Para um referencial sobre o quadro político na era do Globalismo – parte II

DA ESQUERDA FÁUSTICA OU IDEOLOGIZADA

Isaiah Berlin nunca se cansou de recordar da observação uma vez feita por Immanuel Kant (1724-1804) de que aus so krummem Holze, als woraus der Mensch gemacht ist, kann nichts ganz Gerades gezimmert werden [do madeiro torto de que o homem é feito, nada de reto jamais foi talhado].[1] Kant certamente escreveu isso com base no pessimismo protestante, que não crê na santidade ― o sola fidei de Lutero é consequência de sua resignação a esse senso. Berlin provavelmente não se ateve a fonte de Kant, mas àquilo que é está expresso literalmente: que a natureza humana é imutável ― ela é débil, e essa fraqueza é inerente, prova disso é que até os santos pecam; não cometem pecados mortais, evidente!, mas pecam; o socius frater de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), Frei Reginaldo de Piperno (1230-1290), não disse, sobre sua última confissão, que era a de uma criança de cinco anos?[2] A santificação depura o homem, tornando-o um habitáculo e um canal para a ação divina, mas não altera sua natureza. Supra naturalem facultatem rationis [Sobre a faculdade natural da razão], escreveu Santo Tomás, imponitur homini divinitus lumen gratiae, [Deus impõe ao homem a luz da graça].[3] A luz natural da Razão e a luz da graça se complementam: juntas, dão ao homem não só a chance de se tornar virtuoso (o que demanda um esforço racional para contrariar, de forma sistemática, a própria vontade), mas confere a ele a capacidade para perceber e compreender que sua realização não está nesse mundo. A princípio, essa sentença parece óbvia demais para ser exposta com essa miudeza ― e, mesmo quando não parece óbvio, isto é, quando a dúvida nos força a sustentar uma opinião (provisória, por natureza) enquanto seguimos firmes na busca pela Verdade ―, mas para o ideólogo nada disso faz o sentido. Toda opinião está passível de ser abandonada, mas a Verdade gera o assentimento. E o que acontece quando tornamo-nos vassalos de uma ideologia é que essa via fica interditada, impedindo nosso trânsito da opinião para a Verdade. O ideólogo não transita e nem migra: ele se apega a sua idée fixe, confundindo suas opiniões com a Verdade.

“Tudo neste mundo,” escreveu François Quesnay (1694-1774), “está sujeito às leis da natureza. [E] os homens são dotados da inteligência necessária para conhecê-las e observá-las (…).”[4] No entanto, como ele mesmo veio frisar em seu Le Droi Naturelle [Direito Natural], “os homens, não podendo penetrar nos desígnios do Ser Supremo na construção do universo, não podem chegar ao conhecimento das regras imutáveis ​​que ele instituiu para a formação e preservação de sua obra.”[5] E é aqui, dessa dificuldade humana inteiramente compreensível e natural, que deriva a mentalidade revolucionária ― em sua presunção, os ideólogos creem que podem fazê-lo, isto é, que podem redefinir essas regras e conferir um novo designo para a humanidade, já que se julgam superiores ao próprio Criador. Não entendem e, na verdade são incapazes de compreender que “todos os homens e todos os poderes humanos devem estar sujeitos às leis soberanas instituídas pelo Ser Supremo ― que são imutáveis ​​e irrefragáveis, e as melhores leis possíveis.”[6]

            E os acontecimentos que tiveram lugar na França atestam isso ― como os próprios contemporâneos perceberam a época, havia algo novo em meio àquele turbilhão político que devorava suas entranhas. Quando evocou o monólogo de Lady Macbeth para descrever os revolucionários franceses, Edmund Burke (1729-1797) tentou colocar em evidência aquilo que, manifestadamente, era o que havia de mais deplorável e condenável no curso dos acontecimentos que se davam do outro lado da Mancha: por rejeitar a suserania da Verdade, o revolucionário já não recebia mais “as compungidas visitas da Natureza.”[7] Evidente: com a consciência agrilhoada, esse indivíduo fica impossibilitado de aspirar ou mesmo de adquirir virtudes; e despojado de sua autonomia, ele não submete mais suas ações ao crivo do discernimento e nem ao tribunal da Razão. De sua perspectiva, tudo se resume ao sucesso ou o fracasso da Revolução; assim, se suas ações estão alinhadas, se se encontram inteiramente subordinadas aos interesses da humanidade, da classe revolucionária ou da raça, só se pode pensar que estão justificadas ― elas se encontram justificadas não importando o quanto atentem contra a Lei Natural.

