Um perfil de Regina Celebrini, diretora do Externato Duque de Caxias

RESSALVA – Apenas o que está entre aspas são palavras de Regina Celebrini, a entrevista feita com a diretora do Externato objetivou a coleta de dados históricos da biografia pessoal dela, bem como algumas informações importantes sobre o início do Externato. Todas – repito – todas as opiniões manifestadas neste artigo são de inteira responsabilidade e autoria deste articulista.

Eu nasci e vivi quase minha vida inteira em Nova Iguaçu, cidade da região da baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Em 2015, por motivos profissionais, me mudei para o interior, Itaperuna (região do Noroeste Fluminense), mais próximo de Minas Gerais e do Espírito Santo do que da minha cidade natal.

Itaperuna é uma cidade típica do interior. Apesar de ser o polo da região, com um PIB per capita maior do que todas as cidades do entorno, com três faculdades (sem contar outros 3 polos de EAD) e um comércio forte, ainda guarda algumas qualidades que só uma cidade do interior pode possuir: segurança (apesar de ser uma das mais violenta da região, são pastos verdejantes para quem veio do vale da sombra da morte de Nova Iguaçu), povo meio desconfiado, trânsito eventualmente interrompido por um desfile de vacas, um dono de loja de material de construção que além de te vender uma chave de fenda te ensina a técnica certa para montar um cubo mágico de 169 peças, um policial que se dedica a escrever aforismos e contos anedóticos nas horas vagas, etc. Uma coisa porém, me deixou mais impressionado e grato a Deus por ter vindo parar aqui: a qualidade dos colégios.

A média dos colégios é muito boa. Praticamente não existe, dentre os concorrentes, um colégio extremamente ruim. Aqui você escolhe a escola praticamente pela linha pedagógica que você quer pro seu filho, com exceção da escola SESI, que foi a maior decepção que eu já tive nesses poucos anos de acompanhamento escolar das minhas filhas.

E é nesse contexto que aparece o Externato Duque de Caxias. Essa escola é daquelas coisas que, de tão raras, despertam e nós um desejo de eternidade. Um verdadeiro oásis no deserto Freireano de manipulação comportamental que são as escolas brasileiras (privadas ou públicas), principalmente num dos Estados mais comprometidos com a agenda esquerdista, que é o Rio de Janeiro.

O interesse em colocar minhas filhas para estudar lá surgiu desde a primeira vez que ouvi falar do colégio. “Por favor, não coloquem suas meninas lá”, me orientaram. O tal colégio maltratava as crianças com muitos deveres de casa, obrigava os pobres coitados a fazer cópia sistematicamente, veja só que coisa retrógrada! Segundo esses mesmos pais, era impossível a criança acompanhar o ritmo do colégio, “não dá”, diziam eles. “Eles sobrecarregam as crianças demais”. Nessa hora eu virei pra minha esposa e disse: pois já achei o colégio onde essas meninas vão estudar.

Além desse depoimento, para qualquer pai/mãe que a gente demonstrasse nosso interesse de matricular nossas filhas lá, seguia-se sempre: 1. Olhos arregalados e expressão de choque, como quem ouve o maior absurdo do mundo. 2. Recomendação intensa de (“por favor”) não colocar as crianças lá: “não façam isso com as suas meninas”. E, por óbvio, em lugar de nos desanimar, essa rejeição só aumentava nosso interesse e curiosidade sobre o icônico Externato Duque de Caxias.

E para não deixar essa introdução maior do que está, vou tentar resumir todo meu sentimento em relação ao Externato: quando vi Catarina, minha primeira filha, recebendo seu diplominha de alfabetização, fazendo o juramento e participando de todas as comemorações da formatura, eu me senti seguro: minha filha está alfabetizada. Eu comecei a estudar métodos de alfabetização agora, por influência do Carlos Nadalim e comecei a ler alguma coisa sobre leitura; mas apesar de não saber se o método do Externato é o melhor, não tem como uma criança passar pelo primeiro ano desse colégio sem saber ler e escrever. Não tem como!

