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O Aspecto Gnóstico da Ideologia de Gênero

“O que se esconde sob o termo “gênero” é exatamente o desejo de tornar tudo uma mera questão de escolha, de espalhar a liberdade por áreas da vida onde a liberdade é virtualmente impossível. O movimento feminista radical em nossas universidades constitui um esforço efetivo para extinguir a palavra “sexo”, já que sexo se refere a um dado biológico o qual – não se pode negar – interfere na liberdade e nas aspirações daqueles que desejam ignorá-lo”.  Roger Vernon Scruton

A cobertura da cerimônia de premiação do Oscar de 2018 foi marcada por uma polêmica, no mínimo, inusitada e suficientemente perturbadora para o revolucionário cultural brasileiro. O célebre jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho, de 73 anos, figura carimbada das transmissões outrora feitas pela vênus platinada, dessa vez havia sido contratado pela TNT Brasil para ilustrar aquela incomparável noite de gala com sua expertise.

Após sucessivos beijos, abraços, afagos de ego e discursos repetitivos e repletos de chavões, eis que se dirige solenemente ao palco a “mulher trans” chilena Daniela Vega Hernández, designada para acolher a premiação pelo filme Uma Mulher Fantástica, vencedor da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, do qual a celebridade transexual fora o ator principal. A cena, em si mesma insólita – mesmo para os padrões culturalmente liberais da Academia – mereceu do famoso comentarista a seguinte e inesperada apreciação: “Essa moça, na verdade, é um rapaz, um transexual; mas ela tem um dom artístico muito legal.”

Uma análise despretensiosa dessa breve observação feita por Ewald Filho imporia, pelo menos, três conclusões: Primeira, a de que o crítico meramente expôs um aspecto objetivo da realidade tal como ele a conhecia, ou seja, o fato (ignorado talvez pela maioria de seus telespectadores) de que aquele indivíduo de exterioridade, gestual, ares e nome femininos era, na verdade (e para o espanto de tantos!), um ser humano de constituição biológica masculina. Em segundo lugar, ao fazê-lo, o jornalista trata com afeição aquele indivíduo biologicamente masculino, chamando-o pelo substantivo feminino “moça” e pelo respectivo pronome pessoal feminino. Isso nos convida a pensar que Ewald Filho não ostenta qualquer objeção moral para com as tais “questões de gênero”. Por fim, suas palavras não só não destinam a mínima crítica ao transexual em questão, como, aliás, deixam indelével a sua admiração pelo talento do agora famoso ator chileno, fato que pode ser atestado em uma de suas notas posteriores nas redes sociais: “Estou muito feliz que uma transexual tenha protagonizado e estrelado um filme que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 90 anos de premiação isso nunca aconteceu.”

Ainda assim e apesar de toda as obviedades expressas pelo jornalista, suas colocações lhe custaram fulminantes ataques nas redes sociais, vociferados quase que imediatamente após os seus tais “comentários transfóbicos”. “Alô, Rubens Ewald Filho, a moça é uma moça mesmo. Que desserviço, hein?!” – registrou um espectador mais comedido. “Você não deveria fazer comentário sobre nada nessa vida; você é um asno!”; “Rubens Ewald Filho na verdade é um babaca!” – replicaram outros menos elegantes e cujos sentimentos parecem ter sido feridos em sua – digamos – sensibilidade de gênero. Por fim, a própria TNT Brasil tornou pública a sua posição sobre a celeuma: “Sim, Daniela Vega é uma mulher. E que mulher!”.

Como era de se esperar, a pressão insana da coligação militante LGBT-feminista fez com que a emissora a cabo decidisse descartar peremptoriamente os serviços do especialista para a próxima transmissão da solenidade hollywoodiana. Nada mais “tolerante” que a tolerância das minorias, diga-se de passagem…

Ademais, como não podia deixar de ser, a barragem de fogo incansável dos guardiães do politicamente correto fez com que o próprio Ewald Filho decidisse vir a público para se retratar do abominável equívoco de descrever a realidade como ela é de fato. Nas redes sociais, logo a seguir, o jornalista abjurou de suas observações, ressaltando: “O que aconteceu em relação à atriz Daniela Vega foi, no fundo, uma confusão minha de termos técnicos de expressão, mas nunca, em hipótese alguma, uma atitude sexista ou transfóbica”.

