O aborto merecido

Não faz muitas horas que recebi um telefonema dum amigo que, não deixando-me encerrar as primeiras normas de etiqueta, atirou-me com voz desesperada pelos fios: “Soube que a França legalizou o aborto até os nove meses?”.

Afoito, ia responder-lhe calmamente: “Não”. No espaço de tempo que ainda vacilava, ele continuou:

– Nove meses! Lembro-me das discussões que se tratavam; tantos arruídos em torno do tema. As perguntas surgiam: quando começa a vida? E a mulher violentada? Não seria um direito apartar-se ou matar o filho?…

– Como soube disso? Não me diz que sua…

– Confesso, meu caro amigo. A própria. Ainda fico irado com minha filha. E digo ainda porque, desde sempre, as travessuras e desobediências me incomodam. Agora, com a idade madura, duplicam-se. Chegou agora defendendo esta decisão.

A filha de meu amigo telefônico contava ainda com sua juventude preservada. Estacionava-se como ele mesmo insiste em dizer “no ventre da mocidade”, aguardando o parto para a idade adulta. O parto para o caos. Foi então que pensei – sem dizer –, nada obstativo o seguinte.

Ora, encontra-se a jovem no ventre da mocidade; reivindica o justo direito à liberdade – afinal não quer ser controlada. Se ela é livre para desconsiderar os pais, também não seria livre meu companheiro para desconsiderá-la? Por que deve ela viver às custas de seu pai – vestindo-se, alimentando-se, e até mesmo recebendo abrigo gratuitamente – e um nascituro não pode viver?

Meu protesto contra esta menina pode ser considerado fruto de uma questão óbvia. De que modo agiria ela se o pai a ouvisse e, portanto, pensasse: “  Por que motivo sustentei a alguém tão desagradável e desobediente?”, ou se a avó, irada, indagasse por qual motivo teria tricotado para a jovem que hoje só é perfurada pelo progressismo. Por fim, e se a mãe se encontrasse flácida e procurando o motivo para o que via, perguntasse ao espelho por qual motivo amamentou a filha. Por que não a atiraram pela janela? Por que não a expulsar de casa? Certo estou de que não se produziu na modernidade pensamento mais egoísta e repugnante do que este.

Por fim, se eu estivesse falando alto diria: uma pessoa que defende o assassinato de inocentes não deveria se espantar quando tivesse as refeições diárias cortadas; menos ainda deveria estarrecer-se caso fosse atirada do último andar. Defender o aborto nestas condições é abortar-se, ao menos em possiblidade

“Possiblidade”, está palavra tirou-me da viagem que fazia enquanto o outro discorria. Primeiro tocaram-me as palavras “irada” e “desobediente” – levaram-me até Efésios. Assaz calculista voltei. Sem a menor educação pois medi a gravidade: pecaria menos por palavras que por omissão.

Então contei-lhe uma história rápida, guardando para depois os meus emaranhados textos bíblicos, ou melhor, o meu único fio reto:

– Teria eu onze ou dez anos e os dois personagens que compõe a história claramente eram separados pela idade e unidos pela genética: pai e filho. (Acalme-se leitor, não falarei aqui do que Pai e dos filhos, com a sagrada maiúscula). Vi-os e pareciam estar numa conversa séria. O pai personificava um mendigo negado que por vezes tentara entregar-se ao primeiro vício que pela frente via. O filho no início da prosa parecia indiferente, não se aproximava do filho pródigo e nem do que ficara em casa. Parecia-me suspenso.

A mãe não estava com os dois, presumo até hoje que eram divorciados ou no mínimo aguardavam os dois o que antigamente nominavam desquite. Exato, meu amigo, certamente eram desquitados.

O pai então, com uma fala tão murcha e caída quanto os olhos que há tempo pareciam não se pregar, enunciou: “Não devo vê-lo mais”, cambaleou para o outro lado e completou: “Você me lembra sua mãe”. O filho então, por sua fisionomia, mostrava-se aflito; como que indigno de ser amado. Um abortado.

– Meu Pai Amado – respondeu meu interlocutor, já com tom de despedida.

