Fracos, incapazes e depravados

Imagem: Netflix

Hoje vamos falar sobre desenhos animados. A primeira vista, pode parecer um assunto de menor importância, incapaz de provocar uma reflexão minimamente profunda sobre a realidade de nosso tempo. É certo que não teremos aqui nenhuma aula sobre a Teoria dos Quatro Discursos, mas creio que um olhar mais atento à estrutura das histórias infantis atuais – cuja principal expressão são os desenhos animados – pode nos alertar contra alguns ardis de engenharia social que por muitos passa despercebido.

Quando minhas filhas começaram a ver desenhos animados mais conscientemente (acompanhando a história, entendendo-a), vi que precisava saber o que é que elas estavam assistindo. Inicialmente minha intenção nem era de averiguar a mensagem passada ou se havia ou não doutrinação esquerdista, eu só queria ver se eram bons mesmo. Tendo sido um aficcionado por desenhos na infância, eu queria que elas assistissem coisa boa, não queria ser o fiscal da moral da história; aprendi, com Tolkien, a odiar alegorias (pelo menos as mais explícitas).

Então passei a assistir, junto com elas, aos desenhos que achávamos no YouTube ou na Netflix (não, não temos TV por assinatura). Além da péssima qualidade das histórias, um padrão me chamou atenção: a ausência do vilão, do mal, do terror, do perigo de morte, de qualquer coisa que possa causar medo. E poderia usar muitos exemplos de desenhos que têm esse padrão, mas vou me ater a apenas dois, para não alongar muito o artigo: a nova versão, da Netflix, de Os Ursinhos Carinhosos e Dora a Aventureira.

Comecemos com os Ursinhos, pois esse me causou maior decepção. Da versão antiga para essa mais recente pouca coisa mudou. Eles são ursinhos, são fofinhos e gostam de abraços. O problema não foi o que mudou, mas o que foi retirado: Coração Gelado, Malvado e Laurinha, o trio de vilões da história

Imagem: Reprodução

Em seu lugar aparece um tal Espoletinha, que não é bem um vilão, é só um bicho chato e irritante, mas de modo algum é um personagem mau. E sendo um personagem chato, ele não é eliminado, expulso ou combatido. Quando não é inserido e acolhido pelos próprios ursinhos, que “entendem o lado dele”, Espoletinha no máximo é convencido a parar de fazer as coisas ruins. É importante ressaltar o convencido, não combatido.

 

Temos também Dora a Aventureira, que não sofreu de reedição deturpadora, por ser, desde o início, um belo lixo. Poucos desenhos são mais repetitivos e enfadonhos do que a mochileira latina e seu macaco azulado. Mas esse, novamente, não é o maior problema. Dora tem um vilão, um arqui-inimigo: Raposo. Antes não tivesse nenhum. Ele é simplesmente ridículo. Não oferece perigo algum, e é derrotado com palavras. Sim, palavras. Para quem nunca viu, todos os “confrontos” entre a protagonista e o dito vilão se resumem em Dora dizer “raposo não pegue” várias vezes, e este estalar os dedos e dizer “poxa vida”, e ir embora. Num tempo onde qualquer mínimo resquício de agressividade é encarado como injusta e assustadora violência, nada melhor que uma heroína que resolve todos os seus problemas com… palavras!

Imagem: Reprodução

Agora resta saber: por quê? Qual a razão de retirar os vilões das histórias ou de fazer histórias sem vilões? Uma resposta mais rápida é que a geração atual é a mais fresca de todos os tempos, e isso inclui os roteiristas dos desenhos infantis; e o objetivo (mesmo não intencional) seria a criação de mais uma “leva” de adultos frescos, talvez até mais frescos que os atuais. Isso pode responder à questão em parte, mas não é a resposta completa, que é muito pior.

De chapeuzinho vermelho a pinóquio, as histórias infantis ensinam às crianças uma principal e grande lição: o mundo é mau. Pode parecer algo simplório, de pouca importância, e, atualmente, soa como estúpida intolerância. Mas essa conclusão é fruto de uma cosmovisão comum a todo homem: o mundo, apesar de ter sido criado bom, por um ser todo-poderoso e todo-bom, foi contaminado e a maldade é uma realidade tão inescapável quanto a beleza e a bondade; fomos expulsos do Jardim e estamos em meio a espinhos e abrolhos; nas palavras do apóstolo João, o mundo jaz no maligno. Perder essa noção básica da realidade é um mal quase irreparável. E é na infância que esses conceitos precisam ser internalizados.

E essa consciência da maldade no mundo gerava, quase inconscientemente, algumas reações importantes: 1. Medo, ou no mínimo cautela em sair pelo mundo adoidado; 2. Confiança na família, vistos como mais fortes e capazes de oferecer sábio conselho; 3. Percepção da necessidade de buscar meios de preservação, própria e dos seus (afinal, essa criança percebe que, quando adulto, sairá da condição de cuidado para a de cuidador), o que poderia ser garantido pela força física ou por habilidades notáveis, que lhe pudessem conferir algum poder.

Tudo isso se perde ao ser abandonar o elemento mau das histórias. Se o mal não existe, eu não preciso ter medo, nada de ruim vai me acontecer, e se, por uma fatalidade da existência, aparecer algum imprevisto como alguém tentando me roubar ou me matar, eu direi três vezes “raposo não pegue”, e o bandido vai estalar os dedos e sair resmungando. E não é exatamente esse o espírito dessa geração, que parece ignorar que, para além dos seus slogans de amor livre, paz, flores e jujubas, existem assassinos, tarados, pessoas capazes de verdadeiras monstruosidades?

E se a criança cresce sem esse mínimo parâmetro de bem e mal, sem confiança e obediência à família, se ela perde a perspectiva de auto preservação que desemboca na necessidade de cuidado dos seus, qual freio ela terá para não se enveredar para a promiscuidade? Constituir família é ato de heroísmo e demanda força, valentia e autoabnegação; valores totalmente ausentes nas histórias atuais.

O que foi o movimento hippie se não um bando de jovens convencidos de que o mundo não era tão mal quanto os pais, professores, padres, pastores os tentavam convencer? Isso era tudo papo de gente careta que não transava e gostava de tomar conta da vida dos outros. Logo, a confiança no conselho e proteção da família se tornou dispensável, e a primeira “amarra” que os novos conselheiros tratarão de desatar será, invariavelmente, as de ordem sexual.

Algo de novo de baixo de sol? Em última análise, não. Mas perceba que, o que, na década de 60/70 foi um movimento focado nos jovens, agora ressurge, de forma muito mais sutil. Em vez de demolir o que a família, com muito custo, ergueu, impede-se que haja qualquer edificação. Pra que convencer o jovem de que o mundo mau e perigoso não existe, se eu posso, desde a primeira infância, apresentar um mundo (falso) cor de rosa, harmonioso e doce?

Nós, como pais, precisamos ficar mais atentos do que nunca. Precisamos parar, urgentemente, de combater perigos imaginários enquanto o verdadeiro mal toma conta, sorrateiramente, da mente de nossas crianças. A tentativa secular de criar um mundo perfeito, cor-de-rosa, acolchoado, sem ninguém brigando, esbravejando, entrando em guerra, onde os conflitos se resolvem com palavras e carinhos, falhou miseravelmente, criando um mundo vulnerável e fraco, alvo fácil para os que praticam o mal. No final das contas, a obsessão pacifista criou a sociedade mais violenta de que se tem notícia.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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