Interessante. Seguindo a lógica do agora amestrado comentarista, devemos supor que a realidade se limita àquilo que a nossa subjetividade determina. Se, porventura, ousamos expressá-la tal como ela é, em toda a sua crueza e concretude, considerando os seus elementos estruturais, corremos o risco de cometer uma imperdoável “confusão de termos técnicos de expressão”! Qual seria, pois, o termo técnico correto para se descrever um homem que se apresenta publicamente como uma mulher? Um travesti ou, se operado, um transexual? Ou seria mais correto e atual o termo “mulher trans”? Deve-se, nessa menção, utilizar sempre pronomes pessoais femininos e respeitar o “nome social” que o indivíduo elegeu para a satisfação de sua fantasia sexual? Ora, não foi exatamente isso que o comentarista fez? Se sim, onde está, então, a “confusão técnica” em sua expressão? Resposta: no simples e imperdoável reconhecimento da realidade objetiva.

Com efeito, até não muito tempo atrás, a obviedade dos comentários de Rubens Ewald Filho não teria, em geral, afetado tanto assim as susceptibilidades, pelo menos não até que a nossa realidade biológica tivesse se tornado alvo de uma ideologia radicalmente empenhada em suprimir a binariedade sexual humana em nome da almejada “confusão de gênero” — conforme proposta pela inominável Judith Butler. Insanidades acadêmicas, como essa da filósofa de Yale, encontraram terreno fértil num Ocidente hoje imerso em uma espécie de pandemia de negação da realidade. E, como geralmente ocorre nas afetações psíquicas, esse estado de perturbação patológica também produz os seus efeitos desagradáveis, como bem alertou a pensadora libertária russo-americana Ayn Rand: “Você pode fugir da realidade, mas não pode fugir das consequências de fugir da realidade”. Como restou patente na polêmica envolvendo o comentário de Ewald Filho, esses efeitos nocivos redundam em ataques histéricos e formidavelmente agressivos da parte daqueles que, por alguma razão (ou nenhuma), sentem-se ofendidos e confrontados com a simples menção de um elemento factual que porventura não corrobore o seu mundo de fantasia, mesmo que essa exposição seja feita por alguém que em absolutamente nada se oponha aos simulacros e desvarios impostos por ideias anticientíficas tais como a ideologia de gênero.

É justamente nessa atmosfera de histeria e revolta indignada contra a realidade que gnosticismo, feminismo, gayzismo e ideologia de gênero se encontram e se fundem num casamento poliamoroso perfeito.

O termo “gnosticismo” é muito familiar aos estudiosos da teologia, história e filosofia cristãs. Basicamente, trata-se de um movimento filosófico-teológico originário da antiga Pérsia, surgido pouco antes do advento do cristianismo e que, ao atingir o espaço cultural greco-romano (na segunda metade do primeiro século), acabou por absorver elementos tanto do judaísmo místico quanto do cristianismo primevo. A partir de então, os gnósticos – como ficaram conhecidos os seus adeptos – passaram a infiltrar danosamente algumas congregações cristãs, subvertendo-as por meio de sua heterodoxia e, em alguns casos, por certas práticas moralmente reprováveis (conforme descritas no Novo Testamento, por exemplo, em 2Pedro 2 e na Epístola de Judas).

Cabe ressaltar que os gnósticos jamais formaram um movimento coeso. Naquilo que tange à moral sexual eram, via de regra, bastante estritos. Em geral, organizavam-se em torno dos ensinamentos de figuras carismáticas como Simão Mago, Valentino, Saturnino, Basílides, Cerinto, Márciom, Carpócrates, entre outros. O fato de rejeitarem o dogma religioso cristão em favor de amplas especulações místicas e cosmológicas (exceção feita a Márciom) não impediu os gnósticos de erigir um edifício teológico e metafísico que reunia – ainda que com certa precariedade – alguns aspectos comuns aos seus mais variados grupos.

Não nos interessa aqui uma abordagem aprofundada sobre essa complexa heresia primitiva. Em função do escopo do artigo, basta-nos um aspecto particular da cosmovisão gnóstica: sua concepção de que a criação (o mundo material) era essencialmente má e que, por conseguinte, não podia ser produto da ação determinada de um Deus bondoso. Posto que a matéria é maligna e irremediavelmente corrompida, o corpo físico também o é e, como tal, deve ser transcendido. Portanto, o gnóstico expressava sua hostilidade para com o mundo físico e, em especial, para com seu próprio corpo – que ele considerava a “prisão da alma” (expressão, aliás, similar à usada por muitos adeptos da teoria de gênero) – por meio de uma busca obsessiva em ascender ao mundo perfeito, a dimensão espiritual a que alguns denominavam Pleroma. Note-se, portanto, que havia entre esses ascetas não uma mera tensão entre alma e corpo físico, mas um grave dualismo entre a realidade corpórea do ser humano e sua autopercepção ou aquilo que ele concebia ser o seu estado ideal de existência.

