O declínio da autoridade

Imagem: Clovis Horst Lindner

Introdução

Não é preciso estar munido de amplos e sofisticados conhecimentos sociológicos para perceber na cultura contemporânea um rechaço pelo princípio da autoridade. Em diversas instituições e âmbitos sociais como a família, a escola e a igreja é notória a crise e o enfraquecimento da autoridade. Todos os dias nos jornais, na televisão, no rádio ou na internet, quando não mesmo em nossa própria experiência cotidiana, tomamos conhecimento de alguma situação concreta que envolve o desrespeito, a ofensa, a insubordinação e a rebelião contra um tipo específico de autoridade. Professores que são agredidos fisicamente ou insultados por alunos, filhos que desafiam os pais, fiéis que se insurgem contra as normas e mandamentos defendidos por sacerdotes, marginais e sociopatas que afrontam policiais, e outros casos similares, atestam de maneira evidente e cabal a insurreição difusa e generalizada contra as autoridades sociais tradicionais.

De algum modo, a crise do princípio e da ideia de autoridade e, portanto, das instituições sociais e culturais que a corporificam é um dos elementos centrais para a compreensão e explicação da crise civilizacional de nosso tempo.

 

A rebelião contra a autoridade

O declínio e a crise da autoridade explicam-se em parte como uma consequência do espírito revolucionário e de ruptura com a tradição, próprio da modernidade. Em uma cultura política secular, igualitária e individualista, própria das sociedades modernas, a erosão da noção de autoridade relaciona-se inextricavelmente com o estabelecimento de uma configuração social e política centrada nos princípios da igualdade e da liberdade individual. Este tipo de organização social alicerça-se na ideia iluminista e racionalista de que são os próprios indivíduos que instituem as normas e valores de convivência, conforme afirma o filósofo político Alain Renaut (2004, p. 47):

Herdada diretamente das teorias do contrato social, aplicada com vigor muito particular pelas revoluções do fim do século XVIII, esta ideia de auto-instituição que está tão presente na cultura das sociedades contemporâneas consiste bem, no seu princípio, em fundamentar a lei na vontade dos homens, logo a subtraí-la tanto quanto possível à autoridade das tradições.

De fato, com a primazia na modernidade política das ideias de igualdade, democracia, liberdade e autonomia individual as autoridades tradicionais são questionadas. Sob certo aspecto, a modernização e seu corolário no campo político, a democracia igualitária, produzem a dessacralização e a crise da ideia de autoridade.

No mundo pré-moderno das sociedades tradicionais a autoridade fundamentava-se em um princípio de ordem transcendente e espiritual. As diversas autoridades sociais tinham uma base religiosa e sacral. Existia nas sociedades arcaicas e nas grandes civilizações do passado um inegável laço entre a autoridade, a tradição e a religião. Com o desenvolvimento do projeto secularizador moderno a autoridade desvincula-se por completo deste fundamento religioso, dessacralizando-se e, deste modo, relativizando-se, perdendo assim força, vitalidade e prestígio. Este processo de desconstrução e desmoronamento da autoridade acelera-se nas sociedades atuais de uma maneira vertiginosa e inquietante com o recuo cada vez mais importante e significativo da religião cristã e do valor da tradição.

As múltiplas e variadas ideologias antiautoridade que proliferam no mundo contemporâneo, buscam reforçar a ideia de feição libertária, anarquista e neomarxista que retrata todo tipo e forma de autoridade como algo negativo; ou ainda como um mal necessário. De um modo geral, a autoridade é vista como um sinal de coerção física, violência e imposição forçada de valores e modelos de conduta. Equipara-se as autoridades sociais naturais e tradicionais do pai, do professor, do sacerdote, do patrão em uma empresa, do policial, do militar e do magistrado com o autoritarismo, a repressão e outras formas caricatas e estereotipadas de exercício do poder através do uso da força física. Desta maneira, a obediência às autoridades é percebida como algo humilhante e degradante, um ato indigno de submissão cega e irracional.