E para não dizer que estou encantado com o Externato e implicando com o SESI, esses dias, numa conversa com Catarina, ela me relatou que um dos novos colegas de sala dela (agora no 2º ano) é muito bagunceiro, nunca obedece a tia Iolanda (sua professora) e não consegue ler nem escrever direito. “A tia disse que ele não tá alfabetizado”. Quando eu perguntei quem era, e ela disse o nome, estranhei. Não conhecia aquele menino.

  • Ele estudou com vocês ano passado?
  • Não, ele veio do SESI.

A mais irônico é. O Externato é uma das escolas com mensalidade mais barata da cidade. Só coloca o filho em centro de emburrecimento quem quer! Mas enfim…

Talvez eu escreva em outra oportunidade especificamente sobre essa rejeição ao Externato como uma demonstração do estado psicológico absolutamente deplorável da maioria dos pais. Mas agora, vamos passar ao perfil propriamente dito.

Regina Maria de Carvalho Celebrini nasceu em Varre-Sai/RJ, cidade com nome engraçado (admito), mas que foi o berço de, vejam só vocês, Baden Powell, violonista brasileiro de renome internacional.

Regina e seus irmãos, que perderam logo cedo seu pai, desde cedo conciliavam trabalho e estudo para ajudar a família. Nenhum emprego fixo, às vezes como lavadeira, costureira… o que aparecesse e eles pudessem fazer, eles faziam.

Certo dia, Seu Beto Boechat (Betão), empresário bem sucedido e pertencente a uma importante família de Itaperuna (e também de Campos dos Goytacazes) visita a mãe de Regina e lhe pergunta: “você quer que eu faça do seu filho um homem?” O filho em questão é o irmão de Regina, Guilherme, que aos 6 anos de idade, foi com Betão para Itaperuna estudar e trabalhar na sua fábrica de requeijão. E lá ficou até os 11 anos, quando a família Boechat o mandou para o Rio, estudar num colégio federal, onde se formou, graduou-se em Veterinária, profissão que exerce até hoje.

Visitando seus pais em Varre-Sai, Guilherme disse: “mãe, a Regina precisa sair daqui, melhorar a vida dela”. Inicialmente Regina relutou em vir a Itaperuna. Mas sua mãe insistiu dizendo: “minha filha, se você não for, você não vai sair dessa vida de Varre-Sai nunca, vai ser lavadeira, costureira…”. “E me obrigou a sair da vida dela”, diz ela.

Vindo para Itaperuna, Regina trabalhou cuidando de Maria Madalena Boechat (conhecida como Maria Betão), que, já idosa, tinha dificuldades de locomoção. Regina então cuidava de Maria Betão, acompanhando-a na ginástica, andando com ela, etc., o que hoje conhecemos como cuidador de idosos. Com isso, iniciava-se uma longa e sólida relação de amizade, companheirismo e lealdade entre Regina e a família Boechat. Ela traz muitas lembranças afetuosas da família Boechat. Uma família “espetacular”, diz ela, onde “se fazia de tudo”, e havia muita alegria e acolhimento. “Era uma casa muito abençoada”.

Em Itaperuna ela continuou seus estudos, a partir do (atual) quinto ano, estudando na Igreja Católica. Lá, se preparou para o “vestibulinho” para entrar no Colégio 10 de Maio – colégio estadual de Itaperuna – e passou. Passou então a estudar e trabalhar na casa dos Boechat.

Com o tempo, Maria Betão foi perdendo seus parentes (mãe, irmãs) e Regina permanecia na casa, até que ficaram apenas elas duas sozinhas, como mãe e filha. Nesse tempo, Maria já tinha começado a dar aulas particulares em casa, como reforço. Depois, o porão da casa, onde era o depósito da fábrica de requeijão onde seu irmão viera trabalhar, transformou-se numa escola primária. “O colégio começou assim, do lodo”.

Esse mesmo lodo também marcou o início da carreira de dona Regina no Externato, por volta de 1960. Nesse momento inicial, aos 15 anos, ela ajudava dona Maria Betão a dar as aulas. Escrevia no quadro pra ela, fazia o caderno das crianças “na mão”. “A gente nasceu da pobreza”, diz Regina. Ela conta como uma grande invenção as ajudou nas tarefas cotidianas: o mimeógrafo. E você que está lendo, não pense que seja aquele mimeógrafo a álcool. Era um mimeógrafo que usava uma espécie de gelatina, colocada sobre uma tábua, depois refrigerada para aí sim ser utilizada para “xerocar” os materiais. “Era a máquina de xérox da época”, lembra ela entre risos. Contando com o financiamento exclusivo dos proventos de professora do Estado aposentada, Maria Betão e Regina tocavam, sozinhas, o colégio, que viria a ser o Externato Duque de Caxias.

