A rebelião dos tolos: uma resposta conservadora aos militantes

Como nascem e pensam as massas:

“Não ensinamos a nossos filhos que o mundo é plano. Também não deveríamos lhes ensinar teorias sobre a natureza de homens e mulheres baseados em ideologias sem suporte algum” (PETERSON, 2018, p. 325).

A ideologização da política é uma característica que, para muitos, tornou-se algo inevitável; parece que, desde a Revolução Francesa, não professar uma religião política transformou-se em algo profano ou digno de repulsa social. No atual Brasil, parece, também, que a pergunta seguida à: “qual a senha do wi fi?” é: “você é de esquerda ou direita?”. Tal postura afoita e pouco reflexiva de encaixe automático em gavetas ideológicas gera na sociedade uma animosidade pérfida e improdutiva; ter um eterno Fla x Flu político não ajuda em absolutamente nada na reflexão e prática política.

Desde Aristóteles, em sua elementar obra A política, sabemos que ideias de sociedade, assim como as suas aplicações no corpo social, não se fazem com turbas histéricas e com facilitações intelectuais rasteiras, mas sim com instituições sólidas, ética bem definida e pessoas instruídas. Podem, em contrapartida, arrogar que os movimentos de massa decidem os rumos políticos na modernidade, e com isso terei de concordar; mas isso não significa de forma alguma que esses rumos estejam certos ou que as políticas por eles aplicadas sejam de fato eficazes. A modernidade resgatou a velha rixa entre razoabilidade e emoção; a razoabilidade é a política dos indivíduos, a emoção, das turbas.

Caso queiram criar uma sociedade sensata e prudente, maturada nas ricas experiências da humanidade, então eduquem indivíduos para respeitarem tradições e forjarem diariamente suas liberdades através de deveres reais e não através de puros direitos abstratos. Caso queiram uma sociedade afoita e mimada, mergulhada em uma ânsia constante e incessante por progresso e mudanças radicais, então conclamem as massas, deem a elas ideologias para cultuarem, deixem-nas na ilusão de uma perfeição social, deixem-nas — por fim — lutar por direitos infindáveis, sem que “deveres” sequer sejam mencionados.

“De todas as maneiras, o conservadorismo moderno surgiu como defesa do indivíduo contra potenciais opressores e como endosso da soberania popular. Contudo, ele se opunha à visão de que ordem política está fundada em um contrato, assim como à sugestão paralela de que o indivíduo goza de liberdade, soberania e direitos em um estado natural e pode se livrar do fardo do pertencimento social e político e recomeçar em uma condição de liberdade absoluta. Para o conservador, os seres humanos chegam ao mundo com várias obrigações e sujeitos a instituições e tradições que contêm em si uma preciosa herança de sabedoria, sem a qual o exercício da liberdade tem tanto a probabilidade de destruir os benefícios e direitos humanos quanto de melhorá-los” (SCRUTON, 2019, p. 22).

As massas, como bem explicou José Ortega Y Gasset em A rebelião das massas, são suscetíveis a arrebatamentos sentimentalistas que não levam em conta pressupostos morais ou civilizacionais — quando muito, distorcem valores para que esses sejam escravos de suas militâncias. No fundo dessa aporia do aglomerado ideológico estão duas características típicas da humanidade: o problema religioso (ou escatológico) — o que Nelson Lehamann chamou “religiosidade substituta” —; e o problema psicológico — ou o que Gustave Le Bon chamou “psicologia das massas”.

O problema religioso:

O primeiro diz respeito à crença na possibilidade real de um mundo terreno sem dores, maldades e penúrias; e por essa crença arrebatadora, a busca desenfreada e até mesmo animalesca por tal sociedade perfeita parece inteiramente justificada. Ora, se somos capazes de “ser como deuses”, por que não o seremos? Se somos capazes de construir uma sociedade perfeita, não construí-la é burrice. Tal sociedade deve necessariamente prevalecer e se impor a todas as demais.

A percepção de que a sociedade é capaz de perfeição fez com que os iluministas, crentes na capacidade infinita da razão, fundassem a religião política inspirada na ideia de Rousseau de uma religião social. Se antes a religião discursava sobre o mundo perfeito post-mortem, agora ela discursa sobre o mundo perfeito “amanhã”. “O sonho utópico da humanidade foi assim transformado, substituído, transferido de um paraíso primordial para a terra prometida do futuro” (LEHMANN, 2016, p. 71).