Uma das características principais das ideologias antiautoridade é o igualitarismo. Os apóstolos das causas igualitárias, em nome de uma utópica sociedade fraternal e de tonalidades anarquistas, negam e insurgem-se contra as desigualdades naturais e sociais. São refratários e contestam de maneira radical a existência da diversidade de vocações, talentos, competências e inclinações humanas; e, ainda, desaprovam as diferenças de papéis, status e funções sociais. Defendendo o igualitarismo e o nivelamento social, opõem-se ao princípio da hierarquia, pressuposto necessário de qualquer forma de verdadeira autoridade que, cabe ressaltar, está fundamentada em uma relação interpessoal, desigual e, portanto, estabelecida entre um “subordinado”, em uma posição inferior em termos hierárquicos, que reconhece o seu “chefe, o seu superior”. A existência destas hierarquias e distinções incomoda aos propugnadores de ideias igualitárias que, incansavelmente, lutam para destruir as distinções sociais e o que insistentemente denominam de privilégios de classe, gênero e outros de similar natureza. Apagar todas as diferenças entre homens e mulheres, adultos e crianças, pais e filhos, mestres e alunos, patrões e empregados, sacerdotes e leigos, e borrar as fronteiras entre pátrias, religiões e culturas parece ser objetivo final destes agentes do igualitarismo.

Por diversos meios, estratégias e técnicas de engenharia social e comportamental procura-se solapar o princípio da autoridade. Na família, por exemplo, uma tática utilizada pelos corifeus e agentes antiautoridade é deprimir a autoridade paterna e materna através da introdução nas escolas de disciplinas que envolvam a educação sexual e a ideologia de gênero. Aliás, a promoção dos chamados “direitos sexuais e reprodutivos” é mais um modo de enfraquecer a instituição familiar. Ademais, propagam-se nos centros de ensino teorias e práticas pedagógicas construtivistas, “inclusivas, igualitárias e democratizantes” que minam a autoridade do professor. Procura-se de maneira implícita, indireta e muitas vezes sutil, fomentar, nos mais diversos espaços e instâncias culturais, a permissividade e uma forma anárquica e “primitiva” de liberdade baseada em determinada concepção do homem, conforme assevera o historiador e cientista político Thomas Molnar (1979, p. 53):

[…] os partidários da permissividade confiam tanto em que o ser humano é bom por natureza a ponto de acreditarem que a não interferência na vida das crianças leva automaticamente a bom caminho. Por essa lógica desembocaremos em uma nova sociedade – ou, melhor, uma anti-sociedade – a cada geração ou a mais curtos intervalos, desde que a criança educada pemissivamente segue sua própria vontade, pontos de vista e normas, e estes, por definição, não são transferíveis às outras pessoas. Assim, a consequência da permissividade, se lhe dermos curso livre, seria a extinção da sociedade e, em verdade, a anarquia.

Na esfera familiar e educacional, principalmente no processo de formação das crianças e jovens, objetiva-se evitar as proibições e os interditos. Qualquer tipo de exigência mais severa, de disciplina e de regra de conduta mais dura é concebida como um modo de dominação e exploração, um ato “desumano e intolerante” que fere a liberdade das crianças e dos mais jovens. Toda forma de intervenção, orientação e direcionamento, inerente ao papel formador exercido por pais e mestres, é percebida pela intelligentsia progressista como uma “sombra do passado”, um “arcaísmo” baseado em métodos e técnicas pedagógicas antiquadas e obsoletas. Há que se levantar a bandeira de uma educação modernizadora, crítica e emancipadora – declaram os novos pedagogos- que defendem um sistema educativo marcado por relações simétricas e horizontais entre professor e alunos, uma educação inteiramente centrada no aluno, nos seus anseios e desejos e adaptada aos valores do mundo contemporâneo, uma educação libertária e igualitária, não mais centrada na tradição e na autoridade.

