Agentes secretos da corrupção

Infiltrados

Tempos atrás, escrevi neste espaço sobre a corrupção do ciclo cultural e a estratégia de globalistas e marxistas para atingirem a hegemonia de pensamento na sociedade, isso por intermédio da destruição da superestrutura ocidental, mais precisamente a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã. Já mencionei, também, Antonio Gramsci e os pensadores da Escola de Frankfurt, todos eles idealizadores e pioneiros na divulgação de tal método, este destinado a fazer com que os chamados explorados adquirissem a sonhada consciência de classe, a qual teria sido aniquilada por conta da cultura e da moral burguesa e opressora.

                        Entretanto, talvez eu não tenha sido tão expresso em relação aos agentes dessa transformação social e cultural, cujo objetivo, repito, é não só criticar os valores tradicionais e conservadores acima citados, como também, e principalmente, destruí-los por completo. Por isso, aliás, a nomenclatura dada a esse tal pensamento como sendo uma Teoria Crítica, a qual, posteriormente, se subdividiu em diversas outras ramificações e denominações, dentre elas a chamada Teoria Crítica do Direito.

                        Para os adeptos desta última, o ordenamento jurídico existente também é algo elaborado, normatizado e imposto pela classe dominante e opressora, sendo necessário ao jurista comprometido com a causa revolucionária transformar a sociedade por intermédio da interpretação de princípios explícitos ou implícitos da Constituição, mesmo que para tanto seja imperioso negar vigência às leis e aos Códigos existentes, legislar sem competência para tanto e/ou até mesmo definir políticas públicas no lugar do Poder Executivo. Em outras palavras, para subverter a ordem e criar um novo senso comum, vale praticamente tudo, desde que seja para favorecer os ditos oprimidos (as vítimas da sociedade) e, por outro lado, prejudicar aqueles que sejam considerados opressores. Ressalto, nesse ponto, que qualquer semelhança desse assunto com a realidade de nossos dias não é mera coincidência. Vide, por exemplo, o Direito Alternativo, o Abolicionismo e o Garantismo Penal, bem como o ativismo judicial e os mutirões de desencarceramento diuturnamente desenvolvidos. Aliás, em tempos de pandemia, até mesmo rinite alérgica, ansiedade e depressão já servem de motivo para devolver bandidos e menores infratores para as ruas, enquanto as vítimas e seus familiares são obrigados a rezar a cartilha do #FiqueEmCasa.

                        Mas, segundo Gramsci e os pensadores da Escola de Frankfurt, essa verdadeira revolução cultural, que ensejaria uma mudança de pensamento em toda a sociedade, não deveria ficar restrita apenas às áreas acima citadas, mais precisamente ao campo do Direito e aos intelectuais propriamente ditos. Era preciso ocupar todos os espaços, disseminando-se a comentada Teoria Crítica (em especial a crítica à família, à religião, à moral e à propriedade) por todos os cantos da Terra. Por isso, então, a utilização dos chamados intelectuais orgânicos, isto é, pessoas comuns e de várias formações (e não intelectuais no sentido técnico do termo) que ficariam responsáveis em propagar, de modo dissimulado, a ideologia comunista nas universidades, nas escolas, nos sindicatos, na mídia, no show business e até mesmo nas igrejas, reinterpretando-se as Escrituras Sagradas para favorecimento da causa revolucionária. Com o passar do tempo, as pessoas passariam a repetir aquele discurso sem sequer perceberem a causa mediata que estaria por trás, até porque a vestimenta da retórica viria sempre de um modo agradável e politicamente correto.

                        Aliás, no que tange à infiltração dos já denominados intelectuais orgânicos nas igrejas, nenhum exemplo é mais propício do que a chamada Teologia da Libertação. Nos dizeres do brilhante Procurador de Justiça de Minas Gerais, Márcio Luís Chila: “A Teologia da Libertação fez coro com Gramsci, para afirmar que só haveria duas alternativas possíveis: a opção preferencial pelos pobres ou a cumplicidade com o sistema capitalista opressor. (…) Não há uma terceira opção; ou você está com os oprimidos, ou está contra eles. Tudo deve estar a serviço da luta de classes, da luta pela instauração de uma sociedade sem classes sociais, sem capitalismo. (…) Os textos bíblicos são pisados e macerados no cadinho ideológico de Marx, para que se conformem à hermenêutica comunista. O cristão incauto não se apercebe do engodo, porque os pregoeiros do estelionato religioso utilizam a linguagem bíblica esvaziada de seu real conteúdo, expediente com o qual logram induzir em erro o fiel cristão. O povo de Deus, para eles, é a classe proletária (…). Ou seja, servem-se da linguagem bíblica para veicular a doutrina marxista. A noção de fé, de amor, de reino de Deus e de esperança são despidas de seu conteúdo cristão e revestidas de fundamentos comunistas. O dualismo entre imanência e transcendência não há: o reino de Deus não é no Céu; é aqui, é agora, porque Jesus veio para libertar os oprimidos e, portanto, o reino de Deus não é uma realidade universal, não é para todos, é somente para o proletariado, e deve realizar-se no plano mundano”.

