Professores ativistas, doutrinação não escolas
Marx o grande "professor"

E não tem doutrinação?

Forçada ou não, a quarentena mostra-se um momento único. Afetou o cotidiano, gerou estragos econômicos, que ainda não podem ser medidos, politizou um vírus, mostrou a verdadeira face de pequenos ditadores municipais e estaduais, que só não fixam um decreto para cortar a barba, porque ainda não tiveram essa ideia e ao mesmo tempo intensificou o convívio virtual. Em um momento de verificação de mensagens, recebi de um de meus amigos uma foto de uma parte de um edital (nº 049/2020) para professor de Filosofia do Instituto Federal Sul-Riograndense (IFSul) – câmpus Pelotas. Com uma dose de sarcasmo de quem conhece bem as entranhas do ensino público federal, resolveu dividir aquela imagem com o seguinte questionamento: “E não tem doutrinação?”.

Ao abrir a foto, havia o conteúdo programático e a bibliografia que seriam cobrados daqueles professores que se dispusessem a fazer os testes exigidos. De hábito, e com aquela generalização típica, o conteúdo programático apontava que seriam exigidos conhecimentos sobre a Filosofia da Antiguidade, da Idade Média, Moderna e Contemporânea. Nada de novo. Já a bibliografia guardou peculiaridades que podem mostrar como de maneira sorrateira se estrutura um edital que é direcionado para aqueles que possuem alinhamento ideológico ao esquerdismo. Teoria da conspiração? Ficção de mentes tresloucadas? Para progressistas fatos não servem para nada.

Com 15 livros descritos, divididos em quatro períodos históricos, poderia se esperar uma adequada divisão que contemplasse proporcionalmente as épocas filosóficas expostas no conteúdo programático. Mas não foi isso que ocorreu. “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles e “Brevilóquio sobre o principado tirânico”, de Guilherme de Ockham, o que equivale, respectivamente, a Antiguidade e Idade Média, são os únicos materiais específicos que abordam estes períodos. Já René Descartes, com “Meditações metafísicas”, surge como um representante da Idade Moderna. Não é o único, mas para “conspiracionistas”, não é surpresa alguma mencionar o nome de quem o acompanha: Karl Marx, com “O capital”.

Na sequência, os grandes dicionários e as obras generalistas de autores que explicam a filosofia, mas não são filósofos propriamente ditos, totalizavam 6 livros. Destaque para a “filósofa” que odeia a classe média, ardorosa defensora de Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT), Marilena Chauí. Sim, a mesma digníssima senhora, professora da conceituada Universidade de São Paulo (USP), que nos anos 80 do século passado foi desmascarada publicamente por José Guilherme Merquior em razão de ter cometido plágio do filósofo francês Claude Lefort, no livro “Cultura e democracia”. E é a mesma que na obra indicada pelo IFSul, “Convite à filosofia”, também fez uma “cópia indevida” do livro “Introducción a la filosofia”, de Julián Márias. Sem mencionar que o título do livro de Chauí se parece muito com o de Mário Ferreira dos Santos, esse sim, um filósofo: “Convite à filosofia e à história da filosofia”. Mas podem ser somente coincidências acadêmicas. E a opção por sua obra e alinhamento com o esquerdismo, uma mera coincidência política.

Para fechar com chave de ouro, os livros restantes eram estes: “Dicionário do pensamento marxista”, de Tom Bottomore; “Para uma ontologia do ser social”, de György Lukács; “Tecnologia, guerra e fascismo”, de Herbert Marcuse; “A escola de Frankfurt: história, desenvolvimento teórico, significação política”, de Rolf Wiggershaus; e “Pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire. Com isso, é muito fácil afirmar que não há dúvida alguma quanto à vinculação ideológica do edital e como há uma severa prevalência de uma linha política (e não filosófica) para que um indivíduo possa ser aprovado nesse certame. Para mentes bitoladas no coletivismo, ser professor é ser de esquerda. Ser professor é um ato político.

