A dignidade do martírio e covardia do conveniente

Imagem: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Todos já sabem que Jean Wyllys vai deixar o país e desistir de seu mandato; e para meu “espanto” ele irá para Espanha, e não para Cuba, Nicarágua, Venezuela ou México, como havia pensado ser o coerente para um homem que porta as ideias que ele ostenta.

Confesso, até com um certo ar de vergonha, que o assunto já está batido, mas vocês entenderão a minha abordagem, principalmente por ser um trato diferente daqueles que vem sendo dado ao assunto. Não poderia eu, um católico “malemá”, que gastou certo tempo de estudo com a história da Igreja, ignorar uma parte em especial da entrevista concedida por Jean Wyllys ao jornal Folha de São Paulo. Diz o ex-BBB que, Pepe Mujica (Ex-presidente do Uruguai) lhe aconselhara o seguinte: “‘Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis’”. E completa o psolista: “E é isso: eu não quero me sacrificar”.

O martírio é o ato mais heroico que um homem pode alcançar. Em linhas gerais, o martírio é aquele limiar tênue que separa todo o instinto de autopreservação que vem cravado em cada átomo do homem; da consciência vigorosa de que não se pode negar os valores e princípios que sobrepõem quaisquer inatismos primitivos da espécie. Uma espécie de sabotagem na naturalidade humana, uma razão que supera a própria razão. Quando alguém prefere morrer por um princípio, ao invés de manchar a sua coerência, consciência e crença, esse alguém contraria qualquer impulso natural do homem, ele deliberadamente sacrifica em si mesmo cada inclinação e variável que o impele a desistir do sacrifício a fim de subsistir.

A crença no nazareno, que fazia com que homens, mulheres e crianças morressem glorificando um Deus falido numa cruz — enquanto eram comidos por leões no coliseu ou queimados em postes por toda a Roma —, é a mesma crença que hoje leva o norte coreano, o sírio e o chinês preferir a morte, a tortura e a prisão ao invés de negar por alguns segundos apenas o compromisso firmado com o mesmo Deus ressurreto. O martírio é inexplicável, o martírio é um dos mistérios mais caros que ainda hoje espantam mentes e corações; é o heroísmo último de alguém que crê para além das conveniências.

É bom pontuar, martírio não é terrorismo; muitos poderiam arrogar que o louco que se explode por Alá também é um mártir. Não. O mártir ao qual me refiro é aquele que escolhe deliberadamente morrer por benefício algum, a não ser o de não ser um herege ou um traidor de seu Deus.

Ele não faz vítimas no processo de afirmação de seus porquês, ele faz apenas um testemunho tão profundo, aterrorizante e sensacional, que não raro tais exemplos levam multidões a aderirem à fé do sacrificado. E, desde Cristo até hoje, olhamos esse sistema de pregação e nos perguntamos — com olhos marejados — aquilo que Nero perguntava-se todo dia antes de dormir: “Quem foi esse Homem cujo os seus seguidores preferem o esquartejamento e a incineração ao invés de negar, por míseros instantes, os seus ensinamentos, que se negam a desviar seus olhares de uma simples madeira justaposta em forma de X nem que seja por alguns minutos”?

“Quem é este Rei da glória” (Salmos 24, 8).

O martírio cristão é a aberração mais inexplicável que existe para aqueles que só conseguem conceber a matéria como sistema de existência, àqueles que só conseguem elevar os seus porquês até o boleto do mês que virá.

O martírio é uma etapa sempre possível para aqueles que veem na política apenas mais um cômodo da existência, para aqueles que enxergam em seus valores não um sistema de escambo pragmático e interesseiro, mas sim o sustento da sua própria vida e civitas. Para aqueles que têm como valor basal o ato de conservar e proteger os esteios da civilização, o sacrifício é uma das pré-condições para a defesa das hastes que, não raro, estão aí desde a fundação do mundo.

Caso queiram estar no campo das ideias, lutar por seus princípios e valores, vocês também devem estar preparados para receberem os ventos contrários que certamente virão. Para Jean Wyllys não é heroico ser mártir, eu, todavia, acho muito digno sofrer pelo o que acreditamos. Vocês podem perguntar então: “qual é a diferença dos seus princípios para os de Wyllys”?

Meus princípios não dão riqueza material, não dão capa de jornais e nem status, defendo aquilo que o mais simples agricultor ou dona de casa defendem. Me doar — e por ventura morrer — por esses valores é algo que eu faço por quem eu deixo em casa todos os dias, por quem eu amo, e quando lutamos por quem amamos, nenhuma riqueza pode se comparar.

Wyllys luta por efemeridades políticas, ideias que amanhã podem se tornar pó. Não são valores eternos, fincados na permanência, mas princípios tão tenros que duram somente até a próxima cartilha ser lançada com novas diretrizes partidárias. O eterno dos progressistas dura menos que uma carga de smartphone, suas misericórdias são interesseiras, suas lutas são gananciosas, seus pilares são de papel machê. O que há é apenas um maquiavelismo purista, o poder pelo poder, a astúcia a serviço do trono, a adoração da corte dos mais adequados.

Não duvido, como outros conservadores duvidaram, que ele de fato esteja sendo ameaçado, estamos num país extremamente polarizado e com pessoas dementes, e por isso mesmo não é difícil imaginar que Wyllys esteja sendo veementemente atacado. É profundamente lamentável e criminoso que um parlamentar seja ameaçado a tal nível; a democracia não se faz assim. No entanto, é justamente aí que se encontra a dignidade do mártir, a dignidade que tanto Mujica quanto Wyllys não conseguiram ver: quando tudo está desfavorável aos seus valores, é neste instante que o mártir julga mais digno morrer sustentando a bandeira de seu país e de seus princípios, ao invés de fazer gritarias para pedir holofotes.

O mártir morre pelo o que acredita, pois aquilo que ele acredita tem rostos, sorrisos e abraços; o demagogo, ao contrário, pega o primeiro avião, pois seus porquês são amorfos, seus valores são abstratos, eles amam a humanidade, mas ignoram os mendigos.

Como diria Patrick Dalroy, no romance A taberna ambulante, de G. K. Chesterton: “Deus sabe que eu não me tenho na conta de bom; mas, vez ou outra, até mesmo um patife tem de lutar contra o mundo como se fosse um santo”. Até mesmo um cretino como eu, vez ou outra, tem que colocar o pescoço à mostra a fim de defender aquilo que é tão antigo quanto perene, para desmistificar tudo aquilo que é tão progressista quanto passageiro.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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