Conservadorismo na Mesa do Bar: Coutinho, Hayek, Del Noce e Tomás de Aquino

Tempos atrás, o ministro Paulo Guedes, levantou os ânimos de muitos brasileiros, ao citar como livro de cabeceira da atual gestão: “O Caminho da Servidão” de Friedrich Hayek. Em um país que sofre há décadas um protecionismo de mercado e excesso de burocratização, saber que a administração econômica tem por inspiração um modelo econômico e exitoso em todos os países que foi implementado é alentador. A fim de promover uma nação mais livre e justa, sem mordaças econômicas, os brasileiros buscam melhorar sua bibliografia política e suas perspectivas. Estamos atentos a algo que Hayek nos alerta no livro recomendado por Guedes:

Poucos estão prontos a admitir que a ascensão do nazismo e do fascismo não foi uma reação contra as tendências socialistas do período precedente, mas o resultado necessário dessas mesmas tendências. Esta é uma verdade que a maioria das pessoas reluta em aceitar, mesmo quando as semelhanças entre muitos aspectos detestáveis dos regimes internos da Rússia comunista e da Alemanha nacional-socialista são amplamente reconhecidas. Em consequência, muitos dos que se julgam infinitamente superiores às aberrações do nazismo e detestam com sinceridades todas as suas manifestações trabalham ao mesmo tempo em prol de ideias cuja realização levaria diretamente à tirania que odeiam.1

Bem sabemos que ascensão de ideias socialistas prejudicam a economia de forma severa, basta olharmos para a Venezuela. Hayek dedica seu trabalho a explicar como as tendências socialistas são danosas para a dinâmica de mercado, afetando a geração de emprego e renda, implicando em um status de igualdade…de pobreza. Trata-se do grande abismo que Russel Norman percebe: existe uma forte distância entre propaganda e realidade, no âmbito do socialismo, lembremos do Ministério da Verdade em 1984 de George Orwell. No discurso, declaram-se como uma associação voluntária de indivíduos com finalidades comuns, e na prática o socialismo reduz a nação ao Estatismo, ou seja, uma oligarquia que possui e controla tudo, e o povo participa apenas ideologicamente, no mundo de “eidos”(espero que Platão não se revire no túmulo pelo empréstimo de seu conceito aqui).

Entretanto, o magistério de Hayek vai muito além da economia. Passear por este importante autor também nos remonta a como temos exercitado nosso Conservadorismo – e isto nos conduz a explorar o que João Pereira Coutinho preleciona. Se estamos buscando minimizar o caminho da servidão, precisamos estar preocupados com a sistemática social, tanto quanto a sistemática econômica.

João Pereira Coutinho nos traz o pensamento de Hayek, afirmando que o economista entendia o modelo conservador como “uma ideologia destituída de “princípios motrizes capazes de influenciar desenvolvimentos a longo prazo.”2 Na verdade, o que Hayek entendeu como Conservadorismo, é definição para uma ideologia ideacional e ativa3, fato este que não se compara com o verdadeiro conservadorismo.

Tal natureza ideacional, nas palavras de Augusto Del Noce, ignora “as raízes metafísicas da crise trazida pela ideia de revolução total”4, isto porque, esquecemos de recusar o pensamento utópico, a saber, de que demandas individuais serão unidas por uma osmose milagrosa, e poderão formar a torre una do bem comum. Na mesma direção,  Fabrício Tavares de Moraes:

A sociedade opulenta substituiu a ideia de bem comum pela satisfação de todas as demandas e desejos individuais, como se, por um artifício aritmético, a soma de cada fruição individual resultasse na felicidade generalizada.5 

Quando queremos atender uma necessidade histórica específica, apenas cultuando o passado e desprezando a experiência dos outros, ignoramos a existência de uma “ordem incriada”6, assim como a capacidade de resolver problemas específicos através de uma ferramenta supra histórica7. Explico melhor: o exercício das ideias não é fruto exclusivo da perspectiva liberal de economia. Na verdade, o verdadeiro conservadorismo age quando determinada “ameaça põe em risco os fundamentos institucionais da sociedade8 e reconhece que isto apenas será possível quando tomarmos como carro chefe o bem comum, dissertado por Santo Tomás de Aquino e pelo Papa Leão XIII na Rerum Novarum. A retidão e conhecimento devem ser princípios gerais, ofertados inclusive para aqueles que estão em um status de corrupção que consiste na depravação da razão. Só estaremos exercitando o verdadeiro conservadorismo, quando a ordem incriada for o nosso guia de bolso.

A ordem incriada é uma expressão da Lei Natural, em que “o direito natural é comum a todas as nações9 – isto funciona quando consideramos a existência de dois tipos de razão: a especulativa e a prática. Na Razão especulativa, “a verdade é a mesma para todos, tanto nos princípios como nas conclusões”10, já na Razão prática, “embora no geral também haja uma certa necessidade, quanto mais descermos ao particular, tanto mais exceções encontraremos”11

Tal ação não tem por força motriz o passado ou o futuro, mas o presente, isto porque é o “’valor que fundamenta a tradição, e não o contrário”12. Tal valoração é mais bem extraída quando tratamos nossa defesa com o [tempo] presente que temos em mãos, e não com uma tentativa de ressuscitar integralmente o passado, sem o filtro que separa as boas experiências das más experiências (que foram realizadas em nome da tradição).

