CONVENÇÕES ILUSÓRIAS: A Imaginação Educada de Northrop Frye

Na busca intelectual, quanto mais se lê, mais se vê e se quê. Cada nova leitura traz consigo algo a se deparar e a se questionar. Parece um pré-requisito. Como dizia Nelson Rodrigues “mais que uma tortura, era um hábito”. Essa tal literatura parece ter o poder de dizer o novo já repetido e mostrar de maneira inédita o que já está velho.

Seguindo a indicação de Rodrigo Gurgel, eu li e adquiri – na ordem inversa, para ser mais preciso e menos sonoro – o livro A Imaginação Educada de Northrop Frye. Autor tal que nunca havia ouvido falar e, confesso: segui a indicação mais pelo nome do indicador que do indicado. Porém, é interessante notar que em cavernas escuras, nas quais entramos às vezes por acidente, é que encontramos as joias mais raras e inesperadas. E eis que as pérolas desse autor eram justamente as que procurava para ornamentar os meus adornos mentais.

Não quero aqui privar o interlocutor da experiência de ler a referida obra. Por isso, vou selecionar apenas algumas dessas joias e explaná-las. E quando digo interlocutor já deixo aqui a primeira contribuição, pois esta é uma maneira de conversarmos. Essa conversa acontece entre o autor e o leitor, de maneira unilateral e atemporal. Contudo, apesar do autor ser uno, o leitor é variado. Várias pessoas poderão ler estas linhas, em vários momentos. Que presunção a minha não é? Mas inevitavelmente é dessa maneira que a linguagem escrita trabalha. Quanto tempo se passou desde que Vitor Hugo escreveu Os Miseráveis, ou desde que Dostoiévski escreveu Crime e Castigo? Ainda assim esses e outros autores continuam falando conosco.

A importância da literatura é procurada e esboçada durante o decorrer do livro. Seja em poesia ou em prosa, o autor exemplifica de quais maneiras a literatura pode influenciar e ajudar na vida humana.

Já o poeta, diz Aristóteles, nunca faz afirmações factuais, muito menos particulares ou específicas. Não é a função do poeta informar-nos o que aconteceu, mas o que acontece. Ele não nos conta aquilo que se deu, mas aquilo que se dá sempre – o evento típico, recorrente, ou como chama Aristóteles, universal.

Universalidade é uma característica de elementos presentes e, mais que isso, comuns a todo um universo. A presença desses elementos é latente, algo que ocorre em sentido de pleno presente. A personagem Fantine, que engravidou e foi abandonada com sua filha Cosette por um homem imaturo qualquer, é a mesma mãe desamparada de hoje e de amanhã. Raskólnikov ainda comete seus crimes injustificados e se arrepende, só que ele foi batizados com outros nomes. Esses problemas e situações são chamados de típicos não à toa, mas porque tipificam o ser humano em sentido universal.

Ter contato com esse “faz de conta” da literatura nos ajuda a entender, por meio de uma metáfora, a eterna luta diária de se viver. Essa é uma das funções que justificam o estudo da Literatura.

Nossa impressões sobre a vida humana vão acumulando-se uma a uma e, para a maioria de nós, permanecem vagas e desorganizadas. Na literatura, porém, muitas dessas impressões de repente ganham ordem e foco. Isto é parte do que Aristóteles quer dizer quando fala em evento humano típico ou universal.

Esta função apresentada podemos chamar de similaridade, mas existe uma outra função também importante: a inspiração. É comum em romances, epopeias e crônicas a figura do herói. E o que é o herói? Alguém que tem características sobre-humanas, físicas, mentais ou emocionais, que se apresenta acima de nós e do qual irradia inspiração.

O Aquiles de Homero representa a ideia oposta: a do herói, um personagem sobre-humano, formidável. Aquiles é mais do que qualquer homem poderia ser, mas é também o que qualquer homem desejaria ser (…) Não é o retrato de um herói individual, mas a força ardente do desejo, da frustração e do descontentamento humanos, algo presente em cada um de nós, parte da humanidade inteira. (…) . Ninguém liga para o Aquiles histórico, se é que jamais houve algum, mas o Aquiles mítico reflete uma parte das nossas próprias vidas.

Importa salientar que essa superioridade inspiradora tem a sua porção de similaridade incutida em cada drama pelo qual passa o herói. E apesar de o herói ser um sujeito formidável, apesar dele ser superior a todos, ele é também mais um apenas. Pois enfrenta os mesmo problemas típicos.

Nessa hora um cético niilista de plantão me perguntaria: “Você quer mesmo que eu acredite que já houve um semi-deus chamado Aquiles e que eu devo me identificar com ele? Sendo que nem existe uma prova sequer dos seus feitos?” Minha resposta seria “Não”. Não interessa se ele existiu de fato. Interessa que o relato sobre essa pessoa – real ou não – foi e é importante para nós.

