Eternas crianças.

O ENSINO SUPERIOR E A TURMA DO BALÃO MÁGICO

O jornal francês Le Monde, em 29/11/2020 na seção “Campus”, trouxe matéria interessante acerca da desilusão vivenciada por alguns jovens arquitetos recém-formados. Intitulada (numa tradução livre) “Nos venderam um sonho: da escola para a ação, as desilusões de jovens arquitetos”, ela basicamente descreve o mal-estar que surge no momento exato em que os “infantes” têm de lidar com o mundo real e tomam consciência de que a realidade é bem distante do idealismo blasé apregoado por seus professores também encerrados em suas bolhas perfeitamente projetadas.

            Na leitura da matéria, assinada pela jornalista Alice Raybaud, se torna claro o nível de despreparo e infantilização apresentado por alguns alunos egressos de cursos de graduação frente ao mercado de trabalho que se estende a sua frente. No fundo, o que está em jogo é uma espécie de choque com a realidade: os universitários, antes bastante apaixonados pelos cursos em suas universidades, passam pelo desapontamento de enfrentar as agruras que a realidade impõe. Na matéria a jornalista afirma que “muitos se arrependem por terem de exercer a profissão com uma série de restrições, pouca criatividade e tarefas muito menos estimulantes do que as que realizam durante os estudos”. Ops! Acho que alguém quebrou uma unha! Parece quase inacreditável ler algo nesse sentido como uma representação de um sentimento vindo de alunos recém graduados, seja qual for sua área de formação, afinal, felizmente ou infelizmente, nada é mais duro do que a realidade da vida e que insiste em não ingressar nos bancos acadêmicos.

            O que seria de um médico recém-formado lidando com as restrições em um país de terceiro mundo dilacerado por uma guerra civil, sendo que crianças morrem a cada minuto de desnutrição, bem como de uma série de outras doenças? Especificamente em relação à arquitetura, inúmeras vezes confunde-se criatividade com extravagância. Longe do conceito arquitetônico que Roger Scruton expõe em sua obra “Beleza”, na qual ressalta a visão de Alberti, artista para o qual a beleza arquitetônica significaria a “integração adequada de cada um dos seus elementos”, aquilo que comumente evocaria a “criatividade contemporânea” de um arquiteto não seria a busca por uma beleza orgânica, mas comumente seria a inclinação para um mero conjunto de excentricidades, revelando uma egolatria auto referencial extrema. Portanto, seria o caso de o mundo ter de adequar-se ao modelo de “beleza criativa” de um arquiteto, apenas para não ferir seu modelo ideal e egocêntrico de profissão perfeita? O resumo desta luta travada entre indivíduos ansiosos por fazer do mundo uma imagem de seus próprios umbigos e a própria realidade é o seguinte: enquanto nas universidades existe uma instigação para o desenvolvimento de laços criativos avessos a normas que possam limitar minimamente um processo de criação, na medida em que o relativismo moral conseguiu esparramar herdeiros em todos os cantos, o mundo real ainda é um caos repleto de regras limitantes.

Conforme mencionado na matéria, os jovens arquitetos reclamam acerca das tarefas nada estimulantes e que nada parecem com os projetos desenvolvidos durante os estudos. Ora, sejam bem-vindos ao mundo real crianças, pois é hora de descer do “lindo balão mágico”. Pode ser triste afirmar, principalmente para uma geração extremamente fragilizada emocionalmente, que para além das paredes de uma instituição de ensino superior exista um mundo concreto sedento por soluções efetivas e por profissionais que, muito mais do que experts em desenhos de modelos ideais para aplicação prática, percebam a realidade. Então, a partir dela, coloquem suas mentes “tão geniais” a serviço da melhoria do mundo e, quiçá, da humanidade. Mas, qual será a raiz desse tipo de comportamento infantilizado por parte dos estudantes? Ou seja, por qual razão os estudantes mostram-se entediados com a vida real?

O economista e escritor norte-americano Thomas Sowell, em sua obra “Os intelectuais e a sociedade”, faz uma descrição bastante precisa dos cuidados em “preservar a visão imaculada do intelectual ungido”, aos quais os membros da “intelligentsia” (a qual fazem parte muitos professores) precisam estar atentos. Parte desses cuidados envolve “criar uma própria realidade paralela ao filtrarem toda a informação contrária à concepção que têm de como o mundo funciona ou deveria funcionar”. Portanto, para alguns professores não basta que pensem a si mesmos como ungidos, há a necessidade de ungir também seus asseclas, formando um arremedo de casta, para a qual unicamente os portadores de tal visão “idílica” são convidados a participar.

