Amizade como um bem comum: comentários de direito natural

Conservadorismo não é coisa de crianças. Ser conservador pressupõe, várias nuances do caminho da construção do ser até sua plenitude. Por isso, não raro é possível notar, àqueles participantes dos movimentos libertinos, a usar de grito, choro, confusões e histerias, para conseguir o que desejam, ações essas, típicas de crianças.

Por outro lado, como diz Roger Scruton, «o conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas[1]».

Disso, podemos depreender, que o trilhar do caminho conservador, é o trilhar do caminho à maturidade. E que esse caminho, inevitavelmente nos levará a observar as coisas «que herdamos coletivamente, coisas admiráveis que devemos nos empenhar para preservar[2]». A preservação «dessas coisas admiráveis» é o objeto central da vida conservadora e portanto, requer nada menos que o uso da razão prática.

Razão prática que é utilizar com «eficiência a inteligência (no raciocínio prático que resulta em ação) nos problemas de escolher as ações, o estilo de vida e de dar forma ao caráter[3]», dito em outras palavras, é a valoração moral que leva a praticar ou não um ato, objetivando o bem comum.

Essa valoração moral é uma lei régia, incutida de forma transcendente na mente da cada ser humano. Uma lei absoluta, que dá diretriz ao homem do que fazer e do que abster de fazer e portanto, vindo ele a negligenciá-la, automaticamente ela o acusa. Como ressaltou Jean Calvin[4]:

“Está fora de discussão que é inerente a mente humana, certamente por instinto natural, algum sentimento da divindade. A fim de que ninguém recorra ao pretexto da ignorância, Deus incutiu em todos uma certa compreensão de sua deidade, da qual, renovando com frequência a memória, instila de tempos em tempos novas gostas, para que, quando todos, sem exceção entenderem que há um Deus e são sua obra, sejam condenados, por seu próprio testemunho”.

Por mais que possamos negar a divindade, transcendência e existência de Deus, é impossível negar essa moral universal que nos esmaga, que está profundamente arraigada em nossos discursos de «certo ou errado», «bem ou mal», pois não apenas cremos numa verdade moral absoluta, nós a vivemos. Vivemos de tal modo que, ou lutamos para ter uma conduta moral que corresponda a essa verdade, ou tentamos cauterizar nossa mente, para agir de modo contrário a ele, recebendo a devida e esmagadora acusação. Não há como fugir da lei eterna. Cícero[5] já dizia:

“A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eterna, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que proíbe e, ora com seus mandatos, ora com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus. Essa lei não pode ser contestada, nem derrogada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de seu cumprimento pelo povo nem pelo senado; não há que procurar para ela outro comentador nem intérprete; não é uma lei em Roma e outra em Atenas, – uma antes e outra depois, mas una, sempiterna e imutável, entre todos os povos e em todos os tempos; uno será sempre o seu imperador e mestre, que é Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desconhecê-la sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se do seu caráter humano e sem atrair sobre si a mais cruel expiação, embora tenha conseguido evitar todos os outros suplícios”.

Podemos resumir o que até então fora apresentado da seguinte maneira: i) Existe uma lei transcendente ao homem e essa lei é universal e está gravada em seu coração. A lei eterna é que lhe dá diretriz do que é certo ou errado, bem ou mal, por isso que está em constante conexão com a subjetivade do homem, aquilo que denominamos de consciência moral; ii) o conservadorismo requer razão, portanto, maturidade; iii) conservadorismo em grande parte, é a luta para cumprir a consciência moral e preservar aqueles bens básicos autoevidentes, no seio de uma comunidade local, objetivando o bem comum; iv) esses bens básicos auto-evidentes, em grande parte, expressam ou fomentam a lei moral transcendente.

John Finnis[6], descreve sete bens básicos auto-evidentes, que segundo o autor, traduzem toda a realidade da experiência humana. No nosso último texto, tratamos do bem básico da vida e fizemos uma correlação com o assunto do aborto[7]. Cumpre nesse momento, tratarmos de outro bem básico, o da amizade.