                        Nada mais absurdo, por óbvio! Com efeito, o paraíso ainda não é neste mundo, dependendo da volta de Cristo e da instituição de novos Céus e nova Terra. Ao menos por ora, o diabo é o princípe deste mundo. Logo, o reino de Deus não está completo e ainda não se aperfeiçoou por essas bandas. Já a salvação, como sabemos, é sim para todos. Não depende de boas obras e muito menos de classe social. Depende apenas da fé em Jesus Cristo como único e suficiente Salvador. Não é à toa que Cristo não fazia distinções entre ricos e pobres, tendo andado com o rico Nicodemus e também com o cobrador de impostos Zaqueu.

                        Mas, infelizmente, a estratégia gramscista e frankfurtiana vem surtindo efeitos e rendendo bastante frutos, em especial pelo uso da linguagem. Inclusive, como bem sabido, toda revolução cultural começa com uma revolução semântica, sendo comum ouvirmos por aí que Jesus Cristo foi um revolucionário ou algo semelhante. Não percebem muitos líderes religiosos que, ao adotarem tal termo equívoco, já foram totalmente cooptados pelo discurso do inimigo, o qual somente quer destruir as bases do cristianismo ou ao menos deturpá-lo por completo.

                        Na realidade, a mente revolucionária possui três aspectos essenciais: a inversão da percepção do tempo, a inversão da moral e a inversão do sujeito. Em outras palavras, o revolucionário acredita que, para se atingir um mundo perfeito, pode não só denunciar e destruir todo o passado, como também fazer qualquer coisa para o atingimento do bem futuro, inclusive imputar a culpa pelos atos de horror praticados às próprias vítimas, pois estas é que teriam se colocado como obstáculos ao atingimento do paraíso na Terra.

                        E, ao que parece, isso não tem nada a ver com os ensinamentos de Cristo. Impessoalidade, irresponsabilidade, relativismo moral e legal, definitivamente, estão bem longe das Escrituras.

                        Cristo buscou, na verdade, resgatar valores anteriores e instituídos desde o princípio. Ele veio cumprir as leis morais de Deus, e não revogá-las. Jamais poderia, portanto, se revolucionar contra si mesmo, ou até mesmo destruir o passado, mesmo porque os mandamentos divinos foram por Ele próprio também concebidos, já que estava presente desde a criação do mundo. Como dito em Jo 1:1-2, “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”.

                        Em suma, Jesus Cristo foi muito mais um antirrevolucionário do que qualquer outro adjetivo que lhe queiram imputar. Trouxe sim um novo mandamento e se opôs à religiosidade vazia dos fariseus e escribas, mas nunca buscou destruir o passado ou os valores hoje defendidos por aqueles tidos como conservadores.

                        Entretanto, consoante já sugerido, a ocupação de espaços, a revolução cultural, a transformação da linguagem, a guerra de narrativas e a subversão dos valores tradicionais chegou para ficar. E isso em todas as áreas. Só para se ter uma ideia, outro dia fui assistir uma pregação de um líder religioso na internet e, para minha surpresa, ele acabou desprestigiando as obras do historiador Gilberto Freyre e, por outro lado, recomendou aos fieis a leitura de Fernando Henrique Cardoso. Nesse exato instante, pensei comigo mesmo o seguinte: Se eu sobrevivi para ver um cristão recomendar a leitura de alguém que possui estreitas relações com o globalista George Soros, e que também defende o ateísmo, o aborto e a liberação das drogas, então, verdadeiramente, a igreja de hoje não está somente sofrendo a infiltração dos intelectuais orgânicos, mas sim caminhando a passos largos para a destruição.

                        Bem que Fiódor Dostoiévski já dizia que “o socialista que se diz cristão deve ser mais temido do que o socialista que se diz ateu”.

                        Espero, portanto, que Deus tenha compaixão e misericórdia de nós!

Rodrigo Merli Antunes

Promotor de Justiça em São Paulo e pós-graduado em Direito

Membro do MP Pró-Sociedade

Aprenda sobre conservadorismo, direito, política, história, filosofia, cristianismo, economia e educação.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Rodrigo Merli Antunes

Rodrigo Merli Antunes

Promotor de Justiça em São Paulo e pós graduado em Direito Membro do MP Pró-sociedade

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