            Esse espírito sobreviveu ao malogro da experiência jacobina, e dela nasceu essa nova espécie, esse indivíduo desfigurado, sem faculdades que lhe permitam calcular seus atos ou se arrepender deles. O diplomata austríaco Friedrich von Gentz (1764-1832), num memorando datado de março de 1818, e enviado ao Príncipe Clemens Wenzel Lothar von Metternich (1773-1859), da Áustria, admitiu que “o interior de todos os países europeus, sem exceção, está tomado por uma febre ardente, companheira ou precursora das convulsões mais violentas que o mundo conheceu desde a queda do Império Romano.”

É luta, é guerra até a morte, entre os princípios antigos e novos, entre a velha ordem e a nova ordem social. (…) Todos os componentes estão em fermentação; o equilíbrio da autoridade está ameaçado; as instituições mais sólidas foram abaladas em suas fundações, como os prédios de uma cidade que sofrem desde os primeiros tremores de um terremoto que, em instantes, irão derrubá-los.[8]

Pouco depois, em 1823, o barão Édouard Bignon (1771-1841)  ― que fora diplomata de Napoleão ― publicou o seu Les Cabinets et les Peuples [Os Gabinetes e os Povos], no qual faz alusão a essa cisão, une lutte animée occupe l’Europe [Um conflito ocupa a Europa], antes de tentar descrevê-la: “As forças intelectuais dos povos se voltam para o aperfeiçoamento da ordem social. Os Gabinetes, por seu turno, empregam todos os recursos, tanto intelectuais quanto materiais, para deter a marcha dos povos e, até mesmo, fazê-la retroceder em seus passos.”[9] O que ele chama de Cabinets [Gabinetes] são as forças da Reação encasteladas nos governos por todo o Continente, em especial a Leste do Reno. Esses Cabinets ― Os Bourbon com seu Talleyrand (1754-1838), o Kaiser Francisco I (1765-1838) com seu Metternich, o Czar Aleksandr I (1777-1825) com o Príncipe Andrei Kirillovich, Conde Razumovsky (1752-1836), a quem Beethoven dedicara os Quartetos de Corda Opus 59,[10] Friedrich Wilhelm III com o Príncipe Karl August von Hardenberg (1750-1822) e Wilhelm von Humboldt (1767-1835), que foram amparados, nos anos seguintes, por intelectuais e pensadores como Johann Gottfried von Herder (1744-1803), ou pelas ideias de um Johann Hamann (1730-1788), de um Joseph de Maistre (1753-1821), ou de um Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), além, é claro, da primeira geração de românticos, como Johann Wolfgang von Goethe (1849-1832) ― se contrapunham as ideias que emanavam não dos peuples, mas igualmente de políticos e intelectuais como Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882), Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), Moses Hess (1812-1875), Armand Marrast (1801-1852), que fora prefeito de Paris, a quem Alexis de Tocqueville (1805-1859) descrevera como sendo o tipo de homem pertencente “à raça ordinária de revolucionários franceses que sempre entenderam por liberdade do povo o despotismo exercido em nome do povo.”[11]