E o maldito niilista retrucaria: “Então eu deveria basear a minha existência em histórias, contos, que são na verdade meras ilusões, metáforas que nem sabemos ser reais. A vida então é uma ilusão?” Dessa vez, minha resposta seria: “Em parte sim”

Os materialistas e céticos tendem a ver a vida com algo totalmente real, destituída de ilusões práticas. Nem sempre isso condiz com a realidade. Existe uma dose de ilusão na realidade como conhecemos. E é com imaginação que nos protegemos dessas farsas cotidianas.

A sociedade em que temos de viver, (…) apresenta à nossa imaginação seu próprio substituto para a literatura: uma mitologia social, com seu próprio folclore e suas convenções literárias – ou o correspondente a elas. O propósito dessa mitologia é persuadir-nos a aceitar os valores e padrões estabelecidos na nossa sociedade.

(…)

A primeira coisa que a imaginação faz para nós, tão logo começamos a ler, escrever e falar, é lutar por nos proteger das ilusões com que a sociedade nos ameaça.

Entenda por “suas convenções literárias” as convenções pelas quais a sociedade como conhecemos funciona. Ilusões que exteriorizam a maneira que o indivíduo dever se comportar para ser parte dela. Tomemos por exemplo as vestimentas. Homens bem vestidos tendem a ser levados mais a sério e, além disso, são respeitados por questões de status, quando montados em carros de luxo e frequentando lugares almejados pela maioria. As mulheres também têm suas convenções ilusórias. As roupas muito bem coladas, de modo a salientar curvas, e suas maquiagens pesadas acabam por transmitir uma imagem. E somente imagens são os exemplos que dei. Nenhum deles mostra como a pessoa é como indivíduo e nem a torna, de fato, formidável.

Talvez essa a diferença entre bonito e belo. Essas convenções vão mudando de acordo com a moda. Um rapaz bem vestido já foi alguém que usa seu terno todos os dias, sempre com um colete entre o paletó e camisa com gravata e, é claro, com os sapatos muito bem engraxados. A roupas femininas já foram um espartilho, deixando metade dos seios à mostra, e uma saia armada que não dava nem pistas de suas pernas, mas também já foram outras coisas mais recatadas. Tudo isso é mutável. Varia de acordo com os padrões mais em voga na época.

No entanto, a escultura Pietá é bela desde que Michelangelo a produziu até hoje. É assim que a imaginação, oriunda das artes e da literatura, nos mostra o que é belo, o que é permanente, o que é universal, e não estas vãs ilusões momentâneas. Conhecendo essa imaginação educada nós somos protegidos das ilusões do dia a dia.

Isso opõe também a individualidade e o que o autor do livro chama de pensamento de turba. O pensamento de clichê é o melhor exemplo de como essas convenções podem ser enganosas, o qual é definido brilhantemente no livro como “fórmulas verbais pré-fabricadas, prontas para uso, destinadas a dar aos muito preguiçosos para pensar a ilusão de que pensam”. O pensamento individual, por sua vez, é marcado pelo poder de escolha, o poder de escolher pensar por si próprio.

…na medida em que essa sociedade parece real, o mundo ideal que nossa imaginação elabora dentro de nós parece um sonho vindo do nada, desprovido de qualquer realidade além das que inserimos nele. Parece, mas não é. Esse é que é o mundo real, a verdadeira forma da sociedade humana, escondida por trás desta que vemos. É o mundo daquilo que a humanidade já fez, e portanto daquilo que ela pode fazer, o mundo revelado a nós pelas artes e pelas ciências. É o mundo que não vai embora…

Quando se entende que a Verdade, que vem sido transmitida há milênios, não segue a “tendência da época”, se está livre, livre de ilusões. É contraditório o fato de que pelo exercício da imaginação se entende melhor a realidade, mas talvez seja isso que separe os comuns dos formidáveis. Outros animais e as máquinas podem ser muito inteligentes, mas é só por essa capacidade imaginativa, o ato de criar, que a humanidade é o que é.

 E como nem poeta nem prosador eu sou, deixo a escritura da lápide deste artigo para o autor dessas joias de conhecimento que tentei lapidar.

É a língua da natureza humana, a mesma que toma Shakespeare como Pushkin poetas autênticos e dá tanto a Lincoln quanto a Gandhi uma visão social. Ela só fala se pararmos para escutá-la em ócio, porque sua voz é muito serena e baixa para que o pânico consiga ouvir. E tudo que ela nos tem a dizer, quando assomamos à borda da nossa torre inclinada, é que não estamos chegando nem um pouco mais perto do céu, e que é hora de voltar para a terra.

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