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Guia definitivo para liberais e conservadores sobre “meritocracia”: da meritocracia à “fracassocracia”

A esquerda adora usar certos lugares-comuns para atacar o caráter de interlocutores de não-esquerda. “Cidadão de bem” e “pai de família” estão entre eles. E também a famigerada “meritocracia”. Pretendo esgotar essa questão nesse texto, esclarecendo o que é a tal meritocracia e qual deve ser a abordagem correta em relação a ela[i].

No que diz respeito ao seu uso mais frequente, como lugar-comum e espantalho, nada a ilustra melhor que a imagem a seguir (e variações):

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Na cabeça de esquerdistas, a meritocracia é a justificativa reacionária para todas as mazelas do mundo. Quem está mal, assim está porque lhe falta mérito; caso o tivesse, qualquer anônimo miserável seria o Steve Jobs. E muitas vezes, equivocadamente, liberais, libertários ou conservadores caem na armadilha e se põem a defender mais ou menos essa versão do conceito.

Caso essa seja a meritocracia a ser defendida, estaríamos todos obrigados a concluir que 99,99% dos seres humanos não têm mérito, visto que a ocorrência de gênios que derivam riqueza financeira estratosférica a partir do nada é estritamente ínfimo. Não existem Steve Jobs, Bill Gates, Silvio Santos em cada esquina (ou existem e então a “meritocracia” é que não existe).

 

A criação do valor:

A refutação mais elementar à versão rasteira da meritocracia é a teoria da criação de valor. Não se trata exatamente do mérito individual, dito genericamente, mas da capacidade (mérito?) do indivíduo em criar valor. Se o sujeito for capaz de criar coisas a ponto dos demais comprarem sua criação, então o sujeito ascenderá socialmente. Por exemplo: jogadores de futebol criam muito valor, geram marketing, atraem grande público, são produtos ambulantes. Os que conseguem fazer isso em escala astronômica se tornam incrivelmente ricos, pois são muito valorizados pelas pessoas.

O problema começa quando se tenta (caso se tente) ranquear esse valor: as maiores mentes científicas, e pensemos naquelas que criam medicamentos, vacinas, técnicas, aparelhos, etc. que salvarão milhares de vidas, também estão criando valor, mas dificilmente ficarão tão ricas quanto um jogador de futebol. A maior mente filosófica do mundo, seja lá quem for, também dificilmente se tornará tão rica quanto um grande jogador de futebol – embora possa ficar muito rica com divulgação de ideias, publicação de livros, palestras, etc. Deveriam as grandes mentes – científicas, literárias, artísticas, filosóficas etc. – abandonar suas carreiras e vocação em nome da criação de valor como jogadores de futebol? E notemos, alguém poderia objetar que se tornar um grande jogador de futebol requer muita disciplina, seriedade, treino, preparo físico e psicológico, dentre outros atributos, (o que é verdade, se tomarmos um Cristiano Ronaldo como exemplo, mas não um Romário ou Renato Gaúcho). Mas isso não é menos verdade para alguém que deseje ser um grande filósofo ou cientista, que precisa investir muita disciplina, treino, tempo e leitura. O tempo útil em que um cientista ou filósofo pode criar valor é, no mínimo, duas vezes maior. Ou seja, seu mérito individual em criar valor tem uma data de validade dobrada em relação a um jogador de futebol e, ainda assim, não deve ficar tão rico quanto um, incluindo tanto os que são máquinas de disciplina e esforço quanto os que não são.

Isso tudo, é claro, se ficarmos nos méritos capazes de criar valor econômico, que segundo bons economistas, é subjetivo. Youtubers pedantes certamente, em algum sentido, criam valor, pois ganham muito dinheiro monetizando seus vídeos sobre trivialidades e vendendo seus livros que, creio eu, ninguém nega serem inferiores a livros razoáveis sobre crítica literária, história, filosofia, sociologia, etc[ii]. O que dizer do monge ou da freira mais virtuosos de um convento, que gastam metade de todo o seu tempo em orações e a outra metade em serviço social, que certamente geram valor para aqueles que são ajudados, mas nenhum para si próprios? São valorizados pelos outros na mesma medida que jogadores de futebol?