Foi assim que se formou, pelas mãos desses últimos, essa confraria cujas atividades não cessaram ainda hoje ― aquilo que chamo de Conglomerado Ideológico. Nele, habitam as mais diversas ideologias ­­― que convivem animosamente entre si, sem esconder o desejo ardente que possuem de exterminar umas as outras. Embora seja este o estado natural em seu interior, sempre conflagrado, a fúria dirigida às críticas tecidas por Eduard Bernstein (1850-1932) e àquilo que propunha simplesmente não tivera precedentes ― apenas Karl Kaustky (1854-1938) pode rivalizar com Bernstein nesse aspecto, pois tivera uma trajetória parecida, e precisou lidar com um colérico Lenin nos anos seguintes à ascensão dos bolcheviques ao poder. “As condições sociais,” escreveu “não se desenvolvem no sentido de uma oposição tão extremada de coisas e de classes como se encontra delineada no Manifesto [do Partido Comunista]. Não é apenas inútil, é até grande tolice pretendermos esconder isso de nós próprios.” Evidente que isso não passaria impune. Mas Bernstein estava apenas sendo realista. “Coloco-me,” acrescentou, “contra a noção de que devemos esperar, para breve, um colapso da economia burguesa.”[12] A transição da sociedade capitalista para a socialista (ou mais justa), não precisaria ser feita, como veio a sustentar, pela via revolucionária. Havia uma chance de se chegar a isso por meio do sistema democrático. E Bernstein tinha razões para sustentar essa posição, como lembrou o Professor Antônio Paim: o Partido Socialdemocrata alemão conquistou 1,4 milhão de votos em 1890, o que lhe rendeu 35 cadeiras no Parlamento, e 4,2 milhões em 1912, chegando a 110 assentos.[13] Se se podia conquistar votos e assentos no Parlamento, e se não havia nada que os impedisse de ampliar essa margem para poder, no futuro, poder pautar reformar, e aprova-las, não se fazia necessário esperar pela revolução.

Quando isso ocorreu, completou-se o quadro político no Ocidente tal qual conhecemos e divisamos ainda hoje: de um lado os antirrevolucionários, que comportam e ostentam suas correntes políticas, umas de esquerda, outras de direita, e, de outro, os revolucionários, invariavelmente pedantes, frívolos, alienados e insanos, com suas ideologias. Mas, mesmo tendo despontado no meio e como resposta ao processo revolucionário, e de ter maturado ao longo de todo o século XIX, as correntes políticas ainda tinham algo de curioso a seu respeito para revelar no século XX ― a possibilidade de serem cooptadas e domesticadas por alguma ideologia. “Já fui questionado dúzias de vezes sobre o motivo pelo qual as conversações com Hitler tiveram lugar,” escreveu o político alemão Franz von Papen (1879-1969) em suas Memoirs [Memórias]. “A resposta é simples. O Partido Nacional-Socialista tinha 195 assentos no Reichstag, e com isso era a maior força política do Governo Schleicher.”[14] Afora esse pragmatismo, existe um aspecto que devemos considerar:

Minha concepção de autoridade do Estado, e sua função de guardiã da lei, baseavam-se nos ideais do tempo do Kaiser, que muitos de nós considerávamos como sendo absolutos. (…) Como soldado profissional, eu deveria ter percebido que, mesmo no campo político, as táticas defensivas nunca podem prevalecer contra ataques concêntricos. O dinamismo de um movimento de massas só pode ser detido por um dinamismo igual ― nunca com as ideias doutrinárias de uma fina camada de liberais e intelectuais.

Em termos práticos, o erro foi considerar o aparato do Estado suficientemente intacto e independente para se afirmar, sob a liderança conservadora, contra os métodos e mecanismos de propaganda do movimento nazista. O que aconteceu foi que os longos anos de luta partidária minaram esse aparato, embora nenhum de nós tenha percebido o quão longe esse processo tinha ido. A classe média alemã em geral, na medida em que não era nazista, também subestimava o élan revolucionário de Hitler e seu partido. Eles aderiram às velhas ideias de moralidade e legalidade, e acreditavam na lei e na ordem, direitos humanos e vida sóbria. A amoralidade e a inescrupulosidade dos nazistas eram consideradas manifestações temporárias, que, supunha-se, desapareceriam à medida que as forças revolucionárias perdessem seu ímpeto. Acreditamos em Hitler quando ele nos assegurou que, uma vez que estivesse em uma posição de poder e responsabilidade, direcionaria seu movimento para canais mais ordenados. As massas estavam tão agitadas que ficou claro para nós que as coisas não voltariam ao normal da noite para o dia, e percebemos que certos excessos temporários seriam inevitáveis. Estávamos convencidos, ingenuamente, de que os bons elementos triunfariam. Uma parceria com um sistema tão revolucionário e totalitário foi uma experiência nova para nós, e nos faltou o entendimento necessário para lidar com isso. O mundo do final dos anos 40 testemunhou um processo semelhante nas coalizões entre socialistas e comunistas nos países da Europa Oriental: em cada caso, o elemento menor e mais radical conseguiu assumir o comando. Na coalizão de Hitler, os números do Gabinete estavam do lado dos conservadores, mas no país em geral o apoio estava com Hitler.[15]

