Por que você deve assistir a “Um homem de sorte”

Distribuído pela Netflix, o filme Um homem de sorte deveria ser assistido por todo conservador. Misto de aventura quixotesca e tragédia grega, a obra é provocativa e emocionalmente densa. A trama foi baseada no romance Lykke-Per (1898-1904) do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan, vencedor do Nobel de Literatura. Dirigido por Bille August, mesmo diretor do ótimo Trem Noturno para Lisboa, o longa saiu em 2018 e agradou a crítica especializada. Aqui faremos uma análise sem spoilers, tratando apenas superficialmente das questões abordadas no filme. Quando terminar a leitura, o leitor deve ir correndo à Netflix e dar play.

Embora a Netflix seja eventualmente influenciada pela agenda globalista, não se pode negar a capacidade da empresa de produzir filmes interessantes ao público conservador. Quando se dedica a produzir arte de qualidade, e abandona as pautas do pós-modernismo, a empresa é muito bem-sucedida. Afinal um bom filme produz no espectador impressões que ultrapassam as meras opções político-partidárias. O conservador não é um consumidor obsessivo da política, ele está interessado em apreender o gênio artístico por trás das grandes obras, em conhecer o humano por meio dos temas eternos que constituíram a imaginação moral do Ocidente. É por isso que ele frequenta as livrarias, os cinemas e os teatros mais que o plenário. A política é parte da vida civilizada, mas, na escala axiológica, está situada em posição inferior aos valores morais e estéticos, que pairam acima da arena mundana do poder.

Um homem de sorte trata de antigos dramas humanos, presentes em obras atemporais como a Odisseia de Homero, Dom Quixote de Cervantes, Hamlet de Shakespeare. Aqui vai uma breve sinopse. O protagonista é um jovem ambicioso e inteligente chamado Peter Sidenius, interpretado por Esben Smed. Criado em austero ambiente familiar, numa pequena propriedade rural da Dinamarca, Sidenius é aprovado para estudar Engenharia na escola politécnica de Copenhague. De posse da carta de aceitação, o jovem se sente encorajado a romper com os pais religiosos, e parte para estudar na capital, aonde deverá viver pelos próprios meios, sem auxílios nem privilégios. Ao chegar a Copenhague, Sidenius conhece figuras que irão desempenhar papéis fundamentais em sua evolução psicológica, revelando seus vícios e suas virtudes. Um Homem de Sorte traz um protagonista multifacetado e movido por sentimentos contraditórios.

Uma característica evidente em Sidenius, apresentada logo nas cenas iniciais, é sua ambição. Desejoso de ultrapassar as fronteiras do terreno doméstico, o jovem é aprovado para a faculdade, e com isso adquire o passaporte necessário à viagem rumo à maturidade. O maior desafio é chegar à capital e conquistar uma posição respeitável. Sidenius logo se vê embrenhado em relações instáveis, envolvido em tramas paralelas que o enredam e seduzem. Esta questão é recorrente na literatura de costumes, e aparece em O vermelho e o negro, do francês Stendhal, romance que retrata a atribulada ascensão social de Julien Sorel, jovem semelhante a Sidenius. Para os protagonistas de Stendhal e Pontoppidan, o vício do egoísmo enfrenta a virtude da solidariedade, o que inspira um conflito latente entre inveja e admiração, ódio e compaixão, piedade e rancor. A trajetória de ambos os personagens é constantemente constrangida por dilemas morais que ilustram, de modo metafórico e sintético, os desafios e as possibilidades do homem moderno. Uma grande questão se coloca para o talentoso engenheiro Sidenius: é possível dominar a natureza por meio da ciência, mas será possível dominar-se a si mesmo? Isto nos lembra da inquietante pergunta de Cristo: que adianta ao homem ganhar o mundo e perder a alma?

Note-se que a palavra dinamarquesa Lykke, que dá nome ao filme, pode significar simultaneamente sorte ou felicidade. Ao longo do enredo, Sidenius é chamado de “sortudo”. A sorte do protagonista é produzida por ocasiões fortuitas que ele julga controlar sabiamente, vendo-se como senhor do destino, e não como escravo da providência divina. O espectador atento pode se indagar sobre a extensão do arbítrio humano, se é livre ou não. Sidenius acredita apenas em si mesmo, deposita as esperanças exclusivamente em suas habilidades terrenas. É um meritocrata convencido de que não há espaços na sociedade para homens fracos, sabe que está sozinho no mundo, e que sua sorte depende apenas de seus feitos. Ironicamente, a consciência da solidão cosmológica não desanima Sidenius. Ele não se sente desamparado por Deus, mas sim determinado a ser o seu próprio deus. Como muitos ateus, Sidenius substitui a fé no Criador pela fé na criatura, trocando o altar cristão pelo ídolo antropocêntrico do humanismo.

