Ser conservador

Ser conservador não é para moleques

O que é “ser um conservador”? Este talvez seja um dos principais temas de debate entre os teóricos conservadores. Definir uma disposição é, por si mesmo, uma contradição; e por isso mesmo que sublinhar com certezas máximas o que é ser um conservador se tornou um problema teórico gigantesco. A disposição de conservar princípios e valores antecede qualquer definição ideológica moderna; e não precisa de nenhum atributo prévio que não seja o anseio em conservar institutos e instituições basilares. Por isso mesmo que, ser de direita ou de esquerda, para um conservador, só faz sentido quando o que se busca definir é a posição econômica no espectro retórico; todavia, politicamente dizendo, tal variação de direita e esquerda é falha e tende a facilmente cair em erros bobos.

Em suma, você não precisa conhecer ideologia alguma para entender que o aborto é um assassinato e que a liberdade individual é um valor a ser resguardado numa civilização ordeira. Independentemente de suas escolhas políticas individuais, tais inferências são verdadeiras e factuais por si mesmas; é isso o que defende um conservador: princípios e valores universais que antecedem cartilhas e preferências partidárias.

Por isto mesmo, qualquer definição com balizamento do “ser conservador” se revela, a priori, basbaque. No entanto, como a própria tradição filosófica ocidental nos informa: a mínima definição conceitual é o princípio de qualquer conhecimento mais ou menos organizado. Por isso mesmo que determinar o conservadorismo, sem, todavia, fechá-lo num sistema ideológico dogmático, é a própria aporia do conservadorismo moderno, o seu desafio maior. É preciso definir uma silhueta do que é ser conservador, no entanto, sem determinar o seu porvir.

Na minha opinião, isso é completamente possível caso nos desponhamos a gastar umas boas porções de neurônios e raciocínios nessa causa; ora, tal silhueta do conservadorismo é perfeitamente reconhecível através da defesa dos valores centrais da civilização e através da postura tomada frente aos avanços históricos. Ou seja, reconhecemos um conservador pelo o que ele defende e através de suas posturas sociais.

O “ser um conservador” gera uma coluna elementar de defesas reativas de princípios e instituições. O conservador é, por natureza, um defensor das coisas que foram boas os suficientes para garantir que as coisas necessárias de nosso tempo subsistissem. Até mesmo pessoas relacionadas a pensamentos políticos de cunho revolucionário podem ser, intimamente, conservadoras. Lembro-me de um professor totalmente comunista em sala de aula, mas completamente conservador com a família em sua casa.

Tal característica de disposição ao conservadorismo acaba democratizando o ser conservador, relacionando-o a posturas e não a aceitações religiosas de estatutos e cartilhas partidárias. Todavia, não é qualquer um que se diz conservador que realmente o é. Não é fácil defender princípios em uma era no qual a matéria se sobrepõe a qualquer tipo de valor que não seja tangível e imediato. Se opor a multidões de cientificidades, pragmatismos midiáticos e teorias academicistas, tendo em posse apenas costumes centenários e moralidades largamente consideradas antiquadas, é uma postura que possui, no mínimo culhão e coragem.

O conservador entende que o tempero entre pragmatismo e tradição sempre levou a humanidade a progredir sem agredir a natural cadência civilizacional. O conservador entende que reformar é o único método eficaz de implementação de inovações, isto é: resguardar o que ainda funciona e descartar o que não mais serve, sem, no entanto, destruir todo o edifício. Para nós, é muito possível avançar sem destruir; renovar sem apagar o passado; dar à luz a netos, sem assassinar os avós.

Quando um conservador se levanta para defender a família tradicional, não o faz com o espírito de tirano, não defende a família com a intenção de atacar grupos, mas sim para resguardar uma instituição milenar que forjou ― a duríssimas penas ― quase todos os princípios e preceitos que nos guiaram para uma sociabilidade geradora de civilizações. Desta maneira, quando atacar a “família patriarcal e opressora” se tornou moda, o status quo moderno, foi preciso muito culhão e certo grau de heroísmo para se erguer numa praça ou numa sala de aula a fim de defender uma instituição tão malquista quanto antiga.

Quando o aborto se tornou “um direito feminino” inconteste, foi preciso muita coragem para ser uma garota conservadora que se opôs a tal suposta “garantia” de sua casta. Quando o ato de matar bebês foi romantizado e ganhou ares de benefício, se opor a isso se tornou uma atitude totalmente antiquada, quando não, criminosa. Nos tempos em que defender a vida de um feto humano virou atitude fascista, e matar um bebê no útero materno, um direito, clamar pela razoabilidade e pelo óbvio se torna bravura memorável. Quando o mundo se adapta à loucura, qualquer demonstração de sanidade se torna opressão.

Seguir a correnteza não demanda esforço, dar braçadas contra a força das águas homogêneas, isso sim é difícil. Não há glória em se juntar às massas que reafirmam e endossam suas aspirações; levantar o dedo na sala de aula a fim de contestar a tese corrente, isso sim demanda coragem. Ser resistência numa realidade que adota suas crenças como regra, não é resistência, é rezar a reza de sempre, é manter o que já é, é demagogia, teatro.

O conservador, de tempos em tempos, surge na história para relembrar a sua geração que o futuro depende diretamente daquilo que guardamos do passado, que há valores que não trazem em si mesmos datas de validade, que assim como há 3 mil anos era uma barbaridade repulsiva matar bebês nos úteros maternos, ainda hoje o é. Que apesar de ser tentador calar aqueles que discordam de nós, amanhã podemos ser o nós os emudecidos, e caso não defendamos abertamente a liberdade individual de expressão e pensamento de cada um, uma hora a tirania também nos alcançará.

O conservador é aquele que lembra a todos que o já tentado tem sua dignidade interna, que o novo, dirigido por afobados revolucionários, inevitavelmente resultará em velhos erros. O conservador atua como um necromante que fala em nome dos mortos em favor dos vivos, é o mensageiro dos anônimos dos gulags russos, é o carteiro dos campos de concentração alemães, é o porta-voz do tempo e de sua sabedoria.

É preciso ser mais que um moleque para enfrentar as doces e românticas novidades revolucionárias; é preciso ser muito homem para ser portador de obviedades quando o mundo quer sandices teóricas; é preciso ser extremamente valoroso para defender o feto que ninguém quer, contra a multidão que quer matá-lo; é preciso ser muito audacioso para apontar o dedo na cara de tiranos em nome da liberdade de desconhecidos; é preciso ser valente para ser a favor de um projeto econômico que não prioriza populismos e nem filantropias com dinheiros de terceiros; é preciso muita audácia para querer uma família quando o mundo quer sufocá-la, quando ela se tornou sinônimo de atraso e malefício social; é preciso ser tenaz para defender o Criador num mundo onde cada um constrói seu próprio trono e pede adorações em suas redes sociais.

Moleques não podem ser conservadores, é preciso brio, sabedoria e coragem para conservar valores onde todos querem destruí-los e trocá-los por suas próprias bugigangas filosóficas e mundinhos perfeitos.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.

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