(Kevin Lamarque/Reuters)

Não é o fascista o cara que está apresentando a democracia à Coreia do Norte?

Há coisas que só são possíveis quando quebramos as narrativas esperadas por todos, esse é o princípio do humor e da estratégia de guerra ― deve ser por isso que, se em 2016 alguém falasse que Trump protagonizaria a apresentação da democracia à Coreia do Norte, todos ririam muito, muito mesmo.

Trump provou que subir o tom, por vezes, é o principal caminho para o diálogo e para a diplomacia. Durante décadas a Coréia do Norte, fechada em sua bolha ideológica ― sonhando com um masturbatório “sovietismo” de olhos puxados ―, botou medo no Ocidente norte americano. Afinal, simplesmente não sabíamos onde findava o discernimento de seus líderes ― se é que tal discernimento realmente existia. A Coreia do Norte era um país “sofrido até o osso”, gerenciado por sucessivos déspotas idiotas; o problema era que tais idiotas tinham bombas atômicas de longo alcance, e até onde manda a racionalidade sadia, ninguém gosta muito de jogar ou brincar com idiotas que têm ogivas nucleares.

Bill Clinton tentou a diplomacia dos democratas, e entre umas rusgas e outras, sempre moderava o tom com os déspotas norte-coreanos preferindo não alargar as crises; o mesmo ocorreu com o republicano George W. Bush, que entre caras feias e ameaças, no fim ignorava ou moderava os entreveros focando suas forças na guerra do Iraque; Obama, o presidente das dancinnhas, do sorrisinhos, o presidente pop, pouco fez a não ser pregar o sempre aclamado “diálogo”. Aí veio o extrema-direita, o Hitler americano, Donald Trump ― quem não lembra disso? Ler as seções de política internacional nos jornais, em 2016, foi hilário. De maneira inédita e imprudente ― para os analistas da CNN, NYT, BBC, ABC, etc. ― o presidente ultraconservador subiu o tom com o gordinho da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

As vias de guerra pareciam abertas, os dedos de ambos os protagonistas das intermináveis ameaças estavam em riste em cima dos botões vermelhos da destruição em massa. Mas o impossível aconteceu, o gordinho “cabelinho na régua” recuou, e numa duvidosa epifania democrática se propôs a dialogar com Trump. O encontro aconteceu, as imagens pitorescas dos dois de mãos dadas, assim como o sorriso amarelado do norte-coreano, seguido do alaranjado tom habitual do americano, pronto, estava concretizado o impossível. Trump merecia o prêmio Nobel da paz por seu tom bélico ― eu realmente acho que ele merece o prêmio ―; sim caros leitores, por vezes a paz vem pela rispidez, assim como a calmaria que procede a tempestade.

Assim como o conservador Richard Nixon, em 29 de fevereiro de 1972, o primeiro presidente americano a viajar à China e encontrar o bizarro comunista Mao Tsé-Tung; Trump foi o primeiro presidente americano a cruzar a fronteira da Coreia do Sul e adentrar em território que até “ontem” seria denominado altamente hostil a americanos. O encontro de Nixon com Mao marcou a abertura gradual da China ao mundo, e o encontro de Trump com Kim pode marcar o mesmo processo com a Coreia do Norte. Tais fatos representam duas das mais significativas marcas diplomáticas da geopolítica mundial nas últimas décadas, e foram feitas por dois conservadores.

Tal encontro de Trump e Kim se torna tão significativo que, efetivamente, pode refletir os primeiros raios democráticos nas terras norte-coreanas. É bem capaz, corre-se um real risco de que Trump, o fascista laranja, o ultraconservador nazista, seja o último dos reais estadistas do planeta. Aquele que sabe negociar realidades ao invés de utopias; que fala pouco sobre direitos humanos, de representatividade feminina e sobre minorias, mas que fatidicamente entrega algo consistente com o qual se pode dialogar e negociar a paz.

Corre-se o risco de que no futuro, nas línguas e penas dos sinceros analistas políticos, Trump seja considerado o real estadista e Obama apenas um demagogo pop.

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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