O processo

Numa livraria, viajando entre as prateleiras um tanto quanto descuidadas e empoeiradas, na ação tão rápida e instintiva quanto a resposta do espirro à poeira (ou da tosse seca) eu alternava entre os séculos. Olhei para o relógio e vi que já era tarde, precisava ir para casa, logo de manhã integraria uma manifestação. (Assim como eu com os livros, o leitor amigo pode ameaçar um espirro ou uma tosse pela velha discussão empoeirada, ansioso por saber o cunho da manifestação: Democrática ou não? Acalme-se e assopre a poeira).

Basta por hora saber que comprei apenas um livro, O Processo, de Kafka. Sem pretensão alguma o comprei, talvez o leitor, assim como a senhora que recebeu o pagamento pela obra, não creia nessa possibilidade, mas asseguro que sim. Depois de vencer o processo no tribunal do caixa, sai.

Apressado por digerir a obra, comecei a folheá-la, mas creio que não avancei para além da décima página. Não prossegui porque um som me chamou atenção – Não. Não era um espirro ou uma tosse. Eram vozes! Ressaltavam sobre o resto, pareciam estar acima, parecia-me no topo. Olhei ao redor, e vi apenas três homens, isolados, cada qual seguindo uma direção. Não eram eles.

Olhei para cima, apenas uma luz acesa num luxuoso condomínio. – Achei, disse para mim mesmo. Aproximei-me para tentar entender o motivo de tanto falatório, pois parecia um tribunal em chamas. Progressivamente me aproximando, tentei contar o número de vozes. Em vão tentei. Mas, se a quantidade me era indefinida, a desigualdade sexual eu consegui captar: somente duas mulheres estavam presentes; outras vozes tinham um tom afeminado, mas nada mais era que falta de testosterona.

Ignorei meu relógio, ele tornara meu maior inimigo. Ditava tudo; ditava o tempo. Minha expectativa era tamanha que acendi um cigarro, posto que a ocasião merecia, fechei o livro e inclinado senti um aroma: era lagosta…

De repente, finda a primeira tragada, ouço a campainha tocar. Tocou dezenas de vezes, à medida que a quantidade aumentava, a força acompanhava; abriu-se a porta:

– Alexandre! Graças a Deus, digo, Graças a nós você chegou, disse uma das vozes femininas.

– Mesmo compromissado, não deixaria de vir compartilhar com meus colegas o êxito de um inquérito tão bem formulado, não é mesmo, Rosinha? Respondeu o sujeito que exibia uma careca inconfundível, mesmo de longe.

Já suspeitava de tudo, eram os ministros. Todos eles! E o diálogo residencial continuava. Um empregado abriu a cortina da sala de estar e vi tudo. Num canto, três deles: Toffoli, Fux e Celso. Pela arrumação da mesa e os afazeres culinários estavam responsáveis as damas: Rosa e Carmen. Os outros estavam dispersos, Alexandre e Gilmar degustavam um vinho gaúcho, Lewandowski, Fachin e Marco Aurélio jogavam baralho, num jogo que já parecia durar muito tempo, nenhum aceitaria perder. Barroso estava na toalete.

— Companheiros, está tudo pronto. Podemos jantar, anunciou Carmen, com um tom afável.

A mesa estava realmente bela. Tudo em seu devido lugar, copos, taças, absolutamente tudo. A louça parecia querer compensar a função mal desempenhada pelos ministros, pois respeitavam a ordem e a função. O garfo e o guardanapo estavam quietos, esperando que fossem solicitados, esperando o momento certo para agir. E os ministros, caro leitor, comiam adoido, insaciáveis.

Num dado momento Gilmar pergunta como cada um passou o dia. As respostas foram muitas. Alguns falaram indignados sobre as notícias falsas, como Tofolli, por exemplo. Já Rosa estava mais chateada, foi vítima do gabinete do ódio.

Entre lamentações surge Alexandre, intentando passar esperança para os colegas, dizendo que pelo poder de sua caneta, casas foram invadias, e uma mulher foi presa. Não deu outra, a esperança contagiou toda a mesa. E disse ainda Alexandre:

— Não pensem que isso foi uma ação só minha. Foi nossa, companheiros. Cada um de vocês tem a parcela. Mas agradeço especialmente ao nosso presidente Tofolli, sem ele nada poderia assinar.

Todos aplaudiram, emocionados – deixando de lado os talheres e a ordem das louças – perceberam que a ocasião merecia um brinde. Barroso foi até a adega, pegou um bom champanhe e distribuiu igualitariamente entre as taças a bebida.

Antes das taças ressoarem a nota fina; a democracia desta prestes a ser brindada quando alguém lembrou das manifestações. E de novo, o clima espumou, sentaram-se e foram avaliar as condições.

— Amanhã logo cedo aqueles vagabundos terroristas vão nos azucrinar, palpitou Fux.

— Nem me fala. Logo domingo, o dia que para mim deveria ser o mais tranquilo, porque rego minha horta orgânica, disse Carmen.

— Amanhã é o aniversário de minha filhinha, planejei fazer uma surpresa: compraria todos os livros de Judith Butler. Ela me pediu dias atrás, viu-os na universidade, disse a outra dama.