Em 2017, ao lançar a obra A Better Story, o psiquiatra e professor emérito da Universidade de Bristol, Glynn Harrison, ressaltou com precisão os três elementos fundamentais que alavancaram a propalada ideologia de gênero: Primeiramente, o feminismo radical, com sua obsessão autodestrutiva por livrar-se de tudo que é masculino; a seguir, a inqualificável Teoria Queer, com suas múltiplas e subjetivas categorias de gênero. Por último e o mais importante para a nossa presente análise: o elemento gnóstico, com sua franca oposição à realidade e a busca pela liberação do EU interior.

Efetivamente, ao propor o nexo entre transgenerismo e gnosticismo, Harrisson ecoa uma realidade que pode ser comprovada por qualquer investigação honesta da história do movimento gayzista. Comecemos pela obra daquele que é considerado o seu pioneiro.

Como iniciativa política, o movimento gayzista começa efetivamente na Alemanha dos anos 1860, pouco antes do período de Bismark. Seu protagonista foi Karl-Henrich Ulrichs, um diligente advogado oriundo da Baixa Saxônia. Ulrichs, que ainda jovenzinho fora vítima de abuso sexual por seu instrutor de hipismo, dizia identificar-se desde a infância com o universo feminino. Consciente de sua atração por indivíduos do mesmo sexo, Ulrichs – já graduado em teologia e direito e sob o pseudônimo de Numa Numantius – dedica-se a teorias as mais estúrdias que pudessem esclarecer a atração e o universo homossexual. Vale lembrar que o termo “homossexual” – substituto dos então comumente usados “sodomita” e “pederasta” – só surgiria em 1869, por iniciativa do poeta austro-húngaro Karl-Maria Kertbenny, sendo acolhido academicamente apenas em 1886, a partir da obra do sexologista alemão Richard von Krafft-Ebing.

A carreira jurídica de Ulrichs foi marcada, sobretudo, pela luta em prol da extinção do famigerado Parágrafo 175 do código penal imperial alemão (antigo Parágrafo 143 do código penal prussiano), que criminalizava a relação sodomítica. Não obstante tenha fracassado nesse desígnio, Ulrichs logrou lançar os fundamentos para a posterior criação, em 1897 (dois anos após sua morte), do Comitê Científico-Humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee), a primeira organização oficialmente dedicada à causa dos hoje chamados “direitos LGBT”.

No campo político, a mentalidade revolucionária de Ulrichs fica evidente quando, em meados de 1869, ele envia a Karl Marx um de seus textos estapafúrdios sobre a luta homossexual. Ulrichs intenta com isso, de algum modo, ligá-la à causa proletária na Alemanha, cujo movimento ainda repercutia a escandalosa prisão, sete anos antes, do aristocrata Johann Baptiste von Schweitzer, presidente do sindicato geral dos trabalhadores da Alemanha, acusado de pederastia.

Marx compartilha o texto com Friedrich Engels que, em carta resposta datada de 22 de junho de 1869, não poupa os comentários mais cáusticos aos ideais políticos de Ulrichs. Com o caso de Schweitzer em mente, Engels reconhece, estupefato, que os “pederastas” (termo genérico ainda vigente para se referir aos gays) estariam tentando constituir “um poder dentro do Estado” e que, não obstante lhes falecesse efetiva organização, alguma forma de articulação política parecia – segundo o comparsa de Marx – “já existir em segredo”. Engels reconhece que tanto os velhos como os novos partidos encontravam-se, àquela altura, infiltrados e que tal fato conduziria a causa de Ulrichs a uma vitória política “inevitável”, cenário para o qual Engels se considera afortunado por ser “velho demais para temer”, de sorte que estivesse obrigado a “prestar tributo aos vencedores”!

