O MEC será gerido por um liberal-conservador, esta é a frase mais inacreditável de ser lida, escrita e ouvida dos últimos tempos. Para quem acompanhou os últimos 30 anos de política tupiniquim, ler isso poderá parecer — num futuro qualquer — algum erro de digitação desse editor que vos escreve, ou qualquer peça de ficção fantasiada num texto de análise política.

A verdade é que, tão simbólica quanto a vitória de Bolsonaro para a guinada conservadora do país, foi a indicação de Ricardo Vélez Rodriguez para o Ministério da Educação. De formação intelectual invejável no campo das ideias luso-brasileiras, conhecedor das estruturas políticas, históricas, psicológicas e sociais — como poucos as conhecem no Brasil —, e, para completar o bolo de surpresas, sendo um colombiano naturalizado brasileiro; Vélez é tudo aquilo que um liberal-conservador poderia esperar para Ministro da cultura, nas palavras de Bruno Garshagen: “trata-se de nome providencial”.

 

Nas mãos certas:

É bem verdade que, para um liberal-conservador, a própria existência de um Ministério da Educação é algo contestável. O século XX deveria nos informar o que acontece quando educação e cultura são centralizadas nas mãos do Estado (sequer falaremos da economia, por hora). Mas já que ele existirá — apesar de nossas condenações — que seja nas mãos de alguém que realmente preze pela liberdade de conhecimento, pelas restrições ideológicas de qualquer cunho, e pela capacidade meritocrática, e não pelas coleiras estatais. Se um poder central tem que existir, que seja nas mãos de um descentralizador.

Que possamos, finalmente, formar indivíduos livres e capazes, e não ativistas débeis e dependentes.

O filósofo é respeitado no meio intelectual conservador e liberal, reafirmando que, de fato, o governo Bolsonaro seguirá tal caminho de ideias e práticas. Antes mesmo de ser o indicado de Olavo de Carvalho, a sua obra: A Grande Mentira: Lula e o Patrimonialismo Petista já era louvada no meio acadêmico mais à direita.

Mais do que louvável, a escolha é quase que profética; após a vergonhosa prova do ENEM ao qual acabamos de ser submetidos, a escolha monocrática e determinista da academia se tornou gritante, algo tão aterrador que se tornou uma piada entre aqueles que conseguem pensar sem pedir bênçãos a ideologias, ideólogos e partidos. Nada que já não soubéssemos, a questão agora é que tais investidas ideológicas só aceleraram a urgência de um Ministro da Educação avesso a todo esse aparato ditatorial do conhecimento.

 

Menos ideologias e mais ideias:

Que as universidades brasileiras são absurdamente socialistas, poucas pessoas, inclusive os próprios socialistas, seriam capazes de desmentir; vídeos e mais vídeos de estudantes conservadores e liberais sendo expulsos das universidades, agredidos e rechaçados por histéricos militantes, se avolumam diariamente na internet. Relatos constantes de alunos de mestrados ou doutorados que não conseguem ter seus projetos aprovados pelo teor mais à direita, quebras no financiamento da Capes, etc., são questões constantes no Brasil do “faz de conta”. Aliás, o próprio Ricardo Vélez relata ao Bruno Garsahagen, no Podcast Mises, a sua trajetória acadêmica e os solavancos ideológicos contrários nesse percurso.

 

A mudança necessária:

A questão é que a mudança no sistema de ensino, uma repaginada geral no modelo educacional e científico do país, é algo urgente; mais urgente. É patente observar que nossas universidades não estão formandos profissionais capazes, mas sim militantes e ativistas; nossas escolas estão virando quitandas de grupos políticos, nossos professores, verdadeiros traficantes de ideologias. Não é de se espantar que nossos mostradores educacionais sempre estão estagnados entre as piores posições.

A educação primária é débil, nosso ensino médio verdadeiro horror, nossos jovens não sabem manusear a própria língua escrita, não possuem conhecimentos básicos de matemática, e, para não causarmos mais espantos, sequer falaremos de história, literatura ou física. Muitos se assustam, inclusive, com o fato de o Brasil não possuir prêmio Nobel, mas se formos analisar pragmaticamente a situação de nosso ensino, não termos nenhum prêmio Nobel é questão de justiça; quem planta cenoura não colhe morangos, é a lei da vida.

Rodriguez pode significar a mudança de rumo, a meia volta sobre os calcanhares, a retomada de uma real política de educação, mérito e civismo. A falta de conhecimento é um câncer que mata diariamente um pedaço de nosso corpo social, é uma gangrena que começa com vermelhidões e coceiras inofensivas, e termina no estado deplorável no qual estamos hoje. Onde sequer as infraestruturas de salas de aula, carteiras e cadeiras minimamente utilizáveis, de professores dignificados e não humilhados; vivemos num Estado que sequer tais coisas conseguem prover, quanto menos um prêmio Nobel.

Aliás, prêmio pelo o quê?

 

Menos Marx, mais Brasil:

O novo ministro possui propostas interessantes que podem remodelar a cara do ensino nacional, o primeiro deles — e o mais importante de todos — é de “desideologizar” a educação; o ensino não é partidário, o ensino é ensino em si mesmo. Por incrível que possa parecer após anos de doutrinação, é possível ensinar Marx e Burke sem precisar adorná-los com amores ou ódios, apenas ensiná-los e pronto. Municipalizar o ensino é parte da característica liberal de subsidiariedade; aquilo que possui o centro de comando mais próximo das famílias, é mais fácil de ser inspecionado, ajudado e cobrado; descentralizar o ensino é vida!

Outra proposta é o de mudar os heróis e modelos; por exemplo: menos Paulo Freire, mais Anísio Teixeira  — prós: advogado e educador brasileiro que via na municipalização e no enfoque estrutural nos ensinos fundamentais e médios a base para a melhoria social a longo prazo;  contras: propunha uma metodológica centralização educacional nas patas estatais, o que é ruim, muito ruim).

 

Se a esquerda não gostou, então estamos no caminho certo:

Obviamente que a esquerda não gostou; imbuídos daquela democracia de bordel que pensa ser errado tudo aquilo que não está impresso em suas cartilhas partidárias, os socialistas olham para Ricardo Vélez como uma espécie de monstro sob o serviço da burguesia conservadora. A realidade é que a educação nacional respira por aparelhos, não seria errado dizer que por aparelhos ideológicos, inclusive. A única e irrevogável missão do novo ministro será tirar a escola das dependências dos partidos, trazer a dignidade do conhecimento para fora dos quintais dos grupelhos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita. O ensino é muito mais digno e profundo do que as briguinhas de egos entre direita e esquerda; o ensino que não ajuda a construir homens intelectualmente livres, é simplesmente um ensino que não vale a pena ser explorado.

Desta maneira, não se espera de Vélez um MEC conservador, se espera antes um MEC competente e livre de ideologias; livre para lutar pela pluralidade de ideias, pela liberdade de pesquisa, ensino e pensamento. O expurgo da esquerda não deve ser feito em prol da infestação ideológica de direita, mas sim para que a liberdade volte a fluir e o debate retorne para os centros acadêmicos brasileiros; lugar de onde nunca deveria ter saído.