Ideias diferentes facilmente começam, então, a serem demonizadas, não propriamente por seus erros lógicos, éticos, filosóficos ou históricos, mas simplesmente por não ser a ideia de sociedade que meu grupo ostenta, por serem heresias puras e simples que fogem do catecismo ideológico que adotamos e pregamos lá no comitê. No final, “você é direita ou esquerda?”, não passa da velha discussão para saber qual é a religião definitiva e verdadeira. Se antes o dogma era “fora da Igreja não há salvação”; agora é “fora da minha concepção política não há salvação”; sobre isso, conclui José Osvaldo de Meira Penna: “O Estado foi então ressacralizado — à medida que se secularizava a religião” (PENNA, 2017, p. 24). Ora, se o iluminismo francês afirmou que o céu na terra é possível, então vale absolutamente tudo para alcançar tal fim — e o século XX, aliás, deixou-nos um recado sobre isso: “vale tudo mesmo”. Tal impulso é a substância mesma das massas ideologizadas.

Talvez tenha sido Raymond Aron quem melhor resumiu tal problema:

“É verdade que o comunismo [inclua-se aqui as demais ideologias totalitárias] atrai ainda mais quando o trono de Deus está vazio. Caso o intelectual não se sinta mais ligado nem à comunidade nem à religião dos seus antepassados, ele pede às ideologias progressistas o pleno preenchimento da sua alma” (ARON, 2016, p. 267. Grifos meus).

O problema psicológico:

A segunda característica trata da satisfação psicológica que Gustave Le Bon bem explica em Psicologia das multidões; a satisfação emocional gerada por um grupo de pessoas que reafirma nossas crenças é algo indiscutível e até mesmo natural, a própria religião e demais confrarias possuem tal característica. Escutar aquilo que nos afaga, reafirmar nossas certezas, é o puro néctar da serotonina. O problema jaz quando essa religião é política (isto é: ideologia) e essa religião política tem o poder de prender, confiscar, vigiar e até mesmo torturar e matar. O século XX está cheio de pessoas normais que defenderam — dentro de um grupo qualquer — ideias inimagináveis, que afirmaram pressupostos tão abjetos que eles próprios não sabem ao certo como isso ocorreu; tudo isso em troca de satisfação psicológica, sustentação emocional e reafirmação social. Da mesma forma que é mais fácil convencer um botafoguense a gritar pelo flamengo no Maracanã lotado de flamenguistas, era mais fácil convencer pessoas simples a serem nazistas num contexto onde só existiam nazistas.

“Pelo simples fato de fazer parte de uma multidão, o homem desce portanto vários graus na escala da civilização. Isolado era talvez um indivíduo culto, na multidão é um instintivo, consequentemente um barbado. Possui a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também os entusiasmos e os heroísmos dos seres primitivos. Aproxima-se deles também por sua facilidade em se deixar impressionar por palavras, imagens e conduzir a atos que lesam seus mais evidentes interessas. O indivíduo na multidão é um grão de areia no meio de outros grãos de areia que o vento agita a seu bel-prazer” (BON, 2016, p. 36-37).

O preço da personalidade:

Manter a personalidade e a capacidade de julgamento individual, apesar da correnteza, é algo raro e louvável. É bem verdade, e não sejamos negligentes com o autor e sua obra, Gustave Le Bon afirma que boas e necessárias atitudes podem de fato ocorrer através das turbas. As cruzadas que salvaram o ocidente da islamização necessitaram de apelos emocionais, uma religião que demandasse porquês escatológicos e táticas de convencimento grupal; as próprias propagandas antinazistas e anticomunistas das décadas de 1970-80 dependeram muito da massificação e da facilitação de informações contra tais regimes; nem todos anticomunistas e antinazistas eram intelectualmente capazes de descreverem seus motivos efetivados em literaturas profundas e arroubos historiográficos memoráveis, e nem por isso deixaram de estar certos em suas condenações.

No entanto, a própria massificação, seja ela em prol ou contra o que for, em dado momento passa a anular a autorreflexão e a capacidade de discernimento ético dos indivíduos; não raramente tais grupos passam de “condenadores da ideologia comunista” a “condenadores de pessoas que não pensam ou não professam como eles”; rapidamente a justa condenação ao fascismo, se torna histeria e caça a fascistas imaginários. De patamares histéricos, a níveis inimagináveis de violência e tirania, a distância bem curta como nos ensinou ― novamente ― o século XX.