Enfim interrompida foi a ligação. Não sei com quantos meses de gestação encontrávamo-nos. Estimo que algo entre oito ou nove minutos, mas isso não importa tanto agora. Não há mais cerimonias, até com nove interrompem. Até com nove matam. Dias após, recebi a notícia de que o pai que linha atrás rejeitava um filho, havia se suicidado. E alguns dizem que no momento possuía consigo, em mãos, um papel com a oração do “Pai Nosso”…

Lembro-me agora da escritora Nélida Piñon, quando em uma entrevista ao Roda Viva, respondeu orgulhosa – já perdoe-me o relapso pela imprecisão –, tratando sobre o movimento feminista, engrandecido pela própria como “um movimento extraordinário, que alterou, por assim dizer […], a face do mundo, a face social do mundo”, e a ainda ao seu juízo o movimento “não derramou sangue”. Mesmo assim, ao meu juízo, seria apropriado perguntar à autora se nada vale o sangue dos abortados, digo, dos assassinados cruelmente.

Mas não é apropriado exigir tal postura dos idiotas (intelectuais, portanto) que despejam perguntas aos entrevistados, massacrando-os quando ousam lutar contra o “fascismo” e cariciando se defendem o assassinato… já sabemos que os intelectuais não costumam usar muito o intelecto.

Enfim, voltemos à Escritura e sua Palavra para avaliarmos a seguinte proposição na qual o aborto deve ser legalizado, quando as circunstâncias para que o assassinato de uma criança inocente aconteça seja o estupro. O estupro nesse caso seria o atenuante apropriado para justificar o ato.  

Como um ensaísta relapso que reconheço-me batendo no peito, confesso que não passo de um fazedor de formas em que busco imprimir qualquer coisa que seja à imagem e semelhança de Deus. Há uma série de semideuses, da qual não faço parte, que obrigados a porcentagem de barro comum de que são feitos, sujam-nos ainda mais da sujeira deste mundo, das coisas deste mundo.

Disse-lhe, amigo leitor, daqueles que são obrigados a porcentagem do barro de que são feitos, mas não salientei como distingui a porcentagem. Como um relapso, sempre me senti de outro mundo, não com a sacralidade de um santo ou de um egocêntrico e orgulhoso. Mas como um completo: sem porcentagens: um completo filho da ira.

Sem dúvidas a coisa que mais me espanta, me escandaliza na Escritura é a paternidade. Talvez minta, pois o fato que mais me embasbaca não é a existência do Pai, mas minha condição como filho.

Digo isso com mãos postas em minha bíblia imaginária, ao passo que a abro nas letras de São Paulo. Certamente para os modernos, os progressistas e tutti quanti o capítulo segundo de Efésios seria um apropriado texto para alisar o argumento feminista/abortista em favor do assassinato de nascituros; não fosse por sua posição específica dentro do livro mais retrógrado, machista e opressor que O autor já ditou.

Ora, avaliemos a força da proposição “filhos da ira” ou “filhos da desobediência”. Qualquer um que analise para além dos gargarejos sobre o tema, responder-me-ia em concordância, que o Criador teria mais motivos que todas as mulheres somadas e multiplicadas, para abortar toda a humanidade. De todos os motivos, o mais… Não, não continuo para não ouriçar novas cóleras ao leitor. Vamos com calma.

Imaginemos um caso de estupro e estabeleçamos o caso como um símbolo. Suponhamos então que toda a criação de um Pai amoroso foi abusada pelo pecado. Não só abusada, mas marcada e perfurada pelo mesmo. Como se o abuso fosse tão intenso a ponto de – como o pai da história que mais acima compartilhei com o leitor –, ter a capacidade de remeter ao fatídico dia no qual o abuso que a todos condenou aconteceu.

Passemos agora, juntos, a imaginar o Pai a olhar para os seres que ele mesmo criou “à sua imagem e semelhança”. Se o Pai compartilhasse de uma conversa com duração máxima de dois minutos com uma ativista “pró-aborto”, reduziria à pó tudo. Olharia então ele para a criação, rejeitá-la-ia pelo mero fato de olhar para ela e imediatamente lembrar-se da podridão do pecado e do abuso da serpente. Teria Deus motivos e aconchegos suficientes para abortar-nos. Teria motivos para desconsiderar-nos. 