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O protagonista de Um homem de sorte busca ascender na pirâmide social. Acontece que, como Julien Sorel, Sidenius cresceu afastado dos grandes centros urbanos, isolado da turbulência citadina. A sensação de aprisionamento faz o jovem odiar seu meio de origem e tudo que o caracteriza, inclusive sua devota família cristã, vista como obstáculo a ser superado no caminho. Eis uma segunda característica marcante no personagem: ele quer atingir os céus, e, para tanto, corta violentamente suas raízes na terra. Trata-se, sobretudo, de desafiar a autoridade paterna. O pai de Sidenius é um chefe familiar rústico e rigoroso, temente a Deus e cioso de seus deveres. Incapaz de se comunicar com o pai, Sidenius desiste de se comportar como filho. O que motiva o desejo por independência do personagem? Não é a vontade de viver dos próprios ganhos, sem sobrecarregar o bolso dos pais; é, sim, o desejo de conquistar o mundo sozinho, sem dever nada a ninguém. Afinal a gratidão é uma forma de comprometimento intolerável para quem ambiciona viver isolado em si mesmo. O jovem então deixa a casa paterna, recusa a fé cristã em que foi educado. Torna-se rebelde, blasfemo e imprudente – um progressista arquetípico. É o egoísmo atiçado pela vaidade, um sentimento próximo ao que motivou o filho pródigo a se retirar precocemente de casa.

Como o romance As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, o filme Um Homem de Sorte explora as movediças relações estabelecidas entre membros da alta sociedade. Os personagens valorizam as aparências e se movem na cenografia social como nobres puro-sangue. Recém-chegado a Copenhague, Sidenius conhece pessoas que podem elevá-lo à condição de potentado. Para obter o apoio de seus novos colegas, o protagonista deve aprender a ser dissimulado e cínico, deve dominar a linguagem afetada e cortesã dos estratos superiores. Como um caipira desacostumado às maneiras da cidade, Sidenius vai lentamente absorvendo as qualidades da civilização, inclusive os vícios. Este movimento de absorção do sujeito pelo meio pode ser interpretado segundo a teoria mimética desenvolvida por René Girard. Segundo ela, os indivíduos possuem desejos influenciados pelos desejos de outros indivíduos, tomados como modelos exemplares do que se objetiva alcançar na vida. Per Sidenius é absorvido pelos figurões de Copenhague, logo deseja tornar-se um deles. É a inveja autocentrada o que o motiva, não a emulação humilde. Se o desejo humano é imitativo, e se o objeto desejado é escasso, logo haverá conflito entre os indivíduos desejantes. Os conflitos não demoram a surgir no filme, e envolvem questões fundamentais de convivência.

Outro tema interessante é a vida amorosa do protagonista. Sidenius chega à capital e se sente imediatamente deslumbrado pelas mulheres, e se vê impelido a cortejá-las, conquistá-las como um Don Juan. As amantes do jovem engenheiro se sucedem de modo irregular, cada uma representando uma diferente oportunidade de realização social. Bem-afeiçoado e solteiro, Sidenius é um pretendente ao coração de muitas moças, mas, por força de seu gênio, é levado a cortejar apenas quem goze de prestígio. Nesse aspecto, Um Homem de Sorte dialoga com uma extensa galeria de personagens galantes da literatura ocidental, sobretudo com o Bel-Ami de Maupassant. Georges Duroy, principal figura do romance francês, logra subir na sociedade parisiense por meio de aventuras amorosas. Nas duas obras, as mulheres aparecem frequentemente como objetos de consumo sexual, e não como companheiras dignas de apreço. O casamento é somente uma questão burocrático-legal do Estado, não representa a união afetiva e espiritual de um homem e uma mulher. Porém Sidenius se apaixona. As consequências desta paixão são imprevistas e mantêm o espectador entretido.

Por fim, o orgulho é sobejamente trabalhado na trama. Sidenius representa tipicamente uma classe emergente da Dinamarca recém-industrializada: os engenheiros. Os dinamarqueses do século XIX viam os vizinhos britânicos na vanguarda do desenvolvimento industrial, viam os prodigiosos empreendimentos ingleses como a manifestação da inteligência humana. Com o auxílio das ciências aplicadas, a economia poderia se desenvolver, e o país poderia enfim ser aceito no rol das potências europeias. Talentoso e precoce, Sidenius chega à Copenhague com projetos acabados de engenharia que, se agradassem as autoridades técnicas, poderiam abrir novos caminhos para a Dinamarca. O aprendiz de engenheiro está convicto da superioridade de suas ideias, mas terá de enfrentar a resistência dos funcionários do Estado que desautorizam seus planos. Nesse momento, o protagonista tem de tomar decisões importantes que podem dificultar sua realização profissional, pois terá de controlar a vaidade e engolir o próprio orgulho. Para quem ambiciona conquistar o mundo, a rejeição é inaceitável.

Assistir a Um homem de sorte é um deleite estético, mas também um meio de polir o nosso imaginário. A imaginação moral é um dos elementos fundamentais do conservadorismo, e, cultivada com as melhores artes, pode orientar decisivamente a vida humana em direção a fins superiores. Nesse caso, os sentimentos mesquinhos e gananciosos de Sidenius representam o individualismo nocivo inscrito definitivamente no caráter decaído do homem. Pode-se lê-lo como o herói do egoísmo: malfadado e prepotente, inseguro e vaidoso. Nos dias de hoje, em que se afirma a superioridade moral do indivíduo diante da sociedade, é importante repensar o que devemos aos outros, nossos familiares ou compatriotas, e o que reservamos a nós mesmos. É uma questão permanente, que bons filmes podem abordar de modo inspirador.

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Rafael Valladão

Rafael Valladão

É licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Colunista do Instituto Liberal e coordenador local do Students For Liberty Brasil. É professor voluntário de Sociologia em pré-vestibular desde 2014

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