É interessante observar as palavras usadas por von Papen ― uma aliança com um movimento “revolucionário e totalitário era uma experiência nova para nós.” Claro, von Papen está escrevendo anos depois dos fatos terem transcorridos,  portanto, não é difícil imaginar que estivesse tentando atenuar as coisas. No entanto, não podemos fazer vistas grossas a outro fator apontado por ele: não foram poucos os que, incluindo a classe média, subestimaram “o élan revolucionário de Hitler e seu partido.” Junte as duas coisas, “a competência do feiticeiro em política” em utilizar ou em fazer uma “entonação ocasional do lado ‘conservador’ de sua ideologia,” como escreveu John Lukacs,[16] com a conveniência de estabelecer um governo com um aliado pouco convencional (e até inusitado), visando conter a agitação social, e temos uma aliança entre ideólogos e os conservadores.

Em suas Memoires [Memórias] Raymond Aron (1905-1983) recorda de um artigo publicado no final da guerra na Les Temps Modernes em que aconselhava os socialistas franceses a fazerem o movimento contrário ― guardarem distância dos comunistas: “o socialismo não terá oportunidade real na França se não pensar por si mesmo, querer-se socialdemocrata, fora da órbita do Partido Comunista.”[17] Mas não foi isso o que viu no pós-guerra, especialmente nos países atrás da Cortina de Ferro. Por todo o Leste europeu a história se repetiu ― primeiro se ressuscitava o modelo das “frentes populares” da década de 1930, formando, assim, coalizações entre comunistas e socialdemocratas. Os comunistas alemães assim como os húngaros e os poloneses foram às urnas juntos dos socialdemocratas. Na Bulgária, o Partido Comunista articulou-se com vários partidos menores de esquerda em uma coalização denominada Frente Patriótica nas eleições de 1945. A lógica, por detrás dessa arquitetura, era uma só: imaginando que poderiam encobrir a linha divisória entre ideologia e esquerda poderiam vencer as eleições.[18] Na sequência, os partidos socialdemocratas, em meio à intimidação e até ameaças, eram forçados a fundir-se com os partidos comunistas. Os socialdemocratas poloneses foram obrigados a formar um único partido, que a partir daí, foi denominado Partido dos Trabalhadores Poloneses Unidos (PZPR). Os comunistas húngaros também absorveram os socialdemocratas em 1948, e dessa fusão surgiu o Partido dos Trabalhadores Húngaros (MDP), cujo nome foi definido em Moscou ― os húngaros haviam sugerido Partido dos Trabalhadores e Camponeses Húngaros, que foi vetado pelos russos.[19] Por fim, a remanescente oposição era perseguida, presa ou executada ― após o exílio de Mikolajczyk, o PSL (Partidos dos Camponeses Poloneses) não sobreviveu.[20] Na Tchecoslováquia, Gottwald deu um golpe em fevereiro de 1948 e eliminou toda a oposição remanescente. Na Alemanha Oriental, os democratas-cristãos e os democratas livres (FDP) eram tolerados, mas seus líderes compreendiam que tinham um papel praticamente nulo, quase fictício.[21]

No Ocidente as coisas se encaminharam de modo diferente, evidente. Na esteira das mudanças que sobrevieram com o desaparecimento de Stalin, em 1953, e que transformaram a dinâmica no interior do Estado Soviético e sua relação com os regimes satélites, dando um “novo rumo” às democracias populares e ao socialismo, como François Fejto tentou mostrar em seu Democracias Populares,[22] ocorrera também uma mudança de abordagem no interior do núcleo ocupado pela intelectualidade marxista Ocidental. Nessa nova conjuntura, as contribuições de Antonio Gramsci (1891-1937), Gyorgy Lukacs (1885-1971), Theodor Adorno (1903-1969), Herbert Marcuse tornaram possível à adoção de uma linha bastante heterodoxa, que não só derrubou preconceitos e antigos receios da esquerda, mas revestiu o marxismo com atrativos que tornariam possível uma colaboração mais estreita entre eles. No Ocidente, não ocorreriam fusões de partidos, mas de ideias ­― que foram diluídas no caldeirão da pós-modernidade.

