Sem dúvida alguma… um clássico! – Considerações sobre Ilíada de Homero

Há séculos os literatos discutem qual o catálogo dos clássicos. Ao menos desde Quintiliano, que com sua “Institutio Oratoria” indicou uma biblioteca mínima para os alunos de retórica e pautou todo o critério de importância das obras escritas até ele, o debate é intenso, incessante; e um acordo, inviável.

A consulta aos vários cânons de clássicos escritos pelos vários autores demonstra uma enorme disparidade de listas, com livros que ora aparecem, ora somem; autores que ganham enorme relevância, e então recaem no mais profundo esquecimento.

Todavia, essas várias listas, por mais variadas e díspares que sejam, possuem ao menos um ponto de absoluto consenso: os épicos de Homero, a Ilíada e a Odisseia.

Se alguém merece o título de “pai fundador” da literatura ocidental, esse alguém é Homero.

Não à toa, já foi escrito no jornal O Globo que:

“Com a Ilíada e Odisseia, Homero Lançou os fundamentos da Cultura do Ocidente”.

É um fato.

 

A Ilíada:

Aqui, nesse artigo, nos propomos a apresentar uma sinopse de sua primeira grande obra: a Ilíada.

A Ilíada é um poema épico que narra determinados eventos ocorridos com o herói Aquiles, e em torno dele, durante a Guerra de Troia.

Basicamente, o tema central da história é a ira desordenada de Aquiles e as consequências de sua cólera, inclusive para ele próprio.

Mas para entender a narrativa constante da Ilíada é necessário contextualizá-la.

Primeiramente, cremos que seja interessante corrigir um equívoco comum: o de imaginar que a Ilíada trata da história da Guerra de Troia. Na verdade, a Ilíada inicia no 9º ano da Guerra de Troia, bem após o seu começo. E se encerra com a entrega do cadáver de Heitor – o principal guerreiro troiano – ao seu pai, Príamo (rei de Troia), a fim de que lhe conceda sepultura. Fato este bastante anterior ao assalto à cidade e à vitória dos gregos, que não são relatados no poema homérico.

Assim, percebe-se que a obra não trata da Guerra em si, mas de alguns eventos ocorridos em um pequeno período dentro do conflito. Do que podemos concluir que o interesse não é histórico, mas moral. Não trata da Guerra, mas de acontecimentos humanos dos quais lições éticas podem ser extraídas.

Outra informação importante: Homero escreveu a Ilíada para pessoas familiarizadas com os mitos gregos e que por isso conheciam a história sobre o início da Guerra e seu desfecho, de modo que não precisava descrever tais fatos, centrando-se apenas na narrativa necessária para explorar moralmente a cólera desmesurada de Aquiles.

Nós, todavia, desconhecemos a lenda. Assim, antes de ingressarmos na Ilíada, cremos que seja interessante descrever como chegamos até o momento da história narrado no livro. Para esse ponto, a respeito dos fatos que antecederam a Ilíada, utilizaremos como fonte a obra “O Livro da Mitologia”, de Thomas Bulfinch.

 

1 – Como começou a “Guerra de Troia” e o que aconteceu antes do que está narrado na Ilíada?

Tudo começa no casamento de Peleu – um humano comum – e Tétis – imortal (visto que era uma ninfa do mar, uma da nereides). Mais tarde eles viriam a ser os pais do grande guerreiro Aquiles.

Ocorre que uma deusa deixou de ser convidada para o evento: Éris, a deusa da discórdia. Por esse motivo ela ficou tomada de rancor e decidiu semear a divisão, atirando uma maçã entre os convivas com a inscrição “Para a mais bela”.

Três deusas reclamaram o pomo: Hera (esposa de Júpiter e rainha dos deuses), Afrodite (deusa do amor) e Minerva (também chamada de Atena, filha de Zeus, protetora da cidade-estado de Atenas, deusa da sabedoria e da guerra). Zeus não quis decidir a questão, delegando ao pastor troiano Páris o julgamento.

