O que o Senhor dos Anéis pode nos ensinar sobre o Conservadorismo?

Hoje deve ter sido a décima vez que assisti O Senhor dos Anéis. Dessa vez foi a versão estendida, que contém verdadeiras pérolas infelizmente retiradas da versão que foi aos cinemas. Quem puder, assista! Quem já assistiu, vale a pena ver de novo! Pior que nunca ter visto O Senhor dos Anéis é vê-lo uma vez só.

A história tem como elemento narrativo constante o estabelecimento de contrastes entre personagens semelhantes: os magos Gandalf e Saruman; os futuros reis Aragorn e Boromir; e os hobbits Frodo e Sam em contraste com Smeagol, que antes de se tornar Gollum era um Hobbit Cascalvas (povo do Rio). O que eu quero enfatizar aqui é como cada um desses personagens lida com o Um anel, e como isso é um forte simbolismo do confronto entre a mentalidade revolucionária e a mentalidade anti-revolucionária (principalmente entre os dois magos).

OBS.: Apesar de não tratar desse tema especificamente, tive esse insight lendo o maravilhoso livro “O Messias vem à Terra Média” de Philip Ryken, que faz uma análise dos personagens principais da obra de Tolkien identificando nela imagens do tríplice ofício de Cristo. Outra forte recomendação. Todo cristão que gosta da trilogia precisa ler esse livro.

Inicialmente, o próprio modo como o Autor distribuiu os anéis de poder já pode ser uma ilustração do contraponto entre liberdade e tirania. Você já deve conhecer esse poema:

“Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu;

Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores;

Nove para os Homens Mortais fadados ao eterno sono;

Um para o Senhor do Escuro em seu Escuro Trono,

Na terra de Mordor, onde as Sombras se deitam.

Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,

Um Anel para a todos trazer e na Escuridão aprisioná-los,

Na terra de Mordor, onde as Sombras se deitam”.

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Os Elfos, os anões, os homens, assim como os hobbits, dentre outros, são chamados de “os povos livres da Terra Média”, contra quem se levantou a sanha de poder de Sauron. Nestes, não temos uma concentração do poder, mas sim uma pluralidade (maior ou menor, ou, como no caso dos hobbits, os anéis de poder sequer existem). São sempre anéis de Poder. O Um anel foi feito exatamente para a tirania.

Nos três casos citados anteriormente temos um padrão: um grupo entende o mal representado pelo Um anel e emprega todos os seus esforços para destruí-lo, enquanto o outro deixa-se seduzir por ele, juntando-se a Sauron em seu projeto de controle de toda a Terra Média. Esse contraste é mais evidente nos dois magos: Gandalf e Saruman.

Em “A Sociedade do Anel”, temos o aniversário de Bilbo Bolseiro, onde o mesmo decide pregar uma peça em todos os seus convidados sumindo em seu discurso diante dos olhos de todos. Gandalf, que está na platéia, repara Bilbo mexendo em seu bolso, colocando as mãos para trás antes de sumir. Ao chegar a casa do hobbit, ele confirma: Bolseiro está usando um anel mágico (até esse momento ele não sabe que se trata do Um). Quando ele começa a indagar o pequeno sobre como obteve o anel, percebe que este começa a se irritar, até que ele diz, enquanto acaricia cuidadosamente o anel em suas mãos “meu precioso”, ao que o mago retruca: Ele já foi chamado assim antes, mas não por você. Depois de algumas pesquisas, que deixam Gandalf com ainda mais certeza sobre a natureza daquele anel mágico, ele volta a casa de Bilbo, onde agora mora Frodo. Com sua ajuda, ele joga o anel no fogo, o que faz com que o anel revele, em élfico, o seguinte trecho do poema que citamos acima: “Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na Escuridão aprisioná-lo”.

Ao saber que aquele era o anel de Sauron, que se acreditava estar perdido, Frodo se desespera e pede que Galdalf assuma a responsabilidade de destruir o anel. “Você é sábio e poderoso. Você não ficaria com o Anel?” O mago recusa, “Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. (…) Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças”. Isso é emblemático. Exatamente por saber a grandiosidade do poder que ele receberia, ele se recusa a receber o Anel. Gandalf recusa a concentração do poder em sua figura. Sim, ele poderia (em tese) ser forte o suficiente para usar o Anel para rapidamente destruir todo resquício do Poder de Sauron. Mas ele não confia na bondade de suas intenções, ou pelo menos confia mais na sua inclinação natural ao mal. Gandalf aqui encarna o espírito conservador. Ele se posiciona de forma diametralmente oposta à mentalidade revolucionária, recusando-se a concentrar poder em suas mãos para tentar ser o salvador da Terra Média. Em resumo, ele não cede à tentação.

Diferente de seu mestre. Saruman cedeu. Sauron conquista seu coração com a tentação de se tornar, como ele, senhor e dominador de toda a Terra Média. E isso não ocorre apenas com Saruman. É muito comum encontrar um discurso do tipo “não seja tolo, é impossível vencer o poder de Sauron”. Aquele velho argumento de quem cedeu à tentação do poder. Ele inclusive tenta, sem suceso, cooptar Gandalf. Saruman, que era conhecido por sua grande sabedoria, cede à loucura. É uma clara referência à crítica, muito presente em autores ingleses conservadores dessa época (vida Chesterton): a crítica do culto à racionalidade.

Ah, sim, e não poderia deixar de notar: Saruman não fuma cachimbo! E ainda critica Gandalf pelo seu apreço “à erva de fumo dos hobbits”. Ou seja, não confie num sábio não fumante! (risos)

Não foi minha intenção fazer uma análise técnica literária da obra prima de Tolkien, não que ela não mereça, mas realmente não era minha intenção. Essa mesma analogia, entre a personalidade dos personagens e a mentalidade revolucionária e conservadora, é possível de ser feita com outros personagens. Por exemplo, Aragorn passa pela mesma tentação de substituir Frodo e carregar o Anel, ele – o verdadeiro herdeiro de Isildur e legítimo Rei de Gondor – resiste. Boromir, filho do regente, cede.  E nem preciso falar dos hobbits. Vale a pena ver de novo esse filme (ou reler os livros) e perceber o quanto esses personagens têm a nos ensinar.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

Igor Moreira Celestino

Igor Moreira Celestino

Professor de Direito Administrativo para concursos. Palestrante. Graduado em Direito pela UFRRJ. Servidor Público Federal.

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