Entre estes últimos herdeiros de Marx listados, um deles se destaca como um verdadeiro “boi sagrado” em faculdades de pedagogia: Paulo Freire, o patrono do pau oco, como bem disse Thomas Giulliano, no capítulo que inaugura a obra “Desconstruindo Paulo Freire”. Isento de críticas, endeusado como um pedagogo à frente de seu tempo, pensador citado por qualquer um que nunca o leu, ideólogo cool e patrono da educação brasileira, Paulo Freire tem um lugar de destaque pelo seu apoio ao esquerdismo. A sua notoriedade é política e não acadêmica. Ou melhor dizendo, é acadêmica porque é política. Na prática, não existe carreira acadêmica sem que o sujeito seja politizado à esquerda, como bem denunciou a feminista odiada por feministas Camille Paglia em entrevista para Jordan Peterson. Por isso os aplausos, títulos e discursos laudatórios em cima do legado freireano. Lembrando que a banca examinadora deste edital será composta por dois docentes da respectiva área e dois pedagogos. Imagine se algum candidato ousar discordar dos “métodos” de Paulo Freire…

Mas o ponto aqui é distinto dessa realidade. Por qual razão um autor que não possui obra filosófica alguma, aparece na lista bibliográfica de um concurso para professor de Filosofia? E aqui não se fala de formação acadêmica ou de qualquer coisa que o valha, mas sim de uma produção verdadeiramente filosófica (ou de história da filosofia) que justifique a pertinência de seu nome naquela lista. Não existe evidência maior que justifique a menção ao seu livro do que ele ser um dos grandes representantes do esquerdismo brasileiro.

No caso deste edital, se for possível fazer uma pequena separação em grupos, quanto aos livros exigidos, é bem possível classificá-los da seguinte forma: 5 são generalistas; 3 são específicos; e 7 são esquerdistas, marxistas ou progressistas. Mas, poderia um desavisado perguntar: “Não é possível cobrar Marx (ou pensadores que refletiram sobre Marx) em uma prova para professor?”. É óbvio que sim, afinal, cabe a um docente conhecer os autores que influenciaram a história do Ocidente e que estimulam reflexões contemporâneas. No entanto, o descompasso na proporção de escolhas, o estímulo a uma linha de raciocínio que vanglorie uma ideologia e a ausência flagrante de verdadeiros pilares filosóficos, faz com que a doutrinação ideológica seja evidente.

Reparem que os nomes de Mario Ferreira dos Santos, com a “Invasão vertical dos bárbaros”, ou de José Guilherme Merquior, com “O liberalismo: antigo e moderno”, sequer seriam aventados pelos ilustres elaboradores deste edital. Talvez tenham escolhido as obras da bibliografia após o término de alguma live com Márcia Tiburi ou antes de uma reunião de sindicato. Seria muito “revolucionário” pensar algo distinto disso.

Mas, para ser “neutro” e honrar os clássicos, como esquecer de Platão, Tomás de Aquino e Immanuel Kant? E os “pais” do liberalismo político e econômico, como John Locke e Adam Smith, não poderiam ser contemplados? Aliás, há espaço para algum filósofo liberal? E autores conservadores? Será que os responsáveis pelo edital conhecem algum? Desconhecimento ou má-fé intelectual? Ou seria escolha política e ideológica, o que é o mesmo que má-fé?

Existe ainda a possibilidade, como mera especulação “filosófica”, de terem pesquisado pelo Google os nomes sugeridos. Como curiosidade, digitei “filósofos contemporâneos” nesse buscador. Com exceção de dois pensadores, dos 14 nomes, todos eram alinhados ao progressismo. Talvez não existam filósofos conservadores ou liberais clássicos em língua portuguesa. Aliás, na lista tinha Leandro Karnal, Djamila Ribeiro, Mario Sérgio Cortella e outros. Marilena Chauí aparecia bem sorridente. Mas após essa incursão no Google, fiquei chateado por não ver o nome de Karnal no edital.

No entanto, com a seriedade que o concurso mereceria, não foram poucos os pensadores esquecidos. Ou melhor, negligenciados. Afinal, para ser sutil, todos têm sua importância, mas alguns importam muito mais do que outros. É curioso ver como um edital que aparentemente preza pela excelência, indica em sua bibliografia básica obras que são generalistas como dicionários e textos introdutórios de comentadores que não apresentam nada mais do que o pensamento dos filósofos. Ou seja, não haveria de se pressupor que aqueles que concorrem à vaga de professores, já teriam um domínio prévio destes textos? Nem seria mais adequado acrescentar as fontes primárias dos respectivos pensamentos, ou seja, os livros dos filósofos? Isso se não forem acrescentados aqui os livros de Chauí e de Bottomore, o que poderia ampliar esta lista de abordagens introdutórias para sete livros: quase 50% de todos os indicados. Todavia, creio que existam razões ideológicas mais fortes para estes dois últimos casos.

