Um divisor de águas: o primeiro teste de honestidade intelectual

Não é muito difícil para um bom orador com um pouco de leitura – por mínima que seja – encher a cabeça de um jovem inculto e desavisado com porcarias esquerdistas, principalmente quando seu modus operandi consiste não em expor o desenvolvimento histórico de uma questão, com seus confrontos, refutações e superações, mas simplesmente em ocultar tudo que desminta aquilo que esse orador queira apresentar como argumento imaculado, jamais tendo-lhe sido sequer pensado um revés, quanto menos um desmentido. Da mesma forma, também já não é mais difícil que esse mesmo jovem consiga se livrar daquelas porcarias que comprou, com o custo do próprio bem estar espiritual, como verdadeiras, visto a imensa bibliografia que circula agora no país com grande facilidade e com um efeito desintoxicante, sendo porém neste último caso mais importante a honestidade intelectual do sujeito do que a mera bibliografia lida.

Foram vários os fatores que me fizeram deixar de ser esquerdista, tratarei aqui apenas de um. A leitura de “As veias abertas da América Latina” teve algo de semelhante com o vôo de Ícaro: a subida aos céus terminou numa grave queda de volta ao chão. Foi essa a sensação que tive — de queda — quando imediatamente (literalmente) após a conclusão da leitura que havia atiçado meus ânimos para a causa revolucionária, numa pesquisa para outras declarações do Galeano que complementassem aquele conteúdo, me deparei com a notícia de que ele havia renegado o próprio livro que escrevera. Foi a passagem abrupta da alta empolgação para a desilusão.

Esse foi meu primeiro teste de honestidade intelectual. Eu passei três exatos dias, contados, com o cérebro a cambalear entre a humilhação pessoal de assumir que estive errado todo aquele tempo e a tentação orgulhosa de simplesmente dissimular e fingir que eu não sabia aquilo que tinha acabado de saber, dar de ombros e aplicar em mim mesmo aquele modus operandi que se aplica aos outros. Essa experiência pessoal de proximidade com o auto-engano voluntário e consciente me fez perceber que, longe de apenas enganarem os interlocutores incultos e desavisados, aqueles intelectuais militantes fizeram de si mesmos as primeiras vítimas do embuste intelectual que aplicam aos outros.

Mas eis a questão fundamental em que eu me debatia: o livro era perfeito, mas não era verdadeiro: — o que eu faço? Fico com a narrativa ou com a realidade. Não preciso dizer qual das duas opções eu escolhi.

Porém, hoje eu percebo que todo esse drama poderia ter sido evitado se o ambiente intelectual do país fosse mais honesto. Digo isso pelo seguinte:

“As Veias Abertas da América Latina” foi originalmente publicado em 1971. Apenas cinco, CINCO, anos após a publicação original, em 1976 foi publicada a primeira edição do livro do Carlos Rangel, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, que desmentia os principais argumentos do livro do Eduardo Galeano. E esse desmentido foi mais tarde reforçado pelo “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, cuja primeira edição é de 1996. O livro do Galeano nasceu e foi morto dentro de um período muito breve. E isso antes mesmo de chegar ao Brasil.

Quando eu disse no início que o modus operandi dessa classe de oradores mal intencionados consiste na ocultação de toda bibliografia que desminta seus argumentos, para assim, por meio de um embuste, nos apresentar como válidos argumentos que já haviam sido desmascarados, eu não estava forçando nenhuma linguagem caricata. Pois vejam, a primeira edição das “Veias Abertas” no Brasil é de 1978: ou seja, nos foi apresentado como vivo um corpo que já estava morto e decomposto. Além disso, não apenas o ato da mentira nos ser apresentada antes da verdade, e mesmo que tenha sido curto o intervalo entre as edições nacionais do livro do Galeano e do Rangel (lançado aqui em 1982), um outro fator influenciou para a falsidade do cenário: “As Veias Abertas da América Latina” chegou a ter 44 edições pela editora Paz e Terra, sendo publicado também pela L&PM em 2010, contendo ainda um prefácio inédito do autor onde ele reforçava os argumentos do livro para coitado, apenas quatro anos depois, com todo dinheiro, fama e prestígio que ganhou com todo esse investimento editorial, subitamente mudar de ideia e renegá-lo.

Enquanto isso, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, livro que — reitero — desmentia os argumentos constantes em “As Veias Abertas”, teve apenas duas, DUAS, edições no Brasil. E o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, que chegou aqui em 1997, teve pouco mais edições: oito. A proporção esteve o tempo inteiro imensamente desigual.

O desconhecimento do status quaestionis leva a muitos equívocos, como demonstro com o meu próprio exemplo. Mas uma coisa que alivia a minha consciência nesse caso é a constatação de que o erro não foi apenas o meu amadorismo, mas o cenário intelectual e a proporção entre os argumentos estava completamente falseado, e a mentira estava mais disseminada do que a verdade. Como diz o professor Olavo de Carvalho: tudo em volta induz à loucura.

 

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