Os novos deuses

Ciência – Mito e Poder

Nos dias de hoje a ciência moderna assumiu o lugar do mito, pois nela ela está depositada a crença da explicação de todos os fenômenos naturais, espirituais e suprafísicos. É muito comum ouvirmos as pessoas dizendo por ai que só creem em dados científicos, que só aceitam os argumentos dos homens de ciência e que em um futuro próximo todos os mistérios, milagres e manifestações do Cosmos e da vida humana serão revelados ao homem comum por meio do avanço das pesquisas, das novas tecnologias e da onipotente prática cientificamente salvadora de toda a humanidade. Ora, teria então a ciência se transformado em uma espécie de religião cósmica? Teria ela condições de fazer avançar o conhecimento humano em uma escala temporal previsível, como se não estivéssemos mais caminhando diante do mistério universal, e tudo seria apenas uma questão de tempo para que tomássemos a posse integral da existência? Se a resposta para esta última pergunta for sim, então estamos realmente falando de uma nova forma de religião, pois a essência mesma de toda crença religiosa é apontar para um fim sem a necessidade da prova experimental, e é exatamente isto que os cientistas, as pessoas e o senso comum estão dizendo que a ciência fará.

Toda a atividade dita científica se limita a um campo restrito de pesquisa, deixando de fora uma imensidão de outras informações que para aquele momento terá de ser neutralizada. O próximo passo será conduzir as investigações em um ambiente controlado e ideal a fim de evitar as interferências externas que possam adulterar os resultados esperados, ou seja, antes mesmo do início da pesquisa já teríamos que ter levantando algumas perguntas norteadoras que servirão como base para se obter as conclusões. A etapa seguinte consiste em levantar as hipóteses e prová-las através dos nexos causais obtendo resultados universalmente comprovados. Como podemos ver, o cientista busca revelar aquilo que está oculto e para isso deve forçar a natureza a fazer aquilo que ela geralmente não faz. Ele deverá medir, comparar, tabelar, modelar, postular, refutar, experimentar e tudo será feito por meio da mathesis universalis, a matemática como chave universal para o conhecimento.

Segundo R. Descartes, filósofo francês do século XVI:

Refletindo nisso mais atentamente, acabou por se me tornar claro que só as coisas e todas as coisas nas quais se observa a ordem e a medida, se reportam à matemática, pouco importa que esta medida se deva buscar nos números, figuras, astros, sons, ou em qualquer outro objeto; que, por consequência, deve existir uma ciência geral que explica tudo o que é possível investigar respeitante à ordem e à medida, sem aplicação a qualquer matéria especial; e que esta ciência se designa, não através de um nome de empréstimo, mas de um nome já antigo e aceite pelo uso, a mathesis universalis, dado conter tudo aquilo em virtude do que se diz que as outras ciências partiram da matemática. 

Analisando o pensamento de Descartes nos parece que a ciência moderna incorporou desde a sua gênese o mito de que por meio da razão, e tão somente pelo uso da razão chegaremos ao conhecimento total da realidade. É verdadeiro que ao fazermos o uso do pensamento racional podemos obter conclusões universais, entretanto é falsa a ideia de que a abordagem metódica e matemática nos trará as respostas para todas as questões conforme pretendem as ciências modernas.

O estado moderno é a maior invenção da razão humana e nada se compara ao complexo sistema burocrático que ordena, classifica, justifica e determina o modo de vida de milhões de vidas humanas. A máquina estatal com suas instituições, leis e normas de conduta é uma grande engrenagem fruto de milênios de tentativas e erros com derramamento de sangue, suor e lágrimas, e justamente por ser uma criação da razão ela tende a ser imparcial, fria, tecnicista, totalizante e por vezes injusta. Ao assumirmos uma ciência fundamentada no cartesianismo, no pragmatismo, no positivismo e projetada na mathesis universalis alimentamos ainda mais o mito da redenção pela via científica. Entrementes, os investimentos feitos em pesquisas, seja por parte dos governos, seja por parte dos grandes capitalistas visam cada vez mais o desenvolvimento da técnica, que por ora, tem por critério o crivo dos tecnocratas fechando assim um ciclo vicioso que se inicia no racionalismo cartesiano e culmina na sociedade matematizável em que o poder está amplamente concentrado nas mãos de quem detém as pesquisas e pode posteriormente obter lucros estratosféricos em um mercado de seres humanos cada vez mais alienados e fascinados pelos avanços de uma ciência cada vez mais cega e alheia à essência humana, que uma vez destituída de sua intuição, sentimentos, sensações e de sua poesia tende a se curvar diante do Deus estado e de sua vara de condão regida pelos cientistas do Olimpo moderno e de seus mecenas.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Ismael de Oliveira Luz

Ismael de Oliveira Luz

Natural de São José dos Campos; Formado em Engenharia Civil pela Universidade do Vale do Paraíba; Empresário e professor atuante na formação intelectual de crianças e jovens; Estudante de filosofia e humanidades; Cristão pela impossibilidade metafísica de não sê-lo.

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