Um historiador do Império

Neste renascer das ideias conservadoras ainda vejo, muito tímida, a preocupação com a organização, seleção e leitura da vasta bibliografia que relata a nossa aventura enquanto povo. Afora as tentativas meritórias do prof. Thomas Giuliano, com o seu canal História Expressa; [1] do curso História do Brasil sem Máscaras – a pátria além da ideologia, ministrado pelos mestres Sidney Silveira e Sérgio Pachá, atualmente suspenso; [2] do canal O Bandeirante, [3] do prof. Ferdinando Costa, e dos projetos do Brasil Paralelo [4] e do filme de Mauro Ventura sobre Bonifácio – o fundador do Brasil [5] – de gosto duvidoso, mas a desempenhar importantíssimo papel na reconciliação histórica de nosso pobre e admirável país –, o cenário ainda persiste melancólico. Um dos motivos pelos quais aceitei o honroso convite dos meus amigos do Burke Instituto Conservador, para que assumisse uma coluna em seu site, foi a oportunidade de levar ao leitor interessado, não obstante as minhas limitações, algumas reminiscências de leituras várias sobre a história pátria.

Estas considerações vêm a propósito de um livro que descobri no site da UFRJ que disponibiliza os mais de quatrocentos títulos da histórica coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional – livro que li faz anos, num exemplar bolorento adquirido no inexcedível Sebo Brandão: Cotegipe e seu tempo. 1ª fase: 1815-1867, [6] de José Wanderley de Araújo Pinho (1890 – 1967). Quem, hoje, lê essas quinquilharias senão alguns poucos sabedores das nossas coisas? Lembro aqui mais especialmente de dois amigos queridos – Aristóteles Drummond, eterna referência de civismo e patriotismo, com mais de 50 anos de vida pública, e José Santini, que se embrenhou na distante Garatã do Norte, no Mato Grosso, e de lá não pretende voltar tão cedo –, grandes leitores de biografias e cultores de nossos maiores…

Mas, voltando ao biógrafo do Barão de Cotegipe, quem foi José Wanderley de Araújo Pinho? Nascido pouco depois do golpe republicano de 15 de novembro de 1889, José Wanderley de Araújo Pinho foi figura eminente em seu tempo, oriundo de ilustre família baiana e personalidade notável pela cultura e presença pública, tendo sido jurista, advogado, jornalista, político, historiador, além de biógrafo naturalmente. Não falaremos aqui das inúmeras funções públicas que desempenhou – ligado a Otávio Mangabeira, figura exemplar de estadista, foi deputado federal, prefeito de Salvador por duas vezes e conselheiro do Tribunal de Contas da União, pelo qual se aposentou –, mas do admirável homem de letras que foi.

Pertenceu ao que passou a ser chamado de Academia Garciana, referente ao grupo de intelectuais que se reuniam quase que diariamente, ao final da tarde, no gabinete do historiador Rodolfo Garcia, então diretor da Biblioteca Nacional, isto nas décadas de 1930 e 1940. Além de Wanderley Pinho e do anfitrião, frequentavam ali figuras de escol como Afonso d’Escragnolle Taunay, Afrânio Peixoto, Tobias Monteiro, Levi Carneiro, Oliveira Vianna, Pedro Calmon, entre outros – e dois conterrâneos meus, o historiador militar Augusto Tasso Fragoso e o romancista Josué Montello. O gabinete de Rodolfo Garcia funcionava como ponto de encontro para todos quantos se interessavam pela história pátria, o que certamente influenciou Wanderley Pinho a publicar, em 1937, na Brasiliana, o primeiro tomo da biografia de seu avô, o Barão de Cotegipe, um dos mais renomados estadistas do Império e um dos líderes do Partido Conservador, deputado provincial e geral, presidente da província da Bahia, senador do Império, ministro de Estado diversas vezes, membro do Conselho de Estado e, por fim, presidente do Conselho de Ministros. Em 1933, também na Brasiliana, Wanderley Pinho já havia publicado uma importante coletânea de cartas de D. Pedro II a Cotegipe, [7] que fez vir a lume provavelmente como preâmbulo da modelar biografia. Infelizmente, porém, esta ficou inconclusa, num desses pecados frequentemente cometidos por escritores que se deixam iludir pelas miragens – certamente coloridas – da vida pública, muitas vezes tão inimiga da vida intelectual, o que nos faz lembrar do último Joaquim Nabuco, que não pôde escrever, como tencionava, a história do movimento abolicionista e, sobretudo, a biografia de D. Pedro II, [8] a partir do próprio arquivo do grande monarca, por ter aceitado o convite do presidente Campos Salles para assumir a embaixada do Brasil em Washington…