E como tal concurso está vinculado a uma instituição pública, também deveria zelar pela pluralidade. Claro que um “dever” para aqueles que têm deveres ideológicos, nunca é um dever afastado da ideologia. Como a pluralidade para progressistas é um conceito meramente estético, pois se destina somente aos iguais, é natural que um edital para professor de filosofia não se destine a um professor de filosofia, mas sim a um possível militante disfarçado de professor. Ora, se a filosofia pode ser definida genericamente como uma busca pela verdade, como excluir do debate importantes correntes do pensamento filosófico? Ou suprimir arbitrariamente filósofos que são de suma importância para o pensamento ocidental? Se todo o espectro do pensamento de Karl Marx e de seus herdeiros gira em torno de questões ideológicas e políticas que buscam destruir o modelo de sociedade vigente, e se o edital tem como objetivo escolher um professor de filosofia, ou seja, alguém com a capacidade reflexiva mínima para apresentar aos alunos todas as correntes de pensamento que debatem os problemas humanos e de nossa sociedade, como não constam na bibliografia básica modelos de pensamento contrapostos ao do marxismo?

Ainda, se “O capital” é uma obra que apresenta conceitos econômicos com desdobramentos filosóficos relevantes, por qual razão nenhum autor crítico a este pensamento foi listado? Ou inexistem pensadores que mostram os erros e falácias de Marx? Como este edital é uma piada pronta, por qual motivo há uma ênfase na Escola de Frankfurt (com dois livros) sem que seja acrescentado um único livro que apresente uma crítica externa a essa linha de pensamento? Lembrando que Lukács não serve para este propósito, mas tão somente para ser um crítico mais à esquerda.

Mas, diante da realidade existente nas instituições de ensino federais, não poderia se esperar outra coisa. Mesmo que neguem e tentem tripudiar em cima das críticas, há uma evidente inclinação ideológica progressista. Qualquer negativa a essa afirmação é o mesmo que um negacionismo, um conceito muito utilizado na atualidade por esquerdistas, mas que se encaixa perfeitamente em suas ações e discursos: fugir de fatos não gera o conforto da mentira. Ou, o fato é que ninguém escapa dos fatos. No máximo, um negacionista esquiva-se momentaneamente dos desconfortos que a verdade gera.

Se não fosse assim, editais para professores em áreas como filosofia contemplariam uma miríade de correntes de pensamento com seus respectivos teóricos. Mas os professores militantes descobriram que o domínio de uma superestrutura (na linguagem de Marx), como o sistema educacional, poderia representar o predomínio cultural, político e ideológico para modificação da sociedade. Assim, um edital negacionista é pedra angular para este objetivo: não pode estar sujeito a qualquer “estranho no ninho”. Como pensar que Edmund Burke, Russel Kirk, Michael Oakeshott, Roger Scruton ou Thomas Sowell poderiam aparecer na lista bibliográfica? Impossível! Sugerir o nome de um G. K. Chesterton seria impensável. Ou quem sabe Robert P. George ou John Finnis? Nunca! E porque nunca leram. E nunca lerão.

Como o esquerdismo deturpa tudo que toca, uma espécie de Rei Midas ao contrário, a filosofia passou a ser uma peça política assim como a atividade de professor. Se para os que idolatram Marx ele estava certo quando disse que os filósofos do passado estavam preocupados somente em interpretar o mundo, quando na verdade deveriam agir politicamente para transformá-lo, natural que suas carreiras acadêmicas sejam carreiras políticas. Como consequência, não existe uma preocupação com o conhecimento, mas uma preocupação ideológica que escraviza o saber. Com isso, militantes travestidos de professores organizam um edital para atender aos interesses da ação política, e não da reflexão, razoabilidade e busca pela verdade: palavras inexistentes em qualquer dicionário marxista. Respondendo à pergunta de meu amigo, é óbvio que não tem doutrinação: eles já estão doutrinados!

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

João L. Roschildt

João L. Roschildt

Professor do curso de Direito do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp). Além de articulista e ensaísta, é autor de “A grama era verde”. Site: www.joaoroschildt.com.br

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