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Theodore Dalrymple e o sentimentalismo tóxico

Entre os autores estrangeiros trazidos ao Brasil a partir do surgimento da nova direita, liberal e conservadora, o crítico social Theodore Dalrymple ocupa posição de destaque. Dalrymple é o pseudônimo do médico Anthony Daniels. Psiquiatra inglês com vasta experiência clínica, dono de prosa acessível e incisiva, o autor chegou a nossas terras por meio da editora É Realizações, que editou títulos como A vida na sarjeta, Nossa cultura ou o que restou dela, Em defesa do preconceito, além do excelente Podres de mimados. Vamos analisar este último, especialmente o conceito de sentimentalismo tóxico e sua relação com o ativismo identitário contemporâneo.

Antes de entrarmos no tema propriamente dito, é interessante dar uma palavra sobre o estilo do autor. Dalrymple é um ensaísta de primeira grandeza e um crítico arguto e perspicaz. Britânico, o autor recupera a tradição ensaística de David Hume, filósofo cético do século XVIII que assinou os Ensaios Morais e Políticos. Em termos literários, o ensaio humeano se diferencia do ensaio francês de Montaigne pela suave fluidez do texto, pela objetividade do argumento. Há também uma diferença de método: Montaigne consulta a enorme biblioteca do passado; Hume analisa os dados empiricamente perceptíveis. Dalrymple é apegado à empiria e, embora ponha os casos empíricos em perspectiva histórica, não perde de vista a caracterização objetiva dos fatos. Nesse sentido, um ladrão confesso, por exemplo, não é uma vítima da sociedade, mas sim um indivíduo moralmente apto a decidir entre ações boas ou más, embora esteja socialmente condicionado em vários aspectos.

Como crítico e psiquiatra, o autor faz um “gigantesco diagnóstico da sociedade”, nas palavras de Luiz Felipe Pondé, prefaciador de Podres de Mimados. No argumento geral da obra, o autor se dirige aos elementos culturais da modernidade, definida, entre outras coisas, pela prosperidade material do capitalismo e pela frouxidão moral do indivíduo. O homem moderno se apegou excessivamente aos bens materiais e passou a agir como um consumidor vitalício: tudo é comprado e usufruído irresponsavelmente. Do outro lado, a moral dominante está contaminada pela razão instrumental: tudo tem de ser útil e suprir necessidades práticas. Sociedade próspera, pessoas mimadas: eis o pano de fundo da obra. Mas o principal objeto da crítica de Dalrymple é o sentimentalismo tóxico, isto é, a sobreposição da emoção à razão na orientação da vida em sociedade e na criação das políticas públicas. Para orientar nosso comportamento público e as políticas de Estado, as emoções se tornaram a referência primeira.

 

O que é o sentimentalismo tóxico:

Primeiramente, é importante distinguir o sentimentalismo da simples sensibilidade humana. Dalrymple sabe que um homem sensível não é um chorão, mas um sujeito sensível a sentimentos nobres como a piedade, o amor (filial, fraterno e erótico), etc, e às artes de maneira geral. O contrário do sentimentalista não é um brucutu grosseiro e rude, mas um homem moderado em suas paixões. Logo, a crítica do sentimentalismo não vem acompanhada do elogio da insensibilidade e da frieza pura e simples. O predomínio do sentimento se torna tóxico na medida em que contamina a mentalidade de todos que, para manter a coesão social, necessitam mais da razão e menos da emoção.