Esta atmosfera de fobia, contestação e revolta contra qualquer modo de autoridade intensifica-se e radicaliza-se a partir do fatídico maio de 68 francês, bem como de outras similares rebeliões estudantis que ocorreram na Europa e nos Estados Unidos no final da década de 1960 e começo da década de 1970. Embalados por slogans revolucionários e libertários como: “O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime”, “A anarquia sou eu”, É proibido proibir”, jovens universitários sonharam com a destruição da “opressora e autoritária sociedade burguesa e patriarcal”. Foi este, indubitavelmente, o acontecimento chave, o ponto culminante no processo de relativização e dessacralização das autoridades. Estas insurreições baseavam-se principalmente em vertentes de pensamento como o freudo-marxismo de Herbert Marcuse e Wilhelm Reich, a chamada Escola de Frankfurt e o existencialismo ateu de Sartre que, grosso modo, teciam contundentes críticas a ideia de autoridade. Ela era concebida essencialmente como uma força repressiva que, dentre outros traços, oprime e impede o livre e espontâneo fluxo das forças vitais e das pulsões naturais.

Com efeito, os ideólogos neomarxistas e da esquerda libertária pós-moderna conseguiram difundir em amplos segmentos e forças sociais a ideia de que a autoridade não passa de um modo de relação fundado exclusivamente na dominação, na exploração e no poder. Transmitindo, também, a noção que impregnou-se no imaginário social e na cultura contemporânea, de que toda forma de autoridade é um obstáculo à realização individual, ou melhor, um freio, um entrave que reprime a afirmação e a expressão dos desejos e paixões instintivas dos indivíduos. Fortalece-se assim a visão própria da moderna cultura racionalista e secular de que as virtudes morais e a própria tradição religiosa são fardos de épocas pretéritas, “forças alienantes”, diques que bloqueiam e inibem o florescer de um homem totalmente autônomo e independente. Além disso, acaba por prevalecer um paradigma da vida social e das relações humanas baseado na ideia de conflito. Calcada na noção marxista de luta de classes e na polarização dialética opressores versus oprimidos, esta concepção da sociedade como imenso campo de disputas de toda espécie e, deste modo, permeada por tensões e hostilidades, contamina a percepção que até o homem comum tem da vida em sociedade. Em razão disto, instaura-se na contemporaneidade uma sociedade fundada no ressentimento e na inveja, ou melhor, uma dissociedade da desconfiança e da permanente suspeita para com o próximo. O modelo clássico ancorado na noção aristotélica do homem como animal social, e, por conseguinte, da sociedade como uma expressão da natureza humana e um espaço de cooperação e de relações sociais harmônicas desaparece do horizonte de ideias do establisment midiático e cultural. Além do mais, boa parte da intelectualidade bem-pensante e outros agentes das ideologias antiautoridade procuraram por todos os meios suscitar conflitos e antagonismo sociais, incentivando “rupturas” e “desmitificações”, gerando como resultado um clima de desestabilização permanente, necessário e útil – diga-se de passagem – à estratégia de construção de uma “hegemonia socialista emancipadora”.

A partir do maio de 68 parisiense, consolida-se uma concepção da liberdade como libertação total dos indivíduos das amarras morais, condicionamentos culturais e laços naturais. De acordo com o jurista e teórico político Miguel Ayuso (2018), estas contestações estudantis se estribam em uma visão voluntarista da liberdade, na medida em que partem do pressuposto ideológico de que a própria ordem natural e a realidade são empecilhos e estorvos à plena realização da vontade, isto é, embaraçam e impedem a concretização de projetos pessoais e “coletivos” baseados nos desejos e nas paixões, em – qualquer desejo – cabe ressaltar. Em suma, a “revolução negativa” de 1968, representa o triunfo do relativismo moral, da “ditadura das paixões” e do irracionalismo. Os valores hedonistas e a ideologia libertária e permissiva, afirmadas com entusiasmo naquelas revoluções culturais estudantis, disseminaram-se por todas as sociedades ocidentais, transformando-se rapidamente no novo paradigma moral e comportamental hegemônico.