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Um velho demagogo da tradição:

 

Eu sou, por assim dizer, um jovem pessimista em questões políticas, acredito que a política deve ser matéria de constante e inacabável ceticismo, e as ideias que preenchem as suas vias, jamais abraçadas e defendidas de maneira definitiva e empolgada; tudo isso por dois motivos, um hobbesiano e outro lockeano, respectivamente:

  1. O Estado tenderá a dar legalidade e padronizações às ações dos cidadãos, o que realmente pode ser benéfico por um tempo. Mas se Thomas Hobbes estava certo em sua análise, o poder do leviatã sempre tenderá ao controle absoluto e ao esmagamento da individualidade; sendo assim, agir com afastamento e ceticismo frente ao governo é um anticorpo social necessário para os indivíduos.
  2. Por outra via, do Estado precisamos apenas do mínimo necessário para a organização comunitária em aspectos legais. Para a boa convivência local temos as leis naturais, aquelas construídas pela experiência (costumes) e pela própria moral religiosa — segundo John Locke. O Estado só vem para suprir lacunas legais, e não para assumir espaços e tomar setores; se um governo quer bem governar, então que governe com o suficiente, restringindo-se fielmente ao pouco que lhe cabe. A sociedade, em suma, deve ser a dos indivíduos livres e não a do Estado.

Para a sociedade das utopias:

Toda a visão liberal de contrato social ― excluindo, é claro, a sátira utópica de Rousseau ― desenvolve-se através de um natural avanço social, da crua percepção da necessidade de um poder público que gerencie e, por vezes, aplique as leis às relações familiares e individuais numa comunidade de indivíduos livres —, afinal, são livres até mesmo para o asco, e assim sendo, um freio público e policial se faz necessário. O contrato social não nasce do nada, num vácuo de indivíduos pelados que, por uma grande surpresa do destino, encontraram-se um dia numa praça e resolveram selar a criação do Estado moderno através de assinaturas de minutas regadas a cervejas. Antes do Estado — por incrível que isso possa parecer a alguns — já existiam bons e necessários costumes sociais que micro gerenciavam as relações humanas, já existia a família como a instituição mais segura que a humanidade criou; já existia o conceito de propriedade privada; de religião e justiça (bom e mau).

O Estado é o ente que vem para organizar as interações num nível comunitário mais abrangente, e não — não mesmo! — para dar à luz valores e instituições previamente existentes. Em suma, o que vocês caros leitores, em especial os estudantes na área de ciências sociais, precisam saber, é que Rousseau era um romancista e não um Contratualista. O Estado vem da sociedade, e não o contrário.

Dessa maneira, a defesa de uma visão política é secundária ao problema propriamente ético de uma sociedade, de certa maneira, para se defender a pragamaticidade é necessário conhecer antes as fundações e problemas suscitados pelos conceitos que agora pragmaticamente são reduzidas a ideologias prontas para o consumo das massas.

“O pensamento ético consiste justamente no sistemático exame das relações entre seres humanos, conceitos, interesses e ideias que surgem a partir da maneira como as interações humanas se dão, assim como do sistema de valores nos quais tais fins são baseados. Essas crenças em como a vida deveria ser regulada, no que homens e mulheres devem ser e fazer, são objeto de investigação moral; e, quando aplicadas aos grupos e às nações, e mesmo à raça humana como um todo, são chamadas de filosofia política, o que, em verdade, não passa de ética aplicada à sociedade” (BERLIN, 2018, p. 16).

O que eu quero dizer é que a defesa de uma ideia política se faz antes num caráter moral e histórico, no qual os costumes tradicionais e os valores legados das instituições fundantes da civilização têm primazia frente ao mero “estou com Bolsonaro” ou “Lula-livre”. Uma ideia política se torna digna de ser defendida, pelo menos na visão liberal-conservadora, quando tal ideia se afasta de um idealismo puro e simples — entendam ideologia — e se aproximam de uma realidade que traz em seu bojo os valores fundacionais, as instituições basilares e o respeito às liberdades individuais ― isto é: pensamento, culto, propriedade e locomoção.

 

Por um ativismo consciente:

Não tenho nenhuma ideia política orientadora. Acho que isso tem a ver com minha ancestralidade. […] Isso nos dá um ponto de vista especial. Sinto que somos mais propensos a ver o humor e a piedade das coisas” (NAIPAUL, 2017, p. 113)

Creio que a maneira mais sensata de agir na política é defendendo valores e instituições, e não catecismos ideológicos. Uma militância em “prol” de alguma coisa, demanda fidelidade inconteste, caso contrário o indivíduo não ocupará o espaço correto que os diretores ideológicos precisam que ele ocupe em meio à manada. Da mesma maneira que Atenas expurgou Sócrates pela sua inconveniente liberdade de não concordar com os estatutos pré-definidos por um poder estatal; da mesma maneira, um indivíduo intelectualmente livre logo se verá convidado a se retirar de um aglomerado político que não aceita discordâncias.