Pode parecer extramente desconexo o assunto de «amizade» com direito natural e com o conservadorismo, mas não nos enganemos, «melhor é serem dois do que um (…) porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante[8]». A amizade está para o direito natural e para o conservadorismo, tanto quanto o amor está para graça e justiça.

Penso que a célebre frase de Cícero, «ó tempora, ó mores [ó tempos! ó costumes!][9]», se adeque e muito, aos vários contextos vivenciados em nossa época, entre eles, o de amizade. Não causa espanto nessa sociedade líquida, onde tudo rapidamente se desfaz, onde tudo é superficial, onde o certo é viver de aparências, não sabermos o que significa de fato, amizade.

A ressignificação do que é amizade, impera com tanta força nos tempos pós-modernos, que isso se expressa inclusive na linguagem. Lembro-me que, em um tempo não muito distante, estava a conversar com uma jovem Alemã e no contexto do nosso diálogo, em dado momento, questionei há quanto tempo, ela era amiga de uma outra jovem, a resposta para minha surpresa, foi que elas não eram amigas. Então prosseguiu a jovem: «algumas pessoas, fazem atividades e têm encontros em comum com outras, de forma regular e pensam que são amigas, mas amizade não é bem assim..». E de fato, não o é. Eu não acredito em amizades superficiais e se vocês me indagassem, para quem eu poderia ligar às 04:00 da manhã a tratar de um problema pessoal, conseguiria preencher, talvez uma mão com nomes, no máximo. Entretanto, fui pego, no meio do diálogo, pela relativização da amizade, pelo menos na linguagem.

Chamamos de amizade, os encontros de saídas ocasionais, festas anuais, ou mesmo aqueles que são rotineiros, mas vazios de significado, sem profundidade, sem preocupar-se com a dor do outro e assim por diante.

E o que falar da internet? Em terras de mídias sociais, somos repletos de contactos, mas vazios de amigos. Tudo é rápido, superficial, belo na aparência, mas malogrado no interior. Como Scruton[10] de modo avassalador ressalta:

“Quando a atenção está voltada para uma tela, porém, há uma nítida mudança de ênfase. O dedo está no botão. A qualquer momento, podemos desligar a imagem ou passar para um novo encontro. O outro é livre no próprio espaço, mas não é realmente livre no nosso, pois depende inteiramente de nossa decisão de mantê-lo lá. Conservamos um controle supremo e, importante, não nos arriscamos na amizade ao encontrar, face a face, o outro. Obviamente, o outro pode prender nossa atenção com mensagens, imagens e solicitações, e ficamos grudados na tela do computador. Ainda assim, estamos grudados na tela, não no rosto que nela vejo. Toda interação com o outro é à distância e só nos afeta se escolhemos ser afetados. Por intermédio dessa pessoa, desfrutamos de um poder cuja verdadeira consciência a própria pessoa não possui — pois não tem conhecimento da extensão de nosso desejo de mantê-la presente perante nós no espaço”.

Obviamente que não estou a criticar a sociabilidade como um todo, ela é importante. Precisamos as vezes de sair para tomar uma cerveja e rirmos junto com as nossas companhias, ou ainda conversar com aqueles que estão a quilômetros de distancia, por mídias sociais, ainda que não sejam amigos, no sentido pleno da palavra. E esses encontros, podem estar arrolados no bem comum do lazer (que falaremos em outra ocasião), ou mesmo como a parte superficial do bem comum da amizade. A sociabilidade é a entrada para o florescimento humano que leva a amizade.

E também, sei que é possível desenvolver uma amizade verdadeira, por meio de mídias socais, mas sou cético em dizer que essa amizade será plena. O olhar nos olhos, observar as expressões e ser afetado por aquilo que se diz, é algo próprio do contato pessoal.

Por isso, a amizade num nível superficial (que eu chamo, influenciado por Finnis) de sociabilidade, pode ser a «colaboração entre duas pessoas (…) para a realização, por parte de cada uma, de seus próprios propósitos individuais»[11]. Entretanto, não é ainda, amizade em seu sentido pleno, não é o que foi destinada para ser. Pois, «a amizade envolve agir no interesse dos propósitos do amigo, do bem-estar do amigo», portanto, ela envolve aquele tipo de amor sacrificial, sem a qual, não poderíamos subsistir.