Com o tempo, o porão foi ficando pequeno e foi preciso abrir a casa para receber as crianças, transformando toda a casa na própria escola. Até o próprio quarto de dona Maria Betão virou sala de aula. Nessa época, o colégio chegou a ter os dois turnos cheios, totalizando 400 alunos e até uma banda de Fanfarra. Pode não parecer muito em termos absolutos, mas você precisa lembrar que isso foi na década de 60, numa cidadezinha do interior do Rio que ainda hoje (em 2019) não chega 100 mil habitantes, e numa escola que foi iniciativa de uma professora aposentada e sua cuidadora adolescente.

“Eu me dediquei a esse colégio de corpo e alma, por amor à dona Maria. Eu não tenho outro objetivo não”. É muito raro encontrar pessoas que, além de serem reais vocacionados, tem tamanha consciência da sua vocação, que se demonstra na dedicação completa à sua missão. Chega a emocionar encontrar pessoas que ainda têm esse espírito e que fazem isso conscientes de que o fazem para Deus.

E dona Regina deixa claro que sua dedicação não é à escola, à manutenção de uma empresa. Sua dedicação é aos alunos. “A preocupação minha é ajudar a família a ter seu filho no caminho da luz”. A todo momento ela mostra que formar pessoas independentes, que façam suas lições de casa sozinho, que ajudem os pais em casa, que cuide de si, é um dos principais objetivos da sua direção a frente do Externato. A rotina de dever de casa, mais cópia, mais os testes regulares, visitas à diretora para “tomar a matéria”, e as tradicionais provas são um constante lembrete de que seu filho precisa realmente estudar em casa, aprender tudo o que está sendo ensinado. O ritmo de exigência é quase (ou igual) a um colégio militar.

Mas o compromisso cobra seu preço. Aos 76 anos, dona Regina hoje convive com dois problemas: a redução no número de matrículas e as críticas. Infelizmente, ela percebe que a primeira acaba sendo consequência da segunda.

Como já adiantei no início do artigo, muitos pais simplesmente se escandalizam com esse ritmo, essa cobrança. Acham uma violência contra as pobres crianças, que vão na escola e tem que – vejam vocês que absurdo – recebem bastante conteúdo, fazem bastante exercícios, não tem um intervalo muito grande, não podem bagunçar a aula, só podem levantar da cadeira com permissão da professora, essas coisas. Com isso, foi-se criando uma imagem deturpada do colégio, como sendo um lugar de crianças infelizes, obtusas, comandadas a ferro e fogo por uma ditadura comandada por dona Regina.

Só que não.

Tudo isso se esvai com uma única visita ao colégio seja de manhã, seja a tarde, quando Regina faz seu ritual de iniciação das aulas. Todo dia (de novo: todos os dias) ela ora com as crianças, segurando as mãozinhas das crianças que estejam perto dela (lugar disputado), ela pede a Deus sabedoria para ela e para as crianças, que as abençoe nesse dia de estudo e que eles sejam os melhores alunos, finalizando com um Pai Nosso.

Ah, e duas vezes na semana, também tem execução do Hino Nacional. Sim, meus amigos, isso ainda existe. Com certeza por aqui ninguém estranhou o pedido do MEC para que as escolas cantassem o Hino Nacional.