Avaliar o cenário, as circunstâncias e a pessoas é algo inerente ao homem, consistindo em “conhecer a verdade a respeito de Deus, e a que concerne à sua vida em sociedade. […] evitar a ignorância, não ofender os outros, com quem deve conviver […]”13.

Qualquer ato que transmita uma “violência “necessária” e “purificadora”” como características do Conservadorismo, é mentiroso e expressa uma falácia detectada por Coutinho, de que o Conservadorismo defende uma “natureza fixa e inalterável”, aonde todos desejam a mesma coisa. Isto apenas confirma o que alguns círculos intelectuais têm denominado como totalitarismo TECH14– aquele que é expresso através das redes sociais, composto por uma defesa que projeta no passado a solução final para as iniquidades que afligem o presente15.

É impossível ser contra o socialismo democrático e a favor de uma poda única para todas as sociedades em todos os tempos. É como uma promoção de uma nova modalidade de igualitarismo, só que agora, impondo ideais reacionários ao invés de progressistas.

Thiago Rafael Vieira

Jean Marques Regina

 

  1. HAYEK, F.A. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. p. 27.
  2. COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2018. p. 27.
  3. “ideologias que procuram cumprir em sociedade um programa ou um ideário político” – COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2018. p. 29
  4. Cf. Massimo Cacciari & Michel Valensi, “Augusto del Noce et le problème de l’athéisme”, Archives de Philosophie, v. 57, n. 1, (janeiro-março 1994), pp. 111-117
  5. DE MORAES, Fabrício de Tavares. Augusto Del Noce: secularismo e tecnocracia na modernidade (Parte I) Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/augusto-del-noce-secularismo-e-tecnocracia-na-modernidade-parte-i/?fbclid=IwAR0K1A7Kc1CXSMIAqw0X7johdTQ_ol00L06xhgmej7lsFz-aR_CMBSfeSdY
  6. É o termo que Santo Tomás de Aquino utiliza para se referir a Beatitude: “o fim último do homem é o bem incriado, i.e., Deus, que só, pela sua bondade infinita, pode satisfazer perfeitamente a vontade do homem” (DE AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica. Vol. 2 – La llae. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2017. p. 45.)
  7. Aquilo que não se limita a considerar o passado como único meio de solucionar problemas.
  8. COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2018. p. 31.
  9. DE AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica. Vol. 2 – La llae. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2017. p. 567.
  10. Ibidem
  11. Ibidem
  12. “Revolution, Risorgimento, Tradition” in: Augusto del Noce. The Crisis of Modernity. Tradução Carlo Lancelloti.
  13. DE AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica. Vol. 2 – La llae. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2017. p. 566
  14. Fabrício Tavares de Moraes traz algumas recomendações de leitura para conhecer melhor o termo: “Há várias obras com essa temática. As edições mais recentes no Brasil são: Evgeny Morozov,  Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política(2018) e Byung-Chul Han, Psicopolítica(2018)”. Importa, também, saber sobre o conjunto de ações que constituem o nosso comportamento. Estamos sendo observados por um filtro denominado TECH, a saber, um padrão de análise dos argumentos digitais, colhendo como material as expectativas e a bandeiras políticas defendidas por cada usuário de uma determinada rede social, seja Facebook, Twitter ou WhatsApp.
  15. COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2018. p. 25.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Thiago Rafael Vieira & Jean Marques Regina

Thiago Rafael Vieira & Jean Marques Regina

Co-autor da obra: Direito Religioso: questões práticas e teóricas e de outras obras em coletâneas. Advogado desde 2004, professor, escritor e ensaísta. Graduado pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA (2004). Membro da OAB/RS, inscrito sob o n.º 58.257 (2004), membro da OAB/SC inscrito sob o n.º 38.669-A e membro da OAB/PR inscrito sob o n.º 71.141, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (2005). Pós-graduado em Estado Constitucional e Liberdade Religiosa pela Universidade Mackenzie, em parceria com a Universidade de Oxford (Regent’s Park College) e pela Universidade de Coimbra (Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos) (2017). Pós-graduado em Teologia e Bíblia pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Professor visitante da ULBRA e em diversos cursos de Dieito Religioso. Presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Religião – IBDR. Colunista dos blogs “Voltemos ao Evangelho” e “Gospel Prime”. Articulista na Revista de Teologia Brasileira / Vida Nova, Burke Instituto Conservador, Mensageiro Luterano e Instituto Liberal. Ensaísta colaborador da Gazeta do Povo. Vice-presidente do Instituto Cultural e Artístico Filadélfia – ICAF e atualmente é Conselheiro Fiscal da Igreja Batista Filadélfia de Canoas/RS. Esposa da Keilla e pai da Sophia Vieira.

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