Admitir a ascensão social como régua do mérito individual é extremamente problemático. Uma sociedade burocratizada pode ser igualmente “meritocrática”. O indivíduo que se dispõe, num totalitarismo, a delatar atividades “criminosas” de familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, e qualquer indivíduo que possa ser uma ameaça, pode experimentar uma ascensão social meteórica baseada em seu mérito como denuncista, chegando à condição de burocrata e gozando das benesses sociais e econômicas que todo politburo usualmente goza em sociedades assim, como os porcos de A Revolução dos Bichos. Devemos aprovar isso simplesmente porque somos “meritocratas”? Isso nos leva a crer que a meritocracia é algo mais restrito do que parece: uma forma – limitada – de gerir pessoas, uma maneira razoável de administrar uma equipe, por exemplo.

Por fim, se devemos premiar o mérito individual e depreciar totalmente a incapacidade de gerar valor, qual exatamente deve ser a postura diante de pessoas com deficiência física, que nunca gerarão a mesma quantidade de riqueza que um jogador de futebol, dentre os quais podemos destacar os deficientes mentais, em estado de convalescença, idosos, em suma, dos incapacitados? Ou simplesmente indaguemos: o que deve ser reservado às pessoas que nunca comporão os 0,01% de gênios da população mundial?

Portanto, a mim não parece interessante advogar em defesa dessa concepção de meritocracia. É assinar embaixo do espantalho criado pela esquerda e admitir um economicismo que certamente não faz parte do repertório intelectual de um conservador. O custo de sair em defesa desse simulacro é aceitar de bom grado a imagem de capitalista malvado, indiferente e egoísta, que reserva, na melhor das hipóteses, migalhas para os desfavorecidos.

Uma palavra sobre ética e justiça:

A versão rasteira da meritocracia, na verdade, entra em conflito com a noção de valorização do esforço individual. Primeiro porque aquilo que as pessoas valorizam tem uma forte carga relativa à época em que vivem: até antes do século XX, um gênio atlético do futebol seria um zé-ninguém, ao passo que uma mente filosófica brilhante poderia conhecer mais sucesso, fama e, portanto, “valorização”. Ou seja, o esforço individual não é valorizado em si mesmo, mas relativamente ao que o mercado e a sociedade valorizam.

Depois, porque é impossível medir exatamente o esforço de cada indivíduo em bases inequivocamente justas – sendo apenas Deus capaz de fazê-lo, regido por fatores parcialmente indetermináveis. Explico: vivemos numa época em que as pessoas valorizam muito o futebol e gastam muito dinheiro para assistir seus clubes, comprar produtos de seus jogadores preferidos, ídolos e craques, etc. Todos que acompanham futebol sabem muito bem que existem jogadores que são máquinas de treinar e, portanto, empregam muito esforço individual. E há os famosos “boleiros”, que simplesmente tiveram a felicidade casuística e não-merecida de nascer com um talento para esse esporte, esforçando-se, muitas vezes, o mínimo possível e, mesmo assim, obtendo considerável sucesso no que fazem, talvez até mais que muitos outros esforçados. Tudo isso enquanto pessoas que podem e vão criar valor um dia, esforçando-se em proporção muito maior, seguirão na incerteza se terão seu valor reconhecido.

É correto que as pessoas sejam premiadas por seu mérito individual em atividades valorizadas pelas pessoas nas épocas em que vivem? Sim, sem dúvida. Isso é justo? Podemos apenas oferecer um não provisório. E ninguém pode oferecer nada mais do que isso. Apenas Deus, com uma medida onisciente poderia dizer se o esforço de cada indivíduo está em perfeita harmonia e justiça com o que recebem como retorno.

