Monopólio da coitadice

No mesmo período em que o Brasil sofre por uma ditadura judiciária que transpõe todas as barreiras republicanas numa escala de autoritarismo – situando-se em um escrito kafkiano que só vigora pelo aproveitamento de alguns que viram no adereço da focinheira e da prisão domiciliar (tudo isso com o pretexto de manter a saúde intacta, é lógico) uma oportunidade exercer o fetiche autoritário – os defensores da democracia, os mesmos que se importam com vidas negras e combatem o fascismo, sentiram-se no direito de apossar-se de uma exceção para ir às ruas em legítima defesa ao sofrimento que vivem. Tranquilizo o leitor e digo que antes de me atrever a escrever sobre o tema, coloquei-me em frente ao espelho e me certifiquei da cor de minha pele. Ufa, estou no meu lugar de fala.

A raíz dos protestos que no Brasil aconteceram foi a situação ocorrida entre Derek Chauvin, um policial, e Georg Floyd, homem negro morto por uma série conjunta de eventos, que incluem a briga com os oficiais, além de substancias intoxicantes em seu corpo e doenças cardíacas pré-existentes. Chauvin foi filmado agindo de maneira covarde, ajoelhando-se sobre o pescoço de Derek Chauvin. A filmagem é inquestionavelmente angustiante e perturbadora diante dos olhos de qualquer pessoa.

O policial já foi preso, mas qual seria a vantagem da justiça sendo feita assim? A lei pode ser comprida, mas desde que o episódio ocorrido sirva de pretexto e combustível para que movimentos desencadeassem ações tão condenáveis quanto a do policial, mas numa escala maior. Pergunto-me, como é possível que as mesmas pessoas defensoras dos oprimidos e dos explorados, explore a morte de um negro e do caixão faça um palanque político?  

Não menos do que o esperado era a difusão dos discursos contra o racismo, portanto antes de continuar a análise dos fatos, peço que o leitor deixe-me fazer uma digressão, e voltar um pouco no tempo para postular sobre o racismo.

Em junho de 1839 nasce um mulato, cujo nome futuramente seria escrito nas capas de grandes romances como Quincas Borba e Brás Cubas, nascia, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis. A carreira do escritor foi tranquila (sim, absurdo, como um mulato pobre pode ter tido uma carreira tranquila?), aos dezesseis anos já havia publicado o primeiro poema e aos vinte já era revisor no Correio Mercantil – importante jornal do Rio de Janeiro.

A carreira do mulato, do coitadinho, manteve a ascensão e aos vinte e cinco anos publica Crisálidas. Machado ousa trair a sua classe, pois casa-se com uma branca. Branca, veja o absurdo. Mas o mais espantoso é que D. Carolina Augusta Xavier de Novais não se casou com um mulato teórico de inferioridade em busca de superações. E ainda mais: foi feliz com ele, e a não ser que no casamento Machado tenha clareado, a cor de ambos não importou para a felicidade.

Ouvi tempos atrás, na sala de aula, que Machado era um símbolo de resistência do povo negro, um ideal, um homem que em “si mostrava do que o negro é capaz” e a “resistência do povo negro escravizados pelos brancos”. Duas perguntas me vieram a mente no precioso tempo que perdi com aquela “aula”: como seu nome poderia estar associado por resistir a um ato perpetrado supostamente pelos antecessores da mulher que ao seu lado dormia?  Ele sim poderia resistir, se fosse um louco e aceitasse viver sob os domínios que a brancura de sua mulher exercia sobre ele, mas o casamento não atingiu estes tons, portanto se a obrigação dele era resistir, que fique posto que Machado não resistiu à tentação, e que pode ser considerado um traidor.

A segunda pergunta foi formulada somente porque tive o trabalho de fazer o que suspeito que o professor não fez: ler as obras de Machado. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo intitulado “O Vergalho”, Brás Cubas tem suas reflexões interrompidas por um ajuntamento, “era um preto que vergalhava outro na praça”. Sim, um preto sendo vergalhado por outro. Até onde eu sei, Machado não era daltônico e não vivia alucinado em um mundo paralelo, e, portanto, o que faz é reproduzir nas obras a experiência real: negros escravizaram negros.

Ano passado Machado se tornou vítima, pela campanha da faculdade Zumbi dos Palmares para recriar a foto do autor, quando digo recriar, entenda escurecer. É o escurecimento programado, como se passar tinta marrom na face de alguém fosse sinônimo de conquista ou de sucesso – de santidade. O escritor foi oprimido por uma agenda política imperceptível ao fato de que ele não era um mestiço inferiorizado. A campanha se chamava “Machado de Assis real”, ou seja, só é realidade se tiver de acordo com uma paleta de cores específica. O resto é descartável.

Se Machado de Assis escreveu suas obras, com “lúcida mestria e tão implacável finura” como diz Corção, servindo-se para isso de nada mais que a cor de sua pele, então quem deve receber prêmios, a presidência da Academia Brasileira de Letras, a autoria das obras não é Machado; é a Melanina; é o Preto. O que seria de nossa literatura se um dos maiores nomes que a formam, se escorasse na coitadice monopolizada dos movimentos negros e do movimento Antifa, aproveitando-se do pressuposto de que todo negro é vítima de racismo? Não sei o que seria da literatura, mas sei o que ele seria: um incompetente que usa de sua cor para adquirir vantagens e encobrir sua mediocridade.

