Brasil, sexo e multiculturalismo

Imagem: Reprodução

Introdução

Na Europa e nos Estados Unidos, o multiculturalismo vem sofrendo abalos. No Brasil, entretanto, esse segue firme. Por que isso? Porque no Brasil há o reto multiculturalismo. Há diferentes tipos de multiculturalismo, mas aquilo que os distingue é normalmente ignorado. Não existe nada de novo ou de especial naquilo que acontece no Brasil. Simplesmente, brasileiros são atualmente melhores que outros na arte de viver numa sociedade multicultural.

O Brasil é efetivamente uma sociedade multicultural. Nossa cultura, desenvolvida organicamente durante os últimos cinco séculos, é multiculturalista; e essa é exatamente a principal diferença entre o multiculturalismo tupiniquim e aquilo que vem sendo considerado como multiculturalismo nos Estados Unidos e nos países europeus – ainda que, em relação à Europa, os americanos estejam em vantagem nessa questão; como se verá abaixo.

 

O Brasil como ‘E Pluribus Unum

O Brasil é construído sobre uma base de 500 anos de imigração, miscegenação, e sincretismo. Multiculturalismo e apropriação cultural são tão enraizados na cultura nacional, que muitos brasileiros têm problema em perceber a multiplicidade de sua própria cultura. Eles apenas conseguem enxergar nossa cultura como sendo uma só e não estão totalmente enganados; mesmo considerando nossas diferenças locais e regionais. Afinal, somos todos brasileiros. A chave para entender esta questão está no fato de tomarmos como premissa nossa ‘brasilidade’ comum. Jamais perguntamo-nos o que faz de alguém ‘ser brasileiro’.

É precisamente essa falta de definição sobre quem somos que permite o desenvolvimento orgânico do multiculturalismo brasileiro. No Brasil encontram-se espanhóis, franceses, alemães, italianos, japoneses, poloneses, judeus, americanos, etc. No Brasil, há católicos, protestantes, umbandistas, maçons, mórmons, muçulmanos, ateus, etc. Todos são de uma forma ou outra identificáveis dentro da sociedade brasileira. Todavia, aqui a tentativa de usar hífen para descrevê-los, como ocorre nos Estados Unidos, não pegou e nem pegará. A brasilidade não é questionada, mas assumida. Não há nipo-brasileiros, mas ‘japas’. Os japas são brasileiros.

É do fato de assumirmos sermos todos igualmente brasileiros que nos permite partilhar as culturas uns dos outros, enquanto preservamos cada um a sua própria. Por exemplo, depois da Guerra de Secessão, alguns sulistas americanos estabeleceram-se no Brasil. Todos os anos, há uma festa no estado de São Paulo em celebração às raízes desses imigrantes. Bandeiras do exército confederado podem ser vistas orgulhosamente hasteadas, mas não há qualquer registro de racismo ou segregação. Brasileiramente, o festival é aberto a todos.

Outrossim, essa abertura não vale apenas para etnicidade; acontecendo com religiões também. Para citar apenas um exemplo, no Brasil, os cultos pagãos africanos, trazidos pelos trabalhadores escravos, estão preservados. Os orixás têm seus santos católicos equivalentes, há quem siga ambos os cultos simultaneamente, e os brasileiros consideram isso algo absolutamente normal.

A cultura brasileira é ao mesmo tempo ‘uma’ e ‘várias’. Essa é a forma como a sociedade brasileira se estabeleceu concretamente como um ‘e pluribus unum’ (“de vários, um”) – a qual é uma condição necessária para o sucesso do multiculturalismo. No entanto, esse auto-reconhecimento, de ser uma ‘multiplicidade-em-unidade’, é insuficiente. Multiculturalismo prospera no Brasil, porque aqui tudo é SEXO.

 

Sexo como ‘Cultura’

No sexo, dois juntam-se para formar um terceiro em comum, mas sem eliminar suas próprias identidades. No sexo, despimo-nos de nossas coisas, apresentamo-nos substancialmente ao outro, e oferecemo-nos integralmente a ele. Sexo é um ato mútuo de entrega e unidade, em que ‘dois’ se tornam ‘um’, formando um ‘terceiro’. Porém, tal ‘terceiro’ não elimina a identidade de cada um dos ‘dois’ originários. É assim que historicamente culturas interagem umas com as outras no Brasil.