Ora, então invertamos e imaginemos uma mulher, defensora do aborto em todas as hipóteses (até mesmo a que não exige hipótese alguma), que se depusesse-se e compartilhasse duma conversa que poderia durar o mais ínfimo tempo que pode se contar, com o Criador. Não ouso com petulância especular o que diria o Pai, mas seguindo a cartilha e não alterando-a, a jovem discorreria ante ao criador os seguintes argumentos:

“Não há método contraceptivo que seja cem por cento confiável”.

“Eu nunca teria um filho que é fruto de um crime, isso me lembraria do mal”.

“E se a mulher for negra, pobre e morar na favela? Por que as mais ricas podem e as pobres não?”.

“Só eu posso decidir se vou ter o filho ou não. Enquanto está em mim, sou eu quem decide”.

“E quem não recebeu educação sexual?”.

“Ainda nem é um ser vivo! Ninguém sabe quando se inicia a vida”.

“Aliás, pode ser uma vida, mas não é uma pessoa. Então não tem direito algum”.

“E se houve gravidez por acidente?”.

“Não tem corpo, nem consciência, nem ao menos pensa. ‘Penso, logo existo’”.

Devo interromper, antes que o leitor se enfade com os argumentos da jovem que não cessa de defender com sofisticação e elegância a morte de inocentes. Interrompo somente para algumas pontuações rápidas para que não me considerem depois delas como um intelectual.

Saliento que a relação sexual, por definição, só existe quando há como possibilidade resultante do ato a gravidez da mulher. Qualquer coisa que interfira, antes, durante ou depois do ato entre homem e mulher, eliminando a possiblidade e crueza da ação, é também o que anula a denominação “relação sexual”. À parte do que é cru, o que inclui todos os métodos contraceptivos existentes e vindouros há somente fantasia, fetichismo etc. É o que denomino como masturbação compartilhada.

Sendo assim, apregoar-se inocência e ingenuidade mediante a isto é desonestidade. Quem pratica a relação sexual (tida aqui em sentido correto) só a prática, por assim dizer, por que a possiblidade que é a condição para que ela exista não é anulada.

Indignadas também contradizem-se as integrantes do movimento feminista quando, por um lado, atacam homens que deixaram e abandonaram os próprios filhos juntamente com a mãe; e por outro solicitam o direito de decidirem sozinhas, sem a presença do homem que tem participação efetiva na existência do feto, se vão ou não matá-lo. Como se o fato de sentir fome ligasse o fogão, prepara-se o alimento, e o comesse, tais mulheres devem ter em mente a impressão vaga de que o ser crescente brotou ali como uma espinha brota na face untuosa.

E quanto à consciência, ao corpo e ao que se refere à mente é simples, pois é em mesma medida afirmas que Descartes estava errado em sua afirmação. A única coisa que o pensamento pode fazer é funcionar como indício retroativo de uma existência ou possiblidade que já foi admitida anteriormente. Portanto: Existo, logo penso. E continuo existindo. Nossa estrutura ontológica permanece e se essa noção nos for tirada ou desacreditada, acreditaremos que nossa mente pode mover um palito; ou – veja que absurdo – considerar que o corpo é toda a minha existência.

Paremos de rumiar o problema. Deve-se lembrar o leitor que anteriormente não ousei especular o que o Criador diria à menina. Não especulo por saber exatamente o que ele diria, pois o disse, pela pena de São Paulo, depois que o próprio Apóstolo enumerou motivos para um aborto, com realces, de acordo com o progressismo:

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou […] vivificou-nos…”

Assim posto, é correto dizer que quem ousa defender a morte ou o aborto em qualquer circunstância, está respaldando e justificando a própria morte. Ao invés de ceder gratificações ao Pai pela vida imerecida, só é capaz, em suma de defender a própria inexistência.

Quem defende que uma mãe mate seu filho porque o nascituro é fruto de um abuso, está exigindo a Deus que anule a Cruz, e o Amor. Exigindo que o Pai coloque em seus lábios as seguintes palavras: “Morra, indigno, você e toda minha criação me lembram do pecado”.  

Ah, leitor, ia-me esquecendo. Argumentaria também a jovem que seu próprio corpo, inegavelmente abarcaria apenas suas regras. Diria então O Corpo, ofertando-se novamente:

“– Isto é meu corpo, que será entregue por vós”.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Yuri Ruiz

Yuri Ruiz

Um jovem conservador, antifeminista, antimarxista e cristão.

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