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O resgate da lógica medieval e renascentista no século XX: L. M. De Rijk e Walter Redmond

Por décadas, a lógica medieval e renascentista não só caiu no mais profundo esquecimento, como de fato foi solapada do cenário acadêmico. Os estudiosos da lógica e da filosofia da linguagem dos séculos XIX e XX raramente teciam comentários ou faziam menção aos autores neoescolásticos, cujas temáticas enfrentadas coincidiam, em grande medida, com àquelas tratadas no interior da escola analítica.Exemplo disso por ser visto na concepção de Frege sobre o sentido e a referência, extraordinariamente semelhante a tese de Domingo de Soto sobre o signo como ente de relação.

A redescoberta dos autores escolásticos e pos-medievais que lidaram com os assuntos de lógica formal é devida, em grande medida, aos autores Martin Grabmann, autor da obra Die Introductiones in Logicam des Wilhelm von Shyreswood de 1937, e Bochenski, I.M., autor de Petri hispani Summulae Logicales quas e codice manu scripto Reg. Lat. 1205 editado em Torino, de 1947. Grabmann e Bochenski podem ser vistos aqui como os restauradores da lógica escolástica no século XX, a partir de quem os avanços para o descobrimento de novas sendas e o mapeamento de novas fontes enriqueceram o horizonte dos historiadores da filosofia e dos investigadores da lógica clássica.

Em seguida, os estudos da área ganharam um novo patamar com a publicação de The Development of Logic, de 1961, de autoria William e Martha Kneale. No capítulo IV da obra, os autores expõe um itinerário da lógica, passando por Boecio, Alcuíno, Abelardo, o tema da lógica dos universais, das propriedades de termos e das regras de implicação e consequência. Embora o façam tendo em vista analisar o que a lógica simbólica contemporânea desenvolveu e superou relativamente ao medievo, pontuam satisfatoriamente as etapas que antecederam as Summulae Logicales de Petrus Hispanus e William de Sherwood, ainda que careçam de melhor fundamentação no trato da lógica renascentista. A popularidade universitária da obra ampliou o raio de interesse pelo tema, embora o livro em si apresente carências no que tange ao trato da lógica empreendida pela escolástica renascentista e pelos comentadores de Pedro Hispano e William de Sherwood.

Esta carência foi plenamente superada com a Logica Modernorum de Lambert Marie de Rijk, publicada entre 1962 e 1967. Nos volumes compostos pelo autor holandês, a lógica medieval é tratada pelo que contém de genuíno e valoroso, a despeito de sua eventual conexão com a lógica simbólica atual. Faz uma profunda investigação bibliográfica, abordando o desenvolvimento da semântica e das proprietates terminorum durante o centenário interposto entre 1130 e 1230, com a produção de importantes obras, como as Sumulas de Hispanus, já mencionadas, além dos Syncateugoremata, do mesmo autor, por ocasião do acesso às coleções de manuscritos de inúmeras bibliotecas de universidades e centros de pesquisa, como Avignon, Cordoba, Milano e Cidade do Vaticano. A opera logicalia de Pedro Hispano, como também a de outros lógicos do medievo como Lamberto de Auxerre, William de Sherwood, P. Abelardo e outros foram redescobertas pelo profícuo e imensurável de De Rijk, a quem os estudos avançados de lógica escolástica devem uma conta impagável.

Originalmente publicadas com o título Tractatus, as Summulae Logicales de Hispanus são compostas de 12 livros, divididos em duas grandes partes: logica antiquorum (logica vetus et logica nova) e logica modernorum (proprietates terminorum). A logica antiquorum é composta por seis tratados: I- De introductionibus, II- De predicabilibus, III- De predicamentis, IV- De sillogismis, V- De locis, VII- De fallaciis. O sétimo tratado antecede o sexto porque a temática das falácias integra o conjunto de assuntos condizentes com a logica nova. A logica modernorum é tratada na segunda parte, e composta com os seguintes tratados: VI- De suppositionibus, VIII- De relativis, IX- De ampliationibus, X- De appellationibus, XI- De restrictionibus e XII- De distributionibus.

Leia, do mesmo autor: Do Reino da necessidade ao Reino da Liberdade: considerações sobre a técnica na origem da civilização

As Summulae Logicales devem ser vistas aqui como um aprofundamento organizado da lógica formal até o período. Parte das doctrinalia rudimenta, ou seja, dos livros básicos do Organon de Aristóteles, para então expor a doutrina do silogismo e das proposições categóricas, hipotéticas e modais. Após, se dedica ao estudo das propriedades de termos e predicados. A opera magna de Hispano é, indiscutivelmente, o texto mais conhecido de lógica do período. Desempenha duas funções pedagógicas precípuas: a de servir de manual de lógica para o estudo das artes liberais e, mais tarde, da ratio studiorum; e o de auxiliar o estudante no aperfeiçoamento dos raciocínios demonstrativos, isto é, um meio de preparação para o ingresso nas disciplinas científicas.

O trabalho de Rijk é, portanto, de imensurável valor. A tese máxima e o postulado central de toda lógica do período, de que “ad cuius cognitionem necesse est cognoscere propositionem. Et quia omnis propositio est ex terminis, necessaria est termini cognitio” é, aqui, cotejada de modo absoluto.

