Entre o ideal almejado e a realidade imediata

Foi inevitável ler “O feijão e o Sonho”, de Orígenes Lessa, e não associar o drama vivido pelo casal com as lições ensinadas pelo professor em suas aulas e livros. Essa relação quase instintiva não se deu apenas pelo fato dessa leitura ter sido uma indicação do próprio professor, mas também porque o embate simbolizado no romance pelas figuras de Campos Lara e sua esposa, Maria Rosa, é o mesmo drama que assola as almas individuais em geral e que o professor mostra como superá-lo.

O que se tem representado no drama do romance é a dificuldade de associar os sonhos e aspirações pessoais com os empecilhos que a realidade imediata impõe e que se tornam obstáculos por vezes intransponíveis para a realização daqueles mesmos sonhos. Esse embate entre o ideal e a realidade é simbolizado nas figuras do protagonista e sua esposa: Campos Lara está sempre com a cabeça nas nuvens, imerso no sonho de ser um grande escritor, deixando mesmo de se preocupar com tudo o mais, até com a miséria na qual sua família estava vivendo; Maria Rosa é a âncora que a muito custo busca o marido de volta das suas divagações para o mundo real, lembrando a ele que o aluguel está atrasado, os filhos passam fome e mal têm o que vestir. Ambos são os extremos absolutos, os pólos opostos do drama humano: Campos Lara é o ideal abstrato que se esquece da realidade e Maria Rosa é a realidade nua e crua que não reconhece a devida importância de se ter um ideal a buscar.

Ora, uma das principais lições que o professor tantas vezes ressalta é que essas duas realidades não devem ser tomadas como excludentes, mas sim como interdependentes, uma intimamente associada a outra. É precisamente como na frase de Ortega y Gasset tantas vezes enfatizada pelo professor : “a reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem”, ou, em outras palavras: “yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo.” O que de fato sou na minha vida não são apenas as aspirações e sonhos que alimento no íntimo do meu coração, tampouco apenas as situações imediatas que a realidade imediata impõe sobre mim, mas uma tensão entre as duas coisas.

Ao longo de todo o romance, os personagens nunca perceberam a necessidade da articulação entre os dois pólos, e assim a história é do início ao fim um conflito entre a esposa e seu marido, entre o real e o ideal, o concreto e o abstrato, o feijão e o sonho. Esse conflito entre os opostos absolutos me trouxe à mente a explicação simbólica que o professor fez acerca da gravura de William Blake sobre os monstros bíblicos Beemot e Leviatã, o “peso maciço da necessidade natural” contra o “mundo psíquico”. Reduzindo a proporção desse simbolismo, porém sem chegar ainda à situação presente na realidade – pois o drama que o livro representa em dois personagens distintos, no mundo real se passa na alma de um mesmo indivíduo – tem-se o embate entre Maria Rosa e Campos Lara.

A rememoração desse simbolismo ajuda a evitar um equívoco que pode facilmente ocorrer numa leitura mais superficial: o de se supor ser Maria Rosa o personagem mais sábio da história. Pois, embora Maria Rosa simbolize o apelo da realidade imediata às necessidades humanas, e Campos Lara o espírito de abstração e idealização, ambos são igualmente forças absolutas, extremas. Enquanto Campos Lara perde a perspectiva da realidade imediata em detrimento dos sonhos pessoais a que almeja, Maria Rosa, bem ao contrário, perde a perspectiva do ideal de vida e está completamente imersa nos aspectos mais imediatos da existência. É exatamente sobre essa perda de perspectiva e os danos que dela advêm que o professor fala num artigo intitulado “O abandono dos ideais”. Ali estão descritos os imensos prejuízos psicológicos – origem de diversas neuroses – quando se perde do horizonte de consciência a perspectiva de um ideal de vida a ser alcançado.

Talvez então, exatamente por ter identificado na perda desse ideal perfeito a origem das desorientações e neuroses que acometem o indivíduo, o primeiro exercício da primeira aula do professor seja o necrológio: precisamente o esforço de trazer de volta a esse horizonte de consciência o modelo de vida que se pretenda levar, torná-lo uma presença constante ao longo da existência e fazer dele o ponto de referência que impedirá a desorientação do indivíduo quando atingido pelas inevitáveis circunstâncias mais ou menos desfavoráveis que lhe vierem a aparecer.

O livro de Orígenes Lessa é um drama inteiramente vivido devido à impossibilidade que o casal tem de fazer as devidas articulações entre o sonho de vida a ser alcançado e a realidade concreta a ser superada, não ignorada – este, um erro no qual Campos Lara cai repetidamente. Um exemplo marcante dessa falha do protagonista é o momento em que, empolgado na criação de um novo romance que giraria em torno da miséria vivia por trabalhadores comuns, Campos Lara inventa de andar pela cidade para fazer pesquisa de campo observando como essas pessoas lidavam com a miséria, quando poderia tirar essas lições da sua própria experiência e da sua família, que viviam há tempos em estado degradante. 

Por fim, no combate cruel entre um sonho meramente abstrato e a realidade nua e crua, esta última vai sempre terminar por arrastar o sujeito para baixo e dominá-lo. Se não houver a devida absorção das circunstâncias imediatas para dentro do ideal a ser alcançado e, assim, os sonhos não passarem de meras nuvens pairando no ar entregues à primeira ventania que lhes atingir, sem o mínimo de estrutura que os conecte à terra firme, a realidade imediata vai inevitavelmente tragá-los. Foi exatamente o que aconteceu com Campos Lara. Tal qual no fim Beemot, com seu peso esmagador, saiu vitorioso sobre as investidas de Leviatã, os apelos constantes de Maria Rosa, junto com a repetidas derrotas pelas quais passou Campos Lara, fizeram com que ele abandonasse seus sonhos. Não sabendo articular seus ideais pessoais com o drama imediato no qual viviam ele e sua família, Lara foi derrotado pelo mundo.

Ao longo da leitura desse livro, constantemente eu me lembrava do professor. Os dramas pelos quais os personagens passavam – a pobreza, a fome, as humilhações, a dificuldade de seguir o sonho – me pareciam muito semelhantes aos relatos que o próprio professor conta da sua própria experiência pessoal. Imaginava o quanto daquilo se assemelhava à sua própria vida. Mas rapidamente me ficou claro o fator essencial que diferencia o drama do professor do drama vivido pelos personagens. O professor parece ter entendido muito cedo que não existe essa separação radical entre o sonho e a realidade e, então, sempre se empenhou em articular, na totalidade da sua personalidade e da sua vida, esses dois fatores, de tal forma que a realidade imediata seja o ponto de partida dos seus esforços e reflexões, não uma coisa a parte. E assim, se há semelhança nas dificuldades vividas tanto pelo professor quanto pelos personagens, ela se limita a isso mesmo – às dificuldades em si mesmas. Pois os motivos pelos quais cada um viveu essas dificuldades foram bem diferentes. Campos Lara as viveu por não saber lidar com elas, já o professor, se também as tiver vivido, foi por outros motivos que não o de não saber articulá-las com sua vocação. E exatamente por saber fazer essa articulação entre as circunstâncias e os sonhos, o professor, diferente de Lara, não foi derrotado pelo mundo.

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