Um livro de grande impacto em seu tempo foi, sem dúvida, a História de um engenho do Recôncavo, publicado em 1946 e reeditado em 1982, sempre pela Brasiliana. Como não o li, limitar-me-ei a copiar a breve sinopse disponibilizada no site da UFRJ: “(…) exaustiva monografia sobre um dos mais importantes engenhos de cana-de-açúcar da Bahia, o Freguesia, cuja trajetória é acompanhada desde o povoamento da região até a segunda metade do século XX. O texto aborda a ação dos jesuítas, a distribuição de sesmarias, a Inquisição, os ataques de piratas, a ocupação holandesa, o trabalho escravo, a evolução da produção ao longo da Colônia, do Império e da República. O autor detém-se em todas as particularidades do engenho, desde as lenhas e fornalhas, os mestres de açúcar, os comissários e senhores de engenho, a agricultura e a pecuária da época, até o mobiliário e o brasão de armas da casa grande.”. [9] E da pena de outro grande historiador e biógrafo baiano, Luiz Viana Filho, destaco o seguinte trecho: “A ‘História de Um Engenho do Recôncavo’ é livro único em nossa literatura histórica. Nenhum outro se lhe pode comparar. Em verdade constitui extraordinário manancial sobre a vida econômica da Colônia e do Império, especialmente no que diz respeito ao açúcar, sempre tão íntimo dos problemas relativos à escravatura, à sua importação e conservação. Também não esqueceu Wanderley Pinho de nos proporcionar a narrativa dos assuntos pertinentes à fabricação do que seria a base primitiva da riqueza nacional. Terras, fábricas, mão de obra, lenhas e fornalhas, tudo é motivo para estudo acurado, que nos permite real conhecimento do que foi e do que representou, na sociedade brasileira, a vida e o trabalho de um engenho de açúcar.”. [10]

O livro de maior sucesso editorial de Wanderley Pinho foi, no entanto, o instigante e interessantíssimo Salões e damas do Segundo Reinado, [11] publicado originalmente em 1942 e que faz do seu autor, ainda segundo Luiz Viana Filho, “o mais completo cronista da vida social do Império.”. [12] A quinta e última edição, comemorativa dos 450 anos de São Paulo, foi preparada por um combatente da nossa cultura, o editor, escritor e jornalista Gumercindo Rocha Dorea, [13] a quem tenho a honra de contar entre os meus amigos. Um fenômeno curioso de nossa historiografia é a pouca atenção dispensada à experiência mesma da vida social como elemento incontornável da vida política. Cotegipe era daqueles, como se depreende da leitura da biografia escrita por seu neto, que comungavam da cartilha de que “não se faz política sem bolinhos” – uma beleza de frase, de sua autoria. Mas não apenas o velho estadista saquarema, de sofisticada argúcia política, estava atento à indispensabilidade da arte de bem receber e de ser recebido; personalidades várias, de ambos os partidos, ou de nenhum deles, sabiam da necessidade de se ver e de se ser visto, o que não deve constituir, convenhamos, nenhum escândalo, de vez que a arte da política não pode prescindir da permanente troca de impressões e experiências – ainda que continue sendo, não raro, inimiga da vida do espírito; mesmo o misantropo José de Alencar, antes político que romancista, não era infenso a certas miragens… E se hoje, de mais a mais, a vida social parecerá ao leitor mais apressado um elemento pouco edificante e fútil da política, aos contemporâneos de Cotegipe constituía, a par da garantia de inegáveis dividendos políticos, uma modalidade verdadeiramente elevada de civilidade – algo que o indivíduo atomizado de hoje não consegue mais compreender. É justamente o espírito de organicidade da sociedade do Segundo Reinado – que perdurou ainda por muitas décadas de República – que Wanderley Pinho soube caracterizar e realçar com a graça de um estilista da língua.