Páris era filho de Príamo, rei de Troia. A mãe de Páris, Hécuba, havia sonhado que ele arruinaria Troia, motivo pelo qual seu pai mandou um guardião de seus rebanhos matar a criança. O guardião, todavia, não teve coragem e manteve Páris vivo, criando-o a seu lado como pastor, dando-lhe um segundo nome: de Alexandre. Páris se destacou por sua beleza e por sua capacidade de avaliar as reses da manada com acerto e sabedoria. Por isso, Zeus escolheu-o para julgar a querela sobre quem seria “a mais bela”.

Pois bem. Cada uma das três deusas mencionadas ofertou a Páris um presente, a fim de influenciar seu julgamento: Hera lhe ofertou poder e riquezas; Atena, glória e fama; e Afrodite, a mais bela esposa. Páris, então, escolheu Afrodite, ficando essa lhe devendo o auxílio para que casasse com a mais bela das mulheres.

Afrodite elegeu Helena, a mulher mais bela, para ser esposa de Páris. Havia um único problema: Helena já era casada. Com Menelau, rei de Esparta. E será isso que deflagará o conflito.

Afrodite, com a finalidade de realizar seu plano, conduziu Páris em segurança até a Grécia, onde esse foi recebido de modo hospitaleiro por Menelau, marido de Helena. Enquanto era hóspede do casal, Páris – com o auxílio de Afrodite – encantou Helena e a convenceu a fugir com ele para Troia: começava aqui a Guerra que vários poemas épicos retratariam.

Menelau, profundamente ofendido, apelou aos irmãos que eram líderes em toda a Grécia, para que unissem esforços e fossem até Troia para resgatar Helena. Agamêmnon, irmão de Menelau, e principal rei grego, foi incumbido de liderar o exército invasor. Seus principais guerreiros eram: Aquiles, o gigante Ajáx, Diomedes (também chamado de Tidida), Ulisses (também chamado de Odisseu, e que será o protagonista do futuro épico: a Odisseia) e Nestor, o mais idoso dos líderes e, por isso, também o mais sábio conselheiro.

O exército grego era o maior já reunido e isso tinha um motivo: Helena, uma espartana de beleza absolutamente singular e encantadora, teve por pretendentes mais de 100 generais gregos. Isso gerava um risco a quem fosse escolhido por ela: o de ser atacado por algum (ou alguns) dos rejeitados. Assim, antes que ela tomasse sua decisão, foi feito um trato entre eles, de que caso o casamento entre ela e o escolhido fosse de algum modo desrespeitado, os demais formariam uma coalizão a fim de vingar a ofensa. Helena escolheu Menelau e eles se casaram. Quando Páris a levou embora, supostamente sequestrada, os antigos pretendentes entenderam que estavam na obrigação de formar a aliança de guerra para recuperá-la. Assim, os principais guerreiros gregos todos se viram envolvidos na Guerra de Troia.

Contudo, Troia, também chamada Ílion (daí o nome Ilíada), era um adversário duro no combate. Governada por Príamo, um rei reconhecido por seu bom governo e com muitas alianças com grupos vizinhos, tinha por principal líder no combate o guerreiro Heitor (filho de Príamo), cuja fama como pai e marido de Andrômaca não era menor. Ao lado de Heitor, os principais guerreiros troianos eram Eneias (que mais tarde protagonizará o romance de Virgílio, a Eneida), Deífobo, Glauco e Sarpédon.

O gregos partiram para a guerra.

