Os tipos e antitipos em Northrop Frye

A análise que Northrop Frye faz em “O Código dos Códigos” é interessante ao mesmo tempo que é complicada – complicada ao menos para mim. Um determinado ponto, no entanto, me chamou tanto a atenção que vou tentar esboçá-lo aqui, apesar da precariedade com que eu o apresente. Trata-se da tipologia.

Há no processo histórico construções intelectuais que são ou a segunda etapa referente a um mistério antigo, mitológico mesmo (como nos diálogos de Platão), ou a primeira etapa referente a um acontecimento futuro (como nas teses marxistas). A relação interna de cada uma dessas duas duplas constitui a tipologia, constituída ela mesma pela forma do tipo e do antitipo. No que se refere ao primeiro exemplo, o tipo é o mistério, a mitologia da qual a construção intelectual platônica é o antitipo; quanto ao Marxismo, a construção intelectual de Marx e Engels é o tipo do qual a Revolução Bolchevique é o antitipo. O tipo está para o antitipo assim como o objeto está para o seu reflexo. Mas como a tipologia é um processo que corre ao longo do tempo, as formas espelhadas se apresentam ou como a manifestação plena de um significado sugerido em algum primórdio inacessível, ou como a anunciação da manifestação futura desse mesmo significado.

Mas esses casos são imperfeitos por não serem hermeticamente fechados. A construção intelectual que se apresenta, ainda que inconscientemente, como a manifestação plena ou a sugestão de uma futura manifestação encontra o seu oposto complementar fora da sua estrutura literária. É como se a imagem de cada uma das partes não coincidisse com o reflexo pelo fato do conteúdo das partes não estar dentro das mesmas formas. A única construção intelectual onde a tipologia se apresenta hermeticamente fechada, com os tipos perfeitamente alinhados aos antitipo, é a Bíblia.

A simetria perfeita se dá pelo fato de que as evidências que comprovam os acontecimentos do Novo Testamente (antitipo) não estão referenciadas em nenhum campo fora do próprio Antigo Testamento (tipo); da mesma forma que as profecias do Antigo Testamento têm a veracidade do seu sentido resguardado pelo Novo Testamento. Na Bíblia, o tipo está inteiramente assegurado pelo antitipo dentro da forma literária, sem que nada escape ou que tanto um quanto o outro tenham de buscar fora desse sistema hermeticamente fechado suas respectivas manifestações complementares. “Os dois testamentos formam um espelho duplo”, conclui Frye, “onde uma face reflete a outra e nenhuma o mundo lá fora”.

A imagem resultante dessa demonstração, apesar de Frye não ter dito nada sobre isso, é invariavelmente a de um epicentro portador da totalidade tipológica em si mesmo, sendo tudo mais manifestações parciais resultantes da sua reverberação, quer essas manifestações tenham se passado num período histórico anterior, como no exemplo platônico, quer tenham se passado num cenário de negação da fonte primária cristã, como no do marxismo. Essas reverberações têm sua imagem mais facilmente apreensível quando vistas sub specie aeternitatis. Aí sim, na perspectiva da eternidade, é possível ver a forma bíblica influenciando as demais formas literárias, independente do período histórico abordado. As demais construções são meros ecos cuja fonte primária, que abarca todos as formas variantes, está contida no Código dos códigos.

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