Conservador nos costumes e liberal no sertanejo

Em uma recente palestra que ministrei sobre a política conservadora e os pilares do ocidente, afirmei no início dela que a pergunta que mais me incomoda no meio dos debates atuais é a seguinte: “qual a sua posição política”? Não que não assumamos de fato algumas posições políticas no decorrer de nossas biografias, mas porque não é com isso que deveríamos nos ocupar, ainda mais se somos conservadores. E não, ser conservador não é uma posição política, é uma posição de vida.

Vejam, um homem sensato não tem uma “posição política”, ele possui uma postura de vida que o leva a concordar e discordar de uma ou mais correntes políticas ao decorrer de sua existência. Isso acontece, pois, um homem prudente não se prende a modelos ideais de política, manifestos de mundos perfeitos ou a salvadores sociais.

Eu me defino conservador justamente por isso: o conservadorismo não me leva a ter nenhuma amarra com qualquer partido, linha oficial ou manifesto catequético de ações. Permitindo que eu me adeque e oriente tendo os princípios morais, minha singularidade e capacidade de discernimento como guias seguros.

“O conservadorismo real não é o feito a partir da cadeira presidencial, mas sim através da poltrona da sala de estar, em sua casa”.

Conservar é o primeiro dos instintos; desde o momento que o óvulo é fecundado e uma nova vida aflora, nosso instinto posterior a esse acontecimento já passa a ser o de conservação de nossa existência. Dessa maneira, ser conservador não é o mesmo que aderir a uma corrente política, assumir uma postura conservadora é antes um instinto do que qualquer discussão de parlamento ou debate de rede social. Sendo assim, o conservadorismo não se restringe a uma corrente política ou aglomeração militante, cartilhas de ações pré-definidas ou movimentos de massa; o conservadorismo é mais medular que isso e age em primeira mão com os princípios basilares de conservação e defesa da própria existência humana e social.

Obviamente que não serei o conservador idealista e tolo que negará que existem sim certos movimentos políticos denominados “conservadores”, e que tais movimentos iniciados de maneira mais organizada no Reino Unido, não tenham em seu bojo grandes homens que de fato teorizaram o conservadorismo para além dos rascunhos e espectros do senso comum. Entretanto, vejamos, ainda que o conservadorismo seja atuante na política, e até mesmo organizado em partidos ao redor do globo, não devemos perder sua haste primeva que é justamente a sua relação interpessoal na comunidade e na família — e não através de órgãos oficiais do Estado. Conservar está muito mais no ato de educar os filhos do que nos formalismos e estruturas do Ministério da Educação (MEC), ainda que um dia esse ministério passe a ser gerido por um conservador. O conservadorismo real não é o feito a partir da cadeira presidencial, mas sim através da poltrona da sala de estar, em sua casa.

Sendo assim, a minha posição política — se obrigado eu fosse a responder essa pergunta descabida — é aquela que mais se aproxima da constituição de princípios individuais gestados antes de mim na cultura judaico-cristã, na qual eu nasci e grato sou por ser herdeiro. Minha preferência social é aquela que não agride tais pilares basais nas quais minha família e sociedade estão assentadas. Não espere de mim, ou de um verdadeiro conservador, uma espécie de culto a personalidades; não há coisa mais descabida, para quem preza pelas estruturas da sociedade, do que a idolatria de uma persona — por melhor e bem-intencionada que seja. Aquilo que um conservador defende são as hastes que sustentam o edifício e não aqueles que se mostram no terraço.

Desta forma, na palestra que acima falava, na qual citei incansavelmente conservadores — apesar de pautar a minha explanação também em liberais e anarquistas como Friedrich von Hayek, Ludwig von Mises e Albert Camus —, me questionaram 3 vezes sobre como eu me definia politicamente. Tal pergunta já havia sido respondida no decorrer da palestra, e minha breve biografia acadêmica e profissional já dava certa ideia da possível resposta. Bem-humorado, pois assim eu sou, e acredito que o humor tem papel ímpar na cultura ocidental, respondi ao final da terceira investida do público que era um “conservador nos costume e liberal no sertanejo”. Como bom neto de mineiros, de fato eu admiro um bom sertanejo.

A moça que havia me questionado riu de maneira conduzida pela massa que também caiu na gargalhada. Todavia, posteriormente soube que tal distinta senhorita me condenava entre os grupos conservadores deste Brasil sem riso. Dizia ela, em um dos prints que me chegou, que eu era um falso conservador porque não tinha apreço pela alta cultura e porque não levava “assuntos sérios” com a devida seriedade.

De fato, uma das maneiras que procedo em minha vida pessoal é essa: o de caçoar de coisas sérias. Mas também é uma maneira distinta que utilizo para ridicularizar o que já é pacóvio per se. Por exemplo, é simplesmente risível a maneira como Ricardo Lewndovski, Marco Aurélio e Dias Toffoli conduzem suas decisões no STF; se tornaram tão parciais que, o teatro que por vezes fazem para parecerem imparciais, se torna um verdadeiro stand up. Se eu não risse dessa situação triste, porém hilária, eu não seria eu mesmo. E o conservadorismo não nasceu para anular singularidade e nem muito menos para afogar individualidades; isso se chama comunismo, fascismo e demais ideologias que prezam pela uniformidade e não pela liberdade!

