As portas de igreja não prevaleceram contra a histeria

Poucas coisas me deixaram mais triste e irritado do que a recente onda de fechamento de igrejas motivada pela histeria coletiva causada pelo corona vírus. Para aumentar a tristeza e a irritação, parece que falar sobre isso se tornou, na melhor das hipóteses, uma indesculpável falta de amor para com os “irmãos mais fracos”. Se você participa de algum grupo de whatsapp da sua igreja, já deve ter tido o desprazer de ver pessoas comemorando efusivamente a decisão de suspender os cultos (em alguns casos, por tempo indeterminado). Como chegamos a esse nível de domínio pelo medo?

Antes de mais nada, é necessário um choque de realidade: não, o covid-19 não é a nova peste negra, não tem essa força toda, não vai acabar com a civilização, não chega nem mesmo a ser tão forte quanto a gripe comum.

Ou seja, na Itália, onde a situação está mais catastrófica, de onde o vírus se alastrou para toda a Europa, e para vários lugares do mundo, não há motivo razoável para preocupação, pelo menos não do jeito que aqui estamos nos preocupando.

Obviamente, ninguém obrigaria idosos com mais de 79,5 anos, ou pessoas com 2 ou mais doenças graves ir à igreja. Antes, até onde eu saiba, ninguém estava obrigando ninguém a ir à igreja. Agora, porém, estamos (aqueles cujas igrejas foram fechadas) obrigados a não ir. Ou seja, para evitar ferir os sentimentos dos irmãos mais fracos, aceita-se a que a paranóia dos mais fracos imponha prejuízos aos fortes, impedindo estes de frequentar os cultos.

A passagem do “quem estiver em situação de risco, fique em casa” para o “vamos fechar a igreja por tempo indeterminado” revela verdades deprimentes sobre a cosmovisão desses cristãos e sobre a covardia que impera em seus corações. E eu me preocuparia muito se percebesse, em mim, esse nível de covardia.

“O vencedor herdará estas coisas, e eu serei o Deus dele e ele será o meu filho.

Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos imorais, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que está queimando com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.”

Apocalipse 21:7,8

Uma das verdades deprimentes é o que esses cristãos acreditam que seja a Igreja.

O fechamento em massa das igrejas teve como base decretos que várias das autoridades públicas brasileiras em nível estadual e municipal expediram recomendando ou mesmo ordenando a suspensão das atividades de estabelecimentos públicos e privados nos quais pudesse haver aglomeração de pessoas. É certo que não se pode presumir que o Poder Público trate de forma diferenciada uma igreja, um bar, uma casa de shows e uma repartição pública. Para fins administrativos, a igreja é apenas um imóvel como os demais. Por isso, é natural que, uma vez que se recomende o fechamento de estabelecimentos onde haja um grande número de pessoas reunidas, as igrejas entrem no balaio. Quem não poderia ter essa visão eram justamente os cristãos!

A partir do momento que as lideranças decidem acatar as recomendações das autoridades e deixam de se reunir, eles dizem, inequivocamente: isso aqui é só uma reunião onde temos uma banda tocando e ouvimos uma pessoa palestrar. Nada além disso. E já que o prefeito/governador mandou a gente fechar, tudo bem, a gente volta depois. É claro que ninguém fez todo esse raciocínio e formulou essas frases conscientemente. Mas é a conclusão inevitável de tal atitude.

Não é de hoje que uma autoridade pública “recomenda” o fechamento das igrejas. Na verdade, isso acontece desde o surgimento da Igreja, e não parou de acontecer até hoje. Há apenas duas diferenças: 1. os primeiros cristãos, quando flagrados pelo Estado, não corriam o risco de serem presos por um ano ou de perderem o alvará de funcionamento, eles eram apedrejados, esquartejados, lançados aos leões, crucificados etc. Em Roma, eles serviam de iluminação pública: eram amarrados em postes, embebidos em óleo e queimados vivos. 2. Eles não obedeciam as ordens das autoridades públicas.

E desde aquela época até hoje, a igreja desobedecia a essas ordens porque, primeiro: como lhes ensinou São Pedro Apóstolo, mais vale obedecer a Deus que aos homens. Segundo: eles entendiam que as reuniões não eram meros encontros para bater um papo sobre Jesus, comer uma boa refeição e cantar umas musiquinhas. Eles entendiam que ali estava a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Corpo Místico do Filho de Deus e que, sim, o templo onde a igreja se reúne não é um lugar comum, e não pode ser tratada como tal.

Não é curioso? Parece que agora, todas as lideranças evangélicas que, até ontem, estavam lutando contra a onda dos “desigrejados”, que estavam tendo um baita trabalho para desfazer o estrago que o discurso relativista do Caio Fábio de “cristão que não tem nada a ver com cristianismo”, subitamente estão concordando com todas as suas premissas. Para justificar sua obediência bovina a ordens de prefeitos e governadores, elaboram argumentos caiofabianos de desnecessidade de reunião no templo para ser igreja.

A segunda verdade deprimente é: para eles, a vida se encerra aqui nessa terra.

Ainda pensando na teimosa insistência dos cristãos perseguidos de se exporem ao risco de morte ao não deixarem de congregar, precisamos nos perguntar algo que, infelizmente, soa radical demais para os ouvidos sensíveis do cristão pós-moderno: vamos fingir, por um momento, que há um risco tão grande quanto a histeria coletiva acredita haver, e que, por isso, as autoridades realmente ordenem o fechamento das igrejas. Ou seja, há um risco real de você ir pra igreja e morrer por causa do corona vírus, seria justificável a igreja obedecer e fechar a igreja?

Ou você tem medo de morrer, ou é cristão. Os dois não dá.

E não se engane, o medo da morte não gera consequências apenas nos derradeiros momentos da sua vida. Ele é a raiz de toda angústia, de toda tristeza profunda, de todo sentimento de vazio existencial. E ele gera toda sorte de neuroses e comportamentos histéricos como os que estamos presenciando agora. Não é atoa que há tantos deprimidos, dentro e fora das igrejas. São Paulo Apóstolo já diagnosticou a causa dessa depressão há muitos séculos: Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos as pessoas mais infelizes deste mundo (1 Coríntios 15:19).

A verdade é que, em breve, tudo isso terá passado e, provavelmente, ninguém se lembrará de colocar álcool 70º em tudo que encosta. Pelo menos até aparecer outra crise chinesa exportado mundialmente. O corona vírus acabou servindo como teste. Mostrou quem usou o fundamento de Cristo para edificar uma obra de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha (1 Coríntios 3:12).

É fácil cultuar quando não há absolutamente nada que possa impedir o culto. Mas se no primeiro aceno, a igreja ceder tão facilmente, o que acontecerá numa eventual perseguição velada?

E, sinto informar, todos os que decidiram pelo fechamento de igrejas, bem como os que fizeram pressão para que isso acontecesse e os que comemoraram o fechamento; todos foram reprovados nesse teste. Na primeira oportunidade de demonstrar coragem, responderam com histeria covarde, recolhimento medroso. Mas há uma boa notícia: ainda há tempo de extirpar a covardia do seu coração e ouvir o conselho do Rei Davi a seu filho e sucessor, Salomão: tenha coragem e seja homem!

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Igor Moreira

Igor Moreira

Editor do Burke Instituto Conservador. Professor e palestrante.

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