Imagem: Reprodução

O porco sempre procura a lama

A notícia da última semana é o vídeo que circula nas redes sociais, em que a futura ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, Dra. Damares Alves, afirma ter visto, ainda criança, Jesus Cristo caminhando em sua direção, quando estava em cima de uma goiabeira, nos preparativos finais para cometer suicídio. A visão a fez desistir da morte, que teria como causa a violência sexual perpetrada por dois religiosos, entre seus seis e oito anos de idade. O depoimento foi dado durante um culto de uma Igreja Evangélica.

Seria razoável que o mote da notícia fosse a lamentável violência sofrida pela futura ministra na infância e sua “volta por cima” de uma situação tão aterradora como a relatada no vídeo. Não, o mote foi outro. Artistas, filósofos e jornalistas pulularam de todos os cantos escarnecendo e solapando a fé de Damares. E não foi a primeira vez. O escárnio e a blasfêmia ao fenômeno religioso são sistêmicos, paulatinos e organizados por parte daqueles que descobriram na fé o último bastião a ser derrubado para o establishment da bestialidade assentado no relativismo total e na ditadura do eu.

São diversos os episódios lamentáveis em que a fé do povo brasileiro é vilipendiada, sem o mínimo pudor e, ainda, com o “pseudo” rótulo da arte ou da racionalidade/intelectualidade. Ao ver e sentir na pele estes ataques, percebo semelhanças com a série “vikings”, onde bárbaros saqueiam, matam e profanam os templos e monastérios que encontram em seu caminho, sem nenhuma piedade. É inevitável a comparação que, aliás, não é inédita. Mário Ferreira do Santos a fez (1967), em seu “Invasão Vertical dos Bárbaros”. Segundo Mário, os bárbaros (incluindo, especialmente, os de hoje), não usam do expediente da racionalidade e do intelecto para expressar suas divergências com determinadas posições, eles atacam, dilaceram, esquartejam ao sabor de muito sangue e crueldade, do jeito “bárbaro” de ser.

Os bárbaros são blasfemadores contra os deuses de seus rivais. Foram eles que dirigiram os seus cavalos aos templos e transformaram altares em manjedouras. Foram eles que profanaram templos com orgias torpes, inundaram de imundícies os lugares santos para tantos crentes, não respeitaram a dignidade de pessoas que consagraram a sua vida a uma crença ou a uma missão e violentaram corpos com intuitos sacrílegos. (2012, p. 69)

Algum leitor desavisado ou alienado mesmo, escusas, pode estar se perguntando: Bárbaros? Ataques sistêmicos, paulatinos e organizados, como assim? A fé, sobretudo a cristã, e seus valores, vem sendo alvo de ataques, pelos bárbaros da atualidade, há muitos anos, direta e indiretamente. De forma direta, além dos recentes ataques à fé de Damares, podemos lembrar da exposição “Queer Museum”. Neste ataque bárbaro hóstias foram sodomizadas, Jesus Cristo e Maria vilipendiados, os conceitos de família e sexo ultrajados, tudo feito em nome de uma “arte contestadora”. A arte, como instrumento de contestação, deve ser uma ferramenta de reflexão e estímulo do pensamento, nunca meio de repulsa e náusea. O ser humano civilizado, ou seja, não barbarizado, ao se deparar com uma tela de zoofilia ou com uma hóstia sodomizada, de certo não terá outra sensação que não enjoo e mal-estar, no mínimo. Logo, onde está a arte?

As agressões aos valores das crenças do povo brasileiro que denominei de “ataques indiretos” são aqueles que invadem o espaço público com o manto da busca pela igualdade de direitos, quando na verdade ferem exatamente o que buscam. Ideologia de gênero, aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e por aí vai. A busca é o relativismo total, a desconstrução da família e da comunidade. O reinado do eu e da minha vontade. Ops, estou lembrando da série vikings novamente…

E quem são os bárbaros da atualidade? Eles estão por aí disfarçados de artistas, professores, literatos, jornalistas e outros intelectuais. Entretanto, é muito fácil reconhecê-los. Como os porcos, eles não podem ver a lama, quando a veem, refestelam-se e se lambujam, revelando todo o seu barbarismo e o ímpeto primeiro de destruir a civilização, o que tentam desde antes dos tempos da trindade áurea (Sócrates, Platão e Aristóteles). Queer Museum e o caso Damares são provas disto. Muitos revelaram-se porcos ao ver a lama, profanando e paganizando a crença e a dignidade das pessoas.

