Cristianismo e Socialismo: Uma Relação Impossível

Há várias tentativas de correlação entre a fé cristã e o socialismo feitas desde que Karl Marx e Friedrich Engels expuseram sua visão de mundo assentada no materialismo-histórico. Este, se traduz na forma de pensar e de estudar a vida em sociedade, tendo como método a análise das forças históricas intramundanas que se chocam contrária e continuamente, sob a forma dialética. Mesmo com esta abordagem materialista do socialismo de Marx e Engels, muitos cristãos flertam com o socialismo encontrando nele a solução para muitos dos problemas humanos. Desse modo, este texto objetiva levar o leitor à reflexão sobre: por qual razão muitos cristãos abraçam o socialismo de forma ingênua e inadvertida como sistema que responde às suas demandas existenciais de busca por sentido?

Como cristão digo que a fé cristã não somente possui valor de verdade, como é derivada da própria verdade, não como uma forma intangível, mas consubstanciada na pessoa do Cristo, Deus-Homem. A despeito das inúmeras evidências históricas acerca da veracidade dos acontecimentos bíblicos¹ e da sua irretocável lógica enquanto sistema que se compromete a dar explicações abrangentes e suficientes acerca do sentido da vida, no final das contas, a decisão pelo assentimento em ser um cristão que crê em Jesus como Filho de Deus, é resultado de um ato de fé.

O assentimento a qualquer sistema humano que tente dar conta de explicar a realidade de forma abrangente é sempre um ato de fé. Mesmo aquele que se arroga descrente, não religioso, etc., possui a inevitável característica ontológica da crença em algo que lhe garanta um firme fundamento para que possa lançar sobre ele seus anseios, suas necessidades e busca por sentido. Neste caso, um ateu possui na confiança de si mesmo, em seu racionalismo, no cientificismo ou em alguma filosofia materialista, o que o filósofo holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977), ancorado na tradição cristã, chamou de compromisso religioso do coração. Dito de outro modo, tal compromisso reside na ideia de que mesmo o cientista ao fazer ciência em seu laboratório, faz planejamentos, se utiliza de elementos e toma decisões baseadas em toda a sua personalidade, em tudo que é e acredita em relação às questões que tocam temas fulcrais da existência, como: “de onde eu vim?”, “por que estou aqui?” e “para onde vou?” Seu coração, inevitavelmente, possui um compromisso religioso firmado com alguma faceta imanente ou transcendente da existência² .

Ainda sobre a fé cristã, longe de ser tomada como uma ideologia que abarca apenas uma faceta da realidade desse mundo de Deus, ela torna-se palpável à medida que o evangelho é anunciado e vivido de forma plena, mesmo por aqueles que ainda vivem sob o corpo mortal afligido pelo pecado. O evangelho, então, firma-se como o modus em que o próprio Deus continua pacientemente a prover da sua graça, a fim de que os homens pecadores sejam salvos, mesmo não merecedores de tal ato amoroso. Este modus salvífico de Deus – cujo ápice na história dos homens, isto é, a história de Deus, se deu na obra de Cristo na cruz – temservido de modelo às mais diversas ideologias, que insistem em tomar a estrutura cristã como paradigma às suas próprias estruturas viciadas.

Pode-se dizer que as principais ideologias do Ocidente, em alguma medida, se valem de uma estrutura soteriológica para propor seus motivos fundantes, sua visão de mundo e seus aspectos teleológicos. Entrementes, é provável que a ideologia que mais tenta se aproximar desta estrutura, a fim de responder a uma expectativa messiânica presente na humanidade, seja o socialismo ou comunismo³ . Este talvez seja o motivo pelo qual muita gente abraça o socialismo, irrefletidamente, de forma ingênua e bem intencionada. No livro Visões e Ilusões Políticas, David Koyzis propõe que as ideologias, por mais que se revelem malignas e violentas em determinado estágio de sua implementação, são abraçadas por várias pessoas que encontram nelas alguns elementos de verdade. No caso do socialismo, a propriedade comum ou igualdade material pode ser este elemento de verdade buscado por qualquer ser humano bem intencionado4 .

O problema é que a boa intenção dos adeptos das ideologias, em especial o socialismo, é subvertida pela sedução ideológica que os acomete. Esta sedução remete ao que se pode chamar de possessão teleológica. Em outras palavras, é como se eles fossem possuídos pela busca incessante do estabelecimento futuro de ideais de justiça, liberdade e igualdade de tal modo que, no tempo presente, agir injustamente, tolher as liberdades e disseminar a desigualdade sejam males necessários à causa. Neste ponto, milhões de mortes ocasionadas, direta e indiretamente, pela ideologia socialista são justificadas pelo sonho de um estado futuro de paz e amor. Assim, a utopia socialista, mesmo buscada a preço de sangue no presente, revela-se como um estado escatológico aspirado pelos seus adeptos.