Diz o autor que “o sentimentalismo é o progenitor, o avô e a parteira da brutalidade”. A frase é objetiva e sintetiza as consequências desastrosas da substituição da racionalidade pela emoção. Ela elucida a necessidade de se manter o sentimentalismo afastado da vida pública porque, afinal, o moderno Estado de Direito é baseado na aplicação impessoal e intransigente da lei. Afirmar que temos direitos sociais é afirmar que há deveres a ser cumpridos coletivamente. Essa é a fórmula do pacto de cidadania: eu cumpro meus deveres para ter acesso aos meus direitos, e tu, concidadão, deves fazer o mesmo. O pacto de cidadania impõe obrigações recíprocas entre os indivíduos. Esse pacto só pode ser efetivamente cumprido quando a razão orienta a vida em sociedade, pois é ela que disciplina nosso comportamento, na medida em que nos afasta da tentação egoísta de fugir à norma geral. A fuga à norma comum, quando se generaliza, conduz à anarquia ou a convulsões sociais. Diminui a distância entre civilização e barbárie.

Como no Leviatã hobbesiano, o Estado moderno é produto da deliberação racional dos homens que, reunidos em torno de objetivos comuns, decidem ordenar racionalmente a vida social por meio da organização do poder e da instituição de regras gerais de convivência. Ao contrário, o sentimentalista é um egoísta mesquinho: quer colocar-se acima da regra porque se vê como exceção. Quer dar um jeitinho. O sentimentalista é um desajustado: não consegue adaptar-se às exigências éticas da vida em sociedade. É assim que, segundo Dalrymple, os alunos das escolas primárias inglesas se tornaram agressivos e indisciplinados. Eles foram deixados livres, leves e soltos por professores incompetentes e pais covardes. Efeito da pedagogia romântica de Rousseau e seu Emílio: deixe a criança descobrir-se no mundo, deixe-a livre. Dalrymple nos faz ver que esse apelo sentimental à “liberdade de aprender” esconde, na verdade, a fraqueza de pais incapazes de dizer não, a incompetência de professores indulgentes em demasia. O caso das crianças indisciplinadas não é tão diferente dos adultos infantilizados pelo sentimentalismo.

 

O assistencialismo de Estado:

Como um fenômeno cultural, o sentimentalismo atravessa os indivíduos e os conforma sem que eles percebam. Logo, o predomínio da emoção se manifesta em diversas esferas da vida social, seja no meio artístico, nas universidades, nos meios de comunicação, nas comunidades religiosas, na vida doméstica. Em relação ao Estado, o sentimentalismo justifica o discurso populista do governo solidário, isto é, o estado de bem-estar social. A retórica assistencialista é famosa: o governo deve apadrinhar os cidadãos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Ou seja, o governo toma o partido dos pobres e dos oprimidos. Seria coincidência que, em seguida, os pobres e oprimidos tomem o partido do governo? Dalrymple acredita que não. No caso do Brasil, sabemos que os programas sociais são estendidos além do tempo necessário e mantidos como meios de estelionato eleitoral. Há uma linha tênue entre a assistência social necessária e o assistencialismo rasteiro de partidos como o PT.

Dalrymple conhece a natureza humana em seus aspectos psíquicos e socioeconômicos. Sabe que o homem se dignifica quando se esforça individualmente no sentido de conquistar os próprios meios de subsistência. O homem atinge a maturidade quando se torna responsável pela própria vida, isto é, quando o trabalho acumulado responde por seus níveis de conforto material. O mercado, como espaço de integração social, segue a mesma lógica. É por isso que, ao menos idealmente, a economia de mercado premia os homens que vivem do trabalho e castiga os que se recusam a trabalhar. O dinheiro obtido como salário permite ao trabalhador usufruir dos bens materiais postos à venda; enquanto isso, o vagabundo não possui dinheiro para usufruir do mercado com o qual não colabora. Salvo casos de extrema miséria, o Estado não deve envolver-se na ajuda aos pobres, pela simples razão de que sua “ajuda” está enviesada no sentido de manter o poder, natural na atividade política. Ao contrário do governo, o mercado está interessado em prover os produtos necessários à subsistência em troca de trabalho e dinheiro, não em troca de votos e de reconhecimento público.

