Por que a esquerda ama bandidos? – O problema da bandidolatria

Escrevi, em 2013, note-se, um texto em que traço uma relação que sempre foi evidente aos meus olhos, mesmo que intuitivamente: a relação de cumplicidade ou conivência entre a esquerda revolucionária e o banditismo de rua, a criminalidade urbana, comum ou “profissional” (explico na sequência). Mas para surpresa de um amigo, a relação não é (supostamente) tão clara assim.

Então vamos a um pequeno introito teórico e uma breve compilação recente de casos de apologia ao banditismo por parte da esquerda.

Em primeiro lugar, a esquerda revolucionária tem de ser favorável ao banditismo de rua por puro e simples corolário próprio de seus axiomas. Lenin já sustentava a crença de que, com o fim do capitalismo, os bandidos “comuns” acabariam. O verdadeiro criminoso é o criminoso político. Estabelecia-se em uma escala nunca vista o crime não pela ação, mas pela condição (você poderia ser preso por ser aristocrata, da família do czar, burguês ou kulak) e não pela ação criminosa. Anne Applebaum faz um excelente apanhado dessa questão no livro Gulag: uma história.

O marxismo teórico dispensa o livre arbítrio humano e sustenta o condicionamento pelo ambiente. Você é religioso porque sua condição material atual é miserável, o que te leva a projetar uma realidade futura de abundância material. Os bandidos roubam porque o “sistema” capitalista (de acordo com a narrativa marxista) não dá meios para que todos adquiram tudo que querem e precisam (adicione a isso a questão da propaganda e do “fetichismo da mercadoria”), o que conduz os mais desfavorecidos ao roubo. Com o fim do capitalismo, esse tipo de condição desapareceria, pois todos disporiam do que precisam conforme suas necessidades, tornando o ato do roubo desnecessário.

Daí o banditismo ser menos uma questão criminal e mais uma espécie de adendo à denúncia das mazelas capitalistas. Como tento argumentar no post supracitado, bandidos comuns não são revolucionários de fato (não farão do mundo um lugar melhor porque leram Marx e Lenin), mas são de direito (no frigir dos ovos, seus atos criminosos contribuem para o processo ao exporem as contradições do sistema capitalista).

E muito além de um aspecto teórico, a história do fenômeno é vasta (fiquemos com alguns, usando o mero critério de serem relativamente recentes):

Um clássico do tema. Leonardo Sakamoto em seu “Ostentação deveria ser crime previsto no código penal“:

Mais do que uma escolha pelo crime, a opção de muitos jovens pelo roubo é uma escolha pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Não defendo essa opcão, mas sabemos que, dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo – pois não são apenas os jovens de classe média alta que são influenciados pelo comercial de TV que diz que quem não tem aquele tênis novo é um zero à esquerda. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia. Uma batalha que respinga em nós, que temos responsabilidade pelo o que está acontecendo, seja por nossa apatia, conivência, desinteresse, medo ou incompetência. A polícia e os chefes de quadrilhas puxam os gatilhos, mas nós é que colocamos as balas na agulha que matam os corpos e o futuro dessa molecada (grifos nossos).

Se você tem um amigo que não vê o elo causal entre essas palavras e a simpatia ao banditismo, lembrem-se que é a mesma esquerda que vê propaganda subliminar do PSDB em todo comercial da rede Globo. Ou que acha que o mais simples comercial ou anúncio é um atentado à consciência individual, levando todos os seres humanos a consumir.

Agora Francisco Bosco, colunista do jornal O Globo (!!):

(…) quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam

Vou ficar só com essa citação porque ilustra bem o aspecto teórico que expliquei logo acima. O Felipe Moura Brasil fez o apanhado geral do convite à violência do bem feito por Bosco.

Chegou a vez de outro garoto propaganda do esquerdismo cheiroso do momento, Vladimir Safatle em sua coluna na Folha de São Paulo (mais um daqueles jornais controlados por cinco famílias, blablabla):

Nesse contexto de mutismo, a violência aparece como a primeira revolta contra a impotência política. A história está cheia de exemplos nos quais as populações preferem a violência genérica à impotência. Ainda mais quando se confrontam com uma brutalidade policial como a nossa. Como todo sintoma, há algo que essa violência nos diz. A resposta a ela não será policial, mas política.

Esse caso é mais semelhante com o de Sakamoto. Palavras floreadas, mas cujo significado foi apenas dito de forma direta por Bosco. A resposta violenta da “população” pode vir a ser legítima. Quem vai definir se pode ou não? Vladimir Safatle, é claro.

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Entre nosso corpo docente estão presentes nomes como Bernardo Küster, Miguel Nagib, Ludmila Lins, Diego Pessi e Leonardo Giardin.