Neste cenário de liberdade extrema vigoram os imperativos do ego e dos interesses individuais imediatos; o que o eu narcisista “deseja, quer, decide e almeja” se transmuta em lei social. Toda espécie de ordem moral objetiva é olvidada e combatida como um resquício de época passadas. O que importa, o que é realmente decisivo e crucial é a felicidade pessoal permanente e a qualquer custo, o prazer ininterrupto, o bem-estar material e a satisfação dos instintos.

Ingenuamente ou mesmo maliciosamente os porta-vozes e sequazes das ideologias antiautoridade acreditam que ao emancipar-se das “velhas e antiquadas” autoridades religiosas, familiares, culturais, jurídicas, militares e políticas os homens estariam aptos a construir uma nova sociedade pacífica, tolerante e sem preconceitos. Surgiria deste modo, um novo homem autônomo e completamente livre do peso das tradições sociais e das ataduras morais.

É, porém, um engodo e um devaneio pensar que, destruídas as autoridades naturais e tradicionais, o reino da paz, da felicidade e igualdade será instaurado. Como elucida a antropóloga e filósofa Chantal Delsol (1994), com o eclipse das legítimas autoridades os seres humanos sentem a necessidade de procurar autoridades substitutas. Autoridades espúrias e falsas em boa parte das situações. Pode acontecer, por exemplo, que um indivíduo abandone uma igreja e deixe então de seguir os mandamentos e conselhos de um sacerdote para obedecer cegamente às instruções e preceitos esdrúxulos de um guru de uma seita da moda. Ou então, um jovem que se rebelando contra seus pais, acaba por aderir a uma organização política radical, acatando e cumprindo com devoção e fanatismo as palavras de ordem do líder revolucionário iluminado. As crianças e os jovens em particular, privados da figura e imagem do pai, procuram frequentemente outros adultos que, de algum modo, cumpram este papel de autoridade a ser imitada e seguida.

A rebelião contra as autoridades e a negação de toda norma, modelo e princípio conduz fatalmente as sociedades modernas e contemporâneas a um clima de confusão, desordem generalizada e injustiça, degradando e aviltando a criatura humana, conforme assevera o filósofo Jean-François Matteí (2001, p. 261):

A tendência profunda do espírito moderno, aquele que sempre nega, diria Goethe, equivale com efeito a destruir a ordem, sempre considerada repressiva, não a partir de uma nova ordem expressiva, mas a partir de uma des-ordem regressiva. Não é a coluna, como símbolo da ordem do mundo que está destinada ao rebaixamento, e sim o semblante do homem na medida em faz sentido.

 

A autoridade como um bem social e moral

Ora, a autoridade não só é necessária, como é parte constitutiva da condição humana. É, na realidade, um fato positivo que manifesta a natureza social e política do ser humano, sendo deste modo, um bem moral essencial para a estruturação e organização da convivência social. A autoridade, ou melhor, a existência de autoridades sociais, é um dado universal, presente em todas as culturas e épocas. Não há agrupação humana e sociedade ordenada sem a presença de algum tipo de autoridade. É ela um princípio basilar para imprimir nas coletividades humanas um sentido de ordem, unidade e equilíbrio. Acerca disso ressaltam os jusfilósofos Galvão de Souza, Lema Garcia e Teixeira de Carvalho (1998, p. 54):

Demonstram os fatos que é impossível a viabilização da sociedade sem autoridade. As vontades, os esforços, os objetivos, os interesses multivariados e discrepantes dos componentes da sociedade, frustrariam a convivência harmônica e impediriam a consecução do bem comum, se faltasse um elemento unificador e ordenador das partes integrantes do todo.

Uma sociedade desprovida de autoridades está fadada a corromper-se e degradar-se num estado de desordem moral e anomia, em uma guerra hobessiana de todos contra todos, onde vale a lei do mais forte, do mais poderoso; onde prevalece a pura vontade e a tirania dos desejos narcisistas.