Ainda na esteira de David Koyzis, o socialismo enquanto ideologia limitada, assim como todas as outras, possui em seu bojo características que tentam se aproximar da cosmovisão cristã, as quais podem ser resumidas em quatro aspectos: criação, queda, redenção e consumação. A história é longa, contudo, cabe ressaltar que, assim como no cristianismo há a ideia de um estado criacional pré-queda, no socialismo também ocorre do mesmo modo com aquilo que se pode chamar de comunismo primitivo 5 . A concepção cristã de queda se resume na ideia do primeiro pecado cometido por Adão e Eva. Na concepção socialista tal ideia da queda se dá com o estabelecimento da propriedade privada resultando em uma sociedade dividida em classes – exploradores e explorados. Por sua vez, a redenção para os cristãos é algo profundamente significativo. Ela encontra o seu ápice na história humana com a encarnação, vida e obra de Jesus Cristo. Ele é o redentor por excelência e direito, o sumo salvador da humanidade. Já para os socialistas, sobretudo para seus dois grandes profetas, Marx e Engels, o ápice da redenção se dará quando a classe dominante, a burguesia, for deposta à força pela revolução do proletariado, custe o que custar. Por fim, aquilo que se entende na concepção cristã como consumação, ou seja, a ideia de novos céus e nova terra, na concepção socialista, revela-se como um estado futuro de perfeição e paz. Para isso, forças ocultas transformarão a natureza humana, se é que ela possui uma, de modo a viverem perfeitamente em comunidade, suprindo a necessidade uns dos outros com a ideia da socialização dos meios de produção e, portanto, do retorno em alguma medida ao comunismo primitivo.

Apesar do tratamento superficial dado acima na comparação entre cristianismo e socialismo, sendo este uma tentativa frustrada de sistema soteriológico em relação àquele, os principais aspectos de comparação entre um sistema e outro estão aí para aguçar a curiosidade do leitor, convidando-o a uma pesquisa mais detida sobre o tema. Dito isso, fica evidente que, do ponto de vista do socialismo, todos os escolhidos, ou seja, os proletários, serão a classe única que partilhará bondosamente dos seus esforços e ganhos decorrentes do trabalho “socializado”. Os ímpios, isto é, os burgueses, serão lançados na fogueira do juízo socialista. Assim, os operadores iluminados de toda esta mega engenharia social apressarão para, não se sabe quando, o advento da paz mundial e com ela a total erradicação da exploração e, por fim, das desigualdades e pobreza materiais.

É possível identificar nesses aspectos socialistas, que remetem ao anseio religioso do ser humano – também conhecido como sensus divinitatis 6 – um poderoso atrativo ideológico, uma vez que se vale de possíveis elementos de verdade, imiscuídos com a visão materialista e anticristã dos pais fundadores do socialismo e dos seus discípulos espalhados por todo o mundo. Neste ponto, encontra-se o cerne da resposta à pergunta feita no inicio deste texto, qual seja, muitos cristãos abraçam o socialismo acriticamente pela sua aparente capa de herói paralela ao cristianismo, porém, ao primeiro sinal de remoção desta capa, a face sombria deste vilão revela-se em toda a sua sordidez e impiedade. Afinal, não é preciso ir longe para comprovar esta proposição. Basta dar uma remexida na história do socialismo que o inevitável mau cheiro de genocídio, tão logo se apresentará aos que estiverem interessados em saber mais do caráter tenebroso desta ideologia.                                                                                                                                                                                                                                                                                          ___________________________________________________________________________________________                                                                                                                                                                                                                        1 Há várias obras que atestam a veracidade dos acontecimentos bíblicos. Para uma consulta sobre o tema ver os livros: Escavando a Verdade, Dr. Rodrigo Silva, editora CPB, 2009 e A Bíblia e a Arqueologia, Matthieu Richelle, editora Vida Nova, 2017.
2 Acerca do compromisso religioso do coração, proposto pelo filósofo holandês Herman Dooyeweerd, ver o livro Contornos da Filosofia Cristã, L. Kalsbeek, editora Cultura Cristã, 2016.
3 Neste caso, socialismo e comunismo funcionam como termos intercambiáveis para significar a mesma ideologia.
4 David Koyzis. Visões e Ilusões Políticas, editora Vida Nova, 2014.
5 Segundo Friedrich Engels, acredita-se que no Comunismo Primitivo não existia a exploração do homem pelo homem, sendo o trabalho dividido entre homens e mulheres. Para saber mais a respeito, ver A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.
6 Sensus divinitatis (senso da divindade) corresponde àquilo que é descrito no livro de Eclesiastes acerca de Deus ter posto a eternidade no coração do homem (Eclesiastes 3.11). Esta consciência de eternidade e de que não estamos sozinhos no universo, além do sentimento de que há algo mais do que a simples existência efêmera humana neste tempo, foi chamada de sensus divinitatis.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Jocinei Godoi

Jocinei Godoi

Mestrando em Ciências da Religião pela PUC-Campinas-SP. Formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP e em Filosofia pela PUC-Campinas-SP

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