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Um caso um pouco mais nobre é o do historiador Eric Hobsbawn (aquele que afirmou que se o comunismo tivesse “dado certo”, as 20 milhões de vidas ceifadas por Stalin não seriam aquilo tudo). Hobsbawn tem um livro inteiro sobre “Bandidos”, onde faz um estudo histórico-sociológico de bandidos famosos e do banditismo em geral:

Obra que deu origem a um novo campo de pesquisa na História: o bandistismo social. Aqui Eric Hobsbawm explora as perspectivas políticas do banditismo e sua história no contexto do poder e do controle por parte dos governos e do Estado. O bandido social – Pancho Villa, Lampião, Robien Hood et caetra – é explicado como um rebelde potencial: o elemento social que, estando fora do alcance do poder e sendo ele mesmo detentor de poder, resiste a obedecer (grifos nossos).

Ou seja, o bandido é um tipo de rebelde: resiste ao poder vigente. É produto de seu meio social (qual a diferença entre banditismo ‘comum’ e banditismo ‘social’?), é mais uma vítima do que um vilão. O caso de amor, de fato, é eterno.

Carlos Marighella, mais que um mero apologeta da criminalidade, era um teórico e prático do assunto. Seu “Manual do Guerrilheiro Urbano” é um clássico exemplo disso:

Emboscada

As emboscadas são ataques tipificados por surpresa quando o inimigo é apanhado em uma estrada ou quando faz que uma rede de policiais rodeie uma casa ou propriedade.

Uma mensagem falsa pode trazer o inimigo a um lugar onde caia em uma armadilha.

O objeto principal da tática de emboscada é de capturar as armas e castigá-los com a morte.

As emboscadas para deter trens de passageiros são para propósitos de propaganda, e quando são trens de tropas, o objetivo é de eliminar o inimigo e tomar suas armas (p. 35).

 

Para o falecido Ricardo Boechat, “vandalismo é o cacete”:

 

O escritor Reginaldo Ferreira da Silva – chamado Ferréz – afirmou:

 

Mas também acho que nunca se mudou nada sem sangue nas ruas. Não se muda nada só conversando, infelizmente. Seria perfeito se fosse assim. Mas acho que morrerá mais gente.

Carlos Eugênio da Paz conta as atividades tenebrosas de guerrilheiros em “combate” ao regime militar e Marighella:

 

 

Ex-marido de Dilma Rousseff confessa crimes cometidos na guerrilha:

Felipe Moura Brasil fez um vasto apanhado de intelectuais, artistas e palpiteiros que foram coniventes com as “manifestações de junho” ou aprovaram a arruaça, inclusive por parte dos “Black Blocs”:

http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/02/10/os-pensadores-que-deveriam-ir-ao-velorio-do-cinegrafista-da-band-a-carta-de-sua-filha-e-as-declaracoes-da-viúva/

Last but not least, há ainda hoje o seguinte vídeo:

 

Uma professora palestrando na UNESC afirma que invasão de residências por parte de pessoas armadas ameaçando estuprar outras NÃO É terrorismo.

O que é isso senão a autorização explícita do crime? Nem mesmo do crime comum, mas do terrorismo, “crime com propósito” como diz a professora. Luta de classe é autorização da criminalidade, companheiros.

Aproveitem a ocasião dos 50 anos do golpe militar para registrar esse tipo de opinião, estou convencido que elas aparecerão com frequência.

Em tempos de hashtags e em que alguém poderia perguntar quantas eu já criei para denunciar o problema e até mesmo aventar soluções para os problemas da gigantesca criminalidade urbana que assola o Brasil, não possuo nenhuma hashtag na conta, mas colaborei na edição do livro que notabilizou o termo “bandidolatria”, usado pela primeira vez pelo doutor Ricardo Dip em seu Crime e Castigo: reflexões politicamente incorretas, que tão bem expressa o que se trata aqui nesse artigo, o amor idolátrico da esquerda por bandidos, que como mostra o livro, se tornou um problema não apenas por ser um sentimento da esquerda, mas por ter tomado conta das mentes que pensam, estudam e executam o direito no Brasil. Trata-se de Bandidolatria e Democídio: ensaios sobre garantismo penal e a criminalidade no Brasil, escrito por Diego Pessi e Leonardo Giardin de Souza (editora Armada, primeira e segunda edições, 2017 e 2018 – livro encontra-se na sua terceira edição, pela editora SV). O livro – escrito por, logo que publicado, esteve nas mãos e foi divulgado pelo advogado e deputado federal Eduardo Bolsonaro.

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André Assi Barreto

André Assi Barreto

Bacharel, licenciado e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo. Licenciado em História. Professor de Filosofia e História das redes pública e privada da cidade de São Paulo. Pesquisador da área de Filosofia (Filosofia Moderna - Dercartes, Hume e Kant - e Filosofia Contemporânea - Eric Voegelin e Hannah Arendt) e aluno do professor Olavo de Carvalho. Trabalha, ainda, com a revisão de textos, assessoria editorial, tradução e palestras. Coautor de “Saul Alinsky e a anatomia do mal” (ed. Armada, 2018).

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