Utilizando-se da teorética praxeológica, exposta por Mises, que diz que a ação tem seu julgamento dependente dos juízos de valor inerentes a cada um, pelo que se reconhece valor às coisas humanas, não há como se criar uma escala infalível e precisa sobre esses fatores. Mas precisamos recorrer sempre a um esforço imaginativo e perceptivo sobre os valores individual e social circundantes, que, por sua natureza subjetiva, trata-se de um julgamento impreciso sob quaisquer dimensões de análise. Fato esse completamente inescapável, pois as análises desses fatores são dependentes de uma ação individual de julgamento.

No dissenso entre esquerda e direita sobre a dimensão da meritocracia, não se tem unicamente uma discordância de ideias, mas uma perspectiva de análise fundamental: os marxistas creem firmemente que a capacidade de geração de valor possui caráter objetivo e coletivo, logo é possível encontrar meios de externos ao indivíduo que possibilitem o nivelamento de competências entre todos. Eis o caráter do igualitarismo marxista. Já os liberais e conservadores, desprezando as diferenças de panorama entre uns e outros, desenvolveram uma teoria da ação humana inerente e fundamentalmente baseada no indivíduo como fator ideal de análise, ou seja, o mérito ou competência possui caráter subjetivo e interno ao indivíduo, sendo impreciso e inexoravelmente desigual em sua manifestação universal.
E não quero, evidentemente, cair em quaisquer esparrelas marxistas no tocante a como a sociedade deve funcionar. Quando falo em esforço, evidentemente que não falo (apenas) de esforço físico, pois a força bruta sempre existiu em abundância na humanidade. Tampouco, ainda mais evidentemente, pretendo usar o Estado como régua corretora das possíveis injustiças (que acabei de afirmar que não podem ser medidas com precisão absoluta)[iii].

Creio que numa sociedade funcional de livre mercado, indivíduos seriam livres para buscar a realização de seus talentos individuais e seriam remunerados de acordo com suas capacidades, o que não acontece no nosso quadro atual – direitistas que advogam o conceito rasteiro de meritocracia estão indiretamente dizendo que o nosso modelo atual de sociedade é totalmente justo na premiação do mérito individual.

Tomemos um último exemplo: Pascal Bernardin relata um curioso experimento psicológico em seu Maquiavel Pedagogo: quando uma pessoa de aparência regular ou feia oferece um prato exótico a um grupo de pessoas, poucas ou nenhuma aceitam experimentar a iguaria; quando uma pessoa bonita oferece o mesmo prato a grupo semelhante, há muito mais candidatos a experimentar. Isso pontua para nossa reflexão: uma pessoa que herdou beleza dos seus genes – e, portanto, não tem mérito algum nisso – e se esforça na exata mesma medida que outra, só que desprovida da mesma beleza, terá seus esforços igualmente valorizados? Não se exige muito tempo ou mais que um exemplo para que o ponto fique provado.

Ou seja, conservadores, liberais ou libertários não precisam e não devem se comprometer com a defesa da injustiça para explicar ou defender nosso atual quadro social, que sequer é conservador ou liberal. Embora seja correto que indivíduos enriqueçam individualmente graças a seu talento valorizado, não quer dizer que seja justo que outros que se esforçam tanto ou mais não fiquem tão ricos, de forma que a discussão sobre mérito se inscreve no terreno da ética e não do direito. Um tal modelo “meritocrático” tem mais a ver com uma sociedade comunista que com uma sociedade de livre mercado.

