata que tenha o tato de articulador será extremamente eficiente, tanto para manter os acordos já firmados, como para apagar possíveis incêndios ideológicos. O perfil de Eduardo Bolsonaro é o de incendiário, não o de bombeiro geopolítico. 2- Ainda que não seja nepotismo perante a justiça, a impressão irremediavelmente é essa; perante ao mundo todo a visão que existirá é que cultivamos uma política de clãs, e não uma política republicana livre. No mundo político não importa somente o que é, mas, nesse caso em específico, importa muito também o que parece ser.

Desta maneira, não se trata de nenhuma objeção real à pessoa de Eduardo, que apesar de julgarmos não ter as competências totais para o cargo de embaixador, é extremamente habilitado para outros, inclusive para aquele no qual foi posto com 1.843.735 votos, o de Deputado Federal. Dentro da armaria bolsonaristas, Eduardo desponta como um dos principais articuladores e respeitados deputados da base aliada; o montante dos votos que o elegeu o torna um dos mais respeitáveis e poderosos deputados de Brasília. Não encontramos motivações reais para fazê-lo embaixador nos EUA, mas há muitos para ser um deputado da base governista. Bolsonaro errará caso a indicação se mantenha.

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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