O ativismo de ideias é aquele que não demanda filiação. Você pode ser um ativista solo, defender suas causas e convencer demais pessoas através da sua capacidade retórica e pela evidência arrebatadora de sua luta, tudo isso sem precisar de fieis ou igrejas; obviamente que existirão mais pessoas defendendo o que você defende, e sua participação nessa associação será por mera afinidade, e não por fidelidade. Ao ser ativista, seu compromisso primordial está com a causa, e não com o grupo. Se hoje me denomino conservador, é porque entendi que o conservadorismo prático não passa de um ativismo pela realidade, uma defesa perspicaz da escada pelo qual estamos subindo. Uma defesa que não demanda carteirinhas partidárias, aceitação das massas ou aplausos da plateia; por exemplo, quando se defende a ilegalidade do aborto, numa sociedade cujo seu mainstream trata o aborto como um mero “contraceptivo”, ou um inconteste portal para a liberdade feminina, nessa situação o conservador realmente não pode se preocupar muito com quantidades de likes ou sorrisos, caso contrário a frustração é certa. O conservador, diante da cultura progressista, se assemelha a um estoico de terno em meio a um desfile de biquínis.

Lados políticos podem ser uma pedagogia interessante quando a visão superficial dos fatos já é o suficiente para a ocasião. Dessa maneira, a separação entre “esquerda e direita” tem suas funções pedagógicas e não são completamente descartáveis. De maneira um tanto quanto nebulosa, sabemos quando um discurso se direciona mais ao público canhoto ou quando este se direciona mais para os destros. No entanto, parar por aí, no puro simplismo, é o mesmo que assassinar as capacidades de reflexão e avaliação social. Para quem realmente quer entender a política, deve começar pelo adágio: “nem tudo é tão simples como as ideologias querem que creiamos”. Nem tudo é questão econômica; nem tudo é luta de classes. Aliás, quase nada é luta de classes… “Onde o jargão transforma questões de vida em abstrações, e onde o jargão acaba competindo com o jargão, as pessoas não têm causas. Só tem inimigos” (NAIPAUL, 2017, p. 114).

Por um conservadorismo real:

Facilmente poderão afirmar que eu estou falando de um conservadorismo idealizado, puro, tão fantasioso quanto as ideologias que combati acima. Não mesmo! O conservadorismo, ao contrário das ideologias modernas, nasce do senso comum mais ordinário. Nasce das opiniões e percepções de pessoas comuns que, com suas razões naturais, perceberam na própria realidade vigorosos princípios e instituições que não são descartáveis, tais conhecimentos foram se aglutinando em experiências e moralidades comuns, ao ponto que hoje termos um conjunto de regras sociais e demandas éticas que ainda estruturam a civilização ocidental.

Obviamente que a reflexão filosófica conservadora, assim como o conservadorismo dito “político”, nasce na modernidade pós-renascença. Segundo Sir. Roger Scruton, com o advento da Revolução Gloriosa de 1688.

“Embora a atitude conservadora seja instintiva, o conservadorismo como filosofia política é um fenômeno recente, surgido durante o curso de três grandes revoluções — a Revolução Gloriosa de 1688, a Revolução American que terminou em 1783 e a Revolução Francesa de 1789” (SCRUTON, 2019, p. 7).

Mas não serei eu aqui um purista idiota, não estou falando que, vezes ou outra, pela necessidade intrínseca da sociedade contemporânea, e pelo bem da própria mentalidade pública, não devamos nos engajar politicamente em movimentos e candidaturas. Hoje, ao redor do mundo, é extremamente normal ter partidos denominados “conservadores” com militâncias engajadas; muito disso justamente pela percepção de que se abster e não sujar a mão agora pode gerar maus resultados amanhã.

Ainda quando assim ocorre, entretanto, o conservador deveria, pelo bem da primazia das causas maiores, limitar suas adesões a tais grupos. Agir num campo de apoio temporário ao invés de fazer juras de amor eterno a ideias e pessoas que mal conhecem. A história está cheia de lobos que se venderam como boas velhinhas; e como por vezes não conseguimos distinguir as boas velhinhas dos lobos, é preferível não se filiar a ninguém.