No que diz respeito à sociedade como um todo, o que deve prevalecer é simplesmente a preservação da boa e velha propriedade privada (e isso sim deve estar circunscrito à esfera do direito). O que for efetivamente seu é seu por direito e ponto final, quer você mereça ou não. Quer você tenha conquistado com base em seu mérito individual ou não. Não se tem mérito ou culpa em ser branco ou negro, em ter nascido no Brasil ou em herdar alguma propriedade. Será que os adeptos da lógica rasteira do mérito são contra a herança? Afinal, em nível estritamente individual, posso não ter mérito algum no que herdo e tampouco criei valor em quantidade suficiente para receber essa recompensa financeira. Qualquer um que deixe escapar esse elemento estará, de uma forma ou de outra, alimentando teorias que se voltarão contra o livre mercado e contra a propriedade privada.

A “fracassocracia”:

“Sucesso, no Brasil, é ofensa pessoal” Tom Jobim

Ainda pior que a concepção comum da meritocracia é um imperativo que noto ser marcante e cada vez mais frequente na sociedade brasileira (e a mesma retórica vem crescendo nos EUA[iv]) que chamo de “fracassocracia”. Se nem todo mundo é devidamente premiado socialmente conforme seu mérito, e se a questão não se reduz a um direito a essa recompensa, mas apenas à correção ética dela, não quer dizer que não existam indivíduos meritórios que devem ou deveriam ser premiados e que devemos congratulá-los de acordo. Note-se que a perspectiva muda completamente: nem todos são gênios do calibre de Steve Jobs, mas alguns são e devem ser exaltados e não vilipendiados.

Esse vilipêndio foi bastante bem registrado e analisado por Ayn Rand, que considerava a punição da virtude pela virtude como o pior tipo de vício que pode existir, ou seja, “atacar o bom por ser bom”[v]:

Como alguém que trabalha com educação, consigo ver essa depravação diariamente. Até hoje as normas brasileiras patinam a respeito de como devem lidar com alunos extraordinários (está no plano de metas chegar a um consenso a respeito – meta 4). Mas posso assegurar que existem diversos planos de ação para resgatar os que simplesmente não dão bola para a aquisição de conhecimento, em detrimento daqueles que querem estudar. Afirmo sem titubear que na educação brasileira, até o presente momento, impera a regra do fracasso. O fracasso é premiado – não vamos nem entrar na discussão sobre a “progressão continuada” – e o sucesso é escanteado ou punido, não apenas por pares, mas pela instituição escolar e setores administrativos. Fracassocracia pura e simples.

Não obstante os argumentos parciais expendidos pelos defensores das políticas de ação afirmativa no bojo da lógica educacional brasileira, o cenário se agrava a longo prazo quando temos incentivos que nivelam o esforço humano a uma parametrização igualitária, neutralizando completamente as diversas capacidades de cada indivíduo, dentro de uma lógica perversa em que os estudantes indolentes devem possuir tanto direito subjetivo à incentivos quanto os esforçados dentro de suas respectivas áreas de aprendizado. Não há o mínimo estímulo à ambição e à competitividade, desestimulando eficiência e resultados acadêmicos promissores em um abismo de indiferença.

No fim, as políticas de ação afirmativa, como demonstrado por Thomas Sowell em seu ensaio sobre esse assunto, agravam e tornam crônicos os problemas educacionais, pois precarizam as estruturas educacionais com ações que visam nivelar a situação de todos pela proposição de ações mínimas.

Outros exemplos práticos podem ser colhidos em caixas de comentários internet afora. Observem qualquer reportagem jornalística sobre estudantes que gastaram horas e horas estudando para vestibulares concorridos e divirtam-se com a leitura. Não surpreende que a geração do sentimentalismo tóxico julgue os resultados positivos dos esforçados e vencedores negativamente, pois estes querem todos gastando seu tempo com entorpecentes recreativos, militância e criação de gatos para alimentar sua bomba sentimentalóide.

Vejam que fugi até aqui de exemplos econômicos, até porque creio que sejam ainda mais evidentes, especialmente em uma cultura de marxismo atmosférico, como dizia Nelson Rodrigues, e crença na falácia da soma zero. Na nação do ódio ao governo e dos enamorados do Estado, alguém pode enriquecer apenas por vias escusas, contatos especiais, lobismo e espoliação (o que tem algum fundamento, como veremos a seguir), somente por meio do empobrecimento alheio. O sucesso financeiro legítimo é impossível. Então, só resta cultuar o enriquecimento fácil e ilícito.