Já durante a navegação de ida o exército grego enfrentou uma dificuldade, narrada em uma das tragédias de Eurípedes: Ifigênia em Áulis. Por ordem da deusa Ártemis, enfrentam ventos contrários e ficam parados na região de Áulis, enquanto seus mantimentos se exauriam e a ansiedade começava a tomar conta do grupo. A deusa exigiu que Agamêmnon, chefe da expedição grega, sacrificasse sua filha, Ifigênia, a fim de permitir a partida do exército. O líder grego, embora contrariado e em meio a lágrimas, aceita a exigência e pede que sua esposa, Clitemnestra, leve sua filha até o local, sob o pretexto de que ela se casaria com o grande guerreiro Aquiles. Chegando lá a menina é brutalmente sacrificada (ou, ao menos assim todos acreditam, pois segundo a versão de Eurípedes e Hesíodo, no último momento a deusa Ártemis substitui a jovem por uma corça, e arrebata a menina até seu templo, tornando-a sua sacerdotiza). De todo modo, esse ato de Agamêmnon desperta uma profunda revolta e grande ódio em sua esposa, tendo consequências futuras como veremos.

Após o sacrifício, a expedição consegue seguir até Troia. Lá as hostilidades se iniciam e duram por nove anos com vantagem dos gregos, mas sem que pudessem expugnar os gigantescos muros da cidade de Troia.

No nono ano da Guerra é que começa a narrativa contida na Ilíada.

 

2 – A história narrada no poema da Ilíada

A Ilíada está dividida em 24 cantos. Seguindo as lições de Carlos Alberto Nunes, podemos dividi-los em três partes:

A primeira parte, que vai do Canto I ao VIII, faz a introdução do tema (cólera). Já no primeiro, a questão é introduzida com a briga de Agamémnon e Aquiles, e com a saída deste do combate, realizando-se o princípio da profecia de que os gregos sofreriam derrotas consecutivas até que o herói retornasse às lutas, sob o pedido dos líderes da Grécia. Depois segue com a contextualização e apresentação dos personagens, encerrando com o Canto VIII, em que a profecia começa a se realizar com uma vitória dos troianos.

A segunda parte, que por sua vez vai do Canto IX ao XVIII, inicia com o chamado Canto da Embaixada, em que um grupo é enviado a Aquiles pedindo que ele retome as armas; todavia, sem conseguir demovê-lo. Há vitórias consecutivas dos troianos iniciadas no Canto VIII. Essa parte encerra no Canto XVIII, em que Aquiles se levanta de sua prostração, após ter notícia da morte do querido amigo Pátroclo.

Na terceira parte, (Cantos XIX a XXIV), há vários episódios que direcionam a obra para seu fechamento: Heitor despede-se dos familiares de modo emocionado, antes de partir para enfrentar Aquiles; há jogos funerais em honra de Pátroclo; e o ponto alto de encerramento da obra, o tema da última parte: a anulação da cólera pela reconciliação de Aquiles com Agamémnone e pela compaixão demonstrada a Príamo, quando aceita devolver o corpo de Heitor para que seja honrado.

A Ilíada que iniciou com cólera, termina de modo sereno, pacato e sublime.

Vejamos um rápido resumo da história, seguindo uma síntese de cada um dos cantos.

 

Primeira parte:

Canto I – É um dos mais importantes, introduzindo sozinho quase todos os pontos do enredo em que a história se desenvolverá. Agamémnone, chefe máximo dos gregos, após o assalto vitorioso à cidade de Tebas, sequestra uma mulher para que lhe fique como escrava: Criseide.

O pai da jovem, Crises era sacerdote de Apolo, e tenta resgatar a filha, ofertando enorme quantia em resgate. Todos os líderes gregos concordam, menos Agamémnone, o qual despede o sacerdote com ofensas. Crises roga a Apolo para que o vingue, e grande tragédia se abate sobre os gregos ante ataques de Apolo, frecheiro infalível.

O gregos chamam um vidente o qual explica a razão das desgraças. Aquiles solicita a Agamémnone que devolva Criseide, ao que o soberano atende, porém irritado toma a escrava pela qual Aquiles se apaixonara, Briseide. Aquiles se ira e promete largar os combates. Pede a sua mãe, Tétis, que interceda junto a Zeus para que ele favoreça os troianos, de modo que os gregos se vejam obrigados a rogar a Aquiles que ele retorne à luta, alcançando enorme honra. Zeus atende o pedido.

