esfinge rock

A Esfinge do Rock – Burke Instituto

Os meros mortais sempre pensam que Bob Dylan foi um “herói do rock e um herói da esquerda”. Como se fosse um Che Guevara que empunhava um violão e uma gaita e cuspia palavras de revolução. Se você caiu neste toque de marketing dos radicais chiques, saiba que comprará gato por lebre.

Em primeiro lugar, porque Dylan nunca quis ser um herói da esquerda — mais especificamente, da contracultura dos anos 60 que quase o excomungou no show do Royal Albert Hall, ao trocar a música folk pelo rock n’ roll. E em segundo lugar, Dylan não pode ser catalogado em uma gavetinha ideológica. Pois, sua vida e seu trabalho ultrapassam quaisquer mesquinharias políticas.

 

Biografia

 

É o que mostra Dylan — A Biografia (tradução de Down the Highway — The Life of Bob Dylan), escrita pelo jornalista inglês Howard Sounes. Foi o responsável pela única recapitulação respeitosa sobre Charles Bukowski, pois não se preocupava com as minúcias de seus delírios alcoólicos e sexuais. Com Dylan, Sounes tenta manter o tom de respeito.

Mas, claro que, por mais subversivos que os dois se pareçam, fazer uma biografia de Bob Dylan é algo completamente diferente de fazer uma de Charles Bukowski. E por um simples motivo: Dylan é inclassificável.

Nascido em 1941, na cidade de Hibbing, Minnesota, Robert Allan Zimmermann só trocou o nome para Bob Dylan em homenagem a um tio chamado Dillon. Não por causa do poeta Dylan Thomas, como muitos gostam de espalhar aos quatro ventos.

A mudança tinha um propósito: o jovem judeu queria se tornar um cantor de blues. Seu grande ídolo era Woody Guthrie, um sujeito que andava por toda a América com sua guitarra ímpar, com letras talhadas na madeira e que diziam: “Esta é uma máquina de matar fascistas”.

Foi com ele que Dylan aprendeu os truques do blues e do folk, mas com uma influência do Antigo Testamento, foi capaz de compor o primeiro hino da década de 60, “Blowin’ in the Wind”.

A canção, que fazia parte do segundo álbum de Dylan (The Freewheelin´ Bob Dylan, lançado em 1964), era apenas a semente de uma obra. Ficaria marcada pela voz anasalada, pela gaita afiada em sentimentos e por uma consistência poética que não ficaria a dever a um Yeats, um Eliot ou um Blake.

 

Conturbação

 

No entanto, muitos de seus primeiros fãs o colocariam na gavetinha da política da esquerda, chamando-o de “pacifista” e “revolucionário”. Em uma entrevista dada à revista Rolling Stone, Dylan disse que sua música nunca teve uma preocupação ideológica, sua intenção era fazer o que seu instinto mandava.

Além do mais, ele nunca teve jeito para ser um “pacifista”. Quem viu o documentário de D.A. Pennenbaker, Don´t Look Back (1965), que retrata os momentos da fase folk de Dylan, conhece a sua intensidade maníaca. Ele foi capaz de humilhar um jornalista da Time Magazine ao perguntar –  “Você acha que o seu trabalho é importante? Você e o seu trabalho não valem nada, porque você vai morrer e o mundo não vai sentir a sua falta”.

Essa atitude de confronto seria comprovada no show do Royal Albert Hall. O “herói da contracultura” foi vaiado por hippies de toda a espécie por ter “eletrificado” suas canções folk. Ao escutar um infeliz gritar “Judas!”, Dylan não hesitou em gritar para a banda The Hawks (futura The Band), “PLAY FUCKING LOUD!!!!!”. Começando uma versão ensurdecedora da melhor canção de vingança já feita: “Like a Rolling Stone”.

Tudo bem, o leitor já deve ter ouvido esta canção, mas nada se compara a ouvir Dylan, alongando com ódio o refrão — “How does feeeeeeeellll????”.

É claro que ele não se sentia muito bem. Aliás, e esta é uma das vantagens do livro de Sounes, pois mostra que a carreira de Dylan sempre foi inquieta. Uma hora era o cantor folk, outra hora era o Elvis lisérgico de “Highway 61 Revisited”. Ou então o poeta melancólico de “Sad-Eyed Lady Of The Lowlands”. Essa milagrosa canção de amor que escreveu em homenagem a sua esposa, Sara Lowndes.

 

Conversão

 

Dylan nunca parou no tempo. Seu maior dom foi estar à frente de todo o mundo e respeitar a regra número um do artista. Essa regra é: ser a fiel a si mesmo, o público se adapta ao artista e nunca o contrário.

Mas, esta intensidade tinha que parar alguma hora.

Em 1967, depois de quase morrer em um acidente de motocicleta, Dylan ficou recluso por um ano e meio e só voltou com uma obra-prima: o bíblico John Wesley Harding (1968). Iniciando uma nova fase na sua vida, que iria se solidificar com Slow Train Coming - a busca consciente por uma vida mais religiosa.

Contudo, Dylan teve de passar pela doçura de Nashville Skyline. Depois, pela tristeza e resignação de Blood On The Tracks (sua magnum opus, com canções fundamentais, como “Tangled Up In Blue” e “Idiot Wind”). Até chegar ao cristianismo de Slow Train Coming.

Este período da vida de Dylan é tratado com sobriedade por Sounes na biografia. Mesmo com 250 entrevistas, o jornalista não conseguiu saber a causa da conversão e, da sua volta às raízes judaicas — celebrada indiretamente no álbum Infidels (1981). Na verdade, isto já estava previsto desde os tempos de Blonde On Blonde. Dylan via o mundo como uma alucinação que só tinha sentido quando aparecia a Sad-Eyed Lady Of The Lowlands. Uma clara referência à Virgem Maria.

Mas, a separação de Dylan com Sara Lowndes, mãe de seus nove filhos, o levou a uma crise existencial. Isso fica patente tanto em Blood On The Tracks, como no álbum Desire, com a canção “Sara”. Neste sentido, a sua fase cristã foi importante para que não caísse no abismo, como o próprio afirmou em uma entrevista ao jornalista Bill Flanagan.

 

Finalizando

 

A conversão religiosa deixou suas marcas no mistério em torno de Dylan. Mas não o transformou em sua essência: ele continua sendo uma esfinge. Evita dar entrevistas e, inclusive, mantém em segredo sua vida pessoal. Como prova Sounes, ao descobrir que Dylan casou pela segunda vez, com a cantora Carolyn Dennis, com quem teve uma filha e logo depois se divorciou.

Sounes termina o seu livro na época em que Dylan acabara de lançar Time Out Of Mind (1997). O álbum em que se reinventou como o spoudaios do rock n’ roll. Spoudaios significa “homem maduro, aquele que viveu todas as potencialidades de sua vida”, conforme diz Aristóteles em Ética a Nicômaco.

Não há como discordar dessa afirmação, ainda mais depois do lançamento dos seus últimos discos de canções. Os brilhantes:

  • Love and Theft (no dia 11 de setembro de 2001);
  • Modern Times (2006);
  • Together through time (2009);
  • Tempest (2012).

 

Obteve com o Prêmio Nobel de Literatura em 2016 período que Sounes não aborda no seu trabalho. É uma biografia que prova que, às vezes, nenhuma vida pode ser aprisionada em clichês políticos. Principalmente, se for uma vida como a de Bob Dylan.

 

Link: https://medium.com/@martimvasques/a-esfinge-do-rock-8854dd5c8a76

Texto original escrito por: Martim Vasques da Cunha

Adaptado por: Burke Instituto

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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