A Revolução mantivera-se cultivada no horizonte de suas aspirações, no entanto, como vieram a perceber, era perfeitamente possível aceitar a tese de que, por meio de uma série de ações aparentemente desconexas e inofensivas, como questionar valores e costumes, poderiam antecipar o caos revolucionário implodindo as bases da nossa Civilização. Em outras palavras, ao invés de esperar que as contradições sociais inerentes ao capitalismo se acumulassem da forma como estão enunciadas em Das Kapital, eles esperam corromper e minar aquilo que resistiu a onda secularizante para deixar o caminho inteiramente livre para a Revolução.

De certo, não foi só esse gradualismo o que atraiu a esquerda no pós-guerra, mas a defesa enfática que faziam do indivíduo de modo a transparecer que o marxismo já não era mais aquela ideologia enfada em que o homem submergia e desaparecia por completo em meio a sua classe social. Para uma esquerda saturada com o estatismo do pós-guerra, que também fora abraçado pela direita, essa abordagem particularmente heterodoxa era não só atraente, mas oferecia perspectivas que certamente se traduziriam em ganhos eleitorais. O que a esquerda ignorou ― para o seu prejuízo ― quando começou a drenar as ideias oriundas do nicho marxista do conglomerado ideológico é que dificilmente ela conseguiria restabelecer a sua autonomia depois que essa relação evoluísse. “Os comunistas usurpam a posição da esquerda,” escreveu Bella Dodd.[23] Aparentemente a esquerda foi sabotada e infiltrada, mas na verdade o que houve foi um nivelamento, uma fusão entre as aspirações da esquerda e do marxismo ― basta ver as queixas do cientista político e historiador das ideias americano, Mark Lilla, em seu The Once and Future Liberal: After Identity Politics [O progressista de ontem e o do amanhã: Desafios da democracia liberal no mundo pós políticas identitárias], que exortou a esquerda e aos progressistas americanos a quebrarem o feitiço da política identitária que manteve em cativeiro, até o momento, duas gerações.[24]

O que parecia ilógico, mas não impossível, tornou-se quase uma praxe no decorrer do século XX: a combinação da ideologia com alguma corrente política. A própria dinâmica e as consequências dessa relação predatória entre elas reforça aquilo que venho defendendo na esteira dos apontamentos feitos pelo historiador (também) americano A. James Gregor: essa relação deixou entrever (ou melhor, escancarou) o quão rasas são as categorias de esquerda e direita.“Se direita e esquerda, como conceitos políticos, possuem um significado nos contextos locais, parecem ter um significado relativamente pequeno no tocante às principais revoluções do século XX.”[25]

A defesa quase apaixonada feita por Norberto Bobbio pela permanência e da utilidade da dicotomia esquerda e direita[26] foi muito explorada por aqueles[27] que se dedicam aos fenômenos políticos do século XX. O problema é que o critério usado por Bobbio não é apenas pureil (como apontaram muitos de seus críticos, os quais ele tentou responder na segunda edição de seu Destra e Sinistra), mas faz com que aqueles que se dedicam ao tema e que insistem em utilizar essa dicotomia fiquem simplesmente impossibilitados de ver que um marxista-leninista e um nacional-socialista operam pela mesma via ― deixando de lado as controvérsias que o envolvem, há algo que Herman Rauschning (1887-1982) registrara em seu Gespräche mit Hitler [Conversas com Hitler] que pode até não ter acontecido, mas cujo conteúdo expressa algo suficientemente verdadeiro e que nos ajuda a compreender aquele que é o núcleo de toda ideologia: em uma ocasião Herman Göring teria dito: “Eu não tenho consciência. Minha consciência é Adolf Hitler.”[28] Portanto, tenhamos isso claro:

  1.  Toda ideologia é nociva, pois é supérflua, já que nada pode competir ou mesmo substituir a doutrina contida no Evangelho ― “a doutrina da fé por Deus revelada, não é proposta à inteligência humana para ser aperfeiçoada, como uma doutrina filosófica,” como escreveu São Pio X, na Pascendi dominici gregis, de 1907.[29] Antes ela é imutável e, por isso mesmo, não está sujeita aos caprichos e as veleidades de cada geração. O ideólogo, presunçoso, crê firmemente que pode se contrapor a Revelação e instaurar, por meio de sua Revolução, o paraíso terreno. Daí a definição dada por Eric Voegelin: “a ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem.” O mundo, na sua visão, precisa ser refeito ― e é aqui que se encontra a sua perversidade.
  • E mais importante: o que temos hoje é uma hegemonia ideológica e não de esquerda. A mais bem sucedida das ideologias (pelo fato de ter criado uma tradição bastante sólida), o marxismo, confunde igualdade com justiça; e a esquerda, (cujas ideias que não estão isentas de erros e distorções), mostrou-se receptiva a noção de igualdade quando, no pós-guerra, a sua postura reformista se esgotou. O consenso com relação à necessidade ou a vantagem de um intervencionismo estatal mais agressivo no pós-guerra seria fatal para a esquerda: a reconstrução da Europa está intimamente ligada à consolidação de um Estado Social, uma entidade que assumiria e estaria encarregada de uma série de responsabilidades relacionadas ao bem-estar do indivíduo ― “depois da depressão, da ocupação e da guerra civil, o Estado, enquanto agente de assistência social, segurança e equidade, era um fator vital de coesão comunitária e social.”[30] Assim, o que a princípio parecia representar o triunfo da esquerda e de seu modelo estatizante, fê-la, na verdade, entrar em crise. Mesmo tenho angariado respeitabilidade, um público cativo, ela acabou fatigada. A esquerda estava à deriva quando começou a drenar ideias do conglomerado ideológico numa vã tentativa de sobreviver ou se renovar. Na impossibilidade de se preservar, ou ao seu legado, apostou nessa aproximação que lhe custou a alma, tal como o Fausto de Goethe. E é isso o que explica a sua condição hoje: a esquerda fora inteiramente subjugada, domesticada e opera apenas como um serviçal da ideologia dominante, com quem, ingenuamente, se mostrou disposta a congregar.

Das also war des Pudels Kern!

Ein fahrender Skolast? Der Casus macht mich lachen.

Do perro era esse o cerne, então?

É de se dar risada! Um escolar viandante![31]

A tragédia anuncia-se com um gesto ordinário, mas igualmente fatídico: num passeio na companhia de seu fâmulo, Dr. Fausto se depara com um cão negro vagando por entre o “restolho e a seara,”[32] que não só convida para se aproximar ― Geselle dich zu uns! Komm hier![Vem cá! Vem ter conosco!][33] ―  mas que acabará, depois, acompanhando-o até seu Studierzimmer [escritório], onde trabalhava na tradução do Evangelho de São João. Ali, o cão mostra-se, a princípio, inquieto. Rosna e late, atrapalhando seu trabalho. Quando, visivelmente irritado, Fausto ralha com o cão, um dos gênios (involuntariamente invocados numa das primeiras cenas) lhe adverte: Drinnen gefangen ist einer![Preso lá dentro se acha alguém!]. Ciente disso, Fausto lança uma fórmula mágica para obrigar o desconhecido a se revelar.[34] Mas, para sua surpresa, não havia motivos para se alarmar; a figura do cão não ocultava nada de ameaçador: Mefistófeles, o demônio, aparece como um mero fahrender Skolast [um escolar viajante] ― Goethe encurtara a expressão original fahrender Scholastikus, que é derivada da linguagem universitária dos séculos XVI e XVII, para designar a figura de um estudante universitário itinerante. Embora esse disfarce viesse a calhar, servindo para ocultar sua real aparência, no diálogo que se segue Mefistófeles não hesita em expor a sua natureza:

Ein Teil von jener Kraft

Die stets das Böse will und stets das Gute schafft

[Eu sou parte daquela força que

Sempre engendra o mal e que ao mesmo tempo gera o bem].[35]