Gaspar Barléu, estudioso holandês, sobre suas impressões a respeito do Brasil no começo do século XVII escreveu: “Não há pecado abaixo do Equador.” Noutras palavras, não há vergonha. No Brasil, culturas também fazem sexo; não têm vergonha. Elas ficam “nuas” e “acasalam”. Através desses “acasalamentos”, novas associações e culturas são criadas. O Brasil, como comunidade política, é o maior resultado de tais relações. Outrossim, apesar de que culturas mudam em decorrência desse processo, suas identidades são preservadas.

A resposta para a questão sobre ethos brasileiro, nossa ‘brasilidade’, é ‘abertura ao sexo’ – seja a relação física, intelectual, e/ou espiritual. Não surpreende que a festa cívica brasileira, quando as pessoas realmente saem às ruas celebrar serem brasileiros, seja um festival dionisíaco – o carnaval. Brasil é filho de Baco!

Devido à sua natureza dionisíaca, as bases do ethos brasileiro são fertilidade e embriaguez. Pero Vaz de Caminha afirmou sobre esta terra: “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Normalmente, associa-se essa declaração ao seu sentido original. Porém, essa vai além da nossa agricultura; exprimindo a cultura brasileira como um todo.

Ao comparar-se Portugal e Brasil no mapa, torna-se espantoso o fato de um país tão pequeno tenha colonizado outro tão imenso [e o império lusitano espalhava-se pelo mundo inteiro]. O fato é que o Brasil não foi populado, mas copulado pelos portugueses. Não havia pessoas; então, as fizeram – e faz-se pessoas pelo sexo. Como esta terra “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”, os portugueses plantaram com sucesso outro tipo de “semente” no Brasil.

Ademais, as culturas africanas e indígenas têm uma compreensão sagrada do sexo. O sexo é parte da cultura, ou seja, da forma em que presta respeito ao Divino. Portugueses, índios, e africanos encontraram-se juntos no Brasil, e havia apenas dois elementos comuns entre eles: o sexo; e o Divino. A miscigenação e o multiculturalismo brasileiros começaram com os “acasalamentos” entre esses povos – apesar da Igreja não ter aprovado tais condutas.

 

Catolicismo Ecumênico Sincrético

Falar da Igreja é relevante porque, apesar do Brasil ser dionisíaco, o país é fundamentalmente católico. É irrelevante se um brasileiro é, de fato, protestante, pagão, maçom, ateu, outra coisa, tudo isso, ou alguma combinação dentre esses. O núcleo comum da brasilidade é também católico. Em resumo, o Brasil é a união entre Baco e Cristo; mas como seria possível mesclar essas duas divindades?

Por diversas razões, e nem poderia ser diferente, o catolicismo brasileiro não é dogmático, mas ecumênico e sincrético; além de ter desenvolvido uma considerável tolerância social ao que se poderia considerar “pequenos pecados”. Isso não deveria surpreender. Para ser ecumênico e sincrético, é preciso tolerar e acolher aquilo que é diferente. Brasileiros perceberam que certos efeitos colaterais dessa abertura para as diferenças podem ser divertidos. É por isso que o Brasil é o “Império dos Pequenos Prazeres” do mundo.

Os brasileiros em comunidade, como aponta o comum [e, em grande parte, verdadeiro] estereótipo, nós tendemos a não levar a vida tão a sério; e muitos defeitos pessoais são socialmente aceitos. Isso é parte da nossa cultura. Brasileiros encontram, sim, Deus no sexo [é ato de pro-criação, afinal!] e nos inebriantes pequenos prazeres da carne [“in vino veritas“, e Deus é Verdade!]. Nós encontramo-Lo porque ‘caritas’ (amor) e amizade não são incompatíveis ao sexo e ao prazer.

Brasileiros entenderam que, na maioria das vezes, tais “pequenos pecados” não são pecado algum. Sentir prazer não é necessariamente pecaminoso; podendo ser algo bom. Ainda assim, mesmo quando há o pecado [a carne é fraca], perdão é uma virtude; e tolerar verdadeiros “pequenos pecados”, como chegar atrasado a um compromisso importante, é uma forma de praticar um ato virtuoso. O ethos brasileiro ajuda a promover virtudes na nossa sociedade.

Outrossim, há dois trechos bíblicos que resumem tal espírito brasileiro, o da mescla entre Dioniso e Cristo:

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12:30-31);

“Mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom” (1 Tes 5:21).