Canto II – Neste canto, Agamémnone convoca nova batalha. Os troianos também se preparam.

Canto III – Iniciados os combates, Alexandre Páris (o qual raptou Helena) desafia os guerreiros gregos, porém quando vê Menelau (o marido traído de Helena) recua. É vigorosamente repreendido por Heitor pela covardia. Então, se oferece para um duelo entre ele e Menelau, o qual é aceito. Quem vencesse levaria Helena e suas riquezas. Menelau atinge Páris, mas quando iria matá-lo, Afrodite (a mesma que havia lhe auxiliado a conquistar Helena) salva-o, levando-o para longe da batalha. Agamémnone reclama a vitória.

Canto IV – No Olimpo, os deuses discutem se reconhecerão a vitória dos gregos, ou se a luta continuará. Hera, por querer ver Troia destruída, insiste incisivamente para que os combates sejam retomados, convencendo seu marido, Zeus, a atendê-la. Então, para que as hostilidades se reiniciem, Atenas desce e convence um troiano, Pândaro, a furar a trégua atingindo Menelau. Influenciado pela deusa, ele procede desse modo e atinge o guerreiro grego, com o que desperta a fúria dos demais inimigos. Atenas salva Menelau, e os combates são retomados.

Canto V – A guerra segue, oscilando entre a vantagem dos gregos e troianos de acordo com a atuação dos deuses diretamente na batalha.

Canto VI – Os gregos começam a ter larga vantagem. Heitor vai chamar Páris que se encontrava com Helena e o critica por manter-se distante dos combates, uma vez que foi ele próprio o causador da guerra. Heitor encontra a esposa na torre e tem com ela um diálogo terno e amoroso, que o revela como bom esposo e pai.

Canto VII – Heitor propõe um duelo entre ele e qualquer grego. O gigante Ajaz é selecionado para a pugna. Ajaz levava vantagem quando o duelo é suspenso ante a chegada da noite, com o que decidem cessar os combates.

À noite ambos os lados realizam reuniões para debater sobre a guerra. Na reunião dos troianos, Antenor (um homem sábio e prudente) diz que devem devolver Helena e seus tesouros, dado que quebraram o juramento o que lhes assegurava a derrota. Páris se recusa, dizendo que aceita devolver apenas os tesouros, até com acréscimos, porém não Helena. Príamo decide que devem ofertar essa proposta aos gregos, solicitando também um dia de trégua para levantarem fogueira para os mortos em combate.

O troiano Ideu se dirige até os gregos para apresentar a oferta. Os gregos aceitam apenas a trégua para a fogueira. Durante o dia também decidem levantar um muro com um fosso em frente ao seu local de refúgio, a praia na qual ancorados os navios que os haviam trazido da Grécia.

Canto VIII – Começa a se cumprir a determinação de Zeus a pedido de Tétis, mãe de Aquiles. Zeus sobe a um monte e vira a balança da fortuna, iniciando a sorte dos troianos. Lança raios em meio à luta, demonstrando que passou a agir em favor destes. Os troianos começam a obter vantagem, expulsando os gregos de volta para os barcos.

Hera e Atenas tentam intervir em favor dos gregos, mas Zeus as impede e informa de seus desígnios imutáveis: os gregos ficarão em desvantagem até que Pátroclo caia morto e Aquiles volte a lutar.

Cai a noite, interrompendo novamente o combate, o que impede os troianos de incendiar os navios, o que representaria a consumação da derrota dos gregos. Os troianos ceiam fora dos muros, o que não ocorria há anos e planejam encerrar a guerra no dia seguinte, invadindo o reduto grego, incendiando os navios, e sagrando-se vitoriosos.