Todos sabemos que os caminhos da vida são escuros e tortuosos, o que faríamos sem um amigo?

Sei de um fato ocorrido com um Senhor e com os seus colegas recrutas, quando serviram ao exército há anos atrás. Na última semana de prestação de serviços, aqueles jovens, encaram a sua última missão: foram deixados numa selva, com um estoque ínfimo de comida e deveriam atravessá-la, no máximo em três dias. Num dado momento da noite, ao atravessarem uma parte da selva com lama até o quadril, um dos jovens deixa cair uma pequena arma que carregava. A lei interna era dura – qualquer recruta que chegasse do outro lado, sem quaisquer dos armamentos, poderia ser disciplinado e preso. Aquele pobre rapaz, começou a chorar em alta voz. O grupo então decide parar, esfomeados, com pouco tempo restante para chegar ao objetivo final, mas pararam. Todos abaixaram e mergulharam na lama às vezes, apalpando-a, até localizarem a arma perdida. No fim, ela veio a ser encontrada, aquele grupo conseguiu chegar do outro lado, cansados, fracos de fome, com as vestes rasgadas ou com partes delas perdidas, com uns carregados por outros, mas todos com os armamentos.

Dizem que foram recebidos com honras, festas e um banquete. Esse ocorrido, ilustra tão bem o que de fato é amizade a meu ver. Nas intemperes da vida, quando nos perdemos em meio a lama, um amigo é aquele que nos estende a mão e nos ajuda, mergulha nela conosco se for necessário e estará ao nosso lado até que possamos nos estabilizar novamente. Ou chegamos juntos do outro lado, ou não chegaremos sozinhos.

A ideia de «lobos solitários» é tão egoísta quanto tola. Somos dependendes uns dos outros e todos de Deus. Foi assim que fomos constituídos e somente aceitando e vivenciado essa experiência maravilhosa que poderemos avançar na vida e na maturidade.

Por isso que Finnis pergunta: «Ter uma relação de amizade com pelo menos uma pessoa é uma forma fundamental de bem, não é?[12]», para aqueles que entendem a implicação dessa pergunta tão simples e profunda, a resposta não pode ser outra, a não ser: Sim! Amizade é um dos maiores bens fundamentais, e Scruton complementa: «é a forma mais elevada que o reconhecimento pode alcançar quando a outra pessoa o valoriza pelo que você é, busca seu conselho e a sua companhia, e vincula a vida dele à sua[13]».

Isso tudo pressupõe que para uma amizade ser real e verdadeira, é necessário o abrir-se. E creio que esse é o motivo por que as amizades são tão superficiais e as conversas são tão frívolas: não gostamos de expor fraqueza e não apenas isso, parece que não há espaço para a fraqueza. Parece que devemos sempre estar alegres, nunca falharmos, nunca sermos tentados e acima de tudo, sermos vitoriosos em tudo. Obviamente que isso é tão impossível, quanto o que ocorria na ilha de Utopia. As nossas experiências revelam para nós o contrário, mas por causa dessa superficialidade tão banal, sorrimos com uma capa falsa de aparência por fora, enquanto gritamos desesperados por dentro, choramos sozinhos, porque no mundo de likes, tristeza e feiúra são inaceitáveis.

Entretanto, o único caminho para amadurecermos e para vivenciarmos aqueles bens autoevidentes, objetivando o florescimento humano da comunidade local em que estamos inseridos, é por meio da abertura do nosso coração. Isso é amizade verdadeira. É a amizade na concepção tradicional, amizade em que:

“A atenção estava voltada ao rosto, às palavras e aos gestos do outro. E a natureza de indivíduo corporificado era o foco dos sentimentos de amizade que ele ou ela inspiravam. As pessoas que se tornam amigas dessa maneira estão profundamente cientes de que se mostram ao outro como o outro se lhes mostra. A face do outro é o espelho no qual enxergam a si mesmas. Exatamente porque a atenção está voltada para o outro é que existe uma oportunidade para o autoconhecimento e para a autodescoberta, para essa expansão de liberdade diante do outro que é uma das alegrias da vida humana. O objeto dos sentimentos de amizade remete à pessoa do outro e responde, gratuitamente, à sua atividade livre, ampliando a consciência do outro e a própria. Em suma, a amizade, na concepção tradicional, era uma rota para o autoconhecimento[14]“.