Essa é a dialética da ideologia ― a destruição força um reordenamento e uma recomposição de forças e de conteúdo que, como lhes parece óbvio, só pode resultar na sociedade ideal. Destrua, se quiser construir. Destrua, se quiser fazer o bem. E foi isso que a esquerda não compreendeu ou ignorou quando ensaiou sua aproximação com o conglomerado ideológico: que teria que contribuir com esse expediente. De fato, ela nunca percebeu que havia algo mais ali. Tal como Fausto, ela padece por suas atitudes impensadas ― e o resultado é este: domesticada, ela serve como testa de ferro para viabilizar o seu projeto globalista. Com suas promessas de uma paz perpétua e de um mundo igualitário, sem preconceitos, essa esquerda ideologizada torna-se incompatível não só com o Cristianismo, mas com as próprias instituições e valores que o Ocidente criou. De modo que, não basta estarmos vigilantes, é preciso termos claro que ela não age por conta própria, mas a soldo dessa figura sinistra que nunca escondeu sua verdadeira natureza. Portanto, não basta desmoralizar o Fausto globalista, isto é, essa esquerda ideologizada, é preciso atacar e vencer Mefistófeles ― a própria ideologia.

***

Há muito o Ocidente esqueceu-se dessas palavras ― Et qui non accipit crucem suam, et sequitur me, non est me dignus [O que não toma a sua cruz e (não) me segue, não é digno de mim] (Mt, 10, 38). Disso deriva todos os males que o açoitam: a presunção e a ânsia por querer reformular sua natureza dotam o homem de uma capacidade ímpar para transformar este mundo num posto avançado do inferno ― “Os homens pouco pensam quão imoralmente agem ao imiscuírem-se precipitadamente naquilo que não entendem. A boa intenção ilusória não é uma espécie de desculpa para a soberba. Verdadeiramente fariam bem aqueles que temessem agir mal” como escreveu Edmund Burke;[36] a recusa (obstinada) em aceitar o sofrimento e as adversidades de que essa existência está coalhada redundam no mais puro hedonismo ― “Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio; e tu só procuras descanso e gozo?,”[37] podemos ler no De Imitatione Christi [Imitação de Cristo], ou como dissera Santo Agostinho: “Cristo não assumiu a carne em razão das suas delícias. Devemos mais suportar o presente do que deleitarmo-nos com ele”[38]―; a negação da Verdade trouxe consigo a  ditadura do relativismo, “que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.”[39] Enfim, ante a tragédia de um mundo que tem de conviver com a ideologia, não nos resta outra coisa senão a vigilância ― os conservadores precisam fazer vigília para defender a Lei Natural e os valores da nossa Civilização.

Minas Tiritih está prestes a sucumbir ― mas a providência garantiu que o Um Anel despenhasse e se precipitasse no fogo do Monte da Perdição.


[1] KANT, Immanuel. Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht IN: Politische Schriften. Wiesbaden: Springer Fachmedien, 1965, p.16.

[2] AMEAL, João. Santo Tomás de Aquino. Porto: Livraria Tavares Martins, 1961, p.155.

[3] SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. Porto Alegre: Concreta, 2015, p.284-285.

[4] QUESNAY, François. Quadro Econômico. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1985, p.245.

[5] QUESNAY, François; DU PONT DE NEMOURS, Samuel; LA RIVIÈRE, Pierre-Paul Le Mercier; L’ABBÉ BAUDEAU; LE TROSNE. Physiocrates. Paris: Librairie Guillaumin, 1846, p.46.

[6] QUESNAY, François; DU PONT DE NEMOURS, Samuel; MIRABEAU, Victor de Riquetti, marquês de; LA RIVIÈRE, Pierre-Paul Le Mercier. Los Fisiocratas. Buenos Aires: Centro Editor, 1991, p.42. QUESNAY, François; DU PONT DE NEMOURS, Samuel; LA RIVIÈRE, Pierre-Paul Le Mercier; L’ABBÉ BAUDEAU; LE TROSNE. Physiocrates. Paris: Librairie Guillaumin, 1846, p.53. Na síntese que fez do pensamento de Quesnay, De Pont de Nemours expressou isso de modo sublime: os homens não podem criar leis, apenas deduzi-las de acordo “com a suprema razão que governa o universo.” QUESNAY, François; DU PONT DE NEMOURS, Samuel; LA RIVIÈRE, Pierre-Paul Le Mercier; L’ABBÉ BAUDEAU; LE TROSNE. Physiocrates. Paris: Librairie Guillaumin, 1846, p.390.