Relembrando o que disse Gustavo Corção: “Machado só foi Machado porque não foi nem um mulato humilhado, nem um mulato triunfante”. A vida e o talento são incolores. Saber a cor de alguém só deveria importar para quem tem algum tipo de deficiência (os manifestantes são deficientes políticos).

Para não enfadar o leitor, atenho-me aos últimos dois pontos de minha digressão. A ofensa dos negros é seletiva, pois, ao combater uma opressão imaginária sente-se oprimidos e vitimados, mas quando são domesticados e usados como mascotes, não abrem a boca. O negro tornou-se propriedade privada dos progressistas e é constantemente chibato por princípios ideológicos, somente trocou de senzala.

Há algo mais racista do que reivindicar direitos especiais para um povo com uma cor específica, negando estes direitos aos outros? Há algo mais racista do que particularizar o termo “racismo”, como se o termo pudesse ser usado somente por pessoas específicas? Se o racismo se baseia no ato de não aceitar as diferenças, como reforça-las pode ser considerado um ato contra o racismo? A demasiada força que a cor adquiriu nos últimos anos demonstra a tentativa de particularizar e de hierarquização típica de um pensamento racista. Finda está a digressão. Voltemos aos fatos.

Os manifestantes norte-americanos e brasileiros lutaram contra o racismo – que para eles foi evidenciado na ação do policial – tendo como líder o movimento Antifa, financiado por brancos. Cujo único desejo é desestabilizar e causar o caos. A política democrata Alexandria Ocasio-Cortez compreendeu melhor o problema e atreveu a dar uma solução, em um vídeo que está disponível na Internet. A solução é simples: mais Socialismo.

O ex vice-presidente dos Estados Unidos, John Biden, através de seus assessores, financiando a defesa dos integrantes desse grupo terrorista – usando a expressão do presidente Donald Trump –, qual seria o interesse de um político que paga para militantes terroristas saírem da prisão? É o velho princípio “Solve et Coagula”. Dissolver e Coagular. A estratégia é decompor o que era composto para que um novo arranjo, postumamente, seja composto. É preciso gerar o caos para trazer a solução, não é de se estranhar que a política mais segregacionista existente é a progressista. O progresso ao futuro precisa ser justificado pelo desapego a um passado caótico (que estrategicamente foi criada por eles). Admira-me que os mesmos que tanto de importam com vidas negras não pestanejem em defender o aborto.

O pretexto do combate a um regime fascista é uma constante histórica usada pelos que desse sistema político fazem parte. Stalin e Mao Tsé-Tung podem ser considerados dois dos maiores “Antifa’s” do mundo. Em legítima defesa ao fascismo que os oprimia e dominava, mataram – em soma superficial – mais de 80 milhões de pessoas. Creio que eram todas brancas, afinal de contas, vidas negras importam, vidas brancas, amarelas, vermelhas, não.

Considerando que “fascismo”, “regime totalitário”, “opressão”, por mais que sejam expressões utilizadas por sua subjetividade e oquidão, não deixam de assombrar quem os condena, pois é a abstração de algo divergente. O simples fato de existir outro lado, algo antagônico por mais abstrato que seja, exige medidas que as calem, que não as validem, que as destrua. A ânsia por calar até mesmo um espantalho criado por eles tal como é o “regime fascista”, demonstra que a mera possiblidade de discordância da percepção deles, mesmo fantasiosa, equivale a uma assombração. O que é isto se não a melhor demonstração de que um totalitarismo polido com discurso límpido intoxicado de jargões democráticos. A ditadura é interpretada como democracia, e a democracia é um assombroso totalitarismo.

Heather Mac Donald, em sua obra The War on Cops, afirma que em 2015, 991 pessoas morreram por tiroteio policial. Os negros totalizaram 26 por cento das mortes, sendo assim “a porcentagem de vítimas negras não ajudam a provar que a polícia é racista”. O resultado de mortes negras por tiroteio com os policiais é muito menor do que o número de mortes dos brancos e hispânicos. A maioria dos negros que foram mortos estavam armados. É mais aceitável dizer que a polícia persegue brancos, não? E os negros que morreram certamente não carregavam armas para reforçar sua inocência. Com essa desproporção as vítimas de racismo não esquecidas. Um protesto que ignora os dados da realidade é coitadismo.

Vidas negras não me importam, vidas brancas também não. Não existe vida negra, ou vida branca. Deixemos as preocupações aos etnógrafos e os geneticistas. A justiça atual, pelas campanhas contra o preconceito de raça, tem uma cor específica. A justiça deve ser incolor, pois a prisão não está cheia de lápis de cor, está cheia de indivíduos criminosos que não adquiriram importância pelo tom de sua pele, mas pelo crime individual que cometeu. Por que o combate ao racismo ignora o ódio aos brancos? Por que vidas negras importam e a ideologia da coitadice precisar vir antes da justiça e do indivíduo…. Se eu pudesse seria transparente. Minto, isto é inaceitável, pois chatearia as cores primárias. Coitadas…

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Yuri Ruiz

Yuri Ruiz

Um jovem conservador, antifeminista, antimarxista e cristão.

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