Conhecer e ser conhecido é um caminho necessário para o florescimento humano. E somente no meio de uma amizade profunda, que compartilha alegrias e tristezas, que podemos chegar a esse florescer.

E disso, extraio um último adendo: Nem toda amizade, se tornará um relacionamento que envolva romance obviamente, mas todo romance verdadeiro, deve ser pautado em uma sólida amizade. É uma concepção um tanto quanto tola, quando vejo pessoas a pensarem em constituir família, retirar da sua opção de pretendentes os amigos, quando na verdade, deveria ser o contrário.

Beleza e atração e sexo, são extramente necessários na constância do casamento, mas retire a amizade do casamento e você terá mais um lar em ruínas.

A amizade nos muda, pelo menos, aquelas que são verdadeiras, pois nos força a deixar nosso egocentrismo e passarmos a pensar no outro, ao passo que também muda o outro, e dado momento, não se sabe mais, o quanto de influencia um amigo tem na vida de outro, pois:

“Na amizade, a pessoa não está pensando e escolhendo “a partir de seu próprio ponto de vista” nem do ponto de vista do amigo. Pelo contrário, ela está agindo de um terceiro ponto de vista, a perspectiva singular da qual seu próprio bem e o bem de seu amigo estão igualmente “em vista” e “em jogo”. Assim, o postulado heurístico do ”observador ideal” imparcialmente benevolente, enquanto dispositivo para assegurar imparcialidade ou eqüidade no raciocínio prático, é simplesmente uma extensão do que ocorre naturalmente entre amigos[15]“.

Diante de tudo isso, podemos notar que na concepção do direito natural, a amizade verdadeira é fundamental para a prossecussão do bem e o florescimento humano. Seremos apenas verdadeiramente oo que fomos destinados a ser, por meio também da amizade.

Ao tratarmos da lei natural e dos bens auto-evidentes, devemos ter em mente, que um bem não deve ser lido de forma isolada do outro, por isso, esse texto que vos apresento, é uma parte do que ainda estaremos a tratar no geral. Tratamos da vida no primeiro texto, agora da amizade, ainda faltam, o conhecimento, a razão pratica, o lazer, a experência estética e a religião.

 

Referências:

[1] SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Prefácio).

[2] Ibid., (Prefácio).

[3] FINNIS, John Mitchell. Lei natural e direitos naturais. São Leopoldo: Unisinos, 2007, p. 93

[4] CALVIN, Jean, A instituição da religião cristã. Tomo II, Cap. III. São Paulo: Unesp. 2008, p.43

[5] CÍCERO, Marco Túlio. Da Republica. III, XVII.

[6] Cfr., FINNIS, John Mitchell. op. cit., p.87-102.

[7] Cfr., FRANCISCO, Filipe Rosa Chagas. Maternidade e aborto: breve apontamento jusfilosófico. Em: https://www.burkeinstituto.com/blog/blog/maternidade-e-aborto-breve-apontamento-jusfilosofico/)

[8] BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo de Genebra. 2.ed. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. Edição Revista e Atualizada. Eclesiastes 4:9-10.

[9] CÍCERO, Marco Túlio. Catilinárias, I, 1; Cícero, Verrinas: De Signis, 25, 56.

[10] SCRUTON, Roger. op. cit., p.165

[11] FINNIS, John Mitchell. op. cit., p.93

[12] Ibid., p.93.

[13] SCRUTON, Roger. op. cit., p.144.

[14] Ibid., p.164.

[15] FINNIS, John Mitchell. op. cit., p.145.

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Filipe Rosa Chagas Francisco

Filipe Rosa Chagas Francisco

Formado em direito, mestrando da Universidade de Lisboa, Membro colaborador da ANAJURE (Associação Nacional de Juristas Evangélicos).

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