 

O ativismo identitário e o culto da vítima:

O sentimentalismo se manifesta no ativismo identitário por meio do “culto da vítima”. No livro, Dalrymple não aborda frontalmente o identitarismo. Para tratar do culto da vítima, explora o caso dos falsos judeus que se passaram publicamente por sobreviventes do holocausto judaico para se promover na mídia. Gente como Bruno Dosseker, autor de falsas memórias sobre os campos de concentração, que comoveu a Europa para depois ser desmascarado publicamente. Essas pessoas se escoraram na comoção pública em torno do genocídio antissemita para fugir à massa informe da mediocridade. Eram pessoas educadas e vindas de boas famílias de classe-média, entediadas com suas vidas simples e desejosas de brilhar nos holofotes públicos. Os falsos judeus se sentiam moralmente autorizados a falar em público como criaturas superiores pela simples razão de se declararem vítimas das atrocidades nazistas. Abusaram da boa-fé de muitos que, piedosamente, lhes abriram o coração. De modo semelhante aos falsos judeus, no mundo contemporâneo, as hostes identitárias se definem pelo culto da vítima. Buscam a afirmação de segmentos supostamente marginalizados. Mulheres, negros, gays, todos são vítimas da mesma sociedade patriarcal, branca e homofóbica.

Esses grupos identitários são geralmente organizados em torno da afirmação de uma identidade comum, o que reforça os laços solidários entre indivíduos igualmente marcados pelo trauma psicossociológico do estigma. Sentem-se diferentes de todo o restante da sociedade e se reúnem com a finalidade de reafirmar coletivamente tais diferenças. Entram num ciclo vicioso que vai do protesto contra as diferenças sociais até a afirmação positiva das diferenças, e da afirmação de volta ao protesto. São paradoxalmente vítimas e heróis. Fechados no tribalismo ideológico, esses grupos se apresentam de modo agressivo e desafiador ao restante da sociedade (composta de inimigos, lembre-se). Querem se afirmar acima da condição de marginalizados em que alegam viver; para isso, porém, eles têm de criar canais de comunicação com a sociedade. E como fazem isso? Por meio das emoções. Apelam à dicotomia vulgar do bem contra o mal, isto é, dos oprimidos contra os opressores. Mostram-se publicamente como vítimas indefesas do patriarcado, dos brancos ou dos héteros; expõem a todos as feridas emocionais que sofreram. Querem assim despertar no interlocutor a empatia, a compaixão e a misericórdia – sentimentos cristãos, diga-se.

O discurso identitário se difunde tão mais facilmente quanto mais piedosas forem as pessoas. Ele pretende despertar a empatia pelo sofrimento alheio por meio da inoculação do sentimento de culpa no restante da sociedade. Chamar a todos de racistas é um caminho para colocar-se no papel lisonjeiro da vítima de racismo. Dalrymple nos faz ver, porém, que as falsas vítimas se valem geralmente de questões sensíveis à opinião pública. Questões mais facilmente sentidas que definidas. Pois se é verdade que existe racismo, não é, contudo, verdade que a simples alegação da suposta vítima de racismo baste para demonstrá-lo.

No caso específico dos negros ideologizados, eles se autorizam a identificar o racismo com a própria declaração – e nada mais é preciso. Acontece que, se o racismo for tudo que um negro aleatoriamente declare ser, sem a necessidade de se convencer racionalmente a porção não-negra da sociedade por meio da demonstração mais objetiva possível, então o fenômeno do racismo se torna uma arma retórica e não um dado empiricamente verificável. É aí que a autossugestão cumpre um papel perverso. As tribos identitárias afirmam infatigavelmente que são vítimas da sociedade até que a sociedade se convença disso e se veja na condição inglória de inimiga dos negros, das mulheres, dos gays, etc. Segundo Dalrymple, esse culto da vítima:

“Dá a entender que todo sofrimento deve ser considerado a partir da própria estimativa do sofredor, o que significa que sofre mais quem expressa o sofrimento com mais força ou, pelo menos, com mais veemência. Não importa qual seja a origem do sofrimento. Se não podemos julgar a afirmação de sofrimento de uma pessoa contrastando-a com sua situação, comparando-a, por exemplo, com a situação de outra porção da humanidade, então não deixamos nada para a imaginação e não precisamos dar um salto de empatia: baseamo-nos puramente naquilo que é declarado. Não temos qualquer noção do que seja sofrer em silêncio; e, ao mesmo tempo, somos obrigados a tomar parte na autopiedade de todo mundo. Mal chegaria a surpreender se, a fim de atrair a atenção de nossa simpatia, as pessoas se sintam obrigadas a declarar sofrimentos inauditos, mesmo a partir das frustrações e desapontamentos mais banais e ordinários – e, na verdade, inevitáveis, que são a consequência da existência humana. Aqueles que em voz alta declaram sofrer muito por razões triviais acabam sofrendo mesmo. A imaginação alinha a realidade.”

A fabricação ideológica de falsas vítimas é nociva à ordem social por pelo menos duas razões. Primeiramente porque premia a covardia e castiga a fortaleza. Quem espernear contra o horror de viver como vive será louvado na opinião pública como a vítima por excelência; quem, ao contrário, desejar superar com discrição as dificuldades que porventura enfrente será tachado de conformista. Exemplo disso: um negro empreendedor chama menos atenção que um negro pobre e resignado à pobreza. O louvor ideológico da favela substitui o protesto contra as condições precárias da vida favelada. Ou seja, o culto da vítima conduz logicamente à execração do sucesso e ao engrandecimento do fracasso. Segundo Theodore Dalrymple, “o culto romântico concedeu autoridade moral ao sofredor”, em vez de estimulá-lo à superação.

Além dessa subversão moral, as tribos ideológicas se jogam contra o restante da sociedade, e, portanto, envenenam as relações interpessoais entre membros de diferentes tribos. Por exemplo, um branco dificilmente se sentirá confortável para conversar aberta e livremente com um colega de faculdade negro, pois sua consciência foi invadida pela culpa fabricada na oficina demoníaca do identitarismo. Dessa forma, a inibição e o constrangimento assumem o lugar da descontração e da serenidade que geralmente marcam uma boa conversação. O resultado em longo prazo é a desagregação social e a intensificação do estranhamento entre os indivíduos.

Mas Dalrymple não é insensível aos verdadeiros sofredores, às vítimas de acontecimentos comoventes. Acontece que tais sofrimentos são raros, nos comovem e assustam ao mesmo tempo porque a aflição é agravada pela surpresa. É o caso, por exemplo, de duas tragédias marcantes na história recente do Brasil. O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), e a queda do avião com os jogadores da Chapecoense. O primeiro vitimou mais de duzentos jovens universitários que encontraram a morte no espaço estreito da boate; o segundo matou quase todo o time titular da equipe que representava o Brasil na copa sul-americana. Nas manhãs seguintes a essas tragédias, todo o Brasil parou e se comoveu. Centenas de vidas foram perdidas de forma trágica. Esses desastres comovem a todos porque são reais, não dependem da mistificação ideológica para se mostrarem a todos. Um avião caído e uma boate em chamas não precisam estimular uma consciência tribal para nos chocar em sua inteireza.

O argumento de Dalrymple contra o sentimentalismo tóxico é interessante porque destaca as qualidades morais e racionais necessárias à manutenção da ordem social. A cultura romântica e a debilidade da educação das novas gerações contribuíram para aprofundar a crise moral em que vive o Ocidente. Além disso, as ideologias perversas do socialismo inspiram grupos de jovens que renegam virtudes como a prudência e a fortaleza. Lançam-se na aventura romântica de mudar o mundo para fugir à realidade dos fatos – realidade eventualmente desanimadora e desafiadora.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Rafael Valladão

Rafael Valladão

É licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Colunista do Instituto Liberal e coordenador local do Students For Liberty Brasil. É professor voluntário de Sociologia em pré-vestibular desde 2014

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