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Segunda parte:

Canto IX – É o Canto da Embaixada. O tema da cólera que havia sumido desde o primeiro volta com toda a intensidade, ressaltando a obstinação de Aquiles em sua raiva e decisão de abandonar os colegas no combate.

O que ocorre agora é que, tomados de temor pela derrota narrada no Canto VIII, Agamémnone propõe que retornem à Grécia, batendo em retirada. Nestor se antepõe e diz que tal medida é absolutamente irrazoável e descabida. Determina que se peça desculpas a Aquiles, reconhecendo que o Atrida o ofendeu gravemente. Este concorda e envia a embaixada com Ajaz, Odisseu e Fenice (uma espécie de tutor de Aquiles), oferecendo gigantescos prêmios e a devolução de Briseide, para que Aquiles volte à luta.

Aquiles, tomado ainda pela ira, rejeita a proposta violentamente. Afirma que talvez retorne à casa, tão breve amanheça. E relata o vaticínio de sua mãe: se lutar, terá glória enorme, mas vida curta; se voltar, terá vida longa e privada de glória. Ajaz e Odisseu se retiram levando a notícia da resposta negativa aos colegas. Fenice fica com Aquiles em sua tenda. Ajaz e Odisseu comunicam o fracasso da embaixada aos líderes gregos.

Canto X – Agamémnone, Menelau e Nestor despertam no meio da noite em razão da forte angústia que sentem pelo momento adverso. Acordam os líderes e sugerem o envio de um espião ao acampamento troiano para saber o que planejam: se atacariam as naves, ou se contentes pela vitória do dia anterior retornariam à cidade. São enviados Diomedes e Odisseu. No caminho encontram um troiano, Dolão, o qual por sua vez foi enviado para espionar as naves gregas, a fim de averiguar se os gregos fugiriam, desanimados pela derrota do dia anterior, ou se permaneceriam em combate. Diomedes e Odisseu o rendem e fazem ele confessar o que fazia ali. Depois, matam-no, tomam seus cavalos e atacam um pequeno acampamento próximo, matando alguns troianos. Então, retornam às naves e contam o ocorrido.

Canto XI – Com o amanhecer, inicia-se uma nova batalha. Alguns dos principais guerreiros gregos são feridos (Odisseu, Agamémnone e Diomedes). Também é ferido um médico, o que acaba prejudicando o tratamento dos feridos, assustando os gregos. Nestor fala com Pátroclo e pede que ele solicite a Aquiles que empreste suas armas para que Pátroclo apareça na batalha dispersando o exército troiano.

Canto XII – Numa nova investida os troianos conseguem atravessar o fosso e a muralha construída pelos gregos. Os aqueus fogem para as naves.

Canto XIII – Segue a luta perto dos navios, onde os gregos ficavam em enorme desvantagem, visto que as naus podiam ser facilmente incendiadas. Zeus retira sua atenção do combate, ao que Poseidon aproveita para intervir em favor dos gregos, fazendo o combate se reequilibrar.

Canto XIV – Os gregos entram em desespero. Agamémnone pensa em fugir, sendo dissuadido por Odisseu e Nestor. Hera engana Zeus, fazendo-o cair em pesado sono. Então, Poseidon se aproveita do fato para novamente atuar em favor dos gregos. Com isso, eles conseguem lançar resistência, retomando vantagem no combate. Ajaz consegue ferir Heitor, o qual abandona a batalha. Os gregos avançam sobre os troianos, afastando estes dos navios.