— Por que tanta preocupação, pessoal? Essas manifestações são tiros na água. O que nos ameaça? Já fizemos todo o necessário para ser o que nascemos para ser: Supremos! disse Tofolli.

— Isso mesmo. Não me importo de gastar a tinta de mias algumas canetas para novos mandatos de busca e apreensão. É só manter tudo ilegal e sigiloso que os terroristas nada farão, arrematou Barroso.

O espírito de grupo voltou a habitar o lugar e a mesa novamente foi impregnada pelo coletivo da instituição democrática. Brindaram felizes e foram à varanda. Me escondi para ouvir mais da conversa, afinal de contas o que os impediria de me considerar uma ameaça à estabilidade e me prenderem? (O que sou além de um conservador ameaçador?)

Foram todos, os onze à varanda, com as taças na mão debochando das bandeiras que viam, como por exemplo, quando Lewandowski, ao olhar a verde é amarela disse:

— Isso é fascismo puro, nacionalismo vergonhoso. Ainda bem que cortamos as asinhas desse maldito Presidente da República.

— É como eu disse meu amigo, esse Bolsonaro pode ser comparado a Hitler, concluiu o raciocínio Celso.

Por ter dado atenção demasiada aos preservadores da Ordem, não percebi a movimentação na rua, e quando me voltei lá estavam os três sujeitos do início, sem tempo de avisá-los do perigo próximo, do perigo que vem de cima, da varanda, voltei os olhos para os ricaços para ver se algo fariam.

O primeiro homem, que aparentava se encontrar na faixa dos 40 anos, estava com a barba um tanto grande, e um terço na mão, sussurrando uma oração. Quase certo estou de que era o “Pai Nosso”, pelas palavras espaçadas que ouvi. Todavia não fui o único que ouviu. Fux ouviu, compartilhou a aberração com os colegas e gritou ansiosamente:

— Isso fere o estado laico! Pare com isso agora.

— Encontrem o endereço desse terrorista, amanhã ele acordara com a PF, reforçou a ideia algum outro cuja voz não consegui distinguir.

O sujeito nem ouviu, estava tão entregue que seguiu seu caminho, com a Fé desde os olhos até a ponta dos dedos. O segundo homem era um pouco mais velho – uns 60 anos, estimo – com sua bengala, escorou-se na parede e tirou um cigarro do bolso. Mas ao pegar o isqueiro foi percebido. Carmen o avistou e revoltosa chamou os colegas:

— Olhem, isso é ecologicamente errado! Inaceitável!

O último estava ao telefone, negociando com o gerente do banco a conta de luz que não conseguiu pagar no último mês por conta da peste chinesa. Teve de ficar em casa, seu comércio foi fechado. Dizia ele:

— Eu tenho uma família, doutor. Vamos negociar, pago no próximo mês. O senhor precisa me entender, não tem comida, a igreja nos deu uma cesta básica que não durou. Minhas filhas pequenas carecem de leite, por favor, entenda-me.

Todos os ministros ouviram, a voz do desespero alcançava a todos, emocionava-me. Mas o que chamou atenção de Barroso não foi isso, como ele mesmo justificou:

— Como assim “família”? E o aborto? Filhas pequenas, mas onde fica a ideologia de gênero? Esse homem é um perigoso e subversivo. É mais que isso, é uma ameaça à Instituição.

Revoltados, ignoraram a situação real do pai e entraram novamente. O pai desligou o telefone, alegre gritou: “Obrigado, meu Deus”. O último ministro da fila dos ministros achou que o agradecimento era para ele e entrou todo contente. Enquanto todos aos berros falavam sobre a soltura e a prisão de Sara Winter, decidi partir.

O cigarro já estava apagado e quando dei o primeiro passo o livro caiu, peguei-o e na página aberta continha: “Não resta qualquer dúvida de que por detrás de todos os procedimentos deste tribunal, portanto no meu caso preciso, por detrás da detenção e da presente instrução, dissimula-se uma vasta organização. Uma organização que não só emprega guardas corruptos, inspectores estúpidos e juízes de instrução modestos no melhor dos casos, mas sustenta além disso uma alta magistratura e uma magistratura suprema, com o seu incontornável cortejo de oficiais de diligências, de escrivães, de polícias e de outros auxiliares, talvez mesmo os seus carrascos, a palavra não me mete medo. E qual é o sentido desta vasta organização, senhores? Consiste em fazer prender pessoas inocentes e em intentar contra elas processos judiciais loucos e, na maior parte das vezes, como no meu caso, sem resultado”.

Mas, e a manifestação? Será democrática ou não? E então, leitor foi nessa noite que percebi que a corda se rompeu e está prestes a nos enforcar. Cheguei em casa e tive uma surpresa: O COF tinha chegado ao fim. Perdi uma aula, guardei de roupa e separei o arsenal do dia seguinte: três bombinhas, um uniforme verde amarelo, uma caneta e a cartolina. É leitor, por um gesto kafkiano o Conservadorismo está sendo criminalizado no Brasil.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Yuri Ruiz

Yuri Ruiz

Um jovem conservador, antifeminista, antimarxista e cristão.

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