Almoçando Burke e arrotando Pinochet: precisamos de um estadista e não de intervencionistas

Há um fetiche tipicamente brasileiro, mais especificamente na direita afoita, o fetiche do militarismo como solução para todos os males. Muitos opinadores dessa casta extremista pensam que a política é resolvida sempre com um canhão, com corpos estendidos e com imposições monocráticas. Revivendo num looping eterno a nostalgia dos tempos dos milicos de 1964-85, tais homens e mulheres, mumificados em suas compreensões de democracia, pensam que um cabo e um soldado resolverão as mazelas estatistas, econômicas e sociais apenas com fuzis e o hino nacional.

Tolos.

Não tenho absolutamente nada contra as Forças Armadas ― tirando, obviamente, suas ridículas convicções positivistas. Geralmente são homens e mulheres honrados, verdadeiramente leais ao país e às suas instituições; pessoas que realmente se sacrificam em nome de valores e princípios que, para muitos engravatados de Brasília, não passam e adornos em discursos vazios. Tão tolo quanto achar que os militares são o elixir da república, é pensar que eles são os inimigos da nação.

Temos que entender ― de uma vez por todas ― que os militares não são chamados a desempenhar o poder político em uma nação organizada sob o fardo civil ― salvo em raríssimas exceções, é claro. Uma sociedade civil deve saber resolver seus problemas sem colocar as instituições abaixo; um pai de família sensato não derruba a casa porque a sua família não tem harmonia, porque seus filhos são desobedientes frente às suas regras internas. Qual a diferença entre revolucionários e conservadores se, diante do primeiro obstáculo ou aporia, os cidadãos jogam tudo para o alto e recorrem à força belicista? Pessoas que almoçam Tocqueville e arrotam Lênin; aplaudem Burke e reproduzem Pinochet.

“Ninguém acha que a democracia é perfeita e irretocável. Na realidade, já foi dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as outras já experimentadas de tempos em tempos”. (SONDERMANN, 2018, p. 51)

No fundo esta insistência masturbatória e ridícula em prol de uma intervenção militar não passa de um fetiche por farda e coturnos. Os gritos organizados, as marchas uniformes e os imponentes símbolos de força geram em muitos uma espécie de compensação e segurança. Diante de uma sociedade insegura, preguiçosa e amedrontada, a primeira coesão e ordem que surge parece um anjo de sete asas, o santo dos santos.

O Brasil não precisa de tanques na praça dos três poderes, não é necessário fuzis e nem de um presidente com uniforme militar; precisamos de organização interna, compreensão dos trâmites do Estado e, principalmente, saber usar a política ao nosso favor. Ricardo Sondermann (biógrafo brasileiro da vida pública de Winston Churchill) afirma em Churchill e a ciência por trás dos discursos: “Talvez tão importante quanto as armas, aviões, tropas e munições, a comunicação dirigida a soldados e população manteve a chama acesa, a luta e a vontade de vencer” (SONDERMANN, 2018, p. 60. Grifo meu)

Sim, Bolsonaro tem muitos entraves e contrapesos, verdadeiras algemas que deliberadamente foram impostas a ele, mas cabe ao Presidente demonstrar o seu dinamismo, a sua volúpia política e capacidade de arrebatamento ético. Todos os grandes estadistas enfrentaram tais problemas; é o ônus da cadeira presidencial, mas também a ocasião para a virtude, o palácio virginal do estadismo e das honras públicas. Basta escolher certo e ser inteligente.

O crescimento pressupõe a pequenez em algum estágio; se Bolsonaro se mostrar humilde para consertar suas “caneladas” iniciais, firmeza para manter sua espinha moral ereta sem concessões de rapina e, principalmente, se demonstrar capacidade de convencimento, união e autenticidade para arrebatar povo e o parlamento, o jogo político então deixa de ser inimigo e passa a ser aliado essencial. Não se trata de “toma lá dá cá”, se trata de estratégia, comunicação e adaptação inteligente às condições de pressão e temperatura.

Por exemplo, se a Câmara dos Deputados está travando os trâmites de interesse popular, o que impede Bolsonaro de ir à público e mostrar O SEU trabalho para a aprovação dos projetos? Sem ataques, sem xingamento, apenas mostrar que: “o meu tá feito”. Fazendo isso ele escancara a sua atuação e mostra que a falta de compromisso vem dos deputados e não de sua atuação. Jogar o jogo sem precisar “descer para o play”.

O que impede Bolsonaro, por exemplo, de usar plebiscitos como munição política para questões abertamente populares, expondo assim a impopularidade e o autoritarismo legislativo e da oposição? Cessarei aqui as minhas dicas, não cabe a mim tais funções. Porém ainda é nítido que falta a Bolsonaro alguns ajustes retóricos estratégicos, melhorou demais nos últimos dois meses, principalmente a comunicação e os tratos republicanos com as demais casas. Mas ainda falta muito. E aos intervencionistas de megafone, falta o mesmo de sempre: cérebros e, muito provavelmente, vida sexual ativa.

 

Referências:

SONDERMANN, Ricardo. Churchill e a ciência por trás dos discursos: Como Palavras se Transformam em Armas, LVM: São Paulo, 2018

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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