Curioso é que nessa missiva, Engels tenha se referido ao ideólogo gayzista como um “tipo muito esquisito de ‘Urning’”. A expressão, tão intrigante quanto inusitada, deriva de uma classificação de cunho gnóstico desenvolvida por Ulrichs para retratar aquilo que ele, calcado em noções mitológicas gregas (e ocultistas, segundo o Dr. Scott Lively), imaginava compor o universo homossexual. Na tentativa de emancipar e codificar a experiência homoerótica, Ulrichs cria uma identidade coletiva imaginária para os gays. Segundo ele, os homossexuais constituíam não apenas um sexo à parte, mas “uma classe especial de pessoas”. Nesse universo, que Ulrichs denominou “Urânia”, os homossexuais masculinos eram chamados de Urnings, e as lésbicas, Dailings. Com efeito, nessa percepção gnóstico-gayzista, o Urning era, conforme afirmava o militante, uma “mulher aprisionada em corpo masculino”, enquanto a lésbica “um homem cativo de um corpo feminino”. Assim, o subjetivismo quase delirante das teorias de Ulrichs confirma a cisão gnóstica entre corpo e mente, ou seja, a percepção disruptiva que o indivíduo tem de si mesmo, ainda hoje enfatizada entre muitos adeptos do movimento LGBT.

O herdeiro da militância de Ulrichs e fundador do supracitado Comitê Científico-Humanitário foi o médico e sexólogo judeu-alemão Magnus Hirschfeld, militante comunista homossexual que se notabilizou como o “Einstein do Sexo”, tanto por sua biografia cinematográfica assim intitulada, quanto por seu protagonismo na criação do mundialmente famoso Instituto para a Sexologia (Institut für Sexualwissenschaft), sediado na liberalíssima Berlim do período pós Primeira Guerra. Hirschfeld elaborou uma teoria segundo a qual o sistema sexual binário devia ser abolido em favor de um individualismo radical em questões de gênero. Cada homem e cada mulher constituía – segundo ele – uma mistura única de traços masculinos e femininos. Foi a partir dessa concepção imaginária da realidade que Hirschfeld procurou tratar seus pacientes no Instituto para a Sexologia, até que os nazistas o destruíssem, em 1933.

Em 1930, a militância pseudo-científica de Hirschfeld levou-o a realizar, nas dependências de seu centro clínico, aquela que é considerada a primeira cirurgia de “mudança de sexo” da história. A essa aventura – que se demonstrou fatídica – submeteu-se o depressivo artista plástico dinamarquês de 48 anos, Einar Wegener que, segundo ele mesmo conta, “descobriu-se uma mulher presa num corpo masculino” após experimentar um elegante traje mulheril, de sorte que pudesse servir de modelo para o trabalho artístico de sua esposa, fazendo a vez da manequim que se ausentara. A partir de então e por longos doze anos, Wegener impõe sobre si uma conturbada identidade feminina, passando a apresentar-se ao público como a irmã desconhecida de Einar. Adota, então, o nome de Lili Ilse Elvenes ou, mais comumente, Lili Elbe, em homenagem ao Elba, rio que perpassa a cidade em que ocorreu o seu suposto “renascimento como mulher”. De tal sorte Wegener desarraigou-se da realidade que – já divorciado e vivendo abertamente o travestismo – chega a declarar: “O maior desejo em minha vida de mulher é ter um filho”.

Sua perturbação psíquica e drástica ruptura com a realidade quase o levaram ao suicídio, evento que ele havia programado para o dia primeiro de maio de 1930. Se, por um lado, lhe faltou coragem para dar cabo da própria vida, por outro, sobrou-lhe a ousadia suficiente para render-se às promessas pseudo-científicas do médico militante berlinense. À frente do Instituto para a Sexologia, Magnus Hirchfeld submeteu o travesti ao então pioneiro processo de “transição sexual”, iniciado com a remoção dos testículos. Subsequentemente a essa mutilação, Wegener vê seu quadro psicológico agravar-se. Como se abrigasse em seu próprio corpo duas personalidades, Wegener – agora percebendo-se como Lili Elbe – passa a sentir-se culpado por “assassinar” Einar, seu alter ego masculino. Reage abandonando as artes plásticas, por estas supostamente representarem as reminiscências de um ser contra cuja existência ele tão desesperadamente lutava.

Contudo, Wegener, ao que parece, ainda não havia rompido o suficiente com a realidade. Segundo sua transloucada imaginação, a condição feminina que intensamente buscava consolidar na figura de Lili Elbe só se faria plena por meio da maternidade. Isso exigia um passo definitivo e extremamente perigoso. A fim de cumpri-lo e desprezando os altíssimos riscos envolvidos, em setembro de 1931, decide submeter-se ao procedimento de transplante de útero na clínica do famigerado ginecologista Kurt Warnekros, em Dresden. Desafortunadamente e como era de se supor, Wegener não viu sua fantasia de gênero tornar-se uma realidade biológica. Complicações cardíacas decorrentes da intervenção cirúrgica puseram fim à sua lamentável carreira. Como não podia deixar, Hollywood, a mais famosa, sofisticada e cara fábrica de fantasias do mundo, eternizou com todas as cores e ostentação de seu arco-íris midiático, a biografia do infausto artista na película de 2015, A Garota Dinamarquesa, premiada com a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante.

