E o biquíni fio-dental?

E o biquíni fio-dental?

Quando a linguagem é serva de uma ideologia, escraviza-se a cultura. A simples imaginação, que permite a elite contemporânea projetar uma alteração arbitrária de um termo ou palavra em nome de sentimentos grupais ou de doutrinas políticas que abduzem emoções produz náuseas no senso comum. Ainda resguardados pelo bom senso da razoabilidade, os cidadãos “não-especialistas”, que estão afastados dos desvarios intelectuais que predominam em boa parte dos círculos “pensantes”, ainda sabem o quão absurdas são as ideias de modificações tirânicas que desejam um mundo moralmente asséptico e que possa fantasiar a perfeição.

No trato social cotidiano, enquanto o jovem narcisista idealiza um mundo à imagem e semelhança de seu grupelho estudantil universitário, o homem comum tem a plena consciência crítica de que a vida não é o seu reflexo projetado no espelho do banheiro de sua casa. Sem a petulância revolucionária do destrutivo universitário “i-food”, o iletrado trabalhador ordinário sabe que a prudência é a alma da tradição, ao mesmo tempo em que compreende o papel do legado civilizatório para o florescimento humano. Enquanto o indolente hippie-hipster de coque samurai e crítico da “masculinidade tóxica” tenta transfigurar arbitrariamente a sociedade para que ela seja uma triste representação estética de sua tragédia cognitiva, o sujeito moderado que ostenta uma robusta circunferência abdominal típica de um açougueiro de meia-idade, reconhece instintivamente que as boas práticas humanas são resultados de interações involuntárias e aleatórias ao longo do tempo.

Se a desocupada feminista de cabelo roxo deseja liberdade para as mulheres pela ostentação pública de seus pelos axilares, a avó que ajudou a criar três netos sabe que não há liberdade na anarquia. Ao mesmo tempo em que a abastada e dependente jovem defensora de causas identitárias faz de seu ativismo virtual um instrumento que oferta sentido ao seu tédio do ócio, a preocupada dona de casa tenta diariamente preparar um saboroso jantar para sua família após um pesado dia de trabalho.

No mundo contemporâneo, a promessa de libertação sempre acoberta um novo modelo de subserviência. Dentro da masmorra ideológica, o encarcerado revolucionário, crente de que está em um recinto de “verdadeira liberdade”, vislumbra nas grades a escora de sua salvação de um mundo abjeto. Ao invés de lutar pela sua fuga, esforça-se ao lado de seus carrascos para aprisionar novos indivíduos. Adequadamente sintonizados com a novilíngua de George Orwell, julgam que os seres humanos livres e que ousam raciocinar encontram-se presos em um sistema que reforça a opressão, ao passo que o cativeiro doutrinário é a única forma de alforria.

Recentemente, por meio de movimentos delicadamente orquestrados (mas aparentando aleatoriedade) e contínuos, o mainstream mostrou-se ávido para atacar o nome de uma peça de roupa do vestuário feminino. O alvo foi direcionado para o “tomara que caia”. Com as almas vazias e a mente entupida do lixo teórico feminista, a iluminada vanguarda crítica resolveu pregar no deserto na esperança de que algum camelo lhe dê ouvidos.

Claro que a ladainha dessa investida dialoga com a “absurda”, “discriminatória” e “preconceituosa” afirmação de que há um “vestuário feminino”. Afinal, isso pode soar demasiadamente indelicado com os diversos “gêneros” existentes, algo que reforçaria os “retrógrados” estereótipos sociais que buscam afirmar que é terminantemente errado um homem heterossexual usar uma peça… feminina! O excitado progressista ainda poderia insistir no porquê a sociedade é teimosa em chamar de feminina uma peça feminina, alegando que tal roupa pode ser usada por todos os seres humanos, independente de sua “escolha” ou “orientação” sexual, ao mesmo tempo em que qualquer tentativa de classificar o feminino de feminino não passa de uma construção social prestes a ruir diante de suas excepcionais teorias de “gênero”. Bom, para tanto criaram a moda agênero ou gênero neutro…

Mas, voltando à cambulhada da nomenclatura da peça de roupa feminina, o fato é que para a guerrilha ideológica chamar “tomara que caia” por “tomara que caia” é a típica expressão da misoginia, do machismo, da subjugação e da objetificação de todo o espectro feminino. Em nossa era de múltiplas afetações, ninguém poderia, nem de forma travessa, sugerir que há um desejo instintivo de ver o que se esconde por trás de uma veste que realça as formas de uma bela mulher. Lembrando que a ampla maioria das feministas ou Pabllo Vittar não conseguiriam despertar tal desejo por não preencherem um ou dois critérios, beleza e mulher, de forma concomitante. Contudo, nessa era em que a beleza é questão de gosto e o gênero é um sentimento, talvez a afirmação acima soe demasiadamente old-fashioned.