O conservadorismo não amolda seus adeptos, não cria estereótipos e nem muito menos “caga dogmatismos” de etiqueta. O conservadorismo está milhões de vezes mais irrigado pela maneira com a qual nos relacionamos e colocamos em prática os princípios éticos e morais que legamos desse tronco ocidental, do que com a gravata borboleta, cachimbo ou quaisquer outros fetiches que dão tesão em muitos conservadores de redes sociais. Os estereótipos e as maquiagens que externalizam um conservadorismo de palco, não necessariamente estão ligados a um apreço da ética e das virtudes reais que formam esse edifício que defendemos. Ou seja, até uma prostituta pode se vestir ou minimamente se portar como uma freira; mas jamais uma verdadeira freira iria se vestir ou infimamente se portar como uma prostituta. A questão é que o portar-se não é o mesmo que ser; assim como ser não necessariamente se reduz ao portar-se sob as determinações que muitos estilistas de costumes conservadores idealizam sobre o que é ser conservador.

“O conservadorismo não é feito somente para velhos e, é preciso dizer: não precisa ser um ancião — ou nutrir a mentalidade de um — para ser um verdadeiro conservador”

O meu conservadorismo se revela — ainda que eu o seja de maneira constante —, quando atacam os pilares primevos de nossa cultura e instituições basilares, e não quando histericamente apontam e fazem passeatas pelos fantasmas falsamente criados nas cavernas ideológicas da modernidade; meu conservadorismo se mostra quando tentam relativizar a existência do gênero binário, transformando-os em ideologias amorfas e esquizofrenias sociais; ele aflora quando querem vomitar uma retórica vadia como desculpa para matar fetos humanos.

Mas ela também se revela quando, ainda que de bermuda e chinelo, eu concedo meu lugar no “busão” a uma donzela grávida; ele se mostra quando, ainda que no meu celta 2007, abro a porta para a senhorita que me acompanha; ou quando, mesmo entrando no cheque especial, eu não abro mão de pagar o x-bacon para a moça que levei para sair. Nem sempre o ser conservador se revela no debate sobre as composições de Bach, os livros de Scruton, ou sobre os tipos de fumos que melhor infestam uma sala cheia de livros.

O conservadorismo deveria ser mais leve, ainda que verdadeiramente assuma para si uma missão pesada e árdua; ainda que ser conservador traga para o indivíduo uma postura diferente do anarquismo de valores moderno, e muitas vezes pressuponha uma conduta de abnegação, prudência e vivência das virtudes. Ainda que hajam tais pressupostos e disposições, os conservadores deveriam rir mais das pataquada das ideologias modernas. O conservadorismo não é feito somente para velhos e, é preciso dizer: não precisa ser um ancião — ou nutrir a mentalidade de um — para ser um verdadeiro conservador. Somente na mente antiquada desse conservadorismo asfixiante e clichê, o Skatista não pode ser conservador; somente nesses moldes que muitos conservadores tentam ditar como o oficial, o conservador não pode gostar de sertanejo.

O meu medo é que, no fim, nos transformemos em uma ideologia nova; que o conservadorismo deixe de ser o defensor dos princípios régios e se torne apenas um molde personalista, que deixemos de ser um instinto primevo e passemos a ser dogmas que muitos mal-amados deliberadamente derrubam em terceiros para justificar uma auto-imposta relevância cultural que, no fundo, não passa de seu ego cancerígeno. Por isso eu me adequo mais ao conservadorismo de Chesterton; o conservador que negou tal rótulo — ainda que tenha passado boa parte da sua vida numa luta incessante na intenção de conservar a sanidade de seu tempo —, o pensador que bem soube aliar a filosofia mais alta com uma caneca de cerveja; que soube trazer a Bíblia para taberna sem que a Bíblia perdesse sua sacralidade e que deixasse de instituir seus cânones; que soube tratar assuntos, como o iluminismo e o mundo das fadas, com a mesma seriedade e humor.

Este não é um manifesto contra a gravata borboleta — já deixo registrado aos meus futuros críticos —, muito menos um outdoor contra os salões das altas grifes e o conservadorismo que cada um quer defender em seu modo de viver; é apenas um panfleto sobre o meu conservadorismo, que não necessariamente precisa ser o seu (captou o espírito da coisa?). Precisamos apenas apreciar as mesmas estruturas que nos sustentam, proteger os mesmos pilares que seguram o meu e o seu apartamento. E assim sendo, quando necessário for, você de Terno Armani e eu de chinelo e camiseta, estaremos do mesmo lado da trincheira defendendo os mesmos pilares.

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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