Quando terminou o debate da Record, na madrugada do dia 01 de Outubro de 2018, a primeira coisa que eu disse a minha esposa, que assistia o debate comigo foi: a Marina vai ter menos votos que o Daciolo.

Não deu outra, apuradas as urnas, a candidata que em 2010 conseguiu 19.636.359 de votos e que em 2014 conseguiu subir para 22.176.619, fechou 2018 com míseros 1.069.577 votos. Eleitoralmente isso não é uma derrota, é uma humilhação.

Fonte: TSE

 

E sim, ela ficou atrás do Daciolo. Não, não tenho talento para futurologia. E talvez eu tenha chegado a essa conclusão apenas naquele momento por não ter acompanhado os debates mais de perto. O importante é que naquele momento ficou claro que aquela seria a eleição onde a candidata da Rede teria o seu pior resultado.

Em 2014, Marina teve amplo apoio dos evangélicos. Desde 2010 a candidata já conseguia concentrar em si a figura de “opção evangélica”, mas em 2014 o apoio foi mais velado, surgindo desde lideranças mais populares, como o Pr. Silas Malafaia, até líderes mais à margem do establishment gospel, como o Rev. Caio Fábio.

Digo de experiência própria: eu sou evangélico e naquele momento a Marina era aquela candidata que, mesmo não gostando, sobrava o argumento: pelo menos ela é a única ali que é cristã, né?

Bem ou mal, a Marina passava aquela imagem de irmã de Assembléia de Deus com aquele imutável coque no cabelo e sua aparência simples. Tudo bem que nenhuma irmã da Assembléia ficava falando em sustentabilidade, meio ambiente etc. mas, era o que tínhamos.

Como o Filipe Martins (analista político e colunista do sensoincomun.org) já explicou diversas vezes, o que faz um político ganhar a atenção (e os votos) dos eleitores não é sua ideologia nem suas propostas, por mais maravilhosas que sejam. O que ganha voto é uma coisa chamada identificação.

Quem tiver maior capacidade de gerar esse sentimento de identificação, inevitavelmente será eleito. E naquele momento, e esse é um ponto crucial para entender a humilhação eleitoral que a Marina sofreu em 2018, o Brasil não estava passando por um momento tão preocupante e dramático como agora. Com isso, a demanda por identificação do eleitorado protestante não estava tão alta.

Então chegamos a 2018. O anti-petismo está absolutamente em alta e Jair Bolsonaro desponta como principal expoente, porta-voz e representante desse sentimento. Nesse contexto, Marina se recusa a entrar na onda conservadora, considerada por ela (em sintonia com todos os petistas, a mídia e o show business) como radical e autoritário.

Apesar de se apresentar como cristã, não apresentou-se como alguém afinado com as pautas conservadoras genuinamente cristãs, como o combate ao aborto e às drogas, por exemplo. Em vez disso, propôs decidir o aborto por meio de plebiscito (depois voltou atrás, mas era tarde demais) e apresentou como vice ninguém menos que Eduardo Jorge (!!!) ex militante do Partido Comunista Brasileiro, favorável à legalização da maconha e inesquecível meme das eleições de 2014 (quero!). Isso sem falar nas outras propostas que não passam de mais do mesmo.

Em resumo, Marina veio (como de costume) prometendo uma mudança só de garganta, sem nunca mostrar na prática, em que de fato seria diferente.

Só por isso, o diagnóstico já seria de derrota acachapante para o candidato do PSL que, apesar de não fazer o mínimo esforço para parecer um santo, conquistou os cristãos pelo que, na prática, apresentou como proposta. Mais que isso, que mostrou que sempre defendeu.

Mas eis que vem o golpe final. Cabo Daciolo, com a Bíblia na mão, atraindo a atenção de todos com suas excentricidades e com coragem de sobra nos debates, retirou os poucos votos evangélicos que poderiam ir para Marina.

Era simplesmente impossível que a irmã da Assembléia trocasse um homem que usou as considerações finais no debate da Band para ler “Jeremias capítulo 29, versículo 11” por uma figura caquética pedindo “mais democracia”. Não tinha como o diácono daquela igreja da esquina trocar o homem que se apresentava como “Servo do Deus Vivo”, colocava um “glória a Deuxx”, “Aleluia” e “Para honra e glória do nosso Senhor Jesus Cristo” no meio de cada frase, por uma ambientalista que ficou dizendo que um ex-capitão do Exército de 60 anos “amarelou” por não ir num debate (por recomendação médica) depois de quase morrer depois de levar uma facada na barriga.

A derrota era mais que certa, era inevitável. E isso deve nos ensinar uma importantíssima lição, que Ben Shapiro muito corretamente coloca em seu livro “How to Debate Leftists and Destroy Them”, que ele afirma ter ouvido de seu amigo Andrew (apesar de não deixar expresso, ele se refere provavelmente a Andrew Klavan):

“Andrew costumava dizer que você tem que abraçar a luta, caminhar em direção ao fogo. Ele explicaria que você vai ser atingido pelas balas e flechas de uma fortuna escandalosa, não importa o caminho que você escolher. Você pode tentar se esconder dos ataques da esquerda; você pode fugir deles, tentar ignorá-los, fingir que a esquerda alcançou algum tipo de quase-consenso no qual eles eles estão vivendo e deixando viver. Isso durará até que os manifestantes estejam do lado de fora do seu negócio, os reguladores do governo estejam do lado de fora de sua casa ou os administradores estejam do lado de dentro da sala de aula do seu filho. Então você vai perceber que, enquanto você estava disposto a deixar viver, a esquerda simplesmente não estava.

Shapiro, Ben. How to Debate Leftists and Destroy Them: 11 Rules for Winning the Argument (Locais do Kindle 102-106). David Horowitz Freedom Center. Edição do Kindle.”

O principal engano no qual o isentão cai é esse: confiar que a esquerda vai jogar limpo como ele, que ela tem o mesmo apreço pela democracia que ele, etc. Não, meu amigo, você não entendeu. O nome é guerra cultural. Guerra. E o fato de ser cultural não exclui ou ameniza o fato de ser uma guerra.

Por fim, não se engane: essas eleições são a grande prova de que a mornidão dos isentos simplesmente não tem apoio popular. A esquerda não conquista (cada vez menos, mas ainda conquista) o coração do jovem estudante por ser isenta, imparcial, neutra e democrática. Ao contrário, a conquista das mentes juvenis é justamente pelo vigor com que elas defendem seus valores.

E nós, conservadores, vamos demorar quanto tempo para aprender a lição?