Enfim, quanto ao tomara que caia, da leve curiosidade de ver o que está encoberto e da singela tentativa de agradar os olhos com a beleza, afinal, “tomara” significa um desejo em fase de possibilidade, que depende do acaso para que se concretize, e nunca de uma ação humana que desrespeite as mulheres, o progressista é um ser com enorme dificuldade cognitiva pois sequer compreende o significado de uma palavra. E se há uma ignorância quanto ao sentido literal de algo, já é possível imaginar o estrago mental quando a situação envolve uma linguagem figurada.

Aliás, “tomara que caia” não é um desejo literal, mas sim uma forma de designar uma peça de roupa sem alças que está protegendo os seios femininos e que, por normalmente guardar certa distância em relação ao abdômen e em razão da gravidade, oferece a sugestão de que pode cair a qualquer momento. Bem, alguns frequentadores de praias com mares um pouco mais violentos já assistiram o exato momento em que mulheres com biquínis no formato em questão ficaram plenamente expostas na parte superior de seus corpos ao enfrentarem uma onda ou se abaixarem na água.

Logo, o “tomara que caia” esconde muito mais do que os seios de uma mulher. A peça acaba por esconder um desejo que persegue a literalidade, mas refugia-se na falsa esperança de que a peça de roupa possa ceder a tal ansiedade. Ou seja, “tomara” ou “queira Deus” que caia, não passa de um desejo reprimido para algo que, em regra e na normalidade da vida, não irá acontecer.

Eis que a menos de uma semana antes do último Dia das Mulheres, o perfil da revista Harper’s Bazaar Brasil, no Instagram, anunciou que, em parceria com a marca de roupas Hering e a atriz Mariana Ximenes, estaria lançando uma campanha publicitária contra o termo “tomara que caia” porque ele simbolizava sexismo. Sua alternativa? Designar a roupa de blusa sem alça. A proposta do grupo era de “abolir o termo sexista do vocabulário nacional”. Brincando com a literalidade, “abolir” significa extinguir, aniquilar, eliminar, banir e qualquer outra coisa que busque exterminar algo. Assim, o grupelho “feminazi” e “burguês” em questão queria realizar uma eugenia linguística para resguardar os bem-aventurados progressistas de qualquer sentimento que possa conter uma gota de reforço a estereótipos sexistas inaceitáveis.

Dentro da hipocrisia desta pauta, no próprio Instagram da postagem, na foto da capa da revista que iria para as bancas, o leitor poderia encontrar a atriz Mariana Ximenes ostentando sensualidade. Bem maquiada, com o cabelo preso para realçar seus traços “rotulados” como belos, ostentando um colar Louis Vitton justo ao pescoço, vestindo um “tomara que caia” acompanhado somente de uma meia-calça e com um sapato vermelho de salto alto, a atriz poderia tranquilamente encarnar algumas fantasias de admiradores. Claro que se fosse “admiradora”, a chave de leitura seria alterada e não haveria sexismo. Para estes baluartes da esperança no progresso ininterrupto da humanidade, não há algo mais libertador do que um relacionamento homossexual que rompa com a tradição, mesmo que alguém encarne algum estereótipo e figure como um objeto de consumo. Aliás, ao look da atriz só faltou um pequeno chicote para incorporar um fetiche sadomasoquista…

Encarnando a máxima às avessas de que pimenta no c* dos outros é refresco, a atriz que esbanja sexualidade e estimula fetiches com as pernas cruzadas na capa da revista, é vista como “empoderada” em razão de seu apoio ao feminismo. Não há qualquer menção na mídia ao processo de objetificação que sua imagem poderia remeter. Caso fosse crítica dessa ideologia, o que imediatamente a transformaria em uma mulher machista ou alguma “biscoiteira” qualquer que não compreende seu “lugar de fala”, facilmente seriam lidos ensaios e tratados contrários a Mariana Ximenes.