Considere-se ainda o fato de que tais intelectuais, como sortílegos pronunciando mantras e feitiços profanos, se colocam a parte (e acima) das pessoas “comuns”, como que viajando em um lindo balão mágico no qual pretendem solucionar todos os problemas de um mundo do qual não fazem mais parte. As soluções pensadas por suas mentes privilegiadas não raras vezes consistem em meras manipulações e jogos de linguagem inócuos, pois, não só ignoram a própria realidade dos fatos, mas também as opiniões pífias e desprezíveis das pessoas reais acerca de sua própria realidade. Isto reflete um outro grande empecilho destacado por Sowell em sua obra, a saber, o de que “manipulação e uso tendencioso das informações não produzem apenas fatos fictícios, mas também pessoas fictícias”. E isso serve para as mais diversas áreas do conhecimento.

O que foi relatado acima é o que atualmente há de mais sórdido no mundo acadêmico. Basta que se observe apenas os títulos de alguns dos trabalhos de conclusão de curso (o famoso TCC) para se ter uma parca ideia sobe o que está sendo dito. Isso para não falar na qualidade dos trabalhos. Em prol de uma caracterização subjetiva e egocêntrica de um trabalho, alunos das mais diversas áreas eximem-se do escrutínio da própria realidade dos problemas que tratam, relegando inclusive o sentido claro e tácito de conceitos que encontram a devida correlação com seu referente, em favor de uma verdadeira “eugenia verbal”.

A expressão “eugenia verbal” é também de Sowell, referindo-se a “palavras que adquiriram conotações particulares ao longo dos anos a partir das experiências acumuladas de milhões de pessoas, atravessando sucessivas gerações” e que, como em um passe de mágica “passam a ter seu significado corrompido”. Em outras palavras, tudo se encontra em perfeita consonância com as palavras de Sowell, já que alguns professores ungidos e seus pupilos procedem exatamente de mesmo modo, operando quase uma “novilíngua” orwelliana que somente outros ungidos parecem conseguir compreender.

Mas o que isto tudo tem a ver com a pauta inicial do texto? Bem, a questão parece bastante simples: as dificuldades do mundo real seriam motivos suficientes para que um profissional formado em determinada área desistisse de sua tão sonhada profissão? Ou isso não passa de um triste sintoma de uma época profundamente marcada por ressentidos que julgam não terem sua “excelência” compreendida pela sociedade?

O que se pretende aqui é chamar a atenção para o fato de que o corpo docente de uma universidade (que honre este nome… algo cada vez mais difícil) deveria estar atento a realidade dos fatos e promover um ambiente de estudos sadio no sentido de que um aluno pudesse desenvolver suas pesquisas para uma aplicação no mundo real. Caso essa simples e sensata visão de mundo fosse tomada, seriam descartadas as utopias que em sua idealidade não passam de castelos no ar. E aqui não resta maior clareza: como as universidades ocidentais foram invadidas pelo progressismo, uma guinada conservadora seria a sua salvação. Mas isso é viável?

Aos alunos, por sua vez, caberia talvez estarem mais atentos a lógica da própria realidade. Uma metáfora agrária pode servir como propedêutica a uma humildade acadêmica não só desejável, mas também necessária. Na natureza (realidade), há um momento certo para revolver a terra, tempo para semear, tempo para regar, tempo para germinar, tempo para florescer, tempo para colher os frutos, e, no caso de algo sair errado, iniciar todo o processo novamente. Na verdade, frente as intempéries da vida, somos todos aprendizes. Como tais, cabe a observação dos exemplos mais modelares e salutares para uma ação prudente.

O que os jovens precisam entender é que os estudos acadêmicos são o princípio de um aprendizado que se estenderá pelo restante de suas vidas, desde que pretendam ser exímios investigadores em suas áreas. A universidade é apenas parte de uma incomensurável complexidade de conhecimentos, da qual seu curso é parte ainda mais diminuta, e que unidos formam o que se convencionou chamar de realidade.

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