Além do culto ao fracasso, parece imperar no Brasil, como chama a atenção o professor Olavo de Carvalho, também o desejo de fracasso, numa espécie não de marxismo cultural, mas de “rousseaunismo cultural”, onde a partir da noção do bom selvagem que vive praticamente no ócio absoluto, crê-se e idealiza-se as vantagens da inércia total, coisa excelente para os burocratas do estamento manterem tudo exatamente como está.

Qualquer empreendimento novo é bombardeado por pessimismo e vaticínios de tragédia, quando não por convites para que se busque o funcionalismo público, de preferência em áreas jurídicas, que consigam unir a escassez de trabalho a polpudos salários. Nada de recomendar o empreendimento, a ousadia, o risco ou o almejar de voos mais altos. Vai que o sujeito consegue, não é mesmo?

 

Breve nota sobre burocracia e patrimonialismo:

Mencionei acima que as sociedades totalitárias podem perfeitamente ser meritocráticas. Embora o Brasil não seja atualmente uma sociedade totalitária, é profundamente marcada, como rezam boa parte dos intérpretes do Brasil (Holanda, Faoro etc.), pela formação de burocracias e pelo patrimonialismo (grosso modo, o trato da coisa pública como coisa privada) herdado das instituições portuguesas. Não quero dizer, evidentemente, que é problema exclusivo do Brasil, até porque Holanda bebeu em Weber e do alemão retirou o aparato para sua análise, que, por sua vez, certamente não estava a analisar as sociedades ibéricas e, muito menos, o Brasil. Argumento, em verdade, que toda uma combinação de fatores, histórica e socialmente construídos, combinados à burocracia galopante, ao patrimonialismo e ao próprio paternalismo, deram a natureza própria do ódio ao mérito que aqui raia.

Um ambiente completamente amistoso para o sacrifício do sucesso galgado à custa do legítimo mérito individual e pela simpatia com parasitas fracassados bem relacionados com burocratas. Empregos são conquistados à base da indicação pessoal, da proximidade, amizade ou simpatia dos já empregados com os pretendentes à vaga. Embora, no que diz respeito a cargos públicos, prevaleça o concurso, há diversos cargos comissionados e de confiança distribuídos conforme a proximidade ou como devolução de favores, onerando o bem público em favor da gratidão privada. O nepotismo dos políticos é, como tantas outras coisas, reflexo em escala maior e muito mais perigosa de um fenômeno repetido em ações diárias de pessoas comuns.

Não surpreende que prevaleça o império da fracassocracia num ambiente social em que essas regras existem. O filho, inexperiente, mas bem colocado, do prefeito da cidade modesta recebe um cargo no gabinete do vereador amigo. E por aí vai. Que convite há à busca pelo legítimo sucesso oriundo do mérito individual? O incentivo social é pelo puxa-saquismo, pela bajulação e pela troca escusa de favores. E quem sai da história beneficiado é o genuíno fracassado, que nada sabe, mas vai conservar o estamento de seus presentes ou futuros pares também fracassados, para quem também retribuirá o favor mais cedo ou mais tarde. Como podem os defensores ingênuos da meritocracia defender o quadro atual de coisas como meritocrático quando sabemos disso tudo?

Veja: é claro que esse tópico de sociologia brasileira, vastamente discutido e que constantemente é alvo da tentativa de revisionismo sociológico por parte de picaretas e proselitistas, está relacionado a tantos outros aspectos para se compreender o caráter nacional, que me parece que há evidente nexo causal entre uma sociedade profundamente marcada desde seu surgimento por relações que privilegiam contatos especiais e a perversão de um saudável senso de coletividade pública com a ojeriza ao sucesso individual (e eventual compensação social devida por ele), embora, como dissemos, não tenha defendido que este é o único elemento para explicar o problema, certamente o relicário ideológico que pousou no Brasil nos últimos 70 anos têm seu peso na equação, bem como a influência das ideologias marxista, social-democrata e progressista.