Como se a miséria visual fosse pouca, o site da revista Harper’s Bazaar Brasil resolveu explicar sua capa. Em seu site, relatando que Mariana Ximenes “dá uma senhora cruzada de pernas porque assim quis”, a edição não perde tempo e já remete a ideia de que “o corpo é nosso e a gente faz o que quer com ele”, um mantra feminista extremamente utilizado para a defesa da legalização do aborto. Seria uma mensagem subliminar? Destilando veneno, a jornalista responsável por esta matéria, Patricia Carta, segue afirmando que a sociedade precisa criar consciência e utilizar a terminologia adequada para a peça de roupa em questão. Ou seja, dois coelhos com uma cajadada só: caso o ogro selvagem permaneça chamando “tomara que caia” de “tomara que caia”, será imediatamente classificado como inconsciente e inadequado, quiçá para o convívio social. Com as afirmações da jornalista-militante, não há espaço para oposição: ou se adere à pauta no melhor estilo coletivista, ou se tem a firme expressão da imbecilidade programada. Ao finalizar seu breve texto, Patricia Carta diz: “Tomara que caia de uma vez por todas, e o quanto antes, qualquer juízo de valor sobre as nossas escolhas”. Ora, oscilando entre um ativismo utópico e uma espetacular parvoíce acerca da natureza humana (um consegue andar sem o outro?), a jornalista imagina um mundo em que as mulheres não serão julgadas moralmente por escolhas realizadas. Não há maior falta de consciência e inadequação intelectual do que imaginar que os seres humanos, em algum momento, não farão ou serão alvos de julgamentos morais. Ou a súplica para que não existam juízos de valor sobre as opções das mulheres não é um típico juízo de valor?

Sobre a campanha publicitária, a atriz declarou à revista que há de se ter consciência (de novo!?) que não é possível utilizar alguns termos, ao mesmo tempo em que as pessoas devem ter o foco “para o pensamento novo”, em busca de “uma sociedade mais igualitária, com mais respeito pela diversidade, com acolhimento […]”. Na esteira da aura de que o progresso requer o que é novo, ao passo que o passado é no mínimo asqueroso, Ximenes aproveitou o momento e pediu as pautas abstratas e contraditórias da nova esquerda: uma sociedade igualitária e diversa. Sabendo que ninguém ousará criticar estes dogmas revolucionários, a atriz repete o que ideólogos profetizam desmesuradamente. Sem refletir na incompatibilidade dos termos (em como as experiências igualitárias naufragaram exatamente por uns serem vistos mais iguais que outros ou em como a diversidade para um esquerdista sempre equivale a uma pluralidade entre iguais), Ximenes profere palavras encantadoras que nada tem a ver com um “tomara que caia”. Ou alguém acha que mudar o nome para “blusa sem alça” fará com que sejamos mais igualitários e diversos?

Claro que tudo isso seria pedir demais para a maior parte dos artistas. Sem qualquer pedantismo intelectual, o fato é que os poderosos holofotes da grande mídia geram uma luz tão forte que acaba escondendo a insuficiência mental de seus alvos. Encobertos pela luz, a classe artística sente-se iluminada para avaliar e modificar a sociedade, esquecendo-se que o excesso de luminosidade também cega. Declarando-se feminista e adepta de causas que agradam o esquerdismo, Mariana Ximenes, que disse ter como fontes de inspiração mulheres como Michelle Obama, a jovem ativista ambiental Greta Thunberg e a política assassinada Marielle Franco, repete chavões e imagina um mundo à imagem e semelhança de seu protótipo divino. A revista e a marca, cientes de um efusivo mercado para estas causas, usam e abusam de uma agenda ideológica que aliena em troca de vendas (ou vende em troca da alienação?).

Ximenes, no auge de suas faculdades mentais, ainda teve a ideia de justificar seu aceite para ser a garota da capa nessa campanha em um vídeo no Instagram da revista. Em meio ao seu comentário, declarou: “Por que não abolir esse termo ‘tomara que caia’? Por que tem que cair? Qual é essa intenção machista?”. Para ideologias que veem chifres em cabeça de cavalos ou que acreditam em unicórnios e duendes pelo excesso de entorpecentes, em cada ato humano há um machismo. Para quem não sabe a diferença entre “ter que” e “tomara que”, algumas aulas básicas de semântica poderiam ser úteis. Ou, por outro lado, talvez alguma lição que explicasse o básico a respeito de sentido denotativo e conotativo.

