Um conto gauchesco da quarentena

A pandemia gerou pequenos tiranos ou os pequenos tiranos geraram a pandemia? Ainda tenho dúvidas. Antes que me chamem de “negacionista” ou providenciem o meu “cancelamento”, deixarei de lado essa politização coletivista de um vírus. Afinal, é insano pensar que todas as áreas da vida devem ser invadidas pela política, mesmo que o esquerdismo nunca perca tempo nisso: politiza a família, a educação, a religiosidade, o sexo, a natureza e qualquer escolha ou preferência humana.

Se existem indivíduos constantemente insatisfeitos com a realidade que os circunda, eis um progressista. Como a marcha para o progresso é um fluxo eterno de incompletudes, afinal, nunca se atingirá a perfeição utópica imaginada, não são poucas as possibilidades de críticas esquerdistas ao mundo contemporâneo. E suas pautas mudam de acordo com as necessidades políticas e dançam conforme a música do momento. Entre sentimentalismos e emoções típicas de um histerismo mental incapaz de estabelecer qualquer tipo de conexão racional com a realidade, os esquerdistas não poupam nada, nem ninguém.

Um bom coletivista sabe que sem razões evidentes, resta o apelo para razões aparentes. Em recente artigo, intitulado “Where the coronavirus will lead us?”, Theodore Dalrymple afirma que “nunca se deve subestimar o poder da amnésia nos assuntos humanos”, ressaltando que a “memória (mesmo quando precisa) deve ser interpretada e, onde há interpretação, existe a possibilidade do erro e desacordo”. Ora, em um contexto pandêmico de flagrante insanidade nos assuntos humanos, em que interpretações estão submersas em ideologias que travestem suas agendas com roupagens “científicas” e que o desacordo é um estímulo desejável para a prevalência do caos e terror social, não é saudável subestimar o poder de progressistas que deliberadamente navegam por erros intelectivos.

Se tem algo que a quarentena forçada provocou nos indivíduos foi alguma mudança de comportamento. Em alguns casos, não se pode afastar o delírio causado pela reclusão obrigatória. Por exemplo, mesmo que tenha mantido meu hábito de escrita na madrugada, a ideia de ficar em casa trancafiado por um toque de recolher estimula a reflexão. Bagé é uma pequena cidade muito aprazível e silenciosa para a concentração noturna, mesmo na área central. Ainda mais no inverno do pampa gaúcho. No exato momento em que estas linhas são escritas, três pequenas sacolas de lixo clamam pela minha presença para um pequeno passeio ilegal. Elas sabem que os decretos municipais proíbem a circulação noturna e que uma multa pode recair sobre aquele que tenta exercer o seu direito natural de transitar livremente pelas ruas deste município. Já o contêiner do outro lado da rua que observo por uma ampla janela, implora por um “alimento” qualquer para que não passe a noite vazio. Expliquei exaustivamente para as sacolas que de acordo com os decretos municipais elaborados com base na “ciência” e em “razoáveis” protocolos de higiene, não poderemos atravessar a rua na madrugada porque o coronavírus fica mais “agressivo” à noite. As sacolas disseram que no supermercado havia muitas pessoas, mas mandei calarem a boca imediatamente, sob pena de rasgá-las. Elas ficaram agitadas e em alguns momentos fizeram sons típicos de sua condição “sacolística”. Aproveitaram o momento e acusaram-me de “sacolista”. Como ato de resistência, disseram que iniciarão o movimento “Bags Lives Matter” e que terão como lema “rasgue na mão do João quando ele estiver levando o seu pão” para que eu consiga perceber a importância social das sacolas e não impeça seu direito de livre circulação noturna.

Ignorei-as e elas passaram a gritar que essa história de máscaras e distanciamento social não passa de uma frescura. Uma delas chegou a fazer a “absurda” afirmação de que a mesma pessoa que assina os decretos municipais adora postar fotos em redes sociais fazendo aglomerações, distribuindo abraços e encostando a cabeça em outras pessoas, e que também já foi vista com a máscara abaixo da boca em eventos sociais. Mandei essa sacola dar um nó na boca e ficar quieta, afinal, se não posso sair de casa durante a madrugada porque o decreto municipal proíbe, não sairei. “Mas é só ver as fotos no Instagram do prefeito Divaldo Lara…”, disse outra sacola. Antes que completasse a frase envolvendo o nome do político, alvo de inúmeros processos judiciais, tapei meus ouvidos e repeti em alto e bom som que no Brasil as normas jurídicas não são para todos e a sociedade tem o hábito de achar isso normal. As sacolas ficaram chocadas com essa informação e permaneceram em silêncio, mas aglomeradas.

Voltei-me para a janela e observei fixamente aquele grande receptáculo verde que engole quilos e mais quilos de lixo urbano. Havia sofrimento em sua estrutura. Um desavisado catador de lixos se aproximou. Imediatamente verifiquei que ele estava descumprindo o decreto, o que demonstrava uma tremenda falta de “consciência social”, podendo ser abordado pelos valorosos fiscais do “ir e vir” e receber uma multa. Ele abriu a tampa do contêiner e nada encontrou em seu interior. No momento em que fechou a tampa, um gemido de dor ecoou daquela pobre caixa verde. Não fiquei com pena do catador de lixos, afinal, ele era mais um sujeito que estava descumprindo as “sempre” corretas normas municipais. Quase peguei meu telefone e entrei em contato com as autoridades locais para que conduzissem aquele abusado homem a uma delegacia de polícia…

Mas e aquele sofrido contêiner? Não resisti. Lambuzei-me de álcool em gel, botei meu escafandro e fui alimentá-lo. E não fui abordado. Novamente na proteção do lar, fui até a janela e ouvi uma sacola gritar de dentro do contêiner: “Não esquece de acessar o Instagram do prefeito Divaldo Lara…”.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

João L. Roschildt

João L. Roschildt

Professor do curso de Direito do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp). Além de articulista e ensaísta, é autor de “A grama era verde”. Site: www.joaoroschildt.com.br

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