O valor moral e cultural da autoridade revela-se em sua própria etimologia. Lembro, seguindo as lições de Hannah Arent (2011), que a palavra autoridade é de origem romana, derivando do latim augere que significa aumentar, desenvolver, fazer crescer. De augere originam-se as palavras auctor e auctoritas, que significam respectivamente autor e autoridade. As autoridades naturais e tradicionais, como por exemplo, as famílias, as igrejas, as forças armadas são forças civilizadoras e disciplinadoras. Em seu estado normal funcionam como uma espécie de escola de bons hábitos e virtudes, transmitindo as novas gerações valores, modos de conduta, atitudes e conhecimentos práticos. De acordo com Thomas Molnar (1979, p. 73): “a autoridade visa à ritualização dos bons hábitos.” Desta maneira, as autoridades são como balizas orientadoras, pontos de referência, fronteiras e limites que demarcam e sinalizam o que é o certo e o que é o errado, o bem e o mal, o verdadeiro e o falso na vida social e nas relações humanas.

Como explica a antropóloga Chantal Delsol (1994), a autoridade é, sobretudo, uma disposição pessoal que, resumidamente, possibilita se fazer obedecer sem empregar a força física. Assim, o “chefe natural” é aquele que é seguido, obedecido, ou seja, suas ordens e mandamentos são acatados sem que ele tenha a necessidade de apelar para a coerção, ameaça ou sanção. A autoridade não precisa estar investida legalmente e formalmente para ser acatada, porque ela está vinculada primordialmente não com a ordem da legalidade, mas com a ordem da legitimidade, visto que a aceitação de um mandamento supõe o reconhecimento por parte daquele que obedece, o qual exclui a necessidade de qualquer espécie de constrangimento. O reconhecimento, o respeito e admiração pela autoridade não repousa unicamente num critério objetivo, função, papel ou status, pois se fundamenta basicamente na percepção de uma superioridade sem definição precisa. A legítima autoridade produz uma impressão positiva, um tipo de simpatia natural, sendo ainda, portadora de um dom e qualidade especial que, muita vezes, escapa por completo à racionalidade técnica e formal. Há em torno das “grandes autoridades”, em especial os chefes e líderes políticos e militares de uma comunidade certo halo de mistério e sacralidade. A identificação e os vínculos sutis entre a autoridade política e o sagrado eram bastante frequentes em sociedades pré-modernas, que, cabe sublinhar, não distinguiam com clareza e precisão a esfera temporal da esfera espiritual.

Além disso, como explica o sociólogo Allan G. Johnson (1997), a autoridade é definida e sustentada pelas normas do sistema social. São então socialmente aprovadas e controladas, fiscalizadas e suportadas pelo próprio ambiente social. É preciso ressaltar que parte significativa das formas de autoridade no mundo atual não está propriamente ligada aos indivíduos, mas às posições e status que eles desempenham e ocupam nos sistemas sociais. Por exemplo: há a tendência natural dos indivíduos em uma dada comunidade de obedecer às ordens de um policial, não por conta das características e qualidades da pessoa que cumpre este papel social, mas porque se aceita e se reconhece o seu poder em determinada esfera de ação. O policial é respeitado pois é uma autoridade legítima formalmente investida para o exercício de uma função. Esta é a forma de autoridade racional-legal conforme a conhecida tipologia de Max Weber, que, vale lembrar, também identificou e caracterizou a autoridade tradicional e a autoridade carismática. A autoridade racional-legal, predominante nas sociedades modernas, baseia-se em normas formais e codificadas.

A antítese da verdadeira autoridade é o arbítrio, o capricho pessoal, a desordem, a anarquia, o despotismo e o totalitarismo. A autêntica autoridade fundamenta-se na busca da ordem e da unidade moral, propiciando o surgimento de um ser humano equilibrado e maduro e de uma sociedade harmônica e virtuosa. É, portanto, uma maneira racional e prudente de ordenar o tecido social.