Se para uma aporia momentânea foi necessário sujar as mãos, não tenha medo de lavá-las bem e, se necessário for, desculpar-se por isso se algo sair do controle. Não se trata de ser “isentão”, mas de ser livre. O mundo moderno é um mundo de práticas; por vezes devemos ser realistas e perceber que, se terei que opinar, agir, e defender, que eu atue pelo lado menos pior da história. Churchill teve que apertar a mão de Stálin para derrubar Hitler, e nem por isso o velho inglês era comunista ou que na primeira oportunidade também não tentaria destronar o sanguinário vermelho. É bom lembrar que muito provavelmente Churchill lavou a mão depois.

Os estoicos do hoje:

Quando falo sobre “ser conservador”, aliás, me lembro de um personagem de John Williams: Wiliam Stoner, do livro que carrega o mesmo sobrenome do personagem. Nele, o autor narra a história de um professor de literatura que, em sua adolescência, abandonou as coisas da família na fazenda, indo se arriscar no mundo urbano, por vezes tendo que jogar os seus jogos e sobreviver sob suas cláusulas. Mas Stoner, e aqui jaz o charme impecável do livro, traz em sua alma — um tanto quanto monótona —, as marcas de sua infância, sejam elas dores, amores, trabalhos ou lições. Sem demora, tais valores voltam para adubar e fertilizar a sua realidade cotidiana da mesma maneira que as minhocas preparam a terra remexendo de dentro para fora o solo para o plantio.

A liberdade artística de Stoner, unido à sua ética inegociável — apesar de sempre claudicante, e por isso mesmo real —, faz dele um professor de literatura deslocado e um tanto quanto afastado de seus pares de modernidade, por defender ideias que não são tão negociáveis ou populares. Um herói estoico em plena universidade urbana. Talvez essa seja a verdadeira essência do conservador: viver as penúrias e as graças de uma terra (ou moral) familiar já distante, buscando nas belezas revigorantes das altas culturas o frescor do belo, temperado — é claro — com as monotonias da realidade cotidiana, tudo isso mantendo sempre o mesmo o vigor das saudosas experiências históricas e das perenes éticas anciãs. E se o fim terreno reservar para nós o martírio da solidão, um estoicismo vulgar, que seja. Sabemos bem que, nessa terra, a perfeição e real felicidade nunca nos foi prometida.

O conservador sabe que o imanente é o plano do possível, que o descanso perfeito jaz tão somente após a linha do horizonte; é justamente por essa visão do todo que o conservador tende a observar e analisar a realidade através do mirante da sabedoria, o mero pragmatismo ou o idealismo não lhe convém, não lhe sustém. Certa vez, conversando com um amigo seminarista — e finalizo essa longa tertúlia por aqui —, eu o provocava com vislumbres de uma vida matrimonial sadia, falava para ele dos deleites carnais que dali viriam. Disse a ele certa vez: “para que se abster das delícias do matrimônio, meu amigo?”, a sua resposta foi genial: “para que eu possa viver todas as demais, inclusive as que não passam”. Talvez os conservadores sejam também os sacerdotes do tempo, aqueles que ao invés de escolher essa ou aquela cor na paleta política da modernidade, resolveram ter à disposição todas as cores possíveis, para que, no momento certo, tendo a visão do todo à sua frente, saibam bem escolher e agir.

O conservadorismo, por fim, é a arte da boa vida, daquilo que somente há pouco se tornou política e, por isso mesmo, geralmente não se satisfaz com gritos uníssonos, ordem unida ou canções de guerrilhas. Ainda que, em meio a uma multidão de conservadores, cada um seria um indivíduo, e não um grão de areia empastado para formar um castelo frágil chamado ideologia. Ainda que na multidão, cada conservador é uma pessoa livre que vive, e não apenas encena.

Referências:

BERLIN, Isaiah. Uma mensagem para o século XXI, 2ª Edição, Âyiné: Belo Horizonte/Veneza, 2018.

BON, Gustave Le. Psicologia das multidões, 2ª Ed., WMF Martins Fontes, São Paulo, 2016.

NAIPAUL, V. S. Ler e escrever, Âyiné: Belo Horizonte/Veneza, 2017.

PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX: Ensaios sobre o nacional-socialismo, o marxismo, o terceiro-mundismo e a ideologia brasileira, 2ª Ed, São Paulo: Vide Editorial, 2017.

PETERSON. Jordan. B. 12 regras para a vida: um antídoto para o caos, Alta Books: Rio de Janeiro, 2018.

SCRUTON, Roger, Conservadorismo: um convite à grande tradição, Rio de Janeiro: Record, 2019.

SILVA, Nelson Lehmann da. A religião civil do Estado moderno, 2ª Ed, Campinas: Vide Editorial, 2016.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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