Outra obra do período, anterior ao próprio Tratado de Hispano, são as Introductiones in Logicam, de William de Sherwood. Embora mantenha certas divergências comparativamente ao Tractatus, a obra, inspirada na tradição de Oxford coincide em grande medida com a divisão apresentada, o compêndio do autor, a logica cum sit nostra, apresenta algumas temáticas especiais, como o livro de universalibus, de locis dialeticis, e dos termos e das propriedades de termos, onde tece uma análise rigorosa da cópula na ligação das proposições: De copulatione, De proprietatibus terminorum.

Outro autor de extraordinária importância para o resgate da lógica medieval e renascentista foi Norman Kretzmann que, em seus William of Sherwood´s Introduction to Logic de 1966 e Treatise on Syncategorematic Words de 1968 apresenta um itinerário da lógica de Sherwood, um ponto de condensação da lógica antiquorum. Mais adiante, o autor edita, em parceria com A. Kenny e Jan Pinborg, o Cambridge History of later medieval philosophy em 1982, onde publica “syncategoremata, sophismata, exponibilia”. Por fim, publica em 1988 Meaning and inference in medieval philosophy.

Também o dinamarquês Jan Pinborg, citado acima, em seu Logica e semantica nel medioevo, de 1972, aborda a lógica da primeira escolástica e a compara, introdutoriamente, ao desenvolvimento posterior da disciplina na segunda escolástica, sobretudo pelo enfoque dado ao tema da significação, da suposição, da proposição e da consequência.

Igualmente, E.J. Ashworth publica Language and Logic in the post-medieval period em 1974. Nesta obra, o autor põe a lógica medieval no lugar de destaque das disciplinas filosóficas, eliminando as injustas acusações de que seria apenas uma repetição da lógica aristotélica e estoica. Mostra que o avanço conquistado durante a escolástica tardia com as temáticas do signo, da metafísica da relação, do desenvolvimento da verdade formal, bem como da amplitude das distinções das proprietates terminorum permitem uma autonomia da lógica do período frente aos antepassados.

Ashworth insiste na proeminência da universidade de Paris como berço de veemente profusão de estudos lógicos entre os anos de 1480 e 1520, particularmente pelo trabalho realizado por John Mair e pelo círculo de estudiosos que o circundavam, dentre os quais se destaca o espanhol Jerônimo de Pardo (1502). Além disso, confere o devido destaque aos lógicos do século XVI em quatro ambientes: Paris, Oxford, Alemanha e Espanha. Outros textos de fundamental importância do autor são “The doctrine of supposition in the sixteenth and seventeenth centuries” de 1969 e “Theories of the proposition: some early sixteenth century discussions” de 1978. Neles, explora de maneira vertical as temáticas da suposição e da proposição, cujas teorias correspondentes povoaram os debates universitários dentro do âmbito da lógica.

O que De Rijk representou para a restauração da lógica medieval, especialmente para a tradução, edição e popularidade das Summulae Logicales de Pedro Hispano, Walter Redmond o é quanto ao desenvolvimento dos estudos de lógica na segunda escolástica, especialmente a lógica desenvolvida na escolástica colonial, no Perú e no México.

Leia também: O ataque ao cânone ocidental

Walter Redmond publicou em 1972 o melhor e mais eficaz itinerário bibliográfico da filosofia produzida na escolástica colonial: Bibliography of the Philosophy in the Iberian Colonies of America. Apresenta um roteiro das obras redigidas entre os séculos XVI e XVIII, por ocasião das missões levadas a cabo pelas ordens religiosas e pelo transplante das instituições ibéricas para o novo mundo. A criação de uma civilização ultramarina não poderia ser empreendida sem um arcabouço cultural que capacitasse os estudantes locais. Uma plêiade de tratados e comentários de lógica e metafísica foram manufaturados nas escolas de artes e nas universidades coloniais, particularmente no Perú, no México e na Argentina.

Ademais, Redmond publicou diversos artigos esparsos sobre lógica no período, sobre temas específicos da lógica renascentista e, recentemente, publicou em 2002 o livro La Logica del Siglo de Oro, um roteiro de exercícios baseado na lógica colonial tomado como uma introdução histórica à disciplina.

Dentre os inúmeros artigos produzidos pelo autor, destacam-se Dios y Modalidad, Instrumenta Sciendi: lógica y ciencia en Antonio Rubio S.J., Logic and Thomistics, Lógica y ciencia en la “Lógica Mexicana” de Rubio, Lógica- deber-virtud, Lógica y mística: progreso espiritual y progreso filosófico, ser-ciencia y lógica en el siglo de oro, como também trabalhos em Lógica contemporânea como o seu Lógica simbólica para todos de 1999 e inclusive em outras áreas, como a filosofia de Edith Stein.

O trabalho de resgate de fontes empreendido por Redmond é não apenas notável para os estudiosos da segunda escolástica como de inegável relevância para a história da filosofia como um todo.

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Macus Boeira

Macus Boeira

Professor de Filosofia do Direito e Lógica Jurídica na Faculdade de Direito da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Doutor e Mestre pela USP.

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