A Verdadeira Educação – primeiras impressões sobre A Inveja dos Anjos

Embora eu ainda esteja longe de concluir a leitura de A Inveja dos Anjos, as primeiras impressões já mostram a grandeza desse livro — uma grandeza que a Introdução expressa muito bem, podendo ser vista, suponho, não apenas como uma apresentação ao assunto, mas como um resumo do livro inteiro. E ali já se pode ver o ponto fundamental da análise: a educação é, antes de tudo, destinada à construção da personalidade e é só mais tarde, quando as personalidades grandes são inacessíveis, que vêm os registros em escritos, pinturas ou monumentos. Essa sucessão necessariamente se passa tanto no campo das relações pessoais imediatas quanto nas relações entre gerações inteiras.

O contato direto do mestre com seus discípulos, num convívio íntimo de amizade e confiança, é a forma primeira e indispensável da educação. A personalidade do mestre é o padrão pelo qual os alunos vão se guiar e modelar as suas próprias personalidades. Essa convivência é tão indispensável que, quando ela se torna inviável devido às próprias condições da natureza humana, vem o esforço intelectual dos alunos de reviverem a presença do falecido mestre por meio, por exemplo, da produção literária para compensar a ausência da personalidade concreta dele. É aí que surgem os escritos de Platão sobre os diálogos de Sócrates.

Mas aquilo que se passa na realidade humana individual de tal forma também se reproduz, como que se ampliando em círculos concêntricos, numa esfera maior, como por exemplo na relação entre as gerações de um século para com a geração do século subsequente. E é este o foco de estudo do livro. Os séculos X e XI possuem uma especificidade curiosa: embora as referências sobre eles tenham sido elogiosas quanto ao desenvolvimento intelectual, eles mesmos possuem escassa documentação que atestem a veracidade dessas alegações. Mas isto porque “documento”, que hoje se entende como um registro externo geralmente em papel, era naqueles séculos a presença humana em si e ela mesma atestava os resultados do seus esforços.

Basicamente, os séculos X e XI tinham como foco do seu esforço intelectual o desenvolvimento da personalidade humana na sua totalidade (daí o título A Inveja dos Anjos — a inveja de estarem estáticos eternamente, incapazes de se desenvolverem e progredirem por meio dos seus esforços em direção a posições cada vez mais elevadas). Mas quando essas personalidades humanas foram se tornando escassas, foi necessário trazer de volta ao meio social de alguma forma aquelas presenças físicas que já não existiam mais. E esse foi o marco da passagem para o século XII, reproduzindo assim na relação entre a sucessão dos séculos aquela mesma fase que anteriormente foi a marca de Platão com relação a Sócrates. E é por isso que neste século ocorre a explosão de criação de literatura, pinturas, monumentos etc.: sempre para compensar a ausência de personalidades humanas desenvolvidas o suficiente para trazerem em si mesmas aquelas qualidades que então se tentava registrar em meios externos à pessoa humana.

Tanto no caso de Platão quanto no caso do século XII, a produção externa é feita com a plena consciência da importância da personalidade humana concreta que ela tenta resgatar. Tem-se em mente aí sempre a imagem do mestre e a grandeza da sua personalidade, essencial para a educação de seus discípulos. A documentação externa é secundária e entra como um esforço de compensação; “a personalidade é — no fim — a maior força que existe”.

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