Canto XV – Zeus acorda e percebe que foi enganado. Determina, então, que Hera envie Íris até Poseidon ordenando-o que saía da luta. Poseidon, apesar de descontente, retira-se. Zeus envia Apolo para auxiliar os troianos e curar Heitor. Os troianos chefiados, assim, por este último fazem novo ataque. Apolo os acompanha, auxiliando-os a transpor a muralha. Os troianos conquistam grande vantagem e forçam os gregos a retirarem-se para as naves. Heitor estimula os troianos a tocarem fogo nos navios. Pátroclo vendo as condições da batalha corre para a tenda de Aquiles para implorar que retorne à luta

Canto XVI – Pátroclo toma as armas de Aquiles emprestadas, sob autorização dele, e avança junto com os demais mirmídones (o Exército chefiado por Aquiles, o mais temido por ter os melhores guerreiros), afastando os troianos das naus. Aquiles pede a Pátroclo que apenas os afastem, sem avançar para o campo de batalha. Pátroclo, todavia, ignora o conselho e sai no encalço dos troianos. Em meio à pugna, o deus Apolo ataca Pátroclo deixando-o vulnerável, quando um troiano lhe atinge, fazendo-o recuar. Heitor vê sua fuga e o ataca, privando-o da vida. Pátroclo vaticina a Heitor que em breve ele morrerá pelas mãos de Aquiles.

Canto XVII – Segue-se incrível batalha em torno do corpo de Pátroclo, visto que Heitor após roubar a armadura de Aquiles tenta também carregar o corpo para ultrajá-lo e privá-lo de uma sepultura condigna. Os aliados de Pátroclo conseguem evitá-lo. Um soldado grego, Antíloco, corre para avisar Aquiles do ocorrido.

Canto XVIII – É o último canto da segunda parte, conforme divisão de Carlos Alberto Nunes. Consuma-se a pena de Aquiles por sua cólera desordenada. Descobre ele a desgraça que se abateu sobre o amigo dileto. O poema descreve uma tristeza profundíssima sentida por Aquiles. Ele, então, sai do navio e vai até o fosso, onde apenas demonstrando sua ira e aos berros afugenta os troianos, salvando o corpo de Pátroclo que vinha sendo carregado pelos aliados e perseguido pelos inimigos. Cai a noite, dando descanso aos gregos. A mãe de Aquiles, Tétis, ao saber do ocorrido, e vendo que seu filho havia perdido a armadura solicita ao deus Hefesto que lhe prepare uma nova. Ele faz uma armadura sem par, com um escudo todo forjado com histórias e mitos.

Terceira Parte:

Canto XIX – Tétis entrega as novas armas a seu filho, Aquiles. Este convoca uma assembleia e se reconcilia com Agamémnone, renunciando à ira. É o primeiro movimento do tema da última parte, que é a anulação da cólera pela reconciliação. Aquiles veste a armadura e parte para a pugna, a fim de vingar Pátroclo.

Canto XX – Zeus convoca a assembleia dos deuses e permite que eles intervenham na batalha, a fim de evitar que a força de Aquiles o leve a expugnar os muros de Troia antes do tempo definido. Aquiles avança sozinho e mata muitos troianos. Eneias, instigado por Apolo o enfrenta e, quando estava prestes a ser morto, é salvo por Poseidon (a sobrevivência de Eneias durante o poema fará dele o herói da epopeia grega Eneida). Heitor enfrenta Aquiles e é salvo por Apolo. Aquiles, descrito como um guerreiro imbatível, segue matando troianos.

Canto XXI – Aquiles persegue troianos até o Rio Xanto, onde mata vários deles e diz que mesmo o Rio (que é um deus, segundo a mitologia da obra) não poderia salvá-los, ao que o rio se enche de indignação e passa a golpear Aquiles. Aquiles pede auxílio aos deuses, ao que Atenas e Poseidon vêm em seu socorro. O rio continua a golpeá-lo, ao que Hera envia Hefesto, deus capaz de manipular o fogo, para que lance chamas contra o rio, ao que este – sentindo-se vencido pelas labaredas lançadas por Hefesto – desiste de perseguir Aquiles. Aquiles segue sua matança, aproximando-se dos muros de Troia.

Canto XXII – Aquiles convoca Heitor para um duelo, a fim de vingar o amigo. O guerreiro troiano sai dos muros e enfrenta Aquiles, apesar do rogo desesperado dos pais para que não ingressasse em tal combate. Aquiles o mata, ultraja seu corpo e o leva para as naves, a fim de impedir um sepultamento condigno para Heitor. Os parentes de Heitor, especialmente Andrômaca, sua esposa, se desesperam.