As verdadeiras autoridades provocam o despertar das potencialidades humanas, são modelos e exemplos de conduta, servindo assim como símbolos inspiradores para os indivíduos em seu processo de desenvolvimento espiritual. Um bom pai, uma boa mãe, um professor dedicado, um patrão honesto, um sacerdote generoso imprimem na alma de seus seguidores e subordinados algo de perene, uma marca indelével que possibilita a edificação de personalidades íntegras, honestas e corajosas.

 

Considerações finais

O colapso da autoridade produz consequências sociais, morais e culturais preocupantes. O aumento da criminalidade e da violência, por exemplo, está intimamente relacionada com a dissolução das instituições e autoridades vinculadas com poder de polícia e judicial do Estado. A degradação moral e cultural, por sua vez, é um efeito da desintegração da autoridade familiar, da fragilização das instituições de ensino e da perda de vitalidade e centralidade das autoridades religiosas.

A liberdade sem limites, o hiperindividualismo e o subjetivismo moral que, dentre outros fatores, resultam do rechaço por qualquer norma e princípio superior e do enfraquecimento da noção de autoridade conduz as sociedades a um estado de desintegração e de ruptura dos laços e vínculos sociais. Dissolve o sentido de dever moral, obrigação social e responsabilidade pessoal, criando um ambiente cultural marcado pela atomização dos indivíduos, a massificação e o conformismo.

Ao contrário do que apregoam as ideologias libertárias, anarquistas e neomarxistas, as autoridades sociais naturais e tradicionais não são fundadas na força física, no poder e na mera coerção. As legítimas autoridades ancoram-se em um princípio de ordem moral, em um saber prático, num conhecimento vivido, no prestígio, no mérito e na capacidade de persuasão e de convencimento por meio de atos, gestos, exemplos e palavras. Desta maneira, através de determinadas sugestões e atitudes muitas vezes discretas, as autênticas autoridades buscam obter certos resultados induzindo certos comportamentos e condutas para que se tornem hábitos virtuosos.

É uma terrível e pueril ilusão pensar que os indivíduos serão mais livres e independentes recusando e suprimindo as autoridades naturais e tradicionais. As autoridades sociais – em seu bom funcionamento – são instituições estabilizadoras que criam uma atmosfera de ordem fortalecendo modelos positivos de conduta, incentivando a busca pela excelência, regulando comportamentos e definindo limites, fronteiras e restrições às ambições e aos desejos desmedidos dos indivíduos.

O antagonismo entre autoridade e liberdade, ordem e autonomia pessoal é falso. O indivíduo somente adquire maturidade e uma personalidade forte em um ambiente marcado pela existência de autoridades e instâncias que o auxiliem e o protejam no seu desenvolvimento pessoal. A autoridade é uma barreira protetora das liberdades concretas. A liberdade substancial e verdadeira surge em um ambiente de ordem social e de respeito às leis naturais e as estruturas antropológicas permanentes e universais. O contrário da liberdade ordenada é a libertinagem, a lassidão e a permissividade anárquica que corrói o tecido social e animaliza o ser humano.

 

Referências bibliográficas

Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. 7ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

Ayuso, Miguel. Politica e diritto dopo il ’68. Instaurare omnia in Christo, Udine, Anno XLVII, N.3, p. 1-6, 2018.

Delsol, Chantal. L’autorité. Paris: Presses Universitaires de France, 1994.

Johnson. Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

Galvão de Sousa, José Pedro, Lema Garcia, Clóvis e Teixeira de Carvalho, José Fraga. Dicionário de Política. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 1998.

Mattéi, Jean François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. São Palo: Unesp, 2001.

Molnar, Thomas. A autoridade e seus inimigos. São Paulo: Mundo Cultural, 1979.

  1. Renaut, Alain. O Fim da Autoridade. Lisboa: Instituto Piaget, 2004.

 


Do autor: Cesar Alberto Ranquetat Jr., Doutor em Antropologia Social (UFRGS). Professor universitário na área de Ciências Humanas. É autor dos livros: Laicidade à brasileira: estudo sobre a controvérsia em torno da presença de símbolos religiosos em espaços públicos (2016) e Da direita moderna à direita tradicional: análise de uma categoria metapolítica (2017).

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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