[7] BURKE, Edmund. Writings & Speeches of Edmund Burke. Vol. 5.Boston: Little Brown, 1901, p. 216.

[8] METTERNICH, Clemens von. Memoirs of Prince Metternich. Vol. III. London: Richard Bentley & Son 1881, p.193-194.

[9] BIGNON, Édouard. Les Cabinets et les Peuples. Paris: Chez Béchet Ainé, 1823, p.2-3.

[10] LOCKWOOD, Lewis. Beethoven: A Música e Vida.  São Paulo: Códex, 2005, p.230, 360-361.

[11] TOCQUEVILLE, Alexis de.  Lembranças de 1848. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.224.

[12] BERNSTEIN, Eduard. Socialismo Evolucionário. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p.24.

[13] PAIM, Antônio IN BERNSTEIN, Eduard. Socialismo Evolucionário. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p.12.

[14] VON PAPEN, Franz. Memoirs. London: Andre Deutsch, 1953, p.226.

[15] VON PAPEN, Franz. Memoirs. London: Andre Deutsch, 1953, p.256-257.

[16] Nos dez anos transcorridos entre 1924 e 1934, Hitler quis deliberadamente atrair os conservadores com sua retórica anticomunista. LUKACS, John. The Hitler of History. New York: Knopf, 1997, p. 85-86.

[17] ARON, Raymond. Memórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 222.

[18] APPLEBAUM, Anne. Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu. São Paulo: Três Estrelas, 2016, p.289.

[19] APPLEBAUM, Anne. Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu. São Paulo: Três Estrelas, 2016, p.298.

[20] APPLEBAUM, Anne. Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu. São Paulo: Três Estrelas, 2016, p.280.

[21] APPLEBAUM, Anne. Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu. São Paulo: Três Estrelas, 2016, p.300.

[22] FEJTO, François. As Democracias Populares: Depois de Stalin. Lisboa: Europa-América, 1975.

[23] DODD, Bella. Escola das Trevas. Campinas: Eclesiae, 2020, p.54.

[24] LILLA, Mark. O progressista de ontem e o do amanhã: Desafios da democracia liberal no mundo pós políticas identitárias. Rio de Janeiro: Record, 2018.

[25] GREGOR, A. James. The Faces of Janus. New Heaven: Yale University Press, 2000, p.129.

[26] BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora da UNESP, 1995.

[27] Dentre aqueles que são representativos dessa abordagem, e que mereceriam ser citados aqui, eu destacaria o Professor João Fábio Bertonha, que se dedica ao estudo do fascismo e do nacional-socialismo há muitos anos. Destaco apenas dois trabalhos nos quais os interessados poderão ver com mais clareza aquilo que estou me referindo aqui: uma coletânea de artigos publicada há mais de 10 anos e a recente biografia de Plínio Salgado. BERTONHA, João Fábio. Sobre a Direita: Estudos sobre o fascismo, o nazismo e o integralismo. Maringá: Editora da Universidade Estadual de Maringá, 2008. BERTONHA, João Fábio. Plínio Salgado: Biografia Política. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2018.

[28] RAUSCHNING, Herman. Hitler Speaks. London: Eyre & Spottiswoode, 1940, p.84.

[29] http://w2.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html

[30] JUDT, Tony. Pós-guerra: Uma história da Europa após 1945. Lisboa: Edições 70, p. 418 e 104.

[31] GOETHE, Johan. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2018, p.137.

[32] GOETHE, Johan. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2018, p.121.

[33] GOETHE, Johan. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2018, p.122-123.

[34] GOETHE, Johan. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2018, p.133.

[35] Aqui a tradução brasileira foi confrontada com a americana contida numa coleção dedicada aos clássicos da Literatura Alemã. GOETHE, Johan. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2018, p.139. GOETHE, Johan. Faust IN: The German Classics of the Nineteenth and Twentieth Centuries. Vol. II. Kuno Fracke (Ed.). New York: The German Publication Society, 1913, p. 280.

[36] BURKE, Edmund. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Vol. IV. Boston: Little Brown & Company, 1865, p. 209-210.

[37]  KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2019, p.117.

[38] SANTO AGOSTINHO. O “De excidio Vrbis” e outros sermões sobre a queda de Roma. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013, p.100.

[39] http://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice_20050418_po.html

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