A vã tentativa de subverter a realidade sexual humana e sobrepujá-la por meio de algum delírio supostamente referendado pela intervenção científica não se encerrou com as peripécias gnósticas dos doutores e sexólogos acima citados. Aos nomes de Hirschfeld e Warnekos poderíamos agregar os de Wilhelm Reich, Alfred Kinsey, Wardell Pomeroy, entre tantos outros. Mas, em função da brevidade desse artigo, destacamos um em particular, o do controverso psicólogo John Money.

Trinta e cinco anos após a experiência fatídica de Einar Wegener, nasciam no Canadá os gêmeos Bruce e Brian Reimer. Com oito meses de vida, Bruce sofrera mutilação acidental do pênis em função de uma intervenção malsucedida de circuncisão. Aturdidos, os pais Janet e Ron Reimer buscaram, meses depois, ajuda nas terapias inovadoras do Dr. John Money, um psicólogo e sexologista neozelandês radicado nos EUA, especialista em terapia com pacientes intersexuais. Janet relembra como foi convencida a tomar a decisão que mudaria os rumos da vida de seu filho: “Estávamos assistindo a TV. O doutor Money estava lá, muito carismático. Parecia muito inteligente e muito confiante no que estava falando.”

Neutralidade de gênero e fluidez sexual eram teorias gnósticas que Money já defendia antes mesmo de feministas e gayzistas contaminarem com elas os departamentos de ciências humanas da academia norte-americana. Em 1965, Money funda a Gender Identity Clinic nas dependências da Universidade Johns Hopkins, onde conduzia suas experiências advogando a ideia de que gênero constituía um conceito distinto e independente do sexo biológico. O pesquisador neozelandês chamava a atenção da mídia americana não apenas por suas abordagens revolucionárias sobre gênero como tal, mas também por defender abertamente a “despatologização” de certas formas de pedofilia e de outras práticas medonhas como a coprofilia.

A solução proposta por Money para o caso de Bruce era, ao mesmo tempo, simples e radical: convertê-lo em uma menina por meio da educação, da ação terapêutica e da ressignificação sexual. Destarte, aos dezessete meses de idade, a pobre criança é transformada em “Brenda”, após ser submetida a uma cirurgia de extração dos testículos. O tratamento proposto por Money exigia ainda que os pais criassem Bruce – agora “Brenda” – como uma menina, além de exigir deles que, sob nenhuma hipótese, revelassem a verdade a qualquer um dos filhos. As instruções eram estritas, pois dessa cega obediência dependia o suposto sucesso do experimento. Há que se registrar, ademais, que a horrorosa terapia engendrada por Money submeteu “Brenda” e seu irmão Brian, ainda crianças, a jogos e simulações de intercurso sexual nas quais “Brenda” era posicionado como fêmea, de tal forma que Brian pudesse emular sobre ele uma situação de cópula. Afinal, para Money, no que tange ao universo de gênero, tudo era uma questão de “nurture” e não de “nature”, como se dizia no trocadilho que ele mesmo popularizara.

Contudo e apesar da fidelidade ao tratamento hormonal e as alterações cosméticas que se seguiram, “Brenda” parecia não se conformar à tal identidade feminina que se lhe tentavam secretamente impor. Mais tarde, Janet lamentaria os longos anos de sofrimento impostos ao filho e o vão esforço de negar a realidade: “Pensei que fosse apenas uma questão de criação, que eu poderia criar meu filho como se fosse uma mulher”.
Para Money, a cartada que firmaria a nova identidade do agora adolescente “Brenda”, seria uma cirurgia genital na qual uma cavidade que emulasse a vagina fosse esculpida no lugar de sua arruinada genitália masculina. Como “Brenda” resistisse, Money busca persuadi-lo sobre as maravilhas da intervenção por meio de uma malfadada entrevista com um transexual. “Brenda” não só rejeita contundentemente a proposta, como se recusa a submeter-se novamente às invencionices de Money.

