Liberdade e Poder

LIBERDADE E PODER

A liberdade humana é necessariamente uma forma de poder e está inexoravelmente condicionada ao acúmulo de conhecimento e ao acesso a ele, pois no instante mesmo em que adentramos o desconhecido adicionamos um dado a mais da realidade e ampliamos o nosso raio de ação. O conhecimento adquirido desperta em nosso ser o desejo de realização e traz consigo também a dúvida sobre o bem e o mal, o sim e o não, sobre a verdade e a falsidade e o dever em si mesmo. À medida que conhecemos o mundo a nossa volta, descobrimos a nós mesmos, tomando consciência das limitações, ambições, alegrias, medos e das camadas mais profundas da alma e, portanto, mais livres nos tornamos para agir sobre o destino, sofisticando nosso senso moral, moderando pouco a pouco os instintos primitivos e  por fim anulando a nossa boçalidade.

Toda e qualquer liberdade trará consigo responsabilidades, para o seu portador, para com o próximo e para com o meio em que se vive. Uma sociedade ou grupo de indivíduos livres deve garantir que as relações humanas aconteçam sem que a liberdade de seus integrantes seja reduzida ou extinta de forma arbitrária restringindo as ações e diminuindo a dignidade. Entrementes, para que não haja toda sorte de injustiças e o derramamento de sangue, fizeram-se necessários a criação do Estado e do direito sob a força da lei. O direito por sua vez só passa a valer quando há algo ou alguém incumbido do dever. Podemos usar como exemplo o direito da criança de ir à escola, que só será possível se alguém tiver o dever de enviá-la à escola. Portanto as leis se fundamentam no binômio direito-dever sem o qual toda lei se torna ineficaz ou estéril.

Seguindo este raciocínio, o indivíduo dotado de liberdade poderá se agrupar politicamente a fim de que seus interesses estejam amparados por lei, e assim ele possa usufruir cada vez mais dos direitos adquiridos. Destarte, outros terão para com ele o dever de lhe garantir a legitimidade de sua liberdade perante o Estado e os demais cidadãos. Dessa maneira, quanto mais direitos um grupo político conquista mais deveres são impostos sobre a sociedade de forma incondicional.

Toda ação política antes de ser colocada em prática se fundamenta no campo das ideias, pois só é possível realizar aquilo que é possível pensar, dessa forma, a alta cultura de um país, a começar pela própria língua, é condição sine qua non para que os diversos grupos políticos se percebam pertencentes a uma mesma nação e, por conseguinte, lutem por ela. A hegemonia na esfera cultural é a primeira que deve ser conquistada quando se trata de liberdade e poder, porque não há nada no campo político e ideológico sem que antes tenha passado pela literatura de um país, seja por meio de artigos, cursos, palestras, conferências, revistas e livros, para só então se tornar um conceito político e posteriormente uma força política agente de forma concreta e decisiva.

A classe intelectual deve ser capaz de criar símbolos e traduzi-los para as diversas camadas da população de acordo com a verdadeira realidade do país com todas as suas mazelas, belezas, vícios e virtudes, servindo como um espelho capaz de iluminar o interior do mais simples dos homens até o mais esclarecido dos indivíduos do povo. Na ausência desta classe, o imaginário do povo-nação será preenchido por uma cultura falsificada, fabricada por instituições midiáticas, pelo jornalismo sensacionalista e barato, pelas novelas com valores invertidos, pela militância organizada a mando do partido e pelo próprio desespero diante do engano, e por fim, as consequências serão um caldo cultural heterogêneo fazendo com que as pessoas já não entendam mais nada sobre o próprio sentido da vida, mergulhando no niilismo às vezes sem volta, em que nada mais faz sentido e ao mesmo tempo tudo é permitido. A prova disso tudo é o elevado nível de assassinatos, o excessivo consumo de drogas, inclusive entre os mais ricos, o analfabetismo funcional, a violência doméstica e o crime organizado. Quando isso ocorre estamos diante de uma espécie de satanismo coletivo, é a própria loucura travestida de verdade. Nos arrebaldes desse caos onde ninguém mais se entende se formará o pensamento político do brasileiro, que terá que satisfazer a todos os desejos dos diversos grupos que se dizem democráticos exigindo cada vez mais direitos, negligenciando os deveres que está presente na gênese da democracia. Eis o prelúdio do fim, satisfazer o direito de todos conclamando o braço amigo do totalitarismo.

No Brasil, as Forças Armadas são a única instituição que ainda representa algum valor histórico, patriótico e condizente com o que se espera de uma nação forte e honrada. Todas as demais instituições do país servem aos interesses dos mais diversos grupos de arrivistas, especuladores corruptos e oportunistas da última hora, sem nenhuma relação profunda e genuína com os reais interesses do homem pobre que mais sofre com a destruição de sua família, sua pátria e de sua própria história. Fortalecer a cultura e as instituições democráticas e legitimá-las é o mínimo que se deve fazer para que a esperança por dias melhores volte a fazer parte da vida do brasileiro. Enquanto isso não ocorrer, pouco a pouco iremos desaparecer como nação, talvez de forma irreversível, restando apenas o legado de outras eras, o futebol, o samba e o carnaval.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Ismael de Oliveira Luz

Ismael de Oliveira Luz

Natural de São José dos Campos; Formado em Engenharia Civil pela Universidade do Vale do Paraíba; Empresário e professor atuante na formação intelectual de crianças e jovens; Estudante de filosofia e humanidades; Cristão pela impossibilidade metafísica de não sê-lo.

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