A fim de clarear um pouco mais a situação, a Revista Glamour entrou em contato com Carolina Achutti, professora de português, com mestrado em linguística aplicada pela Universidade de São Paulo (USP). Apesar de afirmar que desconhece a origem do termo “tomara que caia”, a “especialista” fez questão de dizer que hoje em dia “torcer […] para que partes íntimas de uma mulher fiquem à mostra, é um ato sexista e agressivo”, completando que seria “alguma forma de assédio”. Como assim?

Mesmo que a minha idade não permita ter todas as vivências necessárias para conhecer adequadamente o universo das relações sociais, nunca vi um homem torcendo para que alguma blusa caia. Além disso, por mais que alguns homens possam desejar secretamente tal exposição do seio da mulher, nos raros momentos em que isso ocorreu, sempre vi e ouvi dizer que os homens que assistiram a cena desviaram rapidamente o olhar e em alguns casos foram os primeiros a tomarem medidas de ocultamento, mesmo que sequer conhecessem a mulher. Mas como um suposto torcedor entusiasmado para que a blusa caia, provavelmente silencioso e recatado em seu íntimo, poderia ser classificado como um assediador? Seria punido o pensamento? Realmente, a mente dos “especialistas” contemporâneos é demasiadamente especializada em um frenesi ideológico carente de racionalidade. Como diria o professor de português e colunista do portal de notícias GaúchaZH, Cláudio Moreno, “o equívoco de certos movimentos modernos é tomar a consequência pela causa, imaginando ingenuamente que podemos mudar a sociedade mudando a língua”.

Na prática, o feminismo é um machista clássico: casado com a utopia progressista, tem como amante a incapacidade cognitiva crônica e flerta constantemente com uma dissimulada erudição. O movimento revolucionário gourmet (ou não) sempre manterá a retrógrada e decrépita tradição de criar um espantalho que possa ser surrado. Por mais evolução que desejem, os progressistas usam dos erros do passado como método para subverter o presente e desgraçar o futuro. De maneira consciente, instrumental ou boçal, seus agentes superestimam ou fantasiam uma realidade para que possam criar justificativas para a implementação de suas agendas. E esse é o atual estágio do movimento feminista. Discriminações injustificadas existem? Sim. Misoginia? Sim. Atos de subjugação das mulheres ocorrem em nossa sociedade? Sim. Mas disso não se depreende que toda a sociedade apresenta estes comportamentos, tolera tais posturas ou que termos reforcem uma opressão naturalizada de homens sobre mulheres.

Não é novidade alguma afirmar que para os herdeiros fragmentados do esquerdismo contemporâneo ainda permanece bastante translúcida a bolha que preserva a “luta de classes” pelo poder. Com novos campos de atuação, a linguagem passou a ser uma área vista como capaz de reproduzir a opressão social. Desde que os profetas do esquerdismo perderam as forças argumentativas na monomania da economia restou-lhes uma miríade de possibilidades com causas que vão do corpo ao espírito, vendo em cada buraco da carne ou janela da alma uma nova possibilidade de apropriação interpretativa que avalia os problemas humanos como reflexos de uma relação histórica e eterna de opressores e oprimidos.

Se todas as áreas da vida são microcosmos de poder atrelados a uma macro organização social que reforça um domínio dos poderosos, não é surpreendente o incômodo com o “tomara que caia”. A seguir nesse ritmo, não faltarão feministas afirmando que o biquíni fio-dental tem um grau de periculosidade muito maior, afinal, implicitamente, desperta apetites para que o machista de plantão entenda que pode cair de boca nas nádegas alheias para limpar seus dentes.

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As posições expressas em artigos por nossos colunistas, revelam, a priori, as suas próprias crenças e opiniões; e não necessariamente as opiniões e crenças do Burke Instituto Conservador. Para conhecer as nossas opiniões se atente aos editoriais e vídeos institucionais

João L. Roschildt

João L. Roschildt

Professor do curso de Direito do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp). Além de articulista e ensaísta, é autor de “A grama era verde”. Site: www.joaoroschildt.com.br

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