Todas as crianças amam a tia Regina. Claro que com o passar dos anos, dá um medo de encontrar com ela na direção, pois quando você é chamado na direção é para ela saber se você sabe tabuada, gramática ou alguma outra matéria que ela sorteia no dia. Mas pintar aquela imagem de professora malvada é absurdo, uma desonestidade quase criminosa! Típico de nosso tempo, com pais de geléia, poços de insegurança e medo, presas fáceis para pedagogos(as) aproveitadores e incapazes, que sabem usar esse medo com escolas que não têm compromisso com o ensino e que oferecem em troca um mundo de algodão doce, prometendo entregar “não apenas crianças que saibam ler, escrever e fazer operações matemáticas” dizem eles, “mas cidadãos conscientes, tolerantes e preparados para os desafios da modernidade”. Quem já leu Maquiavel Pedagogo (e quem não leu, precisa ler), sabe que cada letra dessa frase é falsa, mentirosa. O resultado não podia ser outro: crianças ou analfabetas completas ou analfabetas funcionais (condição que as acompanhará durante toda a vida, se não houver alguma intervenção drástica nesse percurso) com extremas dificuldades matemáticas e que também não aprenderam o respeito, a disciplina, a noção de dever e portanto não irão, de forma alguma, colaborar para um mundo efetivamente mais harmonioso, tolerante e respeitador.

Outra crítica feita ao colégio, segundo ela, é que eles mantêm os professores antigos, que estão lá desde sempre. “Mas qual é o problema?” ela retruca. “Que sabedoria de Deus esses professores novos tem para compreender uma criança?” Dona Regina sabe, mesmo inconscientemente, que toda educação é religiosa. A única opção é ser honesto para com a civilização que estruturou o mundo que conhecemos (ocidental, baseada na fé judaico-cristã) ou desdenhar essa herança e apostar nas promessas de uma educação baseada numa religiosidade civil anti-cristã que coleciona frutos podres. Mas, numa paródia grotesca com o relato bíblico de gênesis, essa outra proposta é “agradável aos olhos”, e conta com um exército de serpentes malignas sussurrando diuturnamente: prove, seu filho será como Deus.

Tradição. Perenidade. Amor e compromisso pela missão e pelos alunos. Consciência da responsabilidade que é iniciar crianças na vida de estudos. São marcas da direção de Regina Celebrini a frente do Externato Duque de Caxias. Uma das coisas que mais me toca nessa história toda, mas que é um traço do conservadorismo que muita gente desconhece é a simplicidade, o não-intelectualismo de Regina. Eu esperava que ela iria dizer que conhece a metodologia de Paulo Freire e que discorda frontalmente, por isso fez o colégio para provar que os métodos antigos são mais eficientes, ou algo assim.

Mas não. Regina nem mesmo tem formação em pedagogia. Até onde eu sei, formou-se apenas no ensino médio. Tudo que ela fez foi manter o padrão de sempre, o compromisso de sempre, a dedicação de sempre, e a fé de sempre. E o Deus de todo sempre, sempre a ajudou e continua ajudando. Quem precisa de um plano mirabuloso para fazer alguma coisa – principalmente na educação – são os revolucionários.

Mantendo a tradição que aprendeu desde sua fundação, numa época que o nível das escolas era decente, o Externato praticamente formou toda as pessoas que hoje compõem os altos cargos na cidade de Itaperuna, sem contar os que estudam aqui, mas acabam indo viver em outra cidade – comum em cidades do interior. Não raro, esses mesmos profissionais fazem questão de colocar seus filhos (e até netos) pra estudar lá também, qualquer negociação está fora de cogitação.

Trouxe essa história ao Burke Instituto pois vejo que o Externato é um belo exemplo a todos nós conservadores. Vale a pela combater o bom combate. Apesar das dificuldades dos anos recentes, o Externato segue firme e forte. E no que precisar da ajuda desse pai reaça, ele não vai acabar, e vai voltar a crescer. Deus não tem nada fora de seu controle e precisamos aprender a ver as oportunidades que ele coloca em nossas mãos. Perguntada sobre a influência da fé em seu trabalho, ela responde: “Tudo. Sem Deus eu não faço nada. Eu costumo dizer que não sou eu que faço, Deus é que faz por mim”.

Por fim, pergunto como Regina Celebrini quer ser lembrada? Encerro esse artigo com a resposta dessa guerreira incansável.

“Eu queria que todo aluno que passasse por aqui fosse o aluno mais feliz do mundo e dissesse assim: hoje eu sou feliz por que eu tive o conhecimento de princípios, de vida, de família, de estudo com a tia Regina, no Externato Duque de Caxias”.

Pelo menos dessa família, Regina pode ter certeza que já tem lugar de destaque no hall de memórias que nunca serão apagadas.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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