A derrota acachapante da esquerda nas últimas eleições foi tão gritante que os ecos deste malogro chegaram a todos os cantos do globo. Jornais na Europa, EUA, Portugal, Argentina, Austrália, etc., todos pareciam assustados com os rumos escolhidos pela população brasileira. Aquele povo que parecia dormitar eternamente em sua manjedoura de distrações, festas e futebol, finalmente irrompeu de seu aconchego a fim de dar uma resposta dura, uniforme e uníssona: basta com essa palhaçada vermelha.

Tirando o petismo birrento e necrosado de Gleisi e cia, a esquerda parece estar fazendo uma real mea culpa, silenciosa, envergonhada e ainda débil, mas está fazendo. Entender, pois, que os rumos tomados outrora só fizeram com que a repugnância popular contra as suas pautas aumentasse, e que seus atos sempre beirando às carniças de uma ideologia já condenada pela história, são compreensões basilares para que se possa fazer um reto inventário do fracasso da esquerda — em especial — na América Latina.

A esquerda brasileira precisará se reinventar, abrir mão de práticas tolas como conchavos políticos, financiamentos a ditaduras, estatismos galopantes e discursos piegas que verdadeiramente estão enchendo o saco de todo mundo. Duvido muito que consigam tais proezas, mas fica a dica. Nem mesmo Fernando Gabeira — ícone da esquerda brasileira — está aguentando mais tanta histeria idiota em torno de temas verdadeiramente irrelevantes ao país. A impressão que temos é que Lênin se sentiria extremamente envergonhado com o que a esquerda mundial vem se tornando; talvez, se hoje ele voltasse à vida, perceberia que a sua empreitada em prol dos proletários e da ditadura armada se tornou um mero megafone nas mãos de estudantes psicologicamente adoecidos.

Entretanto, a última munição da esquerda (ou “centro-esquerda”, como preferirem) já está no cano do revólver, a bala de prata do governo moribundo e solitário de Temer, isto é: o indulto de natal de 2016 e 2017. No país onde os bandidos mandam e desmandam, considerar a possibilidade de um indulto já soa como absurdo, se for um indulto com hastes frouxas — como o que Temer ofertou com seu coração franciscano — se torna o absurdo do absurdo.

 

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Agindo desta forma, o presidente acelera uma maratona na contramão daquilo que a população desde 2013 escolheu como pauta principal para o país, isto é: o combate à impunidade, seguido de uma condenação severa a corruptos e demais bandidos. Ora, Bolsonaro ganhou a eleição por quê?

Não é de se espantar que Temer reme contra essa maré, na verdade isso só evidencia a distância sepulcral que há — ou havia — entre o populacho e os encastelados de Brasília. Rousseau ficaria horrorizado com a representatividade vadia que ronda a política brasileira; afinal, Temer está representando quem com esses indultos? A Dona Joaquina, costureira, que teve seu marido morto ao voltar do trabalho por um ladrão em abstinência? A Raquel, universitária que acorda às 6 da manhã e dorme à meia-noite para pagar a mensalidade absurda de sua graduação? Ou talvez represente o Marcelo, engenheiro mecânico da indústria automobilística que há anos tenta guardar dinheiro para comprar a casa própria? Não, Temer ao fazer tal indulto favorece tão somente a sua casta de vampiros, sugadores de suores e dinheiros do povo; aliás, entre portos e portas, há sempre alguém dando tapinhas nas costas do velho.

Infelizmente o STF faz parte desse lupanário de corrupção e corruptores, semana passada parece ter aderido de vez ao circo de horrores e imoralidades do velho do Planalto; tal desavergonhada cartada governamental colocará na rua pessoas que usurparam dos brasileiros as suas dignidades, fazendo da imoralidade a virtude orgulhosa da velha política. Eis o último suspiro do vampiro, a sua última festança no cabaré de Brasília. A única coisa que podemos pensar é na indignidade desse ato, chega a surgir em nós uma vergonha alheia em pensar que um homem possa deixar escrito para a posteridade que foi ele quem deu o indulto a corruptos que macularam a vida de tantos brasileiros.

A hombridade e a honra são valores que não tocam mais o caráter de muitos; e veja, sequer falarei de patriotismo, pois, a pátria desses que aqui tratamos se limita ao círculo satânico ao qual pertencem. Eis então, meus compatriotas, o indulto mais imoral que esse país já viu; o último vômito — rogamos a Deus — da moribunda política de bordel que aqui reinou por tanto tempo.