Essas passagens seriam basicamente o fundamento do catolicismo ecumênico sincrético brasileiro. O Brasil foi catequizado principalmente por jesuítas, e esse tipo de catolicismo é típico da Companhia de Jesus. Para os jesuítas, tudo aquilo que não esteja abertamente em oposição aos ensinamentos da Igreja pode ser preservado em sua forma original – ainda que possa haver uma reinterpretação de seu significado. Como afirma o padre jesuíta James Martin: “Deus encontra as pessoas onde elas estejam. Nós todos estamos em diferentes pontos na nossa trilha a Deus. E em caminhos diferentes também.”

Noutras palavras, todo mundo é cristão, mesmo aqueles que ainda não sabem ou se recusam a aceitar. Não importa a opinião que a pessoa tem sobre si. Ao amar a Deus sobre todas as coisas [i.e., não amar a coisa alguma como se Deus fosse] e amar o próximo como a si, os requisitos mais relevantes do cristianismo são preenchidos. É o suficiente para ser cristão. Os jesuítas têm fé que essas pessoas eventualmente reconhecerão sua condição de membros da Igreja. Enquanto isso, amor e paciência são suficientes para preservar a relação com elas. Brigar por causa de forma só piora a situação.

Dessa abordagem jesuíta, os brasileiros aprendemos a não levar a sério muitas coisas e aceitar socialmente diferenças e defeitos. Dioniso e Cristo concordam haver coisas mais relevantes com que se preocupar, mas sem que seja necessário estar sempre preocupado com essas. É melhor que aproveitemos estar uns com os outros.

 

Conclusão

Portanto, o multiculturalismo falha onde, diferentemente do Brasil, ninguém quer despir-se de nada; e onde foca-se em ‘pluralismo’, que nada mais é do que um multiculturalismo sem acasalamento: sem amor; sem amizade; sem paciência; sem um fim comum. É um multiculturalismo sem sexo nem Deus! Tal abordagem ao multiculturalismo não funciona. Jamais funcionará.

O multiculturalismo precisa ser entendido e vivido como ‘cultura’ – i.e., como culto a Deus. Em linguagem secular, o multiculturalismo apenas funciona como um caminho ao Bem – quando as pessoas tentam realmente misturar-se umas com as outras e tornar-se ‘Um’ com elas. Multiculturalismo precisa de sexo, de acasalamento, no sentido de “dois indo juntos, ajudando um ao outro no caminho ao Bem” – para roubar uma frase platônica atribuída a Sócrates.

Nos Estados Unidos, a situação do multiculturalismo é melhor do que na Europa porque os americanos misturam-se para formar ‘Unidade’. O que significa “ser americano”? Significa viver sob a Constituição, aceitando ser “Nós o povo” com todos os outros sob o documento comum. Logo, os americans constantemente engajam-se em acasalamentos políticos. O problema deles é que fazem sexo, mas não querem admitir! Tanto filosofia quanto política são cultura e sexo.

Finalmente, no sexo, toda a tentativa de tornar-se ‘um’ com o outro nunca é totalmente completa. O ato nunca dura muito, muito menos o ápice!; e mesmo uma eventual prole, ainda que seja uma união de dois, não os substitui. Isso também é verdadeiro para casamentos, em que o casal torna-se um ‘nós’ unificado, mas sem que os cônjuges renunciem cada um o seu “eu”. Aliás, isso é verdade para toda e qualquer associação humana, incluindo comunidades políticas. Antes de sermos ‘eu’, o homem é ‘nós’; vindo a ser, primeiramente, como ‘dois-em-unidade’ com a mãe. Essa realidade do ‘Nós’ é tão inescapável quanto efêmera, precisando ser constantemente buscada e estimulada para que sobreviva. Há, pois, uma luxúria à serviço do Bem.

Portanto, estas seriam as lições que o Brasil poderia ensinar ao mundo: (a) um pecado que nos move em direção a Deus não é pecado; (b) multiculturalismo apenas funciona onde não há medo de perder e nem vergonha de quem somos, e quando desejamos pôr tudo à prova e tornarmo-nos ‘Um’ uns com os outros; e (c) a abertura necessária para a realização dessas atividades nunca é completa, sendo um exercício infindável. Haverá sempre disputas, desafios, erros, mal-entendidos, oposições, armadilhas, etc. Porém, não apenas o Fim é Justo e Necessário, mas podemos nos divertir uns com os outros pelo Caminho…

 


Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é formado em Direito (PUCRS, Brasil), com mestrado em Direito (UFRGS, Brasil), e M.A. em Política (CUA, Estados Unidos). E-mail: 97sanchotene@cua.edu

As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

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