Do painel privilegiado que José Wanderley de Araújo Pinho traçou de parte considerável do Segundo Reinado com a biografia de Cotegipe ficou faltando, como sabemos, o arremate inglório com o tomo relativo ao fim da monarquia. Seria forçoso e simplista considerar o golpe republicano de 15 de novembro de 1889 a causa exclusiva pela destruição do tipo de sociedade orgânica e virtuosa que ainda era então o Brasil. Mas, parafraseando o prof. Carlos Nougué, se, por um lado, a monarquia não salvará o Brasil, por outro o Brasil não se salvará sem a monarquia – ou, ao menos, sem o que ela representava de continuidade histórica, razão pela qual a obra de mestres como Wanderley Pinho merece ser retirada do limbo do esquecimento em que a afundaram os inimigos do que Russell Kirk chamava de “permanent things”.

 

Referências:

[1] Link do canal História Expressa: www.youtube.com/user/civilizacaocidental

[2] Link de inscrição do curso História do Brasil sem Máscara: www.contraimpugnantes.blogspot.com/2016/06/historia-do-brasil-sem-mascaras.html

[3] Link para os vídeos do canal O Bandeirante: www.youtube.com/channel/UCZ0w1xZvZ3m6QvCaTuFc2mQ/playlists

[4] Site do Brasil Paralelo: www.brasilparalelo.com.br

[5] Site do filme Bonifácio – o fundador do Brasil: www.bonifacio.ofundadordobrasil.com.br

[6] Cotegipe e seu tempo. 1ª fase: 1815-1867 (Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, Brasiliana, 1937). Texto integral: www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/obras/187/cotegipe-e-seu-tempo-1-fase-1815-1867

[7] Cartas do Imperador Pedro II ao Barão de Cotegipe – ordenadas e anotadas por Wanderley Pinho (Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, Brasiliana, 1933). Texto integral: www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/obras/174/cartas-do-imperador-pedro-ii-ao-barao-de-cotegipe

[8] Pedro Calmon nos redimiu, mais de 70 anos depois, com a sua História de D. Pedro II (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, Coleção Documentos Brasileiros, 1975, 5 vols.), ainda hoje a mais completa biografia do nosso segundo imperador.

[9] História de um engenho do Recôncavo – Matoim, Novo Caboto, Freguesia, 1552-1944 (Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, Brasiliana, 1946; 2ª edição, ilustrada e acrescida de um apêndice, Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, Brasiliana, 1982). Texto integral: www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/obras/461/historia-de-um-engenho-do-reconcavo-motoim-novo-caboto-freguesia-1552-1944

[10] Centenário de Wanderley Pinho. Bahia, 1990, pág. 11.

[11] Salões e damas do Segundo Reinado. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942.

[12] Centenário de Wanderley Pinho. Bahia, 1990, pág. 12.

[13] Salões e damas do Segundo Reinado. São Paulo: Edições GRD, 2004.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

José Lorêdo Filho

José Lorêdo Filho

Livreiro e editor da Livraria Resistência Cultural Editora, cavaleiro da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) e chanceler do Círculo Monárquico de São Luís.

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