A fórmula para descobrir um bárbaro é simples, sempre que alguém apela para o descalabro, estás diante de um bárbaro. Palavras de Mário Ferreira dos Santos:

Cultura e civilização exigem que se discuta com decência e raciocínios seguros, sobre a mesa das disputas honestas, a validez ou não de tais crenças. A afronta, a lama atirada, o berro desabrido, a imundície à solta não são argumentos senão de doidos morais, sem inteligência, nem finura intelectual. (2012, p. 69)

O desiderato é sempre o mesmo, a total ruptura com qualquer valor que dê significado à humanidade. Ser humano é viver em comunidade, estabelecer, manter e respeitar laços e, sendo os valores o amálgama que o insere no mundo e permite, por assim dizer, viver com dignidade, deve ser extirpado. Marcus Boeira, citando Batista Mondim, ensina:

MONDIN define valor em seu sentido ontológico dizendo que “exprime a qualidade pela qual uma coisa possui dignidade e é, portanto, digna de estima e de respeito”. E adiante acrescenta que “tudo o que é considerado precioso e que, de qualquer modo, pode aperfeiçoar o homem, como indivíduo ou como ser social, merece estima e é por isso um valor. Disso decorre a enorme vastidão e a grande complexidade do mundo dos valores”. (Tradição e multiculturalismo: O papel civilizatório do Estado Constitucional no intercâmbio cultural – EOS – Revista Jurídica da Faculdade de Direito – ISSN 1980-7430, 2015).

E, a partir destes valores, Boeira arremata:

São os valores princípios substanciais e indicativos de como o ser humano se insere nesse mundo, qual lugar ocupa na história e de que modo procura a vida boa. Assim, os valores correspondem aos princípios fundamentais para um existir coerente do homem e, acima de tudo, para uma boa organização da comunidade humana. Enquanto tais, os valores assumem a forma do que é certo e desejável para uma civilização. Estimados por corresponderem a tradição e por serem decorrências diretas do plano divino, mostram-se fundamentais para a estabilidade e perenidade da cultura. (ibidem).

Ou seja, a luta é contra tais princípios fundamentais, e, dentre eles o principal alvo é a fé, ou religião, porque é a partir dela que a dinâmica da manutenção dos valores fundamentais e naturais se perpetua, constituindo a cultura e, por conseguinte a civilização. Para se entronizar o “EU” e o relativismo, o inimigo a ser morto é a fé das pessoas, não é à toa que os amantes do “eu” a séculos combatem o cristianismo.

Religião é a base fundamental de sustentação dessa dinâmica da civilização. Por essa razão, grande parte da escola antropológica realista afirma que a cultura, assim como a civilização que é seu produto, não se sustenta nem se justifica realmente sem uma grande tradição religiosa.(ibidem).

De movimentos organizados como o movimento pró-aborto ao escárnio da crença, percebe-se a luta diária contra a dignidade da pessoa humana. “A blasfêmia e o sacrilégio são uma ofensa à dignidade humana e revelam a baixeza da alma de quem os pratica”. (Mário Ferreira dos Santos. Ibidem, p. 69).

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Thiago Rafael Vieira

Thiago Rafael Vieira

Graduado pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA (2004), advogado, membro da OAB/RS, inscrito sob o n.º 58.257 (2004), OAB/SC sob o n.º 38.669-A e da OAB/PR sob o n.º 71.141; especialista em Direito do Estado, com ênfase em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (2006). Pós-graduado em Estado Constitucional e Liberdade Religiosa pela Universidade Mackenzie, pela Universidade de Oxford (Regent’s Park College) e pela Universidade de Coimbra (2017). Professor visitante da ULBRA e de cursos jurídicos, tem atuado preponderantemente na área de Direito Religioso e Empresarial, tanto na área consultiva, como no contencioso e assessoria a organizações religiosas e empresas. Presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Religião - IBDR; Vice-presidente do Instituto Cultural e Artístico Filadélfia – ICAF; foi membro do Conselho Diretivo Nacional da ANAJURE, nos cargos de Diretor Jurídico e posteriormente de Diretor para Assuntos Denominacionais até 11/2018. Co-autor com Jean M. Regina da obra “Direito Religioso: questões práticas e teóricas. Porto Alegre: Editora Concórdia, 2018.

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