Três Diários

O crítico português Adolfo Casais Monteiro diz que os romances em forma de diário nos impelem a interpretar a vida do personagem com a vida do escritor que lhe deu à luz. Esse é o tipo peculiar de livro que “não conseguimos ver independente do seu autor”. Não me lembro exatamente de todos os romances em forma de diário que li ao longo da vida, mas três me vieram à mente imediatamente – dois que foram lidos meses atrás e um há 4 ou 5 anos: Diário de um Pároco de Aldeia (de Geroges Bernanos), O Amanuense Belmiro (do brasileiro Ciro dos Anjos) e A Náusea (de Jean-Paul Sarte).

À luz do que disse Casais Monteiro e baseado no que lembro desses livros e na breve releitura que fiz, tentei então apreender os três romances de forma única para identificar qual deles é o mais verossímil, o mais verdadeiro, o que mais se aproxima da experiência humana real que tentou se expressar em forma de diário. É inevitável: o brasileiro Ciro dos Anjos ganha dos dois franceses. Mas há uma ressalva sobre esses dois que saem derrotados. Eles não são perdedores de forma igual.

O diário de Roquentin no romance A Náusea expressa uma realidade aquém da experiência humana verdadeira. Ali não está sintetizada a vida humana generalizada, mas sim um tentativa muito específica de se viver abaixo do linha do humanamente verdadeiro. A sensação de náusea que acomete Roquentin no seu dia a dia por causa da sua incapacidade de ver sentido na existência é a ampliação de um mero estado de espírito passageiro que todos invariavelmente temos vez ou outra, aquela típica recaída ou cansaço espiritual, sendo entretanto no romance transformado em experiência humana sincera e completamente personalizada. Mas na verdade ninguém vive assim. Ao menos, ninguém com o mínimo de sanidade.

Eu não posso deixar passar aqui um paralelo inevitável. Em certo momento Roquentin fica um bom tempo se olhando no espelho até que, como com tudo o mais para o qual ele olha e analisa, não encontra nada de relevante no que vê, não se reconhece a si mesmo e é mais uma vez acometido pela náusea de uma experiência sem sentido. Mutatis Mutandis, foi numa experiência semelhante, olhando para si mesmo no espelho enquanto fazia a barba, que subitamente o professor Olavo de Carvalho é acometido pela certeza de se conhecer perfeitamente bem: “yo sé quien soy”.

O diário do padre também retrata uma experiência humana que não coincide com a realidade, mas não no sentido negativo da vida de Roquentin – e sim no sentido de que o padre, apesar de possuir dramas pessoais, motivações e mesmo desmotivações como qualquer outra pessoa tem um quê de espiritualidade que o coloca acima dos dramas compartilhados pelos outros personagens. Ele é a alma caridosa o suficiente para, além de todas as confusões e dúvidas que trás em si mesmo, tomar para si também as confusões e dúvidas das pessoas ao redor, ao ponto de se preocupar verdadeiramente em ajudá-las e acabar, entre outras coisas, conseguindo conquistar a conversão de uma mãe desiludida pouco antes que ela viesse a morrer e se perder para sempre. É neste sentido que também o Diário de um Pároco de Aldeia perde, porque ele está além da vida humana comum, e funciona mais como um ideal a inspirar as outras vidas.

Nada disso acontece com a vida de Belmiro. Ali está contada numa tentativa de anamnese que acaba se tornando um diário a vida nua e crua, sem aquela espiritualidade que destacava o padre dos demais, mas também sem a experiência de vida no negativo de Roquentin. Belmiro é um homem comum, que não está desiludido com a vida, mas também não está em ascese espiritual. Está exatamente no meio termo, no drama humano real movido pelas tensões de desânimo e alegria, solidão e esperança. Por isso o livro termina de forma tão abrupta, como um vida que continua invariavelmente apesar de ter deixado pra trás o registro diário. Continua de forma comum como vinha continuando até então, satisfeita com a vida relativamente confortável que leva mas com uma aura de melancolia de quem sente a necessidade de um quê a mais.

Se for possível expressar essa correlação entre os três diários num pequeno esquema didático, seria com O Amanuense Belmiro no centro, em perfeita correlação com a vida humana, A Náusea à esquerda, na parte negativa do diagrama, aquém da vida real e o Diário de um Pároco de Aldeia à direita, na parte positiva:

A Náusea – O Amanuense Belmiro – Diário de um Pároco de Aldeia

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