O quadro depressivo de “Brenda”, que se agudizara na adolescência, desestabiliza toda a família Reimer. Por sugestão de um psicólogo que passara a acompanhar o caso, Janet e Ron decidem, enfim, romper com a fantasia e contar toda a verdade ao filho, mesmo sem poderem presumir quais seriam os desdobramentos desse “reencontro” com a verdade. Inconformado, “Brenda” – então com quatorze anos – decide resgatar sua real identidade, começando por rebatizar-se sob um novo nome: David. A seguir, dá início a um tratamento hormonal para que suas características masculinas sejam completamente restabelecidas. O processo de reversão dessa desditosa fantasia – pelo menos no plano físico – será culminado com o implante de uma prótese peniana.

Entretanto, todas as iniciativas de se suplantar essa terrível experiência de negação da realidade não foram suficientes para alijar a já exaurida alma de David de suas longas agruras. Sua frustração se agrava quando, mais tarde, descobre que o sexólogo tornara pública a experiência que tanto sofrimento lhe impôs. Pior ainda, fê-lo como se houvesse sido um êxito retumbante. Com efeito, o registro inverossímil de Money, ao tentar referendar sua teoria diante da comunidade acadêmica, afirma que a conduta feminina de “Brenda” se apresentava “tão normal quanto a de qualquer outra menina”, diferindo “claramente da forma masculina como se comporta seu irmão gêmeo [Brian].”

David jamais se recuperou da longa e torturante experiência de gênero a que foi submetido durante a primeira metade de sua vida. Seu arquiteto, contrariando a crassa realidade e ignorando os sofrimentos envolvidos, seguiu jactando-se do insofrível experimento que engendrou sob o manto da ciência. Em 2004, aos 38 anos, desempregado e não suportando mais a depressão que se agravara com o recente suicídio de seu irmão gêmeo (por overdose de antidepressivos), David colapsa diante do pedido de separação de sua esposa e encerra a própria vida com um tiro na cabeça.

O psicólogo uruguaio Andrés Irasuste resume bem a perplexidade que o malogrado experimento de Money causou naqueles que insistem em conservar-se atrelados à realidade: “Perguntamo-nos que distância existe, de fato, entre um John Money e um Josef Mengele.” Talvez uma resposta a essa oportuna questão seja: as vítimas da ideologia de Mengele já são, em grande parte, conhecidas; as da ideologia de Money, ainda estão por serem contadas.

Não por acaso, em 2002, quatro anos antes de sua morte, o Dr. John Money foi agraciado com a Medalha Magnus Hirschfeld, outorgada pela Sociedade Alemã de Pesquisa Social-Científica da Sexualidade. Infelizmente, a honraria sugere que, mesmo depois de ser amplamente desmascarada, a experiência de “mudança de sexo” continua gozando de grande prestígio entre variados setores da academia.

Ulrichs, Hirschfeld, Money e Wegener são alguns dentre tantos exemplos históricos da dolorosa e, por vezes fatídica, contradição gnóstica vivida por aqueles que, em nome da ciência, militam a causa fantasiosa da ideologia de gênero. Sob a égide de expressões como “estar preso no corpo errado”, “ser aquilo que se deseja ser” ou “libertar-se da tirania biológica”, esses militantes, cientistas ou indoutos, rompem com a realidade objetiva e investem não apenas contra o senso comum, mas contra as próprias certezas epistemológicas, impondo sobre si mesmos e os demais um estado psíquico cada vez mais assemelhado à esquizofrenia.

Gayle Salamon, professora da Universidade de Princeton, em seu livro Assuming a Body: Transgender and Rhetorics of Materiality (Assumindo um Corpo: Transgêneros e a Retórica da Materialidade) confirma essa lamentável realidade: “Busco desafiar a noção de que a materialidade do corpo seja algo a que temos imediato acesso ou algo sobre o que temos alguma certeza epistemológica. Afirmo que a insegurança epistemológica pode ser de grande proveito ético e político na vida daqueles indivíduos de gênero não normativo”.

Sim, incertezas epistemológicas que desaguam em negações da realidade do tipo “ninguém nasce homem ou mulher”, “não há diferença entre os sexos”, “a realidade anátomo-biológica entre homem e mulher é totalmente irrelevante”, “ser homem ou mulher é apenas uma questão de como o indivíduo se sente”, são alguns dos fundamentos do gnosticismo 2.0 que testemunhamos em nossos dias; são elementos de uma ideologia fatídica a que chamamos “gênero”.

Soli Deo Gloria.

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