Um MBL com medo da polarização é um MBL com vontade de ser centrão

Um MBL com medo da polarização é um MBL com vontade de ser centrão

Renan Santos deu uma entrevista extremamente emblemática à Folha de São Paulo, com autocríticas e revisionismos diversos ― quase se desculpando por ser MBL ―, parece que o coordenador nacional do grupo visa um MBL menos à direita,  achegando-se mais ao centrão. Analisaremos algumas ideias um tanto quanto “dinâmicas” e “ecumênicas” reveladas por Renan na dita entrevista; como a de não focar tanto no liberalismo econômico, mas sim no liberalismo político (ligado neutralmente à ideia de esquerda cultural). Somente isso já mostra de maneira acentuada que há de fato uma guinada do MBL para a esquerda do espectro político.

O grande mal político apontado na entrevista trata da polarização política e do enfrentamento retórico entre direita e esquerda; ora, e desde quando a polarização política se tornou um mal para uma sociedade que se pretende democrática? Os mesmos que dizem amar a democracia e a dialética, reclamam da polarização política? Um claro disparate. A dialética socrática e o próprio conhecimento grego como um todo surgiram de embates e divergências, por vezes, nada amistosas. Sócrates morreu por amar debater e polarizar concepções teóricas. O mundo grego se dividiu, logo no início do filosofar, entre defensores de Heráclito (Devir) e de Parmênides (Permanência); as discordâncias ferrenhas e as escolas que daí saíram formaram os grandes tomos filosóficos até a contemporaneidade. Foram necessários centenas de anos para encontrarem denominadores comuns ― de Aristóteles a Hegel ― que mais ou menos apaziguassem esse enfrentamento teórico entre movimento e permanência. Tudo isso, é claro, até surgirem novos polemistas que problematizassem novas concepções; e assim é feito o conhecimento humano, de pontos de vista divergentes e discussões infindáveis. Aristóteles divergiu frontalmente de seu mestre Platão; São Tomás de Aquino de Santo Agostinho; David Hume de Renê Descartes. Ora, então desde quando polarizações teóricas se tornaram princípio de agressão à democracia?

A polarização é consequência da divergência; e esta, da liberdade humana em escolher e definir aquilo que lhe pareça mais verdadeiro; a própria liberdade humana, por sua via, é o antídoto puro contra a homogeneização social e a tirania. É desta união de princípios e concepções, maturadas no caldeirão da experiência histórica humana, que nasce a democracia como esqueleto político.

A polarização como mal político encontra ressonância no que há de mais popular na linguagem acadêmica de esquerda nos EUA e na Europa atualmente; a “polarização” unida ao termo “populismo”, sob a linguagem liberal (esquerdista) moderna, significa respectivamente: divergência política e popularidade política. O progressismo, desde os jacobinos, nunca conseguiu disfarçar por muito tempo a sede por massificações políticas; ora, essa é justamente a seiva da crítica intelectual de A rebelião das Massas de José Ortega Y Gasset.

Todavia, quando as divergências políticas municiavam os quadros da esquerda em 1985, dando proeminência às suas pautas e soluções sociais, tal “divergência” era considerada “democracia” e não “polarização”. O “populismo”, por sua vez, na linguagem política à esquerda, significa tão somente “popularidade excessiva do opositor que não endossa minhas pautas”. Quando a popularidade estourava os tímpanos políticos a favor de Lula, Hugo Chavez e Fidel Castro, aí então era “carismaticidade”, mas quando isso ocorreu com Bolsonaro e Donald Trump, aí então se tornou “populismo”. Quem não estudou Jacques Derrida, não entenderá como essa maleabilidade semântica é, na verdade, arma ideológica, e não atualização científica; mas deixemos isso para outro momento.

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Se me fosse pedido um conselho, eu diria ao MBL para não decair na linguagem academicista à esquerda. Embate de ideias, e por consequência a polarização política, são processos naturais da democracia; o problema está ― e sempre esteve ― na homogeneização do aparato público, cultural e econômico. Obviamente que é preciso separar “queima de ideias” de “queima de pessoas”. Embates retóricos não precisam significar guerras civis, espero que essa obviedade seja latente a essa nossa conversa ― e sobre esse assunto eu discorri com maior profundidade num ensaio para a Gazeta do Povo em 22/05.

Para aqueles que dirão que a polarização sempre flertará com a ruptura institucional, digo que sim, e digo isso com muita lucidez e calma, afinal, é um dos males democráticos que ainda não possui um antídoto funcional. Não há mundinho perfeito, meus caros. Como diminuir a polarização sem se achegar mais à homogeneidade? Se tivermos que escolher entre ter medo da polarização ou da homogeneização ideológica, corra sem demora para as montanhas contra a segunda opção.

Simplesmente não há um exemplo de tirania cujo processo não passou necessariamente pela eliminação de seus pontos contraditórios; da revolução russa à Venezuela moderna, todo processo de instauração dos regimes ditatoriais passou pela massificação política e pela eliminação de polos discordantes do status quo ideológico do Estado.

Por isso, e por fim, me assusta muito a postura do MBL em querer abrandar a retórica, de querer se achegar àqueles que falam manso e espalham discursos amenos, mas que não raro defendem abertamente regimes ditatoriais homogêneos. Denomino-os de “fofinhos porém mortais”, aqueles que choram escutando Imagine de John Lennon, mas aprovam ― privada ou publicamente ― as ditaduras cubana e venezuelana; aqueles que pregam tolerância, mas que invadem igrejas e agridem pessoas discordantes; que falam contra fascismos imaginários e populismos retóricos, mas que guardam aquela admiração calada por Lênin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Nicolás Maduro e, quiçá, Joseph Stálin.

Abrandar o clima bélico, discursos de tomada de parlamento ― ínfimos e descabidos, que geralmente são corrigidos naturalmente pelos sensos basais de ética e moral dos próprios indivíduos ―, corrigir impropérios desnecessários e agressões gratuitas, tudo isso me parece louvável. Uma mea culpa frente excessos nunca fez mal a ninguém, e de quebra exercita a virtude e diminui o ego. Mas recuar na combatividade natural do que é historicamente errado, isso não é virtude alguma. Muitas vezes é no abrandamento ecumênico que se perde o vergalhão da honra; estamos numa sociedade em que as pautas morais não são moralismos, mas esteios necessários de serem visitados. Defender a vida do feto não é abstração conservadora; apontar as contradições da mídia enviesada não é briga injustificada, é serviço prestado à própria sociedade que depende de tais informações; ser combativo contra ideias que carregam escondido em seu bojo uma necessária ditadura final, não é perder o compasso e o bom senso, é antes temperar a sociedade com o conhecimento das estradas ocultas dos amigos das tiranias.

Não se sabe ainda ao certo o que o MBL quer de fato, mas se for se juntar àquela massa disforme e insípida dos que fazem o mais do mesmo desde sempre, que reafirmam o que há de mais estagnado e podre na política tupiniquim, que se escondem numa diplomacia de bordel; pois bem, então peguem as malas e se juntem aos que antes davam o tom do debate homogêneo da sociedade brasileira. Afinal, se o MBL tem medo do embate, do enfrentamento e das palavras duras que envolvem a peleja natural do processo político ― Renan desmaiaria no parlamento inglês ―, então provavelmente o grupo ainda não maturou o suficiente para a política da vida real. A política real não é para meninos amedrontados.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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