A base fundamental dessas visões políticas são, grosso modo, o igualitarismo irrestrito e incondicional, o mérito se torna inexistente e uma concepção estritamente burguesa, endereçada unicamente à preservação das bases de dominação e das estruturas de poder sociais estabelecidas, ou seja, um aparelho ideológico de manutenção do status quo. Os sistemas legais vigentes atualmente em nossa estrutura institucional foram configurados em bases manifestamente social-democratas, com um influxo massivo de ideais emprestados dos sistemas políticos de welfare state imperantes na Europa ocidental, em que o mérito torna-se uma concepção secundária sopesada com o critério do igualitarismo e do assistencialismo em todos os âmbitos sociais, que perpassa nossa Carta Magna em sua concepção holística de intervenção estatal e regulação, e que se ramificam em um sem-número de regulamentações infraconstitucionais. Portanto, o incentivo ao mérito e à livre concorrência, à competitividade e ao espírito de disrupção inovativa são meras ficções que, em última instância, passam pelo crivo absoluto das permissões estatais, resultando como consectário em uma ausência de estímulo ao mérito. A resistência à meritocracia se deve, ainda, ao realinhamento ideológico hegemônico e à saturação desses ideais massificados em camadas culturais e sociais, tornando o fator em um consenso não questionado.

 

Referências:

[i] Agradeço encarecidamente ao amigo Cássio Nascimento pelas preciosas revisões neste artigo.

[ii] Espero, mui modestamente, que o leitor não considere Felipe Neto, Cauê Moura, PC Siqueira e outros imbecis youtubeteiros mais meritórios que eu mesmo. Não se esforçam mais que eu e nem são mais inteligentes (ou pelo menos não demonstram publicamente). Geram valor para MUITA gente, certamente. Isso é perfeitamente certo, embora duvidosamente justo.

[iii] Por isso a teoria do valor baseado na ação humana postula que as dinâmicas de mercado, como uma manifestação intrínseca do julgamento individual, é o mecanismo moral por excelência, dado que define o que é justo ou injusto por uma definição dinâmica, adequada às circunstâncias em que ocorre.

[iv] Em Barack Obama vs Mitt Romney (2012), fiquei estupefato em como a mídia e a beautiful people tentava usar o fato do republicano ser um empresário – filho de um mexicano – bem-sucedido. como depoimento contra ele, supondo que, na América, considerável parte da população deixaria de votar no sujeito devido a seu sucesso financeiro. Vimos o mesmo no Brasil com relação ao candidato João Amoedo. Se isso está colando por lá, não podemos ter muita esperança para os trópicos.

[v] Fica implícito aí que todos sabem e concordam a respeito do que é verdadeiramente bom, o que certamente inclui a criação de valor, mas também virtudes intelectuais, como os heróis dos romances de Rand não escondem nem um pouco. Ou seja: é possível pensar a meritocracia e a fracassocracia diferenciando entre virtudes possíveis e admitindo que umas remuneram mais que outras.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

André Assi Barreto

André Assi Barreto

Bacharel, licenciado e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo. Licenciado em História. Professor de Filosofia e História das redes pública e privada da cidade de São Paulo. Pesquisador da área de Filosofia (Filosofia Moderna - Dercartes, Hume e Kant - e Filosofia Contemporânea - Eric Voegelin e Hannah Arendt) e aluno do professor Olavo de Carvalho. Trabalha, ainda, com a revisão de textos, assessoria editorial, tradução e palestras. Coautor de “Saul Alinsky e a anatomia do mal” (ed. Armada, 2018).

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