Canto XXIII – Aquiles e os guerreiros fazem honras ao corpo de Pátroclo e há um banquete em sua homenagem. À noite, o espírito de Pátroclo aparece a Aquiles pedindo para ser sepultado. Logo pela manhã, Aquiles prepara uma fogueira lançando vítimas e corpos troianos, e crema o corpo de Pátroclo. As cinzas são depositadas numa urna de ouro e um túmulo em honra dele é construído. Celebram-se jogos em honra ao falecido, em que Aquiles oferta prêmios valiosos aos vencedores.

Canto XXIV – Aquiles amarga grave sofrimento pela morte do amigo e ultraja o corpo de Heitor, o qual é protegido pelos deuses a fim de que não se decomponha ou fique com a pele ferida. Apolo pede a Zeus que proteja o corpo do herói. Zeus solicita a Íris – mensageira entre os deuses e os homens – que chame Tétis, mãe de Aquiles. Quando essa chega, pede a ela que interceda junto a Aquiles a fim de que ele devolva o corpo de Heitor, aceitando condigno resgate. Tétis intercede e Aquiles aceita.

Então, Zeus envia Íris a Príamo, pai de Heitor e rei de Troia, orientando-o a ir até Aquiles em resgate do corpo do filho. Príamo vai até o acampamento grego e conversa com Aquiles, solicitando a devolução do corpo do filho. Há uma cena cheia de calor humano, mostrando o melhor de ambos os personagens. A ira termina de ser anulada pela reconciliação e pela compaixão. Eles combinam 12 dias de trégua para honras a Heitor. Príamo retorna com o corpo. As mulheres troianas choram sobre o ele.

Assim, encerra-se a Ilíada. E como dissemos anteriormente, o poema que iniciou com cólera, termina de modo sereno, pacato e sublime.

 

3 – Como termina a Guerra de Troia?

O desfecho da Guerra de Troia não está descrito no poema da Ilíada. A memória desses fatos ficou guardada nos mitos populares gregos e, em breves, incompletas e desarticuladas referências na Odisseia, o segundo grande poema épico de Homero.

Como, pois, se encerrou o conflito?

Sabemos que Troia não caiu imediatamente após a morte de Heitor, porém seguiu resistindo mediante o auxílio de novos aliados que traziam reforços para a guerra.

Os gregos seguiram tendo vantagem, mas sem conseguir expugnar os muros da cidade.

Ocorre que o grande guerreiro Aquiles conheceu uma das filhas de Príamo durante a trégua realizada para os funerais de Heitor. Polixena era o seu nome. O grande guerreiro se apaixonou por ela, e a fim de poder desposá-la combinou de interceder junto aos gregos, valendo-se de sua influência, para firmar um tratado de paz com os troianos.

Todavia, quando estava no templo de Apolo negociando os termos do casamento, Páris – o filho de Príamo que havia raptado Helena – desferiu contra ele uma seta envenenada, a qual foi guiada por Apolo (deus famoso pelo domínio da arte da flecha), atingindo Aquiles em seu calcanhar. A lenda do “calcanhar de Aquiles” decorre daí.

O mito afirma que, quando o herói nasceu, sua mãe, Tétis, a fim de revesti-lo de uma proteção divina o banhou no rio Estige. Fê-lo quando Aquiles era recém-nascido, imergindo-o na água segurando a criança pelos calcanhares, que por não terem sido banhados tornaram-se a parte vulnerável de seu corpo.

Alvejado pela seta envenenada, Aquiles veio a morrer.

Após dez anos de cerco, os troianos ainda resistiam, o que começou a desanimar os gregos de tomarem a cidade à força.

