Quem é esse Deus, Peter?

Nos meus tempos de adolescência se popularizou um documentário chamado Zeitgeist que buscava desmistificar crenças religiosas e poderes políticos globais. O que mais me chamou atenção na película dirigida por Peter Joseph, foi a sua desmistificação do Cristo Nazareno. Basicamente o documentário sustenta que Jesus Cristo é um verdadeiro mix de crenças correntes e mitos de deuses que há mais 2 mil anos já habitavam e passeavam pelos imaginários populares da época. A sede por um messias era totalmente explicável, em suma, pela própria sociologia de Israel, não precisando assim adotar uma explicação fantasiosa e teológica.

Apesar de popular, pouco a pouco o documentário se mostrou um enorme embuste, não passando de uma militância ateísta contra Jesus, e um amontoado de teorias e conspirações de Tumblr. Vários historiadores, alguns até denominadamente agnósticos, desmentiram as alegações do documentário.

Mas, se me permitem a ousadia, o questionamento profundo desse filme e a consternação calada que ele mostra, apesar de ter sido erroneamente conduzido, é totalmente legítimo do ponto de vista humano. Como católico de berço e filósofo de botequim que sou, por várias vezes me peguei questionando: “quem é esse Deus”? Me parece que é o mesmo assombro que habita as noites de insônia de Peter Joseph — ainda que jamais o confesse.

A história de Jesus, quando olhamos pela lógica humana, é verdadeiramente um fracasso; e se compararmos às biografias de outros saudosos deuses, o nazareno se torna ainda mais modesto. Apesar de ser um confesso crente em Jesus, vou tentar entender o Cristo através desse olhar cético de Peter Joseph.

Jesus é um Deus solitário e totalmente paradoxal — já dizia G. K. Chesterton —; foi nascido de pais pobres e incultos; sua mãe era uma mocinha que mal conhecia o que era ser mãe, seu pai adotivo foi um carpinteiro tão anuviado pelas referências históricas quanto hoje é admirado por piedosos fiéis; esse Deus então cresce num dos cantos mais remotos e subjugados do mundo antigo; já na vida pública e religiosa escolheu dozes homens, as piores escolhas que uma mente racional poderia fazer; pregou o amor, o perdão, a reconciliação, a misericórdia, a justiça e a correção de caráter, numa época onde as guerra e a opressão romana ensinava que, para a glória de um indivíduo ou povo, a fórmula mais eficaz era a espada, as legiões de guerreiros e as tomadas de tronos — foi o que pensara Judas e o que encantava Maquiavel.

Jesus era um fracassado frente as mais acuradas mentes daquele tempo, seus intentos falharam, a sua jornada de Belém a Israel, jornada de pregações fulgurantes, milagres vistosos, multidões ensandecidas, acabou numa cruz que, se não fosse pela coragem do discípulo mais amado e o amor de sua mãe, findaria na mais acachapante solidão e abandono. Já que, da parte de Deus-Pai, derramar o cálice era uma pauta irrevogável.

Falando em cálice, aquele recipiente que simbolicamente se parece com um útero materno, diz a teologia cristã, tinha que ser derramado; a ira, a justiça do Deus abraâmico tinha que ser abortado e despejado sobre a humanidade sem demora. E, de duas uma, ou a justiça acontecia em sua plenitude e nossas moleiras receberiam carnalmente a fúria+juros de tantos anos de pecado, infidelidade e abandono do único Deus; ou Jesus, o filho do próprio agiota de Israel, assumiria essa dívida histórica — essa sim —, e tomaria para si as nossas dores sem derramar sequer uma gota do acerto de contas.

O Verbo divino, um tanto quanto rebelde às leis criadas por ele próprio em sociedade com as duas outras Pessoas da Trindade, resolve então que descerá de seu reino e se desnudará da capa de glória e onipotência, a fim de abarcar a miséria de nosso poncho de carne inglório fatalmente decaído. Decide Ele mesmo assumir o déficit gerado por nossa porção de infidelidade acumulado desde o Éden.

Então o Deus-filho resolve, por suas causas e vontades, que a mão de Deus não desceria sobre nós, mas sobre Ele mesmo; e o peso da morte, reservado às criaturas indignas e infiéis, contrariando todo e qualquer teólogo de ontem ou hoje, sim meus amigos, cairá sobre um Deus generoso demais para ver seus filhos se esfacelarem em suas culpas. Por quê? Porque ele ama demais a sua criação para vê-la tomando a cicuta da reta justiça que lhes aguardava. Tal interferência de Jesus, aliás, é o que faz o impiedoso poeta alemão, Friedrich Nietzsche, ficar mortalmente consternado e revoltado com o cristianismo. Chamaria a fé em Jesus de uma “crença de fracos”, justamente porque Jesus tomou para si o que era para nós.

Que deus — perguntaria ao Peter Joseph — de toda a frondosa paleta de deuses que as culturas milenares da humanidade arquitetaram, desceu inteiramente de sua glória, nasceu num amontoado de feno, numa cidade esquecida por todos, acompanhado de uma adolescente assustada que não sabia bem o que era tudo aquilo ali, assumido por um pai compreensivo que não o havia gerado, mas que o amava como se fosse seu — contrariando todo e qualquer impulso cultural da época. Que Deus é esse que nasceu sem áurea alguma sobre a sua fronte; aliás, o menino já nasceu envolto num antagonismo assustador e incompreensível às mentes humanas: que Deus aceitaria descer da sua glória para sofrer por aqueles que — sabidamente desde sempre, já que Ele é Deus — invariavelmente o mataria?

Enquanto Herodes patrocinava um genocídio de bebês — genocídio esse que eu denominarei de Planned Parenthood, porque eu quero, e porque o texto é meu —, o menino-Deus vinha ao mundo na égide de um paradoxo interessantíssimo: antes mesmo de poder chorar com gosto Ele já tinha visto pastores com riquezas, cabeças de gados, mulas, ovelhas, uma mãe pobre, cansada e dolorida por conta de um parto normal e um pai afoito sem saber ao certo como agir — quanto a isso, há coisas que realmente não mudam nem mesmo com a Sagrada Família.

Que Deus é esse, pergunta a alma cética de Peter, que se deixou nascer tão fraco e bobinho num mundo onde a pedagogia mais adequada é a do do Lupus est homo homini lúpus (O homem é o lobo do homem).

Me diga, Joseph, qual Deus trocou a eternidade metafísica e seu trono feito de matérias nunca jamais sondadas, por um berço feito pelos mesmos elementos das camas de cavalos e bois?

Joseph, que Deus escolheria tão mal os seus seguidores? Seguidores esses de moral turva, de corações maculados e de vontades dúbias. Jesus é um Deus-Rei que desperdiçou sua estada na terra com lamentos de prostitutas, leprosos, viúvas, samaritanos e multidões que esqueceriam de suas palavras antes mesmo que o sol se pusesse. Um Deus que escolheu homens que, no seu pior momento, se esconderam atrás de arbustos, mentiram sobre conhecer aquele que há dias chamava de “Mestre”.

Que Deus enfrentaria o poder corrupto dos Mestres da Lei, sabendo que o seu fim não poderia ser outro além da própria ruína? Que Deus se colocaria entre pedras e adulteras, apagaria os estatutos de Moisés na frente de uma multidão e escreveria, ali mesmo, no chão pedregoso salpicado das armas do crime que infalivelmente ocorreria, a nova lei a ser seguida: “Amar a Deus acima de tudo, e os outros assim como a nós”. Que Deus é esse?

Que Deus choraria por um amigo e usaria de sua influência com Deus para negociar a volta de Lázaro ao mundo dos vivos — mesmo após a sua carne já estar fedendo a corrupção da matéria. Que Deus que chora por amigos humanos, Peter?

Que Deus é colocado no tronco, é açoitado com tamanha violência que sequer seus inimigos ficaram para ver o espólio de suas sanhas por sangue? Que Deus, Peter, já foi trocado por Barrabás? Que Deus é esse? Que Deus olhou com cabeça erguida, para um emissário de César — o grande César da Eterna Roma —, e cravou que ele era Rei sim senhor, Rei de um reino que jamais os pés pagãos de Pilatos pisariam?

Por fim, que Deus é carregado e exposto em sua nudez sanguinolenta ante ao povo que, há poucas semanas, o aplaudia e dividia os seus cinco pães e dois peixinhos numa multidão sorridente e satisfeita; uma multidão que dias atrás o aclamava com ramos e o chamava de “messias”… Que Deus, Peter, se torna a atração principal de uma carnificina? Que Deus que vai para a cruz?

Pior, Peter. Que Deus vai para a cruz por amor àqueles que o levou para o madeiro da morte? Que Deus é esse?

A história de Jesus é um fracasso do ponto de vista humano, e por isso eu entendo Peter Joseph e sua presteza em tentar explicar Jesus como sendo várias camadas de deuses, um compilado de mitos antigos. Uma mentira feita por desocupados. Explicar um Deus tão paradoxal, em termos gerais, é extremamente difícil, e há 2 mil anos as mentes mais brilhantes já nascidas tentam fazê-lo.

Cristo é um Deus que, humanamente dizendo, não deu certo; e, ou seus construtores foram extremamente tolos e levianos, e num descuido inexplicável construíram uma estória fajuta, fracassada e naturalmente condenada à repulsa, ou os evangelhos simplesmente são verdadeiros — assustadoramente verdadeiros. Que literato se ocuparia em escrever um relato tão estranho à sua época, que ficcionista perderia tempo para falar de um homem que foi negado por seus próprios seguidores? Os evangelhos foram os escritos feitos para dar errado, e hoje é o livro mais lido pela humanidade. Novamente paradoxal…

Se fôssemos peritos em criações de deuses e mitos, com certeza não faríamos nada parecido com a história do Cristo. Suas ações são contrárias a tudo que cremos ser o que se espera de um Deus. Aquilo que com certeza seria a maior desonra de um deus, a crucificação, se tornou o principal alento das almas dos seguidores do Cristo.

Eu acabei de chegar da paróquia, e a minha Igreja possui uma bela imagem de Jesus crucificado em mármore, em tamanho real — suponho — ao que imaginamos ter sido as medidas da cruz real e as do Cristo histórico. Eu parei ali, e metafisicamente tentei me colocar naquele fatídico dia, o dia em que o Deus mais “fracassado” da história se terminava no madeiro — domingo vai acontecer uma coisa, mas não darei spoiler aqui —, ajoelhado ali eu me perguntava novamente: qual Deus aceitaria morrer no lugar daqueles que Ele próprio criou, no lugar daqueles que o traíram e traem sem demora.

Dizem, Peter, que o motivo da rebelião de satanás foi a incompreensão de Lúcifer frente ao amor incauto de Deus pelos homens imaturos, fracos, de caracteres vadios e moralidades falhas; não aguentando a afronta à sua perfeição angelical e enciumado por aquele inexplicável amor, satanás preferiu criar o próprio reino decaído em egocentrismo e ressentimento.  E, agora, olhando para o madeiro ensanguentado, Peter, confesso que também não entendo esse amor apesar de aceitá-lo, constrangido e agradecido, mas o aceito.

Aceito tal amor, mesmo não sendo justo, mesmo eu sendo profundamente falho e tantas vezes caído. E assim como você, só que com um modo diverso de encarar o assombro do fato Jesus, eu me pergunto sinceramente todos os dias: quem é esse Deus?

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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