Por isso, armaram um plano distinto. Aconselhados por Ulisses – Odisseu em grego, o personagem da Odisseia, destacado por sua inteligência –, construíram o famigerado “Cavalo de Troia”. Fingiram que estavam batendo em retirada e voltando para a Grécia, escondendo-se numa ilha vizinha. Construíram o imenso cavalo e espalharam a notícia de que se tratava de uma oferenda à deusa Atena.

Os troianos vendo o acampamento desfeito, julgaram que os gregos, de fato, haviam retornado à casa e desistido do combate. Abriram os portões e saíram festejando sua liberdade, após tantos anos presos no interior dos muros.

Ao se depararem com o imenso cavalo, esse se tornou objeto de enorme curiosidade. Parte dos troianos defendia que deveria ser levado para dentro dos muros de troia; enquanto outra parcela da população o temia.

Laocoonte, um sacerdote de Apolo, disse que não deviam confiar no cavalo e na fuga dos gregos.

Nesse instante alguns troianos chegaram carregando um prisioneiro grego deixado para trás, Sínon. Disseram para ele que o deixariam viver se ele contasse toda a verdade aos troianos.

Sínon, então, afirmou que por um desentendimento com Ulisses havia sido proibido de retornar com os aliados para a Grécia. Enganando os gregos, confirmou a versão de que o imenso cavalo era uma oferenda à deusa Atena e que havia sido feito com aquelas proporções para impedir os troianos de levarem o cavalo para dentro da cidade, visto que haveria uma profecia dizendo que se os troianos adentrassem os muros com o cavalo, prevaleceriam sobre os gregos na guerra.

Nesse mesmo momento, um prodígio provocado por deuses que beneficiavam os gregos ajudou a conceder verossimilhança à versão de Sínon: duas serpentes gigantescas adentraram na cidade e avançaram diretamente sobre os dois filhos de Laocoonte, mantando-os; o pai avançou sobre as serpentes buscando salvar os filhos e foi igualmente morto.

Estarrecidos, os troianos se convenceram de que aquele fora um castigo a Laocoonte por sua irreverência ao cavalo de madeira ofertado à deusa Atena

O povo, então, se convenceu do caráter sagrado do objeto, introduzindo-o na cidade em meio a festejos e pompas.

O cavalo, no entanto, conforme a famosa lenda, era oco e levava soldados gregos em seu interior. Durante a noite, Sínon abriu o cavalo, permitindo a saída dos soldados que tomaram a cidade de assalto, conquistando Troia. Páris e o rei Príamo foram mortos em combate.

Assim, encerrou-se a famosa Guerra de Troia.

Com o fim da Guerra, Menelau retomou a esposa, Helena, que jamais havia deixado de amá-lo, embora tivesse cedido aos encantamentos de Afrodite para ficar com Páris.

Contudo, como haviam desagradado aos deuses durante a guerra, quando partiram de retorno à casa, foram atingidos por tempestades que os levaram a Chipre, Fenícia e ao Egito.

De todo modo, por fim, Menelau e Helena retornaram para Esparta, na Grécia, onde ele reinava, e terminaram a vida juntos.

Agamêmnon, infelizmente, não teve a mesma sorte. Seu destino foi relatado na Odisseia, e detalhado na tragédio de Ésquilo que leva o nome do próprio herói: Agamêmnon. Sua esposa, Clitemnestra, revoltada com o sacrifício da filha, durante a ausência do marido arranjou um amante, Egisto – um antigo desafeto do pai de Agamêmnon, chamado Atreu. Com Egisto ela tramou a morte do marido. Quando o rei, então, retornou da guerra, foi no mesmo dia assassinado pela esposa.

Esses fatos deflagraram novas histórias que foram exploradas pela tragédia grega. Mas isso será objeto de outro texto.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

André Borges Uliano

André Borges Uliano

Procurador da República, especialista em Direito Público, mestre em Economia, professor de Direito Constitucional, articulista do